Nem Milão tem moda igual a Jequié.





"Até mais tarde meu filho, mamãe te busca mais tarde." 
Diz a mãe, para a eufórica criaturinha que adentra aos portões da escola em velocidade.

"Professora, já se passaram cinco meses desde o início das aulas, e onde está o material escolar que a prefeitura tem que dar?"  

A professora, olha para os lados sorrindo falsamente, e recebendo outras criaturinhas recém-chegadas. Ela começa a gaguejar, prevendo o burburinho. Desde a pergunta emitida, já são quatro mães à sua frente. Uma com olhos curiosos, outra com cara de desdém, a terceira nem sabia que o filho tinha este direito, e a quarta, lá estava impaciente por ter perguntado e ainda não ter sido respondida.

"Bem, mães... Chegou um material ontem à tarde e hoje distribuiremos para as crianças ao final das aulas." 

As mães sorriem satisfeitas. A professora respira aliviada: "Por ora, consegui!", ela pensa. 

Meio-dia, bate o sinal da saída e as mães fazem fila no portão. 

"Nossa graças a Deus que o material chegou, Wesleyson Júnior já estava me perturbando pra comprar uma mochila nova! Sabem como eu consegui que ele esquecesse um pouco este assunto?"

As mães negaram silenciosas.

"Disse a verdade pra ele: - meu filho, eu compro a mochila nova do guardião do universo sei-lá-das-quantas, mas você vai ter que comer a mochila tá? Porque a mamãe não vai ter dinheiro para comprar comida."

As mães sorriram cúmplices àquela realidade.

"É, a gente até quer dar para eles as coisinhas, mas as coisas estão tão difíceis! Minha filha também queria um caderno da Peppa e eu falei pra ela que quando fui comprar a Peppa havia ficado doente e pra não passar a gripe suína para ninguém, as pessoas pararam de vender. Não dá gente, o caderno custava 56 reais!"

"Nosso pai, o que tinha neste caderno? Folha de ouro?"

"Adesivos e glitter." 
Respondeu a mãe ainda espantada com a realidade que a cercava.

"É, eles metem a mão nos preços quando se trata de criança. O José Cirilo não vai comigo quando faço as poucas compras escolares dele, porque senão eu deixo as calças lá."

O portão abre, as mães esticam o sorriso de alívio, a professora surge sem olhar nos olhos de ninguém empurrando as crianças sobre as mães.

"O que é isso?" , "Tá de brincadeira!", "Vocês perderam a noção?" e muitas outras reclamações eram berradas. 
A professora de 1 metro e 60 de altura, caiu para 1 metro. Curvava-se tanto atrás do portão que a diretora teve que intervir.

"Mães! Mães! Acalmem-se, por favor. A escola não tem culpa!"

"Vocês não vão refazer o pedido pra prefeitura?" - indagou a mãe do Wesleyson.

"A prefeitura enviou o material ontem, não tivemos tempo de recorrer as reclamações... Olha, eu lamento, mas infelizmente acredito que eles não vão enviar novas mochilas."

"Mulher! Opá isso!" - disse uma das mães que, retirando a mochila das costas do filho e abrindo-a, enfiou a criança lá dentro - "Meu filho pode carregar outra criança aqui dentro! Pra quê isso? É pra facilitar o sequestro dos pedófilos?"

"Senhora, por favor..."

"Não, ela 'tá certa diretora! Sem falar que aos 10 anos eles já vão apresentar hérnias de disco mais graves do que as minhas!"

"Pessoal, eu aconselho que aguardem a escola informar à prefeitura do erro..."

"Uma ova! Vamos agora na prefeitura!"
A mãe de Cirilo revoltada, pegou a mão do filho e dando as costas à diretora indagou às outras mães: 
"Quem concorda em ir até lá agora?!"

Foi unânime.

"Vamos, cada um pega a sua tartaruguinha e vamos s'imbora! Alguém tira foto, porque protesto bom começa na internet!"

Andaram as mães furiosas e as tartaruguinhas em direção à prefeitura de Jequié, enquanto a professora e diretora correram de volta à escola.
Na porta da prefeitura, o prefeito já saía para seu almoço ou encerrar do dia, quando se depara com um exército de mochileiros e mães afoitas.

"O senhor pode nos explicar, que palhaçada de mochila é esta?"

"O senhor não acha que eles são muito novos para pular de para-quedas?"

"Eu esperava uma mochila escolar, e não uma barraca!"

"É pro meu filho usar a mochila e não a mochila usar ele!"

Como numa resposta pronta, o palanque fora montado e acompanhado de seu assessor o homem apenas respondeu: 

"A mochila foi planejada para que eles a usem por mais tempo, assim servindo aos anos posteriores. E cabe tudo o que eles vão necessitar."

"É muita falta de respeito com os direitos do povo!" - disse a mãe da Maria Rosa.

"Mas vocês são exigentes demais, também! A prefeitura tem problemas mais sérios a tratar! Nada está bom para vocês!"

"Exatamente prefeito, a impressão que fica é que nada está bom para nós. E por isso quando vocês não fazem nada, fazem o mínimo possível por nós!"

"Ao se tratar dos nossos direitos é tudo nas coxas! Cinco meses desde que as aulas começarem pra chegar o material, e olha o que vocês oferecem! Mas o IPTU aparece lá em casa com cinco meses de antecedência!"

...

"O trem não prestou não, e depois mineiro é que faz mineirice né? Eu só sei que as mães estavam lá a ponto de voar no prefeito, mas o redemoinho piorou quando o secretário de educação alegou que o tamanho das mochilas eram indiferentes, e que não acreditava que os pais de hoje eram tão imprestáveis a ponto de não poder carregar a mochila de seus filhos. E ainda disse ser impossível confeccionar uma mochila para uma criança de creche."

"Amadeu, como é que você sabe disso tudo?"

"Uai Eugênia, eu sou motorista da prefeitura né!"

"E o que tem a ver?"

"Eu que entreguei o material ontem à tarde na escola, 'cê acha que eu não ia brotar lá cedinho pra ver o maltubedê?"

"E como acabou isso?"

"Acabou como todo mundo achou que ia acabar, as mães jogaram tudo na internet, e agora a creche não é mais creche. É um acampamento mirim!"

"É eu vi foto na internet de criança dentro da mochila. Te contar, tem de tudo nessa cidade... Nem Milão tem moda igual a Jequié!"


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Quem me deve alface, não me paga couve.

Quatro e quinze da manhã. E uma neblina pesada castigando os corpos quentes de uma jovem de vinte e três anos, e um senhor de sessenta e três. Éramos meu pai, e eu a caminho do ponto de ônibus.
Um horário não habitual para mim, que quando necessário a algum compromisso me acordo às cinco horas, mas morando num sítio de uma região pouco isolada temos que convir com estes "não tem escolhas" da vida. 
Ia eu ao Rio de Janeiro, do outro lado da cidade pra reaver uns documentos e outras burocráticas brasilidades cidadãnescas. A fila para aquele ônibus das quatro e pouca da matina, imensa!
Trabalhadores e trabalhadoras que iniciam seu desfile na corda bamba exatamente às três da madrugada de cada dia, para que sigam com seus malabares diários em busca de uns R$ 970, 00 temeritos, quando não menos. O salário - expressão que surgiu em Roma, lá pelas tantas a.C; e que tinha relação com a troca de sacos de sal, a moeda da época - que de salgado nada tem.
Vai o trabalhador com sono, fatigado da rotina massacrante, estressado com o ir e vir de atravessar uma cidade em guerra constante, para aquela fila. Calados, mas nem por isso tristonhos. Eu, que me sentia uma intrusa à rotina daqueles trabalhadores estava na fila também e meio confusa com o ambiente. 
Passa uma moto que mais parecia uma motosserra barulhenta de um lado ao outro e, nós na alarmada condição de medo costumeira, observávamos aquela estranha situação. Um pouco mais findadas as gracinhas do motoqueiro da madrugada, ele retorna agora com dois carros repletos de bêbados, escandalosos e com o funk nas alturas!
Ah minha gente, pera lá! É muita falta de educação e noção por metro quadrado! Eu que já venho pegando um "ranço" do homenzinho carioca há algum tempo, naquela hora fui tomada de uma revolta tamanha. E como se não bastasse a falta de respeito com as casas ao redor, onde a maioria de moradores são idosos e com os trabalhadores sonolentos da fila, o carro parou em frente a nós, o motorista me encara e começa a gritar cantando bêbado pra nós: "Sarra novinha com a bunda no chão". 
Eu queria sarrar um tijolo de concreto na cabeça dele. 
E alguma coisa ia ao chão sim, mas não seriam os glúteos maiores e menores de nenhuma novinha.
Aquela patota ficou ali em volta da fila fazendo suas algazarras. Meu pai preocupado comigo ficou ali até eu entrar no ônibus e pedi para que ele fosse embora logo, pois eu estava preocupada se fizessem algo a ele no retorno para casa. 
Dentro do coletivo, as pessoas revoltadas reclamavam da falta de respeito daquela juventude. Ouvi a tudo calada. Reclamações desde "ninguém lá em casa dormiu pois eles fizeram isso a noite inteira desde meia-noite", "se chamar a polícia, os errados somos nós", "tem é que dar uma surra neles".
Notei que a violência ia crescendo, comentário após comentário.
Ao meu lado, uma senhora que dizia: "Meu nome é Fulana de Tal, hoje eles vão ver só o que vai acontecer, vai ter festa de novo né? E eu sei onde!"
A dona "Fulana de Tal" conversava revoltada com a senhora do outro lado da poltrona. E até me pediu desculpas por sua atitude de desabafo. Eu assenti, como alguém que entende o quão uma noite mal dormida é exaustiva. 
Uma frase da dona Fulana, me despertou a um pensamento: "Deixa eles, quem me deve alface não me paga couve". E ali eu notei, que esta violência balbúrdia que a gente vive é efeito da vitimização constante. 
Ainda no trajeto do ônibus eu não consegui dormir, pois dias antes foram incendiados três ônibus naquele percurso. 
E como dormir na viagem ao trabalho se você não sabe se volta para casa? 
E como dormir se você não sabe se no pequeno caminho de retorno à casa, seu pai conseguiu chegar?
Como dormir ao se deparar com uma classe operária que não tem ao menos direito ao sono? 
Como dormir ao despertar-se que a violência vem sendo alimentada não por maldade, mas pelo grito de clamor como uma única reação de quem não sabe mais como se defender? 

"Quem me deve alface, não me paga couve". 

E assim vai seguindo-se o dia a dia do trabalhador que  entre tiroteios, impostos, desrespeito, dívidas, desemprego, cansaço e tudo mais... Se lhe derem uma foice, ele sai colhendo os alfaces até de quem não lhe deve!



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Idosos com sem% de desconto!

Estou passando mal, com tanta falta de respeito. Dia após dia, eu me convenço de que Peter Pan, sabia muito bem o que estava fazendo quando fugiu para a "Terra do Nunca". Pois eu também quero trocar a "Terra do não tem não" pela "Terra do Nunca".
Não sei vocês, mas eita medo de envelhecer! 
Não pela beleza, não pela aparência, não pela proximidade com o encontro a São Pedro, o querido porteiro do céu. 
Não, não é por nada disso. 
É medo de envelhecer nestas terras tupiniquins, onde nem o índio fundador tem respeito. 
Se uma coisa é certa, é que no Brasil, de velho ninguém gosta! É uma verdade, e que revoltante! 

Eis que fomos minha mãe e eu comprar uma passagem de ônibus, ao sessentão aqui de casa, e eu nem lhes conto o horror que é a busca por qualquer direito do idoso. 

Moça do guichê:  Boa noite, em que posso ajudar?

Mamãe:  Boa noite, gostaria de uma passagem para Belo Horizonte, no dia 20 para um idoso.

A criatura com aquela carinha fofa de "vá se danar" olha desinteressada mesmo, ao computador, faz uns "tec-tecs" no teclado e retorna:

Moça do guichê:  Só no dia 21 às 16 horas.

Aí não dava. Porque tinha que ser no dia 20. Até perguntamos, assim como quem não quer nada, se para o dia 21 haveria. Para nosso mau prazer, apenas para junho. Ou dia 20 de maio às dezesseis horas. 

Mamãe:  Obrigada, eu vou olhar na outra viação.

Sai a minha mãe, que ultimamente anda num estágio de impaciência com os serviços oferecidos, em polvorosa com sua bolsa, carteira e documentos em mãos. Caminho cheia de bolsas nos braços, devidos às compras que havia feito, após um dia extremamente exaustivo de sacolejares em ônibus para lá e cá. Perdi a conta de quantos transportes me foram necessários aquele dia, apenas para "resolver os pepinos". Indigestos!

Outra moça do guichê:  Boa noite, em que posso ajudar?

Mamãe:  Boa noite. Gostaria de uma passagem para Belo Horizonte, no dia 20 de junho, para um idoso.

Graças aos céus azuis, a passagem estava disponível, porém...

Moça do guichê:  Senhora, não temos a passagem integral.

Mamãe:  Puxa vida, em horário nenhum?

Moça do guichê:  Não, senhora.

Mamãe:  Tudo bem, pode ser às 22:30 do dia vinte mesmo. Uma meia para o idoso, e uma para acompanhante,

Eis que a atendente muito simpática - real -, prosseguiu com a venda das passagens, mas na hora de calcular o valor ela olhou para a tela meio confusa. Olhou para mim. Olhou para a tela. Olhou para mamãe.

Moça do guichê:  Ué... Tem alguma coisa errada. Só um minuto senhora, porque o valor do desconto está errado. 

Tentou o procedimento, mais duas vezes. Eu com aquela sensação de gangrena nos braços devido a tantas bolsas penduradas, ao notar que o negócio estava ficando estreito, soltei-as ao chão e atentei-me à atendente. Ela se virou para o gerente e indagou:

Moça do guichê: Paulo, tem algo errado. Como pode? Ela está comprando uma passagem para idoso com 50%, o valor da passagem é de sessenta e cinco reais, mas com o desconto está batendo cinquenta e sete reais e quarenta e cinco centavos. 

Gerente:  Repita o procedimento.

Ela repetiu enquanto atentamente ele observava. Para minha humilde cabeça cansada, ele apenas estava ganhando tempo para a desculpa. E assim que constatou o que a atendente falava, Paulo, o gerente girafônico explicou-nos:

Gerente:  O valor de sessenta cinco reais, é promocional para as duas primeiras poltronas do ônibus com pagamento à vista. E quem recorre a benefícios não tem outros descontos cumulativos ou promoções. Esta passagem de idoso tem o desconto sob o valor integral da passagem que é de noventa nove reais e oitenta cinco centavos. 

Moça do guichê: Tudo bem, mas mesmo assim o desconto dela seria de quarenta nove reais e noventa dois centavos.

Ele titubeou para a atendente que o indagava a matemática básica. E eu lá, com a minha cara de "e aí Paulo, qual vai ser?", minha mãe fuzilava Paulo com olhar agressivo.

Gerente:  Sim, mas o restante é a taxa de embarque e pedágio.

Eu achei aquilo um absurdo. E já imaginava a próxima fala de minha querida mãe.

Mamãe de sobrancelha arqueada, olhar nada amigável, peito estufado e voz firme: Então, eu vou pagar taxas extras em cima do meu desconto? Você vai me desculpar, mas o desconto não é de 50%. 

Gerente:  Senhora,  este é o protocolo. Aí não é comigo.

Mau passo Paulo, mau passo.

Mamãe:  É, é inacreditável. Por que anunciar um desconto, que na verdade é uma mentira?

Ele lamentou e se retirou deixando tanto a atendente simpática, como eu e minha mãe de bocas abertas.
Então a atendente maquiavélica, mancomunada à minha progenitora orçamentaram um cálculo de quanto seria se ela comprasse a passagem com desconto ou sem. 
Se a minha mãe optasse pelo desconto, ela não teria liberdade de trocar a passagem para qualquer dia e horário, uma vez que o idoso depende de disponibilidade de vagas e de ônibus. Se ela pagasse os oito reais a mais de diferença - sim, oito infelizes temeritos - teria a vantagem de trocar a passagem quando quisesse, ir no ônibus que quisesse (porque idoso só pode ir em ônibus convencional, aqueles bem desconfortáveis), no horário que quisesse e até recorrer ao ônibus com wi-fi. Por causa de oito reais. 
Decidimos então pagar oito temeritos a mais, e mandar o Paulo para as cucuias, com aquelas normas técnicas abusivas de uma empresa que não se importa com a satisfação do cliente. Mais uma, aliás.
A atendente foi extremamente calma, atenciosa, eficaz e solidária. Palmas para ela. Gravei o nome dela, e vou colocá-lo em intenções de ação de graças na próxima missa. Que coisa boa, quando encontramos alguém eficiente com um serviço de qualidade ainda que a empresa seja uma bosta.
A fila onde estávamos, por causa do Paulo, do desconto, e da paciência e tranquilidade da atendente em nos servir, já se encontrava imensa. E as pessoas que aguardavam, impacientes. Mal sabiam elas, que na próxima poderia ser com elas.

Pegamos nossas coisas, nossas passagens, nos despedimos da moça simpática, enquanto Paulo andava de um lado ao outro esbaforido com as inúmeras reclamações de clientes em sua cabeça e a outra atendente do outro guichê comia uma mosca imaginária, ou outra. 

Detalhe: o barraco que minha mãe não fez, logo foi executado por uma jovem loira revoltada e raivosa. E o Paulo ficou apertado.
A moça loira era mais uma daquelas do "quem deve alface não paga couve". Mais uma cidadã que apela à violência verbal pelo desespero de ser tão desrespeitada.

O desconto para o idoso existe, mas é burlado como a empresa bem entender. Não há quem defenda o seus direitos. Não há alternativas: ou aceita e viaja, ou não aceita e dorme aí na rodoviária. 
O idoso é descartável. 
Aliás, nós somos descartáveis à medida que não produzimos para o país. 
No entanto esta palhaçada de impostos ao longo de toda a nossa vida serve para merda nenhuma né? Aqui nesta Sodoma, o seu dinheiro suado, sofrido é enfiado todo nas "Odebrechs" da vida. E a sua garantia na velhice é de que você está mais próximo da morte.
Neste Brasil, tupiniquim (com orgulho pela história, e vergonha pelo não-progresso), nesta terra do não tem não, o idoso está ferrado e mal pago

É como se ao surgir o primeiro cabelo branco em sua cabeça, o governo já começasse a cavar a sua cova com o seguinte anúncio:


Reservado ao Sr. Ciclano da Silva por seu direito comum, cidadão brasileiro.
por apenas uma vida inteira de R$.



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Semiapagados - Capítulo Um





Presente

Eu havia acordado às seis horas da manhã, e às oito e meia da manhã, Lucas não parava de falar sobre quais coisas Miguel gostaria de colocar em sua malinha. Miguel mal dormira de tanta ansiedade, e no meio da noite foi para o meu quarto pedindo para dormir comigo. Eu estava acabada de cansaço, pois além do meu filho se mexendo a noite toda na cama, meu sono também havia sido roubado por inquietudes desconhecidas.
Às sete da manhã, ainda preparava o café quando vi Miguel pulando em seu padrinho – Lucas – e implorando para que ele ligasse o aparelho de som. Lucas me olhou como se pedisse permissão, e eu apenas assenti com um meio sorriso. Lucas colocou o CD para tocar, e Miguel cantava as músicas apaixonadas do pai, estava eufórico e sorridente. O maior fã de Luan, era, sem dúvida, o seu filho. Apressei Miguel para o café da manhã e sentamos os três: eu, meu filho, meu melhor amigo e também padrinho de Miguel. Miguel conversava animado com Lucas sobre os planos que teria com o pai e eu, embora feliz por meu filho, também estava preocupada.
Às oito da manhã eu já estava vestindo e penteando os cabelos de Miguel. E como dito, às oito e meia da manhã Lucas organizava os últimos itens na malinha do afilhado.

Pronto filho, agora é só aguardar o seu pai chegar.
Já está na hora?
Não filho, seu pai chegará às dez. E agora são oito e quarenta.
Campeão, porque você não assiste aos desenhos? Ajuda a passar rápido, a hora. disse Lucas como se contasse um grande segredo.

Miguel correu para a sala de tevê.

Eu nunca o vi tão ansioso para ver o pai. disse Lucas.
Ele tem sentido muita falta do Luan, e eu estou muito preocupada com isso.
O que você pretende fazer?
Eu não sei Luke, não posso cobrar mais do Luan. É o trabalho dele.
Tenho certeza que assim que você conversar com Luan, ele fará o esforço necessário para o melhor do Miguel.
É, é o que eu espero.
Eu quero te dizer que eu estou muito feliz de estar aqui com vocês dois. E eu sempre farei o que eu puder e não puder, por você e pelo Miguel.
Ah irmão, você sabe que eu também sempre estarei contigo. Mas, embora minha intuição me diga o contrário, eu tenho certeza de que é só uma fase. Miguel está começando a entender as coisas, e essa turnê do Luan foi uma surpresa para ele.

Luke havia ido morar comigo e com Miguel, assim que eu e Luan nos separamos. Nós resolvemos dar um tempo, e ainda não tínhamos nos divorciado legalmente. Luke também havia rompido o namoro com Marcos. Os dois estavam juntos há muito tempo, quando ainda estávamos na faculdade. Eles eram o tipo de casal que eu sempre achei que não fosse dar certo. Tão diferentes um do outro. E foi Marcos chegar nas nossas vidas, para eu sair. Eu amava o Marcos, por ele amar Lucas e aos poucos ele também foi conquistando o meu coração. Depois que Lucas e eu terminamos a faculdade, a minha vida sofreu uma grande reviravolta: eu trabalhava numa clínica da zona sul do Rio de Janeiro, e recebi proposta em Minas Gerais e não pensei duas vezes em me mudar. Cerca de dois meses depois estava eu em minha nova casa em Belo Horizonte. A minha mudança trouxe muitas dificuldades para nós no começo, mais que um amigo, Lucas era um irmão. Morávamos juntos há anos.
Eu comecei morando sozinha na capital, Belo Horizonte, de aluguel. Trabalhava em três clínicas, uma delas eu gerenciava – pois fora a proposta que me fizera ir embora do Rio – e não demorou muito para que eu alcançasse uma posição confortável no trabalho. Antes de conhecer o Luan, eu já havia proposto ao Lucas vir morar comigo, assim que eu financiei meu apartamento. Não tinha ainda pagado nem a terceira parcela do financiamento, e estava quebrada financeiramente. Comecei a trabalhar o dobro para recuperar meu conforto. Mas estava feliz, pela conquista do próprio imóvel. Se não fosse a ajuda dos meus pais, eu também não teria conseguido tão rápido. Lucas e Marcos estavam vivendo um suposto pré casamento na relação e tudo caminhava bem para eles. No dia em que Lucas me telefonou contando da separação, eu não pensei duas vezes antes de dizer, para ele vir embora. E ele veio e comigo estava desde então.

Terminamos de arrumar a cozinha, e enquanto Luke fazia companhia ao Miguel na sala de tevê, eu fui tomar banho. Ao acabar de pentear meu cabelo, eu voltei para a sala e pegava o telefone para ligar ao Luan. O relógio marcava dez horas, e embora eu devesse esperar mais um pouco, já me preocupava com um possível atraso.

Mamãe, quantas horas?
Eu já estou ligando para o seu pai.

Assim que terminei de falar, a campainha do apartamento tocou. Miguel pulava sorrindo e eu o sorri de volta. Fui em direção à porta, e ao abrir lá estava o sorriso mais lindo do mundo. O sorriso tão idêntico ao de Miguel. E os mesmos olhos castanhos, tão profundos e pacíficos mal tiveram tempo de me encarar. Miguel pulou no colo do pai. Sorri com a cena, como eu sempre sorria ao ver os dois. Miguel desceu do colo do pai, e veio me abraçar. Agachei à altura de meu filho, e olhando em seus olhos disse:

Filho, a mamãe quer que você aproveite todos os momentos com o papai, tá bem?
Pode deixar. ele sorria largo e eu o olhava, com os mesmos olhos preocupados da noite anterior.
Eu te amo muito.

Miguel respondeu um “eu também” e novamente nos abraçamos apertado. Luke cumprimentava Luan. E ao me separar de Miguel, finalmente pude cumprimentar meu ex.

Bom dia Mel. ele disse me abraçando.
Bom dia Luan, como vai?
Eu vou bem, e você?
Também. sorri amigável.
Luke, se importa de esperar com Miguel na porta do elevador? Luan perguntou ao Lucas quando viu que Miguel já estava na porta do elevador ansioso.

Algum problema? perguntei.
Você quem vai me dizer. Porque está tão preocupada? Tem alguma coisa acontecendo com o Miguel?
Tem sim Luan, – suspirei cansada Ele tem sentido muito a sua falta. Mal dormiu esta noite, se mexendo na cama, acordou eufórico, colocou o seu CD e está te aguardando desde as seis horas da manhã. E eu não estou te cobrando nada, mas eu me sinto muito culpada por tê-lo feito passar por tudo isto.

Assim que terminei de falar suspirando pesadamente, abaixei a cabeça. Luan pegou meu queixo me fazendo o olhar.

A culpa não é sua. Não seja tão dura com você. O único culpado nisso tudo fui eu, que acabei negligenciando a nossa família. Pode ficar tranquila porque eu também sinto muita falta dele e eu estarei o tempo inteiro com o Miguel. Eu vou aproveitar cada minuto, e ele vai se divertir muito. Eu vou dar o meu melhor, porque eu também sinto falta de…

Antes que ele pudesse terminar de falar, Pedro surgiu ao lado dele me cumprimentando e me beijando.

Oi amor. Bem, você já conhece o Luan – sorri fraquinho Luan, este é o Pedro.
Finalmente eu pude conhecer o papai do Miguel.

Pedro disse cumprimentando Luan, tentando soar simpático e após Luan respondê-lo, meu namorado voltou-se a mim:

Querida, eu trouxe as coisas para fazer seu prato favorito: bife à parmegianna.

Sorri sem graça. Aquele não era o meu prato favorito. Pedro deu as costas em direção à cozinha e voltei a encarar Luan.

Acho que precisa contar para ele que o seu prato favorito é bobó de camarão, ou na falta dele, qualquer tipo de massa. Ou não é mais?
Pode ficar contente em saber que você ainda tem razão sobre isso. eu sorri.
Melissa, no próximo fim de semana é o aniversário da minha mãe. E eu sei que é o seu fim de semana com o Miguel, mas eu queria saber se você se importa se eu levá-lo para o sítio. Mamãe está com saudades dele e de você, e do Luke também. O convite é extensivo.
Eu tinha planejado algumas coisas com Miguel, mas se ele quiser ir não tem problema. Eu passo os outros dois fins de semana seguidos com ele. Tudo bem?
Certo, mas pensa direitinho sobre você e Luke irem também. Mamãe está realmente com saudades.
Eu vou pensar. sorri e ele beijou meu rosto saindo.

Lucas voltou para casa após se despedir de Miguel, e Luan acenou do elevador. Meu ex e meu filho entraram no elevador e eu fechei a porta, com uma angústia diferente no peito.


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SEMIAPAGADOS - CAP. 9

Depois do beijo, eu achei melhor ser direta com o Luan. Eu queria ficar com ele, mas não o queria gastando o latim com poesias e palavras falsas para me levar para o quarto dele. Era muito mais simples e sincero apenas falar o que queria.
Esta minha forma direta de agir, intimida um pouco os homens, mas me poupa tanta dor de cabeça com eles.
E eu tenho que agradecer ao Felipe por isso, porque antes dele, eu não sabia me comunicar com os homens. Então depois de muito quebrar a cara, mudei meu jeito de ser, pelo meu próprio bem.
Luan e eu ficamos de amasso durante o restante da noite, e um pouco antes de irmos embora voltamos a dançar e socializar. Dennis já havia me mandado uma mensagem dizendo que tinha ido para o hotel. Se responsabilizou pela minha volta – ainda que desnecessário – disse que na hora que eu quisesse ir embora para mandar uma mensagem a ele, que ele pediria o carro.
"Ei Mel, não achei a senhorita docinho em canto algum e olha que coincidência: eu também não achei o Luan. Hum... Estranho não? Kkkk. Então eu voltei para o hotel acompanhado. Quando quiser ir embora, me avisa que eu faço questão de pedir o carro para te buscar aí. Não apronta, dê sinal de vida!"
"Você deixou a sua, docinho por uma loira peituda, e adivinha só quem teve que cuidar de mim? Não se preocupe, quando eu chegar em casa amanhã de manhã te aviso Den! Use camisinha!"
Respondi e assim que Luan e eu entrávamos no carro dele meu celular apitou, com uma nova mensagem do Dennis.
"Amanhã de manhã? Quem tá levando esse Mel pra casa? Hahaha"
"Não achei que fosse responder agora, a loira fugiu de você?
"Estamos subindo pro quarto agora, mas fala logo quem é o safado para eu agarrar a mina aqui logo!"
"Como você é fofoqueiro! HAHAHA, se concentra na sua missão aí!"
"MELISSA!"
"O Luan, né Dennis! Quem mais seria?"
"Não acredito! Ele não faz teu tipo, ele é muito romântico! Ele vai se apaixonar, coitadinho..."
"Tchau Dennis!"
Depois não visualizei nenhuma mensagem do Dennis, e contei ao Luan que ele havia ido embora com a loira.
— Vou avisar a ele, pra ficar tranquilo que eu mesmo te levarei para casa amanhã – ele disse assim que comentei a preocupação do Dennis comigo.
Cheguei ao hotel onde Luan estava hospedado, e o quarto era magnífico. Antes que eu pudesse tirar os meus sapatos, Luan me abraçou por trás e beijou meu pescoço. Joguei minha bolsa em um canto, retirei os sapatos, e virei de frente ao Luan passando os braços por sua nuca e o beijando. Ele retirou seu blazer, jogando-o longe também, e me beijou falando em seguida:
— Tenho uma condição.
— O que? – o olhei em dúvida.
— Eu falei sério quando disse que não queria que você fosse embora sem se despedir amanhã.
Sorri não levando ele a sério e voltei a beijá-lo. Luan novamente nos separou e disse:
— É sério Mel, nada de sair de fininho amanhã. Tudo bem por você?
— Tudo bem, não é uma condição tão grave assim.
Voltei a beijá-lo. Ele mexia comigo e eu não sabia os motivos.
Ele era lindo, mas até ali não tinha nada de diferente nele em relação a outros caras com quem eu fiquei, exceto por sua fama, que sinceramente não importava para mim.
E depois daquele papo de não sair de fininho no dia seguinte, só conseguira me lembrar da mensagem do Dennis: "Ele é muito romântico, ele vai se apaixonar...". Temia por aquilo.
A última coisa que eu precisava era me apaixonar por um cara como ele, e muito menos que ele se apaixonasse por mim. Mas era muita petulância pensar aquilo, então resolvi acreditar que ele não desejava que eu saísse de fininho, por precaução de marketing. Afinal, uma noite com uma garota desconhecida poderia render bons ou maus tabloides para ele, se não tivesse certo cuidado.
E por mais que aquela não fosse a minha intenção, eu realmente pretendia apagar aquele acontecimento, eu não poderia culpar o Luan por pensar outra coisa.

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SEMIAPAGADOS - CAP. 8

Após terminar de cantar voltei ao camarote e fui procurar Melissa. Estava preocupado se algum outro cara teria a encontrado, e se havia perdido a atenção dela para outro.
Eu andava olhando para os grupos de pessoas à procura dela, quando Titi Müller apareceu em minha frente me assustando. Cumprimentei ela, que me parabenizou pela apresentação. Ela estava um pouco alegre por efeito do álcool, eu supus, e sorria muito. Eu cumprimentei a câmera do programa e Titi deu um grito:
— Olha ela!
Ela se referia à Melissa, que passou perto de nós, sem nos notar. Ela foi até Melissa, me puxando pela mão. Eu queria agradecer à Titi, por aquilo.
— Luan! Nós conversamos com a sua amiga Melissa Diaz, que é muito, muito simpática por sinal – ela abraçou Melissa de lado — Nós já somos amigas, não é Mel?
Melissa assentiu sorrindo um pouco sem graça.
— Luan, ela disse que vocês se conheceram hoje e que vocês não estão de affair. Você confirma isso?
Eu estava ansioso para deixar claro à Melissa que aquela noite, eu queria estar com ela e somente com ela, então prevendo não correr o risco de tomar um toco na frente das câmeras, decidi ser um pouco mais ousado nas respostas:
— Sim, nos conhecemos hoje e não estamos de affair ainda, mas eu estou muito interessado na Melissa. – Titi deu um urro de zombaria, olhando para Melissa, e Mel sorriu sapeca.
— Melissa, e aí? – Titi perguntou.
— A minha promessa continua de pé. Eu falei que se ele me paquerasse eu contaria a vocês.
— Mas ele está te paquerando, gata! E aí, rola um beijinho ou não? – Titi falou e eu peguei a mão de Melissa sorrindo, sem jeito.
— Ele que é a celebridade, se eu beijá-lo ele pode se sentir exposto. Fica a critério dele.
— Eu gosto disso! – disse a Titi sorridente olhando para mim.
E então delicadamente, segurei o rosto de Melissa com as duas mãos, e sussurrei ao ouvido dela: "com toda a licença, senhorita", e beijei seus lábios de uma maneira calma. Titi comemorou com comentários e dizendo para a câmera "Luan Santana tem uma affair no Vila Mix, sim!" ela afastou a filmagem de nós dois. Quando eu e Melissa separamos o beijo, sorrimos para Titi que deu uma piscadinha cúmplice para nós.
Guiei Melissa até um canto afastado e mais escuro do camarote, e nos sentamos numa poltrona dali para conversar. Continuamos a falar sobre os mesmos assuntos que tínhamos antes de eu ir para o palco.
Então beijei novamente Melissa. Um beijo tão harmonioso, que parecia que nossas bocas foram feitas uma para a outra.
— Eu estou extremamente encantado por você hoje. – eu disse entre os beijos.
Melissa sorriu e então nos separou. Olhou voraz em meus olhos e disse:
— Luan, eu não sou muito de rodeios tá? Não precisa gastar poesias ou falar coisas bonitas para me levar pra sua cama. Eu sou o tipo de pessoa que se quiser dormir com você sem compromisso, vai fazer isso e sair antes que você acorde no dia seguinte. E se eu quiser ficar de chameguinho com você, eu vou acordar e deixar meu telefone. E se eu não tiver a fim, eu te dispenso antes mesmo de dar tempo dessa noite acabar.
Eu fiquei boquiaberto com as palavras dela. Jamais imaginaria ouvir tudo aquilo.
— Pode pensar o que quiser, mas eu só tenho uma pergunta: o que você quer é passar a noite comigo?
Continuei calado, encarando os olhos dela, e acariciando seu rosto. Ainda estava digerindo tudo o que ela disse. Eu levando horas para falar o mínimo com ela, e ela conseguindo ser direta daquele jeito?
— Luan... Quais as suas intenções comigo hoje? – perguntou de novo, despertando-me do transe.
— Eu quero dormir com você sim, mas não quero que você saia sem despedir amanhã.
Ela sorriu, em um meio sorriso sedutor.
E eu só conseguia pensar em uma coisa: eu caí na teia de uma viúva-negra?

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SEMIAPAGADOS - CAP. 7

Luan tocou minha nuca beijando de volta o meu rosto e senti um arrepio percorrer meu corpo. Assim que ele saiu, eu fui andando até o Dennis que estava conversando com os mesmos colegas que havíamos feito no início da festa. A loira estava com ele, e ele me apresentou a ela. Assim como ele foi protetor comigo em relação ao Luan, pensei em ser com ele em relação à loira. Mas acho que quem deveria ser protegido ali, não era o Dennis e sim, a garota. Então decidi não falar nada perto dele. Afinal, ele era meu amigo. Depois quando ele não estava por perto eu sondei a loira:
— Qual sua intenção com o Dennis, uma noite ou duas?
Ela me olhou desentendida e apenas respondeu:
— Duas.
— Então tá, olha ele é meu amigo, e eu já vou te avisando que o cara é muito legal. Mas não cria expectativas tá? Eu não quero que você fique mal com ele, e nem ele com você. Só... Vai com calma. Uma noite por enquanto é o suficiente.
Ela sorriu e me agradeceu pelo aviso.
Quando ele voltou, nos olhou e sobre uma encarada duvidosa para mim, nos disse: "hum... já estão amiguinhas, é?".
Dennis sabia que eu teria dito algo à garota, mas estava tranquilo. Eu saí para ir falar com outras pessoas que me chamaram, e no meio do caminho, a repórter do Multishow que estava no camarote desde o início me parou.
— Você estava por aí conversando com o Luan Santana, vocês estão juntos? – me perguntou diretamente.
— Nós nos conhecemos hoje, aqui no evento. – eu falei tentando fugir de qualquer resposta que pudesse comprometer tanto ele quanto eu.
O cara que havia ido falar com ele para descer ao palco, e que me paquerava indiscreto, havia visto a jornalista comigo e ficou observando curioso nós duas.
— Qual o seu nome? – a mulher me perguntou.
— Melissa Diaz.
— E vocês se conheceram aqui hoje, e o que você achou do Luan?
— Ele é um fofo, muito simpático – respondi entendendo a armadilha da mulher e quais respostas ela queria, então fui mais esperta ao responder — Eu vim com um amigo, e nós acabamos sendo apresentados através dele.
— Então você e o Luan não estão saindo, ou nada do tipo?
— Não, não, como eu disse nós acabamos de nos conhecer.
— Mas ele não deu nenhuma investida em você? Eu notei como ele te olhava, pode falar amiga, estamos todas no mesmo barco.
Ri discreta e simpática, para Titi Müller, a jornalista – que parecia um pouco altinha – e respondi:
— Prometo que, se ele me paquerar em algum momento, eu volto aqui pra te contar tá?
— Combinado! – ela apertou a minha mão e me abraçou — Você é muito simpática Melissa, tomara que vocês se beijem!
Saí sorrindo de perto da jornalista com o, câmera. O homem que havia falado com Luan ainda me olhava curioso. Antes que eu chegasse aos meus amigos, ele se aproximou de mim.
— Boa noite!
— Olá! – eu disse simpática a ele.
— Eu sou Rick Bonadio, empresário do Luan. – ele me estendeu uma mão e nos cumprimentamos com beijinhos no rosto.
— Ah, isso explica a sua cara de curiosidade, eu sou Melissa Diaz.
— É, pois é, eu nunca vi você com ele...
— Nos conhecemos hoje.
— E você é do meio? – o empresário perguntou obviamente curioso em saber quem era a "ninguém" que conversava com Luan Santana.
— Não, eu sou fisioterapeuta. Eu sou convidada, apenas. – eu respondi com uma expressão humilde.
— Ah que legal! Eu já quis ser fisioterapeuta, mas eu sou melhor com música.
— Posso garantir, como fã, que é sim.
— Você é muito simpática, está explicado como Luan te encontrou, além de seguir a sua beleza notória.
— Ah obrigada, que gentil – respondi tímida — E na verdade, nós fomos apresentados pelo Dennis. Somos amigos.
— Ah bacana! Dennis é um cara divertido!
— Sim, muito, olha Rick, eu tenho que ir. Meus colegas me chamam ali – o pessoal que havia me chamado, continuava me chamando e eu já estava a fim de sair daquela conversa, e antes que o homem não soubesse como perguntar eu já fui respondendo: — Olha, aquela repórter fez umas perguntas sobre o Luan e eu, eu apenas disse que éramos amigos que acabaram de se conhecer. Se ela perguntar alguma coisa...
— AH! Não, claro! Fique tranquila, até mais. – ele respondeu com um sorriso largo e saiu.
Fiquei imaginando que estes empresários às vezes são meio sanguessugas. Me reuni aos meus colegas, e assisti a apresentação de Luan ao lado deles.

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SEMIAPAGADOS - CAP. 6


Eu havia acabado de chegar ao camarote, e encontrei alguns parceiros. Peguei uma bebida e fiquei conversando com eles, perguntei a alguns se já haviam se apresentado. Eu entraria depois do Marcos e Belutti. E ainda faltava bastante tempo. Decidi não beber muito antes do show, eu apresentaria duas músicas e depois estaria livre.
Não pretendia ficar na festa por muito tempo. Algumas garotas que estavam no local, conhecidas, outras acompanhantes de alguns amigos vieram se apresentar ou falar comigo. Estava em uma rodinha de conhecidos e, desconhecidos conversando, quando vi o Dennis passar de relance. Não tínhamos gravado nada juntos, mas eu planejava aquilo há algum tempo. Ele era um dos DJ que eu mais escutava, e embora o funk não fosse a minha praia, eu dava o braço a torcer no trabalho dele.
Pedi licença ao pessoal e fui até ele. Nós éramos amigos, havíamos estado nas mesmas festas algumas vezes e ele já havia gravado até com outros parceiros do sertanejo. E eu sempre dizia quando o via "vamos combinar alguma coisa", mas acabava que eu mesmo nunca o procurava. Então ele me abraçou e fomos para uma parte mais afastada da mesa de comidas e conversamos.
Zé Felipe surgiu no camarote, acompanhado com sua nova namorada ou ficante. Nunca sabíamos quem ia surgir com o filho do Leonardo. E ele veio falar conosco. Não demorou muito para Dennis sair. Eu fiquei acompanhando para onde ele iria.
E então a vi.
Dennis parou ao lado de uma garota de vestido azul-marinho colado ao corpo, com um sapato roxo que valorizava ainda mais seu visual.
Ela tinha as pernas douradas mais lindas que eu já havia visto. Ele passou a mão pela cintura da garota e beijou seu rosto. Por um tempo fiquei observando os dois, até notar que eles não estavam juntos. Mas ele conhecia a garota. Perdi horas meus olhares furtivos sobre ela, e ninguém havia se aproximado ainda e eu não entendia a razão.
Será que ela teria mau hálito? Qual o problema, para uma mulher incrível como ela não ter nenhum cara consigo?
Ela dançava animada, e conversava simpática com todo mundo. E eu voltei a ser um garoto de quinze anos, tímido e incapaz de chegar naquela mulher. Ela não iria me esnobar se eu chegasse para cumprimentá-la não é?
Dennis se aproximou de mim, sem que eu percebesse.
— Estou vendo você secando a Mel, tá?
— Pô cara, ela está com você? Foi mal... Mas ela é linda.
— É, ela é minha amiga. Porque não vai falar com ela? Ela é muito legal. Eu diria até que deve ser a garota mais legal daqui.
— E porque ninguém está com ela?
— Tem um monte de gente com ela, a Mel socializa muito bem. Não vê? – ele disse óbvio.
— Ela tem namorado?
— Não.
— Então porque nenhum cara está com ela?
— Boa pergunta. Mas quer saber? Se você não for falar com ela, logo alguém vai aparecer.
— Ela é um pouco, intimidadora. – eu disse para o Dennis justificando minha falta de coragem e ele riu.
— Espera aqui. – disse se afastando e piscando para mim.
— Não acredito nisso! – ele voltou a me olhar, parando de ir até a mulher e falou ainda rindo da minha atitude.
Não demorou muito e ele voltou trazendo a garota, por sua mão.
A cada passo que ela dava se aproximando, eu ia ficando mais embabacado.
Decidi me esconder um pouco abaixo da luz para me recuperar da minha cara de idiota, assim quando ela se aproximasse não veria o meu queixo caído.
E ela era ainda melhor de perto.
Ela foi a primeira a falar quando estávamos frente a frente. Pronunciou meu nome numa voz melodiosa, e linda. Minha cabeça foi às nuvens com o som de meu nome pronunciado por ela.
Dennis nos apresentou, e como quando o cérebro congela após tomar um sorvete rápido demais, o meu havia perdido os sentidos.
Aquela foi a pior coisa que eu poderia ter dito. Fazer um trocadilho com o nome da garota, tão idiota. Abracei-a para que ela não visse minha estúpida cara, e pensando em como recuperar a primeira impressão me afastei voltando a falar com ela.
— É um prazer te conhecer, você me chamou bastante atenção. – eu disse
— Se você não estivesse escondidinho aqui, eu diria que também chamou a minha – ela falou com um sorriso simpático e me olhando dos pés a cabeça — Você está muito bonito!
— Eu aprendi a me vestir depois de um tempo, o Dennis me conheceu nas épocas iniciais de Vila Mix, não é? – eu definitivamente estava impactado e totalmente sem assunto com aquela mulher.
Ela era intimidadora, sedutora, mas, ao mesmo tempo, soava muito acessível à conversa e aproximação. Eu não sabia como agir com ela, e fiquei pensando se não seria aquele o motivo de nenhum cara ter se aproximado dela.
— Com certeza a melhor coisa que ele fez foi abolir o xadrez. – Dennis encarava uma loira enquanto falava conosco.
— E aí, como você conheceu o Dennis? – perguntei.
Eu estava mesmo curioso para saber, de onde o Dennis tirou aquela mulher, e por qual motivo a boca dela estava tão disponível daquele jeito.
Dennis não era o tipo de cara que deixava uma mulher daquelas passar.
— Eu estava numa boate que ele tocava, e ao acabar de se apresentar ele esbarrou em mim e derrubou sua vodca no meu vestido.
Quando Melissa terminou de contar, eu imaginei que Dennis já havia estado com ela, mas ainda não entendia por quê havia deixado-a livre daquele jeito. Dei um meio sorriso sacana para Dennis, e tanto ele quanto Melissa entenderam meus pensamentos.
— Foi um acidente de verdade, mas nos rendeu uma amizade maravilhosa.
— Não, não sorri assim. Dennis e eu nunca ficamos.
E assim que Mel respondeu, eu olhei para Dennis em dúvida. Eu realmente não estava entendendo.
— Eu não sou cara de compromisso, a Mel é muito legal, nos demos muito bem e eu preferi manter a amizade com ela do que, correr o risco de magoá-la.
— Aham – Melissa zombava da desculpa dada por Dennis, e ele apenas riu continuando a falar.
— Digamos que, a Melissa é uma mulher encantadora. Ela é decidida e eu enxerguei um potencial fracasso em me apaixonar por ela. Então ela foi bem clara quanto ao "Dennis, eu não estou interessada em nada sério, não quero que você fique mal depois".
Dennis imitou a voz de Melissa, que nem de longe chegaria próximo ao tom tão sedutor e melodioso que eu escutava. E ele não parava de olhar para a loira.
— Dennis. Vai logo falar com a loira! – Melissa o advertiu como se, assim como eu, não aguentasse mais observar aquela troca de olhares entre o rapaz e a loira do outro lado.
— Bem, com licença Luan. A Melissa será uma companhia melhor que eu, te garanto. – ele se virou, mas voltou a mim, sendo taxativo: — E não zoa com ela, porque eu posso até ser seu amigo, mas eu sou mais amigo dela.
Apenas levantei as minhas mãos demonstrando que eu era inocente de qualquer coisa. E assim ele foi paquerar a loira.
Depois que Dennis saiu eu não conseguia prestar atenção em mais nada que não fosse Melissa.
Ela sorria tão lindo, que o meu próprio sorriso era um contágio do dela.
Eu não sabia se ela estava tão interessada quanto eu, mas eu estava realmente de quatro por ela.
E mal poderia culpar o álcool, primeiro porque ela realmente era um pedaço de mau caminho. E outra porque ainda não havia bebido o suficiente para isso.
Trocamos olhares, sorrisos, meias palavras, dançamos e quando fomos ao balcão de bebidas pegar outros drinques o telefone dela tocou.
— Oi Mário!
Ela atendeu falando alto por causa das conversas altas do camarote e a música do show. Ela fazia uma cara de desinteresse por aquela ligação, assim como umas caretas que mostravam que ela não conseguia ouvir nada.
— Mário, olha desculpa, mas eu estou no meio de uma festa cara, eu não consigo te entender direito. Te ligo depois, se cuida!
Ela desligou e voltou a sorrir para mim, enquanto pegava seu drinque da minha mão. Bebeu e voltou a olhar para onde o show ocorria. Dançava discreta e sorrindo, até que eu perguntei para tirar qualquer dúvida:
— Namorado?
— Ex. – ela sorriu convencida como se esperasse a minha pergunta.
— Tem muito tempo?
— Vejamos... – contou os dedos de uma mão — Cinco anos.
Um relacionamento de cinco anos ainda poderia se reaver. E embora ela não tenha dado tanta importância ao telefonema pensei que talvez, competir com o tal Felipe não fosse dar certo.
— Que terminamos.
Então ela disse que havia terminado há cinco anos. Eu me espantei. Duas coisas se passaram em minha cabeça: a primeira é que Melissa não deveria ser uma mulher de sair com muitos caras, ou namorar sério, porque depois de cinco anos aquele cara ainda estava procurando ela...
Ou talvez ele fosse um dos muitos ex-namorados que ainda a procuravam.
Ou apenas um ex-namorado muito apaixonado, de muito tempo.
E a segunda coisa que eu pensava era o porquê de eu estar tão interessado em saber quantos caras aquela mulher teria, ou em como poderia ser difícil competir com eles.
Competir o quê? Eu só queria uma noite com aquela mulher.
— E ele ainda corre atrás de você?
— Não, é que nós meio que, nos tornamos amigos. Então ele mantém o contato, mas não nos vemos e nos falamos mesmo há muito tempo.
— Entendi.
Sorri abertamente para ela. E antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, Rick, o meu empresário que estava curtindo o camarote tanto quanto eu e eu nem ao menos havia notado chegar, apareceu ao meu lado dizendo que estava na hora de me encaminhar ao palco. Ele sorriu para Melissa, ela deu a ele um aceno meigo de cabeça e sorriu.
Levantei me direcionando a falar com Rick, e ele não parava de olhar Melissa.
— Me diz que você não está com ela. – ele falou.
— Eu vou descer, cantar e subir rápido e espero que possa observar se algum cara vai se aproximar dela. – eu disse baixinho para ele.
— Eu posso ficar com ela se quiser. Me diz que você não está com ela. – ele repetiu ainda sorrindo para Melissa e sem tirar os olhos dela.
Eu notei que Melissa já estava estranhando a reação de Rick, dei uma leve batida no peito de Rick o acordando. Revirei os olhos e falei para ele com todas as letras "eu estou com ela sim". Ele entortou a boca em reprovação, depois sorriu e me desejou boa sorte no palco. Cumprimentou Melissa em despedida e saiu dançando até um grupo de pessoas que pareciam o aguardar.
— Vou descer para cantar. – eu disse aos ouvidos dela.
— Ah, sim claro! Eu vou assistir e cantar muito aqui de cima. – ela falou animada, beijando o meu rosto.
Minha pele arrepiou com o toque dos lábios dela em meu rosto, afaguei seus cabelos pela nuca e devolvi o beijo em seu rosto. Me retirei ao backstage do palco, para me preparar para cantar.

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Plágio é Crime

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