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SEMIAPAGADOS - CAP. 6


Eu havia acabado de chegar ao camarote, e encontrei alguns parceiros. Peguei uma bebida e fiquei conversando com eles, perguntei a alguns se já haviam se apresentado. Eu entraria depois do Marcos e Belutti. E ainda faltava bastante tempo. Decidi não beber muito antes do show, eu apresentaria duas músicas e depois estaria livre.
Não pretendia ficar na festa por muito tempo. Algumas garotas que estavam no local, conhecidas, outras acompanhantes de alguns amigos vieram se apresentar ou falar comigo. Estava em uma rodinha de conhecidos e, desconhecidos conversando, quando vi o Dennis passar de relance. Não tínhamos gravado nada juntos, mas eu planejava aquilo há algum tempo. Ele era um dos DJ que eu mais escutava, e embora o funk não fosse a minha praia, eu dava o braço a torcer no trabalho dele.
Pedi licença ao pessoal e fui até ele. Nós éramos amigos, havíamos estado nas mesmas festas algumas vezes e ele já havia gravado até com outros parceiros do sertanejo. E eu sempre dizia quando o via "vamos combinar alguma coisa", mas acabava que eu mesmo nunca o procurava. Então ele me abraçou e fomos para uma parte mais afastada da mesa de comidas e conversamos.
Zé Felipe surgiu no camarote, acompanhado com sua nova namorada ou ficante. Nunca sabíamos quem ia surgir com o filho do Leonardo. E ele veio falar conosco. Não demorou muito para Dennis sair. Eu fiquei acompanhando para onde ele iria.
E então a vi.
Dennis parou ao lado de uma garota de vestido azul-marinho colado ao corpo, com um sapato roxo que valorizava ainda mais seu visual.
Ela tinha as pernas douradas mais lindas que eu já havia visto. Ele passou a mão pela cintura da garota e beijou seu rosto. Por um tempo fiquei observando os dois, até notar que eles não estavam juntos. Mas ele conhecia a garota. Perdi horas meus olhares furtivos sobre ela, e ninguém havia se aproximado ainda e eu não entendia a razão.
Será que ela teria mau hálito? Qual o problema, para uma mulher incrível como ela não ter nenhum cara consigo?
Ela dançava animada, e conversava simpática com todo mundo. E eu voltei a ser um garoto de quinze anos, tímido e incapaz de chegar naquela mulher. Ela não iria me esnobar se eu chegasse para cumprimentá-la não é?
Dennis se aproximou de mim, sem que eu percebesse.
— Estou vendo você secando a Mel, tá?
— Pô cara, ela está com você? Foi mal... Mas ela é linda.
— É, ela é minha amiga. Porque não vai falar com ela? Ela é muito legal. Eu diria até que deve ser a garota mais legal daqui.
— E porque ninguém está com ela?
— Tem um monte de gente com ela, a Mel socializa muito bem. Não vê? – ele disse óbvio.
— Ela tem namorado?
— Não.
— Então porque nenhum cara está com ela?
— Boa pergunta. Mas quer saber? Se você não for falar com ela, logo alguém vai aparecer.
— Ela é um pouco, intimidadora. – eu disse para o Dennis justificando minha falta de coragem e ele riu.
— Espera aqui. – disse se afastando e piscando para mim.
— Não acredito nisso! – ele voltou a me olhar, parando de ir até a mulher e falou ainda rindo da minha atitude.
Não demorou muito e ele voltou trazendo a garota, por sua mão.
A cada passo que ela dava se aproximando, eu ia ficando mais embabacado.
Decidi me esconder um pouco abaixo da luz para me recuperar da minha cara de idiota, assim quando ela se aproximasse não veria o meu queixo caído.
E ela era ainda melhor de perto.
Ela foi a primeira a falar quando estávamos frente a frente. Pronunciou meu nome numa voz melodiosa, e linda. Minha cabeça foi às nuvens com o som de meu nome pronunciado por ela.
Dennis nos apresentou, e como quando o cérebro congela após tomar um sorvete rápido demais, o meu havia perdido os sentidos.
Aquela foi a pior coisa que eu poderia ter dito. Fazer um trocadilho com o nome da garota, tão idiota. Abracei-a para que ela não visse minha estúpida cara, e pensando em como recuperar a primeira impressão me afastei voltando a falar com ela.
— É um prazer te conhecer, você me chamou bastante atenção. – eu disse
— Se você não estivesse escondidinho aqui, eu diria que também chamou a minha – ela falou com um sorriso simpático e me olhando dos pés a cabeça — Você está muito bonito!
— Eu aprendi a me vestir depois de um tempo, o Dennis me conheceu nas épocas iniciais de Vila Mix, não é? – eu definitivamente estava impactado e totalmente sem assunto com aquela mulher.
Ela era intimidadora, sedutora, mas, ao mesmo tempo, soava muito acessível à conversa e aproximação. Eu não sabia como agir com ela, e fiquei pensando se não seria aquele o motivo de nenhum cara ter se aproximado dela.
— Com certeza a melhor coisa que ele fez foi abolir o xadrez. – Dennis encarava uma loira enquanto falava conosco.
— E aí, como você conheceu o Dennis? – perguntei.
Eu estava mesmo curioso para saber, de onde o Dennis tirou aquela mulher, e por qual motivo a boca dela estava tão disponível daquele jeito.
Dennis não era o tipo de cara que deixava uma mulher daquelas passar.
— Eu estava numa boate que ele tocava, e ao acabar de se apresentar ele esbarrou em mim e derrubou sua vodca no meu vestido.
Quando Melissa terminou de contar, eu imaginei que Dennis já havia estado com ela, mas ainda não entendia por quê havia deixado-a livre daquele jeito. Dei um meio sorriso sacana para Dennis, e tanto ele quanto Melissa entenderam meus pensamentos.
— Foi um acidente de verdade, mas nos rendeu uma amizade maravilhosa.
— Não, não sorri assim. Dennis e eu nunca ficamos.
E assim que Mel respondeu, eu olhei para Dennis em dúvida. Eu realmente não estava entendendo.
— Eu não sou cara de compromisso, a Mel é muito legal, nos demos muito bem e eu preferi manter a amizade com ela do que, correr o risco de magoá-la.
— Aham – Melissa zombava da desculpa dada por Dennis, e ele apenas riu continuando a falar.
— Digamos que, a Melissa é uma mulher encantadora. Ela é decidida e eu enxerguei um potencial fracasso em me apaixonar por ela. Então ela foi bem clara quanto ao "Dennis, eu não estou interessada em nada sério, não quero que você fique mal depois".
Dennis imitou a voz de Melissa, que nem de longe chegaria próximo ao tom tão sedutor e melodioso que eu escutava. E ele não parava de olhar para a loira.
— Dennis. Vai logo falar com a loira! – Melissa o advertiu como se, assim como eu, não aguentasse mais observar aquela troca de olhares entre o rapaz e a loira do outro lado.
— Bem, com licença Luan. A Melissa será uma companhia melhor que eu, te garanto. – ele se virou, mas voltou a mim, sendo taxativo: — E não zoa com ela, porque eu posso até ser seu amigo, mas eu sou mais amigo dela.
Apenas levantei as minhas mãos demonstrando que eu era inocente de qualquer coisa. E assim ele foi paquerar a loira.
Depois que Dennis saiu eu não conseguia prestar atenção em mais nada que não fosse Melissa.
Ela sorria tão lindo, que o meu próprio sorriso era um contágio do dela.
Eu não sabia se ela estava tão interessada quanto eu, mas eu estava realmente de quatro por ela.
E mal poderia culpar o álcool, primeiro porque ela realmente era um pedaço de mau caminho. E outra porque ainda não havia bebido o suficiente para isso.
Trocamos olhares, sorrisos, meias palavras, dançamos e quando fomos ao balcão de bebidas pegar outros drinques o telefone dela tocou.
— Oi Mário!
Ela atendeu falando alto por causa das conversas altas do camarote e a música do show. Ela fazia uma cara de desinteresse por aquela ligação, assim como umas caretas que mostravam que ela não conseguia ouvir nada.
— Mário, olha desculpa, mas eu estou no meio de uma festa cara, eu não consigo te entender direito. Te ligo depois, se cuida!
Ela desligou e voltou a sorrir para mim, enquanto pegava seu drinque da minha mão. Bebeu e voltou a olhar para onde o show ocorria. Dançava discreta e sorrindo, até que eu perguntei para tirar qualquer dúvida:
— Namorado?
— Ex. – ela sorriu convencida como se esperasse a minha pergunta.
— Tem muito tempo?
— Vejamos... – contou os dedos de uma mão — Cinco anos.
Um relacionamento de cinco anos ainda poderia se reaver. E embora ela não tenha dado tanta importância ao telefonema pensei que talvez, competir com o tal Felipe não fosse dar certo.
— Que terminamos.
Então ela disse que havia terminado há cinco anos. Eu me espantei. Duas coisas se passaram em minha cabeça: a primeira é que Melissa não deveria ser uma mulher de sair com muitos caras, ou namorar sério, porque depois de cinco anos aquele cara ainda estava procurando ela...
Ou talvez ele fosse um dos muitos ex-namorados que ainda a procuravam.
Ou apenas um ex-namorado muito apaixonado, de muito tempo.
E a segunda coisa que eu pensava era o porquê de eu estar tão interessado em saber quantos caras aquela mulher teria, ou em como poderia ser difícil competir com eles.
Competir o quê? Eu só queria uma noite com aquela mulher.
— E ele ainda corre atrás de você?
— Não, é que nós meio que, nos tornamos amigos. Então ele mantém o contato, mas não nos vemos e nos falamos mesmo há muito tempo.
— Entendi.
Sorri abertamente para ela. E antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, Rick, o meu empresário que estava curtindo o camarote tanto quanto eu e eu nem ao menos havia notado chegar, apareceu ao meu lado dizendo que estava na hora de me encaminhar ao palco. Ele sorriu para Melissa, ela deu a ele um aceno meigo de cabeça e sorriu.
Levantei me direcionando a falar com Rick, e ele não parava de olhar Melissa.
— Me diz que você não está com ela. – ele falou.
— Eu vou descer, cantar e subir rápido e espero que possa observar se algum cara vai se aproximar dela. – eu disse baixinho para ele.
— Eu posso ficar com ela se quiser. Me diz que você não está com ela. – ele repetiu ainda sorrindo para Melissa e sem tirar os olhos dela.
Eu notei que Melissa já estava estranhando a reação de Rick, dei uma leve batida no peito de Rick o acordando. Revirei os olhos e falei para ele com todas as letras "eu estou com ela sim". Ele entortou a boca em reprovação, depois sorriu e me desejou boa sorte no palco. Cumprimentou Melissa em despedida e saiu dançando até um grupo de pessoas que pareciam o aguardar.
— Vou descer para cantar. – eu disse aos ouvidos dela.
— Ah, sim claro! Eu vou assistir e cantar muito aqui de cima. – ela falou animada, beijando o meu rosto.
Minha pele arrepiou com o toque dos lábios dela em meu rosto, afaguei seus cabelos pela nuca e devolvi o beijo em seu rosto. Me retirei ao backstage do palco, para me preparar para cantar.

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