Conversas de varanda


        Estava abrindo a portinhola de minha varanda com uma bandeja de chá, duas xícaras e algumas bolachas caseiras na mão. A tarde era fria e densa, não muito bonita. Oras, qual é o padrão de uma tarde bonita? Acho que seria justo denominar que todas as tardes são belas. Era uma tarde então, fria, densa e bela. Meus ombros franzinos encobriam-se por uma manta gaúcha antiga, xadrez e com cheiro de essência de jasmim. Eu costumo utilizar esses cheirinhos- de-armário, são excelentes para afastar o odor de roupa velha guardada.
Sentei-me na cadeira de varanda e pousei a bandeja na mesinha do conjunto. Servi-me de deliciosa água-quente com leve adocicado. Não esperava ninguém, mas esperava. Paradoxo não? Isso é o sexto sentido feminino. Eu sabia que me procurariam naquela tarde.

            Aproximando-se a passos cautelosos e molhados avistei em meio à neblina um enorme casaco de caxemira vindo em minha direção.

_ Boa tarde. - eu disse ao casaco que havia perdido o dom de caminhar, ainda sem pernas, parado a alguns poucos metros da varanda.
_ Boa tarde.

Um breve silêncio pousou ali, para assim que eu ameaçasse minhas ondas sonoras garganteadas, voltasse a planar para longe, como um pássaro.

_ Ainda não chove. Contudo, se permite-me senhor casaco de caxemira meio andante e meio falante, não vejo ao seu encalço nenhum guarda-chuva saltitante, e meu olfato não falha! Vêm chuva grossa por aí. Não seria melhor irmos direto ao ponto?

     O casaco estrambólico deu alguns passos mais. Pude vê-lo com clareza então. Tinha pernas sim, braços também e acolá uma mente que eu não julgava brilhante naquele momento.

_ Oras, você sempre muito "Alicemática" não é Coralina?
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Do quê ela foge?

Ela corre incapaz de escutar os próprios passos. Apesar de sapatear em poças, chutar pedrinhas, ela não consegue escutar seus pés. 
Ela corre sendo guiada por pernas medrosas. Pés fujões. 
Por que ela corre? 
Corre, pois é a única opção. E foge desequilibrada. 
Uma parte deseja fincar o corpo em concreto e outra parte deseja inflar como um balão que sobe às altas nuvens. 
Ela foge do medo, do desespero, da violência, da insegurança, da chuva, do sol. Ela foge da família, da casa dos pais, da falta de apoio. Ela foge do grande amor de sua média vida, foge dos seus sonhos infantis. Foge dos monstros no armário e do rastro de gosma que eles deixam. Foge das drogas, foge da cura, foge da morte. Foge por prazer de fugir sem rumo, deixando seus pés descontroladamente covardes guiarem-na para qualquer horizonte. 
Ela corre dos próprios batimentos cardíacos, da própria alma reencarnada, do sangue que ferve em suas veias, da mente curiosa e insana. Ela foge dela mesma correndo vida à fora.


Por, Rayanne Nayara.
Texto para 136° Edição Visual do Bloínques.
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A Melhor Noite Sem Você.

São exatamente duas horas da manhã e aqui estou tentando rabiscar algumas linhas tortas que possam definir ou justificar esse recorte de nosso enlace.
Conhecemo-nos há tanto tempo e tantas vezes fomos lançados em ondas distantes. Contudo sempre remamos ao encontro um do outro. Mas, por quê, justamente no melhor dos encontros não tivemo-nos inteiros? 
Naquela manhã eu pensava incessante em todos os momentos cinematográficos do nosso namoro. Três meses sem dar uma explicação, sem um resposta, um indício de que ainda existisse algo entre nós. Foi de um silêncio ensurdecedor. Eu juro que tentei de todas as formas compreender seu afastamento, compreender a minha escolha cega. O fato é que não havia esperança. 
Como quando você chega no fim de um caminho e encontra nele um abismo, um buraco irreconhecível que não o levará para nenhum outro lugar.
Sem rumo. Era assim que passei a enxergar a nossa relação depois de tanto tempo no vácuo. Quando alguém se ausenta da vida de outra pessoa tão firmemente e tão inexplicavelmente, esse alguém deixa de fazer falta. Não é o meu caso, afinal ninguém imagina ou imaginará a falta que senti dos seus toques, dos seus sorrisos e até das suas lágrimas quentes escorrendo em minhas mãos. Porém, isso explica ainda  desfocadamente, todas as escolhas que eu fiz.
A melhor noite foi sem você. Sem os seus sussurros, sem os seus risos, seus toques, seus beijos e carinhos. Sem o seu cheiro. E pode ter certeza, essa não foi nem de longe a melhor noite, mas ainda que desprazerosa, eu falhei. Essa devia ser a sua noite. A nossa noite. 
Ao vê-lo abrindo aquela porta, com seu olhar tão aflito e um sorriso tão sem graça, carregando flores tímidas à minha busca, uma dor pungente invadiu meu coração.
Eu estava ali deitada ao lado de alguém que entorpecia meus maiores sentimentos por você e denunciava a minha descrença em nós, a minha fraqueza em suportar o medo de perdê-lo. Eu não tinha perdido-o. Você voltara para mim, com todo o nosso futuro na bagagem e nosso destino dentro de uma caixinha, depositado em um relicário tão sóbrio.  
Eu quebrei o cristal da confiança. Eu fui desleal e covarde. Mas a melhor noite não foi sem você. Não houve a melhor noite e nem haverá. O que houve foi uma noite de anestesia falsa. Uma anestesia que não foi capaz de impedir-me de sentir dor, ódio e arrependimento. Eu te amo. Sempre te amarei. E deixo esse pequeno envelope selado, com palavras choronas em cima da mesa da sua nova casa. 
PS: Você tem uma linda família, esposa e filhos. 

Beijos do seu passado tão errado.

Por, Rayanne Nayara .
Texto para a 106° Edição Cartas do Bloínques.
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Sonhos Pendurados?


Sonhos pendurados. Onde você pendura seus sonhos? Você os pendura? Por quê ? Sonhos pendurados podem não ser uma boa ideia, sonhos pendurados precise de quem os despendure. E se esse alguém não vier? Ficarão eternamente pendurados? Sonhos bonitos são aqueles que rolam soltos por uma íngreme e extensa ladeira ensolarada. Sonhos que fogem amarrados nos para-lamas de caminhões viajantes. Sonhos ainda melhores são aqueles que seguem presos nas hélices de aviões. 
Agora... perfeitos! Sonhos perfeitos sabem quais são? São os sonhos que saem do seu coração, escorrem para suas mãos e são lançados nos seus ventos. São aqueles que você cria, molda e desenforma.


Por, Rayanne Nayara.
 
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Eu quero uma casa no campo!



"Eu quero uma casa no campo onde eu possa compor muitos rocks rurais. E tenha somente a certeza dos amigos do peito e nada mais. (...) Onde eu possa ficar no tamanho da paz.Eu quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim. Eu quero o silêncio das línguas cansada. Eu quero a esperança de óculos e meu filho de cuca legal. Eu quero plantar e colher com a mão a pimenta e o sal. Eu quero uma casa no campo do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé. Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais." - Elis Regina. 


Uma canção que descreve exatamente o que eu quero ! Imagino-me em um lugar inóspito ou apenas um pouco tranquilo, com minha casinha rural de janelinhas coloridas. Meu tronco demolido à sombra de uma frondosa árvore, onde eu sentaria para tocar meu violão. Animaizinhos soltos no jardim e quintal. Uma natureza onde meus filhos possam amigar-se e aprender a amar. Um lugar que seja o refúgio dos meus irmão nascidos de outras famílias. Um lugar onde os meus filhos possam libertar e moldar a mente em altíssimas brisas. Onde eu possa ter uma horta. Onde eu possa escrever meus livros, publicá-los. Onde eu tenha uma livraria. Onde eu seja feliz e completa. 



Por, Rayanne Nayara.
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Suzan e os Poodles


Neve, Nevada, Nevasca e Avalanche.


Abriu a porta sonolenta com a pequenina mochila rosada em suas costas franzinas. Esfregava os olhos e bocejava. Sentou-se ao pé da varanda, enquanto esperava pela mãe atrasada e atarefada. Com as mãozinhas sob o queixo, e cotovelos apoiados nos joelhos, a menininha olhou para sua frente. Deparou-se com um grande cesto, coberto com um pano. Algo dentro dele se movia.
Devagar e cautelosa, aproximou-se retirando o pano. E eis que os viu ali, tão assustados quanto ela. Neve, Nevada, Nevasca e Avalanche. Esses eram os nomes que constavam dentro do cesto de cãezinhos. Mas quem poderia abandonar poodles tão lindinhos como aqueles? E tão saudáveis ! O que levaria o dono a fazer uma coisa daquelas?
Suzan pegou seu carrinho de rolimã que estava jogado no gramado e correndo até o cesto, levantou-o com certa dificuldade. Ela encantou-se com os cachorrinhos. Eram tão comportados! Enquanto ela tentava por o cesto sobre o carrinho, eles observavam curiosos e caladinhos. Como se entendessem o que ela pretendia.
Foi puxando o carrinho rapidamente até o quartinho de tralhas nos fundos da garagem. Deixou-os lá. Entrou na cozinha pela porta dos fundos, a mãe estava azafamada ao telefone, tentando reunir os papéis que o vento espalhara na cozinha.
"Mamãe vai levar uma bronca do chefe hoje!" - Pensou a pequena. Sorrateiramente, Suzan abriu a geladeira, furtou a caixa de leite e engatinhando até o armário do balcão de centro na cozinha pegou três tigelas e alguns biscoitos caseiros que sua avó havia feito para ela.
Passou pela porta discretamente e foi correndo ao quartinho, sua mochilinha sacudia em seu corpinho franzino, exigindo da pequenina um esforço mínimo para ser mais ágil. Ao entrar, os cãezinhos imóveis a observavam, chegou a pensar que eram estátuas. Deu-os o leite com biscoitos, em outra tigela colocou água. Eles rapidamente pularam do cesto e foram comer.
"_ Suzaan! Vamos! Onde está você?" - sua mãe estava pronta!
_ Fiquem quietinhos aqui, bonzinhos e sem barulho. Eu volto ao meio-dia com uma ração gostosinha para vocês! - Ela disse e saiu em seguida.
Na porta da escola a mãe lhe dizia, após ter ido explicar o atraso à professora da filha.
_ Não poderei buscá-la, o Bruno nosso vizinho, lhe tratá para casa. Comporte-se!
Bruno, o garoto por quem Suzan era apaixonada desde os oito anos. Agora ela tinha dez e meio, e já conseguia chamar a atenção do vizinho de 14 anos, internamente ela comemorava pelo despertador da mãe ter quebrado naquela manhã, e seria bem mais fácil comprar a ração dos bichinhos. Bruno não era de dedurá-la, nem mesmo quando ela quebrou a vidraça da casa dele jogando bola!
Seguiu durante toda a manhã pensativa nos animaizinhos, como a mãe e a avó reagiriam? Será que seu príncipe Bruno ajudaria-a ? Ao bater o sinal da saída, ele estava parado na porta da sala dela esperando-a. No seu colégio os menores só saiam da escola com a presença dos responsáveis na sala. 
Dirigiu-se a ele, que sorria e brincava com ela dizendo "E aí pequenina, quer uma carona de skate?" . Bruno levava Suzan para andar de carona no skate dele, vez ou outra. Colocando-a sobre o skate, e segurando suas mãozinhas eles foram embora. Suzan estava radiante. No caminho pediu para ele parar no pet shop.
_ Ah! Sua mãe te deu um bichinho de estimação?
_ Shiiu Bruno! Ela não sabe ainda. Encontrei eles na porta de casa hoje.
_ Eles? Pequenina, você vai se meter em encrenca de novo !
_ Vou nada. 
Entrando no estabelecimento, comprou a ração e colocou na conta da mãe. Disse para o senhor, não dizer nada à ela, pois assim que Suzan recebesse a mesada pagaria. Então o moço respondeu para a garotinha :
_ Pequenina, você vai se meter em encrenca de novo !
_ Vou nada. - Ela respondeu.
Foi para a casa e avó esperava-a na porta. Bruno ficou ali por perto observando o que a pequena aprontaria. 
_ Encontrei uns intrusos no quintal hoje netinha. - A avó disse sorrindo e pegando a mochila da garota.
_ Sério vó? Como assim... no quintal?
D. Eulália explicou que ao estender a roupa, a portinhola do quartinho abriu-se e os animais sairam correndo. Sim, na pressa a menina esqueceu de fechar bem a porta. 
_ Acha que a mamãe vai concordar? - Disse a pequena após contar toda a história para a avó.
_ Eu não sei. Mas você dizer a ela.
_ A senhora, poderia guardar segredo por um tempinho né vovó?
_ Hum... Pequenina, você vai se meter em encrenca de novo !
_ Vou nada. - Ela saiu feliz e saltitante, a frase da avó significava um "sim" . - Ah ! Vóoo ! Tee amo! - Ela gritou. 
Passaram-se algumas semanas e Bruno ajudava a pequena a cuidar nos animaizinhos. Até que a mãe descobriu. Suzan mesmo contara. O grande susto da pequenina foi que a mãe já sabia, desde o primeiro dia! Ela viu a menina guardando os bichinhos. Apenas queria que ela vivesse uma "aventura" dessas, em sua rotina tão monótona de criança e esperava que ela contasse-a um dia .       
_ Pequenina, você só se mete em encrenca ! - Dizia a mãe assim que viu os poodles fugindo com toalhas na boca depois que ambas haviam esclarecido tudo.

Por, Rayanne Nayara.
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Vira-lata que não lê.

"Querido John" terminei de ler o livro e uivei de depressão. Onde você estava? Por acaso não são só os gatos que saem à noite para miar? Arrumei-me tão linda para lermos juntos essa noites, até lacinhos roxos coloquei. E onde você esteve durante "A Última Música" ? Esse senhor humano, Nicholas Sparks, tocou-me a alma. E tocaria-o se aqui ao meu lado estivesse. Não sou uma cadelinha de rua meu amado, eu tenho pedigree! Contudo, todavia o que esperar de um vira-lata? Olhe bem para meu rostinho infeliz. Não consigo nem latir mais! Estou chateada, raivosa. E lamento informar que não divido mais minha raçãozinha de carne ao molho madeira com você. Revire os seus lixos de madrugada. De hoje em diante só irei compartilhar com o senhor Nicholas, que compartilhou comigo duas histórias lindérrimas, das quais tanto tive que insistir para minha dona ler para mim.


Esse continho surgiu em minha mente assim que vi essa imagem tão cômica. Espero terem gostado.
Por, Rayanne Nayara.



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Copinhos em série.

Eu não estava lá quando foram criados, alimentados e distribuídos. Todos receberam o mesmo selo. Ainda que houvesse neles um rabisco diferente, algumas caligrafias inexpressíveis, legíveis, tortas ou corretas, com cores diferentes, todos receberam o mesmo selo. Em seu interior, alguns trazem café. De cheiro forte e oponente. Outros contém leite, cheiro fraco, textura mais densa, meros "amenizadores" . Uma outra parte é composta pela mistura de ambos, uns com mais outros com menos. E que curioso! Tem até alguns que são enviados ao meio dos outros, sem nada conter por dentro . Contudo, todos receberam o mesmo selo. Há um comandante muito maior em torno disso tudo. Um comandante do qual eu desconheço a figura, mas que persegue o meu copinho. E apesar de serem todos guiados por ele, eu deposito confiança em cada um desses copinhos, cheios, vazios ou meio-a-meio. Esses copinhos se movem, na grande parte sem serem controlados, e pensam na grande parte com um chip detectável por seus capitães ocultos. O meu copinho é magnetizado por alguma coisa no fundo do mistério da terra que determina o que ele faz. Não é escravo, mas também não se enche sozinho. Ainda assim, eu tenho fé em todos os copinhos. Copinhos variados, copinhos-pessoas.

Por, Rayanne Nayara.

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Não esqueça-me.




Não esqueça-me por minhas idiotices. Por meus medos. Por meus desejos ainda que soem muito insanos, ou grandes demais para que me acompanhes. Não esqueça-me por meus choros, risos e piadas inúteis. Não esqueça-me por minha pressa. Não esqueça-me por minha vagareza. Não esqueça-me por meus gritos, minha raiva ou minha estupidez. Não esqueça-me por minhas manhas, meiguices, por minhas manhãs nubladas ou ensolaradas ou até mesmo por minha compreensão incompreensível. Não esqueça-me por nada. Por favor, não esqueça-me. Apenas pense que em alguma dessas coisas eu posso ter lhe trazido algo bom,  ainda que queira me esquecer, terás de esquecer meu legado na única coisa que para ti possa ter feito a diferença. Então porque esquecer alguém que em algo te ajudou? Se for para esquecer, esqueça as lembranças que doem. Não esqueça as pessoas de sua vida. Seria como se você tivesse aprendido as coisas com uma lousa que escreve sozinha. E sabemos que alguém teve de te ensinar, pois infelizmente, lousas mágicas não existem. Guarde as feições, guarde os sorrisos, guarde as expressões, guarde a reciprocidade.

Por, Rayanne Nayara.
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Estrada, longíqua estrada.


Estrada, longíqua estrada. Para onde tu vais posso ir? Tens fim? O que há na saída de suas faixas?
Esse deserto ao seu redor, eu anseio. A sensação da liberdade, dos descompromissos. 
Me traga esse horizonte todos os dias! Como se eu dormisse dentro de um carro e acordasse com o Sol no pára-brisa, ali tão perto e tão longe no meu horizonte.
Estrada, longíqua estrada. Tu és tão solitária quanto eu. Poderíamos conviver no mesmo espaço?
Eu poderia pisar no seu concreto gasto?
Ainda que eu a busque, buscando nada, buscando tudo, buscando dentro de mim alguma pedra que lhe falte, promete-me que para sempre à frente me levarás? Sem nenhum semáforo ou pedágio? Sem nenhum abismo?


Por, Rayanne Nayara.
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Califórnia, aí vai ela.


Nasceu em um dia nublado, e parecia um raio de Sol. Jurou rodar o mundo em uma bicicletinha. Ela não tem medo de enfrentar desafios, mas tem medo de ficar sozinha.
Seus pais meio doidões não se importam com sonhos de cinderela, eles são ocupados demais.
Califórnia aí vai ela mostrá-los o que é o bom da vida.
Com quinze anos se vestiu de hippie entrou em uma rave escondida e roubou todas as drogas, jogando toda a diversão no esgoto. Estava na delegacia quando a mãe mandou um tutor.
Califórnia aí vai ela ser inconsequente da melhor maneira.
Com dezessete anos peregrinou três meses nas ruas, escondida em vielas. Quis provar a dor dos outros. 
Roubou os cartões de crédito dos pais e comprou uma passagem para o Alabama, acampou no deserto e comia carne das cobras que caçava. Foram encontrá-la em Praga declamando poemas escritos a prórpio punho.
Ela sabe o que é dolorido, mas conhece como ninguém os prazeres mundanos.
Califórnia aí vai ela com um livro de bolso e um relógio cuco. Ela é uma bomba-relógio.
Aos 25 anos descobriu que tinha um câncer e tratou-se com poucos medicamentos e com chás de ervas que cultivava. Curou-se e agora atende de curandeira entre os povos. 
Seu pai foi assassinado por todos os seus crimes e no velório leu um dicurso em latim. Chutou uma pedra sobre o caixão. 
Califórnia aí vai ela curar a californicação com suas palavras.

Foi internada e amarrada em uma camisa de força, pois o Estado garantia que ela é uma criminosa perigosa. 
Fugiu da clínica de loucos e tem um rancho na Califórnia. E seu único crime foi fazer do mundo um lugar feliz.

Por, Rayanne Nayara.  
  
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Quanto tempo?



Quanto tempo, quanto tempo ainda há para sair correndo e engolir as chaves?
Ouvi sua voz em um vídeo caseiro antigo e desenrolei toda a fita. 
As suas fotos espalhadas pelo vento parecem uma armadilha do destino.
Um destino do outro lado do passado. Um destino do outro lado do passado feliz.

Quanto tempo, quanto tempo ainda há para você se desculpar?
Eu não acredito nesse tipo de milagre, pois a mão humana não é capaz de fazer milagres, muito menos de criar algo sem falhas.     
Tem um leão aqui dentro rugindo. Ele tem fome, então é melhor você fugir.

Quanto tempo, quanto tempo ainda tenho até o fim de tudo? Eu não sei, e também não acredito que este seja o momento mais apocalíptico, mas muito tempo alimentando monstros tornam-os mais fortes.
Preciso levar para o outro lado toda essa feitiçaria de mágico de pracinha. 

O meu condão produz sorrisos enquanto você tira coelhos de cartolas.
Nunca acreditei em palavras soltas que não façam sentido. Você só sabe pronunciá-las.
Preciso levar para o outro lado uma imagem que não faz bem.

Senti seu cheiro em camisetas antigas que joguei pela janela.
As suas fotos espalhadas pelo vento parecem uma armadilha do destino.
Um destino do outro lado do passado. Um destino do outro lado do passado feliz.

O leão está rugindo muito alto e prepara-se para atacar. Então fuja, pois ele corre.  
Corre veloz até alcançar sua presa. Ele está levando-a para o outro lado, atravessando rios.
Quanto tempo, quanto tempo até o abismo se aproximar dessas carcaças antigas? 
Quanto tempo, quanto tempo até os meus monstros  morrerem famintos?
Quanto tempo, quanto tempo para passar o efeito de todas as drogas que vieram de você?

Por, Rayanne Nayara.    
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Civitatem Incantatio.

  
    Civitatem Incantatio
Cidade dos sonhos inexplicáveis e apaixonados. Mundo em que me abrigo e fujo contente. Subo as escadinhas artesanais e desço pelo gargalo da garrafa. Garrafa cheia em que embebo-me. Lá as pessoas são felizes e gatos são medrosos, óculos são espelhos, leões são animais de estimação falantes. Bolhas de sabão flutuam levando pessoas, botinas servem de elevadores. Tudo é mágico. País das Maravilhas? Imagine! Quem é essa Alice, afinal? Ela não vive em mundo como o meu, e com certeza ela adoraria conhecê-lo.  Na verdade, estou falando do paraíso. É isso, o meu paraíso perdido.

por, Rayanne Nayara.
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Livro Indicado do mês : Caminhos Errantes da Liberdade

Caminhos Errantes da Liberdade . Autor : Jorge Miguel; Editora : Passe Livre

"A liberdade é uma forma de autonomia que se inicia quando o homem, 
ousadamente, vai em busca da sua individualidade." - Jorge Miguel.



Quando li esse livro, a primeira impressão foi de revolta. Revolta pela nudez de toda uma realidade explícita sem vergonha, nas páginas do livro. Meus pensamentos discordavam de início com a opinião do autor, mas após ler novamente com mais calma, enxerguei o que de fato ele queria mostrar. Fiz uma análise geral e venho compartilhar com vocês. Devo muito de meu amadurecimento psicológico, literal e acadêmico a esse livro.


O prefácio, nele já começamos bruscamente. É difícil a compreensão, à primeira vista, do pensamento do autor. Não por má escrita, pelo contrário escreve muito bem. Acredito que seja pela periodicidade apresentada e pelo uso da intertextualidade. 
Jorge Miguel, escreve este livro em busca da realização pessoal influeciado por Freud, Marx e Russel (daí nota-se o grau de profundidade) . O objetivo do livro é apresentar os caminhos que não devem ser seguidos mostrando como as escolhas erradas podem destruir a integridade individual. Na citação dele "em busca de como ser escrevi como não ser", fica claro esse objetivo.
J.Miguel também utiliza de autores como Erich Fromm, para expressar exemplificativamente sua opinião. No texto em que cita análises do livro de Fromm, "O medo à liberdade", Miguel deixa claro que a liberdade vem desde a expulsão de Adão e Eva do Éden (Texto Bíblico).
Miguel cita também o poema "A Alvorada do Amor" de Bilac, para comparar suas ideias. Tal poema demonstra a coragem e a felicidade do homem ao experimentar a liberdade.
Neste livro de Jorge, os contos giram em torno de oito temas, para cada um, um conto :   Fundamentalismo, Necrofilia, Automatismo, Destrutividade, Narcisismo, Drogação, Sadismo ( o qual interessei-me muito, é um texto rico) e Masoquismo ( meu preferido de toda a coletânea, ainda mais rico que o anterior).

Partiremos aos contos de fato. Então preparem-se para a diversão.

1º - "Faze depressa o que tens para fazer".

Nesse conto predomina o Fundamentalismo.
O enredo gira em torno de dois personagens apenas. Inácio, homem religioso que acredita e segue fielmente os dogmas cristãos. Dono de uma editora de livros religiosos conhece um dia Ulisses, um rapaz bonito e inteligente, também conhecedor do cristianismo. Ulisses se considera cristão, porém confronta-se frequentemente com os  ideais católicos e as sagradas escrituras. Inácio nunca tivera amigos e cria um enlace muito forte e indesejado com Ulisses. Vê na figura dele um inimigo, uma pessoa desprezível por seus ideais, indiretamente passa a observar Ulisses como alguém que deve salvar, mas tem medo.  Cria-se um sofrimento de Inácio pela relação conturbada com Ulisses, esse que sempre tenta provar o contrário das crenças do dono da editora. O ápice da história ocorre quando o fundamentalista se vê apaixonado pelo  outro rapaz , e mantendo a ideia de que o rapaz de aparência angelical é um demônio, não abandona sua religião, fé e crenças chegando até mutilar-se.

Ná página 35, Ulisses afirma que "o mau é obra humana, Deus não castiga e nem prega a maldade,  temos todos o livre arbítrio em escolher bem ou mal" e isso torna-se novo confronto para Inácio.

O fato de Ulisses colocar o novo testamento como "história reinventada" sobre o antigo testamento, corrói com as dúvidas escondidas de Inácio. Em um trecho ele cita "Que vira ele em Ulisses? Nunca teve dúvidas religiosas antes de conhecê-lo".

Em suma, tanto um quanto o outro trazem verdades a serem ditas sobre a mesma religião. Inácio, que caminhou durante grande parte de sua vida à cegueira de suas crenças, na solidão, isolado do mundo como se aquilo fosse o correto, na verdade nada mais é do que um exemplo no homem medieval, o homem que não pensa por medo de ferir o que lhe foi ensinado ser puro. Já Ulisses, ex-seminarista e que por vezes parece ser um anticristo é a figura exata do homem iluminista, antropólogo, porém com sua fé. Ele vem para mostrar que o homem pode ser feliz e pleno sem ferir o que diz a palavra de Deus. Tanto um quanto o outro não deixam de pecar, nem o revolucionário e nem o fundamentalista.

Eu poderia falar muito desse curioso conto, mas creio já ter falado demais e não quero "contar o filme antes de assistí-lo", se é que já não contei . Um conto surpreendente capaz de conturbar àqueles de psicológico fraco, principalmente se forem ligados ao catolicismo. Um conto que beira doses de horror ao chegar o tão esperado final.

2º - "Negro que te quero negro".

Neste conto tratamos da necrofilia. É um conto mais direto e objetivo, não tão devastador quanto outros, mas nem por isso menos  sombrio.
Também tem como personagens dois jovens . Thânatos o principal e necrófilo,  Jeremias o amigo.
Thânatos é um adolescente comum, sem mistérios e sem revoltas, pelo contrário era nobre e muito solidário. Uma peculiaridade do jovem era o apego que tinha por cerimônias lúgubres, tais como velórios. Thânatos acompanhava da primeira à última palavra extasiado. A comadre de sua mãe tinha um filho doente, Jeremias, ao qual Thanâtos dedicava-se a cuidar sempre. De repente o psicológico do jovem feliz e compassivo veste-se de penumbra e frieza. O rapaz  sonha com o amigo tísico várias vezes e de todas essas vezes acorda deslumbrado e excitado. Com o tempo o simples fato de apenas pensar no amigo remexia com os hormônios do garoto. Todos os sonhos dele aparecem como uma profecia da breve morte de Jeremias que estava por vir, Thânatos depois destes sonhos era outro e visivelmente desequilibrado. Amava o amigo, desejava-o.  Durante uma tarde o menino recebe a notícia de que o amigo estaria desfalecendo, ainda no hospital após todos os confrontos internos pela dor que sentia ao perder Jeremias, Thânatos ejacula involuntariamente diante o corpo morto e doente à sua frente. A curiosidade está no fato de que pela primeira vez isso ocorria com ele acordado, das outras vezes ainda que por um sentimento desconhecido que tinha pelo amigo, o "acidente" ocorria enquanto ele dormia.

Não foi pela morte do amigo que a necrofilia de Thânatos fica evidente, mas sim pelo seu psicológico, sua forma de vida, e principalmente seus sonhos. Tudo isso são um elo entre as mudanças corporais, ideais, dúvidas e medos de um garoto adolescente mudando de fase.

3º - "Vem por aqui, eu vou por aí."

Neste, veremos o automatismo.

Um conto muito gostoso de ler . Retrata toda a dúvida de um personagem sobre sua própria individualidade. Um personagem que não sabe o que ou quem é.  Servidor público, um contador de meia idade que é convidado à uma suposta exposição de vinhos do porto, acaba sendo direcionado a um endereço onde ocorre uma demonstração de hipnose, dirigida por um Frei Franciscano que palestrava sobre coisas sobrenaturais, fenômenos e parapsicologia. Durante toda a demonstração ele observava curioso a tudo. Na página 77 do livro, precisamente no segundo parágrafo, o personagem reconhece que apesar de achar que o que ele próprio era, fosse genuíno, percebe portanto que nada mais é do que um fantoche. E ainda mais adiante passa a reconhecer que gostava de ser uma cópia de seus colegas de repartição e de todos os quais convivia, até que torna-se sufocante a ele saber quem realmente era em sua essência. O autor coloca sobre o eu-lírico a seguinte frase "De repente eu quis saber qual das imagens era a minha. Olhei atentamente querendo identificar-me. Mas éramos todos iguais!" e a partir dessa afirmação todo o restante do conto torna-se claro : um homem em busca da sua identidade. O velho homem que descobre que  toda sua vida  foi uma representação guiada pelos outros enquanto suprimia suas verdadeiras vontades.

4º - "Luz não. Só as trevas dos cabelos dela".

O mais cruel dos contos. Relato cru, nú e real da Destrutividade.

Adolfo Aggres no auge de seus 80 anos decide contar sua história. E no ínicio logo no primeiro parágrafo já deixa frisado "Não vai dar prazer a quem a lê. Pode também, não dar asco" . É uma história espantosa mas interessantíssima (como todo o livro) .
Posso afirmar que a revolta, no qual citei ter sentido ao ler o livro logo acima na apresentação, provém deste texto. Insano e medíocre. A mim causou asco, e certa admiração pela ousadia do autor. Entre tantas escórias e insultos é um texto fantástico e magnífico! Citando partes das falas de Adolfo Aggres espero conseguir pôr em palavras as sensações causadas, quanto menos falar desse conto melhor, assim aguça os extintos dos leitores.

Página 88 ; "O mundo lá fora sempre me apavorou. Então, procurei destruí-lo. Frente ao mundo, sempre me senti impotente, por isso, desde criança, cuidei de afastá-lo de mim, eliminando-o. A idade dá-me crédito e confiabilidade. Posso dizer tudo o que fiz." 
Percebam o ódio iminente do personagem para com o mundo. Ele começa a contar  suas façanhas cruéis a partir da infância.
 Na época tinha seis anos de idade somente, quando diz ter destruído um presépio de natal feito por um colega do qual mais a frente relata odiá-lo por ser representante de uma alma  pura e artística. E relata o seguinte "Aquele presépio ameaçava minha vida. E eu o destruí ( Pg. 89)... Não era inveja. Era a vontade de destruir a primeira manifestação artística que me impressionou... Tudo que destruí é a soma da vida que não vivi ( Pg.90)". Diz ainda o personagem, que aos dez anos de idade esse mesmo colega era ainda mais insuportável, o primeiro aluno de todo o colégio, aquele voltado e enredado de grande prestígio onde fosse. Conta que em um dia foi nadar com ele, que o rio era a alma do amigo odiável.  Abaixo o trecho crucial desse desenrolar, leiam atenciosamente :

"O rio era sua alma. A vida seguia em função do rio. Era verão, mês de janeiro,
quatro anos depois que destruí o presépio. Como odiava este colega! 
Era um artista. (...) Compunha pequenas peças para reppresentação teatral.
Adaptava música de sucesso à letras que inventava. Nas artes plásticas era
imbatível. No Sete de Setembro idealizou e executou sozinho o ambiente em
que se realizaria uma atividade cívica. E só tinha dez anos ! Era inevitável. 
Tinha que morrer. Convidei-o a nadar. Seguia comigo alegre e festivo sem sa-
ber que se dirigia ao matadouro. Andava ao lado dele e, sem olhar-lhe o rosto,
observei."
Resumindo, esse é o começo de uma armadilha muito cruel para uma criança de dez anos que mata outra afogada na correnteza de um rio. As confissões não param. Páginas a frente diz : 

"Atropelei uma criança que se vestia com uma camisa igual a do garoto que matei afogado."

O personagem também matava os outros por palavras. Todos os sonhos que a ele eram narrados, todas as felicidades vividas por outros, sempre encontrava algo a dizer que destruía tudo. Seu grau de insanidade, porém verdadeira, se dá também neste trecho : 

" A destruição é produto da evolução e da civilização. O assassino mata um homem, o louco mata uma dúzia de homens; o conquistador mata milhões de homens; Deus nos mata a todos."

Mas aqui começa o verdadeiro enredo : 

"Se odeio o mundo, odeio quem me trouxe a ele.Questão curiosa a história. Quando o filho mata os pais, estamos diante de tragédia, drama, horror nefasto. Quando os pais matam o filho, estamos diante da ordem, da revolução, da obediência. Orestes mata o pai e assume o poder sobre Missenas (...) Édipo mata o pai e casa-se com a mãe. Nunca foi tão amaldiçoado em toda a história. Contudo, Hércules, num infantícidio  impiedoso, mata os filhos que gerou com Mégara e só é lembrado como heroi (...) Matar os pais é tragédia. Matar os filhos é santidade. Planejei matar meus pais vagarosamente. Comprei arsênico (...) Diariamente ministrava-lhes às refeições uma migalha do mineral venenoso. Não suportaram trinta dias(...) Ele, mais fraco morreu dia 20 de outubro (...) Ela, mais forte, morreu seis dias depois. Não me arrependo. Só onde há túmulos é que pode haver ressurreição (...) O que foi mel para os outros, para mim era veneno. Nunca me arrependi do que fiz. (...) Aos quinze dias de envenenamento, minha mãe já havia percebido que eu  os estava  matando. Continuou a aceitar a comida que eu lhe dava, sabendo envenenada. Queria morrer. Colaborei. Lembro de vê-la morrendo num gemido de virgem violada. Seus cabelos eram negros... e eu amava as trevas dos cabelos dela."

Assim termina este conto. E creio que não há mais o que eu possa dizer. Adolfo mostrou sendo como a destrutividade, o ataque onde matamos ou destruímos o que nos ameaça. A ele, a vida e as coisas boas que ela trazia eram dispensáveis e odiáveis. Alegou legítima defesa em suas destruições e pensava fazer disso um grande favor às suas vítimas. 
De todos os contos da coletânea, é o mais palpável à realidade atual, pois mostra o lado de todo o ser humano, o lado predativo que carregamos. Alguns, para coisas pequenas e para si mesmo. Outros predadores do mundo, ameaça aos indivíduos gerais e sem apresentação de motivo para tanto ódio.

5º - "O sol era a sombra de seus olhos". 

Neste, o narcisismo.
Izo é o nome do personagem central. Caracterizado com uma beleza extraordinária da qual o mundo estendia oportunidades inúmeras. Porém o mundo nunca lhe importara. Izo vivia sobre seu próprio eu, seu corpo, suas sensações. Como dito na narração : 

"Pensava assim: Se todos me comtemplam, por que não posso comtemplar-me também?" 

Não era de nacionalidade brasileira, mas desejava isso. Ao lado de sua casa havia um escritório de advocacia, em um dia Izo recorre aos serviços do Dr. Tirésias, que desculpando-se afirma não ter horas vagas para atendê-lo no dia em questão. Há um confronto argumentativo entre ambos, e o advogado termina o diálogo dizendo ao rapaz estar à disposição, mas não naquele dia. 
Izo nunca tinha sido rejeitado e não se conformara por não ser atendido. Durante grande parte do enredo o autor frisa o amor próprio e único do personagem. O ápice surge a partir de uma namorada que algum tempo depois de estar junto a Izo, sendo a única coisa amada por ele além dele mesmo, diz a ele não amá-lo mais. Findado o namoro, o rapaz cai em depressão, e torna-se hipocondríaco. A hipocondria juntou-se à rejeição e Izo fica louco.

Resumidamente, Izo não viveu de fato pois admirou-se demais  e se esqueceu de correr atrás de suas metas, objetivos e até mesmo sonhos. Não deu valor às pessoas que o amavam, tamanha era sua cegueira. Não aceitava a rejeição de forma alguma, mas praticava rejeição para com os outros.

6º - "A travessia do rio Aqueronte".

Drogação.

O personagem relata sentimentos antigos pelo seu pai que servem como indício de revoltas internas que levaram-o a drogar-se. Contudo não percebe-se razões plenamente evidentes de terem acometido-o a tal fato. Como se o autor fizesse desse personagem, um vácuo, onde o leitor poderia colar a própria história, a própria interpretação.
O rapaz cai no mundo das drogas através da bebida, torna-se alcoólatra e em seguida adere ao uso de cocaína e crack. Ele tenta culpar seu pai, demonstrando sentimentos conflitantes como já comentado, por todas suas escolhas, porém não encontra argumentos, por isso seus motivos não são tão visíveis. Como todo jovem rapaz, teve seus sonhos, os quais abandonara para as drogas, apenas pelo desinteresse em viver. Uma única vez tentou livrar-se do mal, sendo acometido de derrota decide de fato viver uma vida inteira de falhas.

7º - " Barro nas mãos do oleiro" .

Sadismo.

Sadi é um homem sádico. Um homem fora de acusações visíveis de sua crueldade, vestia-se bem para seus empregos e portava-se naturalmente, era culto e redigia textos impecáveis. Era casado e torturava sua esposa em suas relações sexuais. É de fato espantoso. Seu primeiro emprego, o de segurança, demonstra em um dos relatos ocorridos no  trabalho, que algo no passado dele acontecera fazendo-o detestar ser enganado. Tal relato se deu em uma festa de adolescentes, onde à cargo do ofício ele exige o convite de um garoto que aponta para o colega de trás, afirmando que o convite estava com o mesmo, porém tudo não passava de mentiras. Então Sadi encolerizado segue o rapaz pela festa e em uma emboscada espanca-o até a morte.

Não muito distante de nossa atual realidade, não é mesmo?

Em outro ponto, Sadi prende a vaga em que ocupara no estacionamento do shopping, outro carro esperava-o sair de lá por ser a única que iria estar disponível. Apenas pelo prazer de assistir a irritação de quem esperava-o, ele então demora fingindo verificar coisas no porta-malas. Controlou por quinze minutos a vida daquele homem que aguardava e isso acometia-o de estupendo gozo.
Folheando um pouco mais, em seu emprego fora designado por seus diretores a distribuir vale-transporte e vale-refeição em véspera do feriado de Corpus Christi para os demais funcionários, gozava de confiança. Quando avista um senhor de oitenta anos, digno de caridade, o qual necessitava muito dos tickets, Sadi diverte-se à suas custas, inventando desculpas que impossibilitavam o senhor de gozar de seu direito, ora dizendo que o expediente encerrara, que os vales tinham sido perdidos,  e ainda mais cruel, disse certa vez que cancelaram o direito dos vales do velhote, pois esse muito pobre, vendia-os para comprar mais comida.
Sadi sabia disfarçar seu caráter sádico, visto que em um exame psicotécnico fora aprovado em primeiro lugar, pois o exame exigia de uma mente o contrário do que era a mente daquele homem.

Um texto encantadoramente intrigante. Nele, eu espelho muitas respostas para atitudes corriqueiras e violentas do dia a dia.Vale a pena ler com vontade, com sede e fome literária.

8 º - "Quem tem lágrimas, prepare-se para derramá-las" . 

Masoquismo .

Esse foi o texto que eu mais gostei. Na época em que eu lera-o identifiquei-me muito. Não, eu não sou masoquista, mas a personagem apresenta o psicológico muito solícito. Não se trata de alguém que tem prazer em sofrer dores. Essa personagem é o típico "pau-mandado" . Nada contesta, tudo aceita, abre mão de seus gostos e felicidades pelo bem do outro. E nisso é que eu me identificara. Enfim, talvez somente lendo e conhecendo-me para compreender.
Salma é masoquista justamente por saber o que é melhor para ela, saber que tem suas opiniões e direitos, mas escolhe o bem do próximo ao seu próprio em todas as circunstâncias, acreditando estar feliz com isso.
O texto inicia em "Salma sempre se julgou inferior, impotente e insignificante (...) Mas não era feia nem desprovida de inteligência". Na página 161, uma das primeiras do conto, fica evidente o "comodismo" de Salma.
 "_ Você será minha._ Igor,  seu namorado diz à ela .
_  Porque tem tanta certeza? _ Ela pergunta.
_Porque tens jeito de tímida e reservada.
_ E a timidez lhe agrada?
_ O tímido é cauteloso, vê perigos inexistentes e nunca se atreve. "

Salma assusta-se e cala-se . Igor pede para que ela nunca deixe de ser tímida e ela promete.  A figura autoritária de Igor, não deixava que Salma se despertasse. O autor também mostra que ela adorava a escola onde estudava, pois nela os alunos é quem comandavam, o único ambiente no qual a jovem não acatava ordens. Seu prazer em obedecer e ser comandada vinha da consequência que isso gerava, agindo assim, Salma tinha segurança. Um exemplo: em seu quarto, haviam seis relógios na parede, pois assim ela assegurava-se de nunca perder as horas.
O ápice do conto, ao qual estou corroendo-me os dedos para não revelá-lo, se dá por um diálogo entre Igor e ela, onde fica claro que ela busca um caminho de santidade sendo submissa a ele e que ele não aceita sua submissão, pois é sádico e seu prazer vem do sofrimento obrigatório. Neste dia eles tem relações sexuais, Salma era virgem e ela mesma procurara esse propósito, onde Igor é violento e machuca-a. A partir daí ela passa a perceber seu masoquismo.
Salma  começa a arrepender-se de nunca ter vivido e sempre obedecer. Sabia que sua segurança estava em Igor, mas também tinha consciência de que deveria deixá-lo, pois também conhecia a dificuldade que seria satisfazê-lo com seu sofrimento. Estava assustada com tudo o que vinha acontecendo entre eles. Pensando ser feliz ela era infeliz, vivia um mal e gostava disso.

Em suma, o masoquismo de Salma fora uma forma de automatismo, entretanto para ela, seu masoquismo começara quando ela percebeu sua infelicidade. Sentia-se segura com Igor e no entanto ele é quem necessitava dela. Relatos dos quais eu me recuso a contar, para não perder a graça,  mostram isso. Igor era infiel à ela por não amá-la. Porém tinha poder sobre ela, e o poder era uma forma de libertação, libertação essa de uma doença que ele tinha. A mulher era a única pessoa na qual Igor cuidava ao invés de cuidar-se. Até ficar só, e precisar de Salma, onde ele voltava a estar preso à sua doença.


Bom leitores, essa é a indicação de livro do mês que lhes dou. Espero que comprem-o e possam curtí-lo. Partilhando assim as suas análises comigo. Até a próxima.

Por, Rayanne Nayara.



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Internet : A segunda identidade pessoal.

PROPOSTA DE REDAÇÃO ENEM 2011
Tema: Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado.
Objetivo: Apresentar proposta de conscientização social que respeite os direitos humanos.
Regras:
- Max. 30 Linhas;
- Texto dissertativo-argumentativo em língua padrão.

Uma dica para construir um bom texto é destacar alguns pontos, os quais você deseja abordar.
No meu texto, por exemplo;
- rede como direito universal;
- rede como disseminador de ideias;
- popularidade e reputação online;

Vamos lá!

Internet : A segunda identidade pessoal.
       O crescimento desordenado da população indicia a principal razão para o avanço da internet. É inegável que, o público mais atrativo dessa ferramenta está entre a pré-adolescência e a juventude.  Na verdade esse público é alvo de tudo ao nosso redor e na internet tudo é urgente.
       A interconexão com o mundo, novas experiências, conhecimento e tudo o mais que ela oferece permitem que cada usuário torne-se cada dia mais dependente dela. Tal dependência gera ao mundo, o acesso à rede como direito universal. Acredita-se que logo será impossível viver sem internet e excluir uma parte da população privilegiando outra, bate contra o princípio da igualdade e dos direitos humanos.
         A febre que vem aos “40 graus” nesses últimos cinco anos são as redes sociais. O que essas redes têm afinal? Simples, elas instigam os internautas às principais modalidades que os circundam aproximando-os por serem eles mesmos os responsáveis por implantá-las e disseminá-las. Tudo de um jeito discreto. E é justamente, pelo próprio usuário promovê-la que, a conscientização deve partir do mesmo. 
        As redes sociais funcionam como uma segunda identidade pessoal, pois transmitem a formação de pensamentos, características, gostos, enfim, a vida de quem a utiliza. Porém difere-se do RG comum, pois ninguém anda por aí expondo o seu número de RG. Já na internet, as pessoas expõem até mais.  Deve partir da consciência geral, que a internet é só mais um ponto de encontro, e ao contrário do que se pensa, ela não torna ninguém invisível.  A estratégia e uso correto das “teias” sociais são de não utilizar delas como artifício para executar aquilo que você não faria publicamente.  A liberdade que ela implica gera atitudes condenáveis. Outro elemento relevante é a mobilização desses meios para defesa de boas causas e agregação de boas ideias. Se todos se unissem com causas específicas de mudanças positivas, seria muito mais fácil mover as melhorias tão sonhadas, tendo em vista a força palpável desse instrumento múltiplo. E quando se atinge essa mobilização, consequentemente atinge-se a popularidade. Popularidade esta que dependerá de duas opções: ponderar para uma reputação aprovável ou não.
       Há na internet desde atitudes reprováveis quanto a atitudes exemplares, principalmente evidentes através das redes sociais. São nelas que estão espalhados grupos distintos, divididos por opiniões. Cabe a alguém analisar essas opiniões e grupos e assim como na realidade, deve-se ressaltar punições para o mau uso da internet e das redes. Não apenas ameaçar, mas agir. Se o mundo real está um caos pela impunidade o mundo virtual também estará. A internet é um espelho e tudo que se aplica fora dela, deve refletir também nela.


Por, Rayanne Nayara.


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Plágio é Crime

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