Pular para o conteúdo principal

SEMIAPAGADOS - CAP. 3


Lucas apenas assentiu sorrindo.
Desci o elevador com Miguel sorrindo e falando todos os planos que havia feito. Eu estava muito feliz por estar com meu filho após tanto tempo de viagem. Entretanto, vê-la preocupada com nosso filho daquele jeito, aparentemente cansada, me deixou preocupado com ela também. Vê-la de novo trouxe o mesmo sentimento misto de alegria e tristeza, que eu sentia desde a nossa separação.
Perguntei ao Miguel o que ele gostaria de fazer primeiro antes de irmos para o show, e ao me responder "qualquer coisa com você, papai", eu pude perceber que a falta que eu fiz ao meu filho era muito maior do que eu imaginava. A culpa que Melissa sentia, não poderia ser maior que a minha.
No carro, a caminho da minha casa, Miguel adormeceu. A mãe havia dito que ele não dormiu nada na noite anterior por efeito de ansiedade. E eu também havia dormido um pouco mal, eu também estava ansioso para rever o meu filho. Chegamos em casa e levei Miguel no colo até o seu quarto.
Aquela ainda era a nossa casa, e tudo dentro dela me lembrava Mel.
Nós havíamos nos separado há um ano.
E em momento algum eu quis o divórcio, e Melissa também decidira esperar. Se ela chegasse, a qualquer momento me pedir o divórcio, eu negaria. Embora estivéssemos afastados por um ano, eu não aceitava a ideia de oficializar o fim da nossa história. Aquele Pedro... Eu não poderia imaginar que já teria outro na vida dela. Ele era uma ameaça que, dia e noite, eu torcia para não acontecer.
Quando Melissa decidiu partir com Miguel, eu quis que ela ficasse na nossa casa, mas ela decidiu que seria melhor voltar para o seu apartamento. Eu havia comprado aquela casa para ela, por ela, com ela, e jamais imaginaria viver ali sem a Melissa ou com outra pessoa. Mas, Mel é o tipo de pessoa que ao romper os laços não guarda as fitas. Não é do tipo que rasga as fotografias, mas não as deixa expostas também.
E ela não havia mudado muito depois da nossa separação. Continuava doce, meiga e mesmo eu acreditando que ela passaria a me odiar ou evitar o contato comigo, ela não o fez. Provando-me a cada dia de distância que, o seu único motivo para se afastar de mim fora a minha culpa, minha negligência com a família, e a sua intuição. Melissa sempre seguia a sua intuição. Por alguma razão, sua intuição dizia que ela deveria se afastar, e não voltou atrás com sua decisão. Eu batalhei para que ficássemos juntos, mas não o suficiente. Naquela época, aceitar as condições que Melissa impunha a nós soava como abandonar a minha carreira. E eu jamais aceitaria, e mal acreditava que a mesma mulher que me conquistou e conhecia toda a minha paixão pelo trabalho estaria me propondo aquilo.
Os primeiros meses de distância foram baseados nas discussões sobre Miguel. Nenhum dos dois queria recorrer à decisões judiciais, pois nos levaria ao litígio e não havia necessidade daquilo. Mel e eu sempre resolvemos todos os nossos problemas à base de diálogos, nunca levantamos o tom de voz um para o outro, e mesmo na nossa briga com os ânimos exaltados.
À noite, eu teria o último show da minha turnê.
Eu havia voltado aquela manhã e prometido ir buscar o Miguel. Ele iria comigo à Arena Minas, para assistir o show que encerrava aquela turnê e após eu teria todo o tempo para o meu filho. Meu empresário, assessores e algumas pessoas da equipe passariam na minha casa à tarde para alguns detalhes finais.
Era o primeiro show que o meu filho assistiria. Quando bebê, Melissa o levou a algumas apresentações, mas ela é uma mãe muito zelosa e só permitiria Miguel ir a um show, verdadeiramente, quando ele fosse um pouco maior. Aquilo explicava a euforia dele durante aquele fim de semana, e por mais que ele estivesse ansioso para executar todos os planos que havia feito, eu não queria acordá-lo. Miguel precisava daquele descanso e eu também.
Berta era a empregada da casa, e depois que nos separamos ela não queria continuar a trabalhar na casa sem que sua "adorável patroa" – como ela dizia, pelo enorme apreço que tinha à Melissa – estivesse ali. Pedi também pelo apreço que ela tinha a mim, que não deixasse a governança da casa. Eu mantinha uma relação mais aberta – sem muitas formalidades – com Berta, do que Melissa. E embora Mel tivesse em Berta uma conselheira, um tipo de mãe, Berta correspondia igualmente à Melissa como uma filha, mas, ainda assim, mantinha a formalidade de Melissa ser sua patroa.
Berta, ia ao apartamento de Melissa com alguma frequência visitar a patroa amiga e o Miguel.
Berta era apaixonada por nosso Miguel. E quando Melissa ficava sem babá para olhar o menino, era Berta que quebrava seus galhos nos momentos de emergência.
Ela estava na cozinha preparando o nosso almoço e sorriu feliz quando eu entrei para beber água.
— Miguelzinho está cada vez mais bonito, Luan!
— É... Está cada vez mais parecido com a mãe.
— Tem razão. Como ela está? – Berta perguntava distraída.
— Não sei ao certo, me pareceu abatida. Mas continua linda... – eu disse sob os olhares esguios de Berta recordando a imagem de minha ex  Berta, você sabia que Mel está namorando?
A mulher abriu e fechou a boca um pouco nervosa e me encarou. Respirou fundo e disse se justificando:
— Olha Luan, você não me pediu para vigiar a dona Melissa!
— Não estou te cobrando nada Berta. – eu ri enquanto via o seu nervosismo.
— Bem... Eu vi o cara, algumas vezes – disse com desdém — Não gosto dele e já falei isso para ela, mas eu não posso fazer nada, porque se pudesse o senhor bem sabe onde ela estaria agora – me olhou por cima dos óculos — Mas se eu fosse o senhor, ficaria tranquilo. Aquele romance não vai vingar.
— Porque acha isto?
— Tenho feito minhas mandingas.
— Que horror Berta!
— Brincadeira – ela gargalhou após ver minha reação — Eu também quero a felicidade da dona Melissa, mas eu digo isso por saber que ela está com aquele homem apenas para compensar.
— Compensar o que?
— A falta que sente do senhor.
Depois que disse aquilo, Berta saiu deixando as panelas no fogo. Eu fiquei pensando nas suas palavras e recordei o dia que pedi para ela continuar trabalhando na casa:
— Berta, infelizmente Melissa foi embora, e eu apreciaria muito se você pudesse continuar a governar a casa.
— Olha "seu" Luan, eu amo esta família, e meu coração está partido com isso tudo. Eu não ficaria nesta casa sem a dona Melissa, mas pelo apreço que tenho ao senhor, eu concordo em continuar. Mas eu vou ser bem clara: se o senhor colocar outra mulher aqui dentro, eu saio sem nem olhar para trás. Eu não vou aceitar outra patroa, e acho bom o senhor ir fazendo sua parte quanto a trazer dona Melissa, de volta!
— Obrigada, Berta. - abracei sutilmente à governanta amiga enquanto sorria fraco.
Estava feliz por ela ficar, mas triste por tais circunstâncias.
— Ela logo vai perceber que não vai adiantar agir deste jeito. Assim como o senhor percebeu, antes mesmo de tentar compensar a falta que ela o faz. – Berta disse me despertando dos pensamentos, voltando ao seu fogão.
— Eu tentei compensar também Berta, mas você está certa. Eu percebi que não adiantaria... – Berta me olhava com desaprovação por saber daquilo — E não me chame de senhor, nós já pulamos esta etapa!
Apertei o ombro da senhora e fui ao meu quarto. Deitei na cama e olhando em volta tudo me lembrava Melissa: desde as cortinas até o abajur ao lado da cama que pertencia a ela.
Alguns meses depois de nos separarmos eu saí em turnê e desde então trabalhava incessantemente. Voltar para aquela casa, ainda tocava numa ferida aberta.
E eu tentei esquecer Melissa, me entregando a outras mulheres nas viagens e isso só me atrapalhou ainda mais. Então meti as caras na turnê, e embora todas as músicas cantadas me lembrassem ela, com o tempo eu consegui cantar e viver aquelas canções – a maioria escritas para ela – com indiferença.
A sensação de anestesia aos sentimentos havia se tornado parte da rotina. Pelo menos até aquela manhã.
Eu ainda a amava. E não entendia porque não lutei por ela. Como eu disse, acho que não lutei o suficiente. Estava tão impregnado da minha carreira que cogitar voltar atrás para ficar com ela, significava perder tudo, mas depois de Melissa tudo o que eu tinha era a minha família. A carreira embora importante, não tinha mais graça se não fosse para cantar para ela.
E só depois de vê-la beijando outro, que eu me dei conta de que, estava na hora de agir novamente. Eu não poderia a entregar de mão beijada. Ela com certeza só deu chance a ele, por achar que eu não me importava, já que eu não lutei o suficiente.
Eu encarava o teto do nosso quarto, e pensava no rosto dela. O rosto que eu não via há tanto tempo, mas tinha todos os traços gravados na cabeça.
Peguei o violão e comecei a cantar a minha música, que fazia parte da minha vida desde que Mel havia saído dela. E com esta música, pensando nela, eu começava todos os shows da turnê:
"Trouxe o meu colchão pra sala, hoje eu vou dormir aqui, pois não quero relembrar os momentos que vivi. O lençol que a gente usava tem perfume de jasmim, o que tanto me agradava hoje não faz bem pra mim. Depois que você foi embora entrou outra em seu lugar, e é só quando eu me deito que ela vem me visitar. Passa as mãos em meu cabelo, insiste muito em me beijar, e eu com delicadeza peço pra se afastar. Eu não quero compromissos, nem tampouco me apegar, nem novelas tenho visto, dá vontade de chorar. Tenho medo de acordar de madrugada, e uma luz semiapagada refletir ela pra mim. Sei que está tão curiosa e louca pra me perguntar: quem está no seu lugar, quem roubou meu coração se chama solidão.". (Ouvir – A outra)
Aquela noite seria a última da turnê, a última que eu cantaria "A outra" como se fosse uma verdade. Eu havia voltado e mudaria as coisas. Eu não desisti da minha musa, dona de todas as letras e versos. E se todas as canções me lembrariam ela pelo resto dos meus dias, ela estaria ao meu lado pelo resto dos meus dias sendo a inspiração de tudo o que eu fizesse. Eu ainda a amo. E foi necessário vê-la com outro, para despertar. Perder, nos faz valorizar. E eu recusava acreditar que havia a perdido.Lucas apenas assentiu sorrindo.

Desci o elevador com Miguel sorrindo e falando todos os planos que havia feito. Eu estava muito feliz por estar com meu filho após tanto tempo de viagem. Entretanto, vê-la preocupada com nosso filho daquele jeito, aparentemente cansada, me deixou preocupado com ela também. Vê-la de novo trouxe o mesmo sentimento misto de alegria e tristeza, que eu sentia desde a nossa separação.
Perguntei ao Miguel o que ele gostaria de fazer primeiro antes de irmos para o show, e ao me responder "qualquer coisa com você, papai", eu pude perceber que a falta que eu fiz ao meu filho era muito maior do que eu imaginava. A culpa que Melissa sentia, não poderia ser maior que a minha.
No carro, a caminho da minha casa, Miguel adormeceu. A mãe havia dito que ele não dormiu nada na noite anterior por efeito de ansiedade. E eu também havia dormido um pouco mal, eu também estava ansioso para rever o meu filho. Chegamos em casa e levei Miguel no colo até o seu quarto.
Aquela ainda era a nossa casa, e tudo dentro dela me lembrava Mel.
Nós havíamos nos separado há um ano.
E em momento algum eu quis o divórcio, e Melissa também decidira esperar. Se ela chegasse, a qualquer momento me pedir o divórcio, eu negaria. Embora estivéssemos afastados por um ano, eu não aceitava a ideia de oficializar o fim da nossa história. Aquele Pedro... Eu não poderia imaginar que já teria outro na vida dela. Ele era uma ameaça que, dia e noite, eu torcia para não acontecer.
Quando Melissa decidiu partir com Miguel, eu quis que ela ficasse na nossa casa, mas ela decidiu que seria melhor voltar para o seu apartamento. Eu havia comprado aquela casa para ela, por ela, com ela, e jamais imaginaria viver ali sem a Melissa ou com outra pessoa. Mas, Mel é o tipo de pessoa que ao romper os laços não guarda as fitas. Não é do tipo que rasga as fotografias, mas não as deixa expostas também.
E ela não havia mudado muito depois da nossa separação. Continuava doce, meiga e mesmo eu acreditando que ela passaria a me odiar ou evitar o contato comigo, ela não o fez. Provando-me a cada dia de distância que, o seu único motivo para se afastar de mim fora a minha culpa, minha negligência com a família, e a sua intuição. Melissa sempre seguia a sua intuição. Por alguma razão, sua intuição dizia que ela deveria se afastar, e não voltou atrás com sua decisão. Eu batalhei para que ficássemos juntos, mas não o suficiente. Naquela época, aceitar as condições que Melissa impunha a nós soava como abandonar a minha carreira. E eu jamais aceitaria, e mal acreditava que a mesma mulher que me conquistou e conhecia toda a minha paixão pelo trabalho estaria me propondo aquilo.
Os primeiros meses de distância foram baseados nas discussões sobre Miguel. Nenhum dos dois queria recorrer à decisões judiciais, pois nos levaria ao litígio e não havia necessidade daquilo. Mel e eu sempre resolvemos todos os nossos problemas à base de diálogos, nunca levantamos o tom de voz um para o outro, e mesmo na nossa briga com os ânimos exaltados.
À noite, eu teria o último show da minha turnê.
Eu havia voltado aquela manhã e prometido ir buscar o Miguel. Ele iria comigo à Arena Minas, para assistir o show que encerrava aquela turnê e após eu teria todo o tempo para o meu filho. Meu empresário, assessores e algumas pessoas da equipe passariam na minha casa à tarde para alguns detalhes finais.
Era o primeiro show que o meu filho assistiria. Quando bebê, Melissa o levou a algumas apresentações, mas ela é uma mãe muito zelosa e só permitiria Miguel ir a um show, verdadeiramente, quando ele fosse um pouco maior. Aquilo explicava a euforia dele durante aquele fim de semana, e por mais que ele estivesse ansioso para executar todos os planos que havia feito, eu não queria acordá-lo. Miguel precisava daquele descanso e eu também.
Berta era a empregada da casa, e depois que nos separamos ela não queria continuar a trabalhar na casa sem que sua "adorável patroa" – como ela dizia, pelo enorme apreço que tinha à Melissa – estivesse ali. Pedi também pelo apreço que ela tinha a mim, que não deixasse a governança da casa. Eu mantinha uma relação mais aberta – sem muitas formalidades – com Berta, do que Melissa. E embora Mel tivesse em Berta uma conselheira, um tipo de mãe, Berta correspondia igualmente à Melissa como uma filha, mas, ainda assim, mantinha a formalidade de Melissa ser sua patroa.
Berta, ia ao apartamento de Melissa com alguma frequência visitar a patroa amiga e o Miguel.
Berta era apaixonada por nosso Miguel. E quando Melissa ficava sem babá para olhar o menino, era Berta que quebrava seus galhos nos momentos de emergência.
Ela estava na cozinha preparando o nosso almoço e sorriu feliz quando eu entrei para beber água.
— Miguelzinho está cada vez mais bonito, Luan!
— É... Está cada vez mais parecido com a mãe.
— Tem razão. Como ela está? – Berta perguntava distraída.
— Não sei ao certo, me pareceu abatida. Mas continua linda... – eu disse sob os olhares esguios de Berta recordando a imagem de minha ex  Berta, você sabia que Mel está namorando?
A mulher abriu e fechou a boca um pouco nervosa e me encarou. Respirou fundo e disse se justificando:
— Olha Luan, você não me pediu para vigiar a dona Melissa!
— Não estou te cobrando nada Berta. – eu ri enquanto via o seu nervosismo.
— Bem... Eu vi o cara, algumas vezes – disse com desdém — Não gosto dele e já falei isso para ela, mas eu não posso fazer nada, porque se pudesse o senhor bem sabe onde ela estaria agora – me olhou por cima dos óculos — Mas se eu fosse o senhor, ficaria tranquilo. Aquele romance não vai vingar.
— Porque acha isto?
— Tenho feito minhas mandingas.
— Que horror Berta!
— Brincadeira – ela gargalhou após ver minha reação — Eu também quero a felicidade da dona Melissa, mas eu digo isso por saber que ela está com aquele homem apenas para compensar.
— Compensar o que?
— A falta que sente do senhor.
Depois que disse aquilo, Berta saiu deixando as panelas no fogo. Eu fiquei pensando nas suas palavras e recordei o dia que pedi para ela continuar trabalhando na casa:
— Berta, infelizmente Melissa foi embora, e eu apreciaria muito se você pudesse continuar a governar a casa.
— Olha "seu" Luan, eu amo esta família, e meu coração está partido com isso tudo. Eu não ficaria nesta casa sem a dona Melissa, mas pelo apreço que tenho ao senhor, eu concordo em continuar. Mas eu vou ser bem clara: se o senhor colocar outra mulher aqui dentro, eu saio sem nem olhar para trás. Eu não vou aceitar outra patroa, e acho bom o senhor ir fazendo sua parte quanto a trazer dona Melissa, de volta!
— Obrigada, Berta. - abracei sutilmente à governanta amiga enquanto sorria fraco.
Estava feliz por ela ficar, mas triste por tais circunstâncias.
— Ela logo vai perceber que não vai adiantar agir deste jeito. Assim como o senhor percebeu, antes mesmo de tentar compensar a falta que ela o faz. – Berta disse me despertando dos pensamentos, voltando ao seu fogão.
— Eu tentei compensar também Berta, mas você está certa. Eu percebi que não adiantaria... – Berta me olhava com desaprovação por saber daquilo — E não me chame de senhor, nós já pulamos esta etapa!
Apertei o ombro da senhora e fui ao meu quarto. Deitei na cama e olhando em volta tudo me lembrava Melissa: desde as cortinas até o abajur ao lado da cama que pertencia a ela.
Alguns meses depois de nos separarmos eu saí em turnê e desde então trabalhava incessantemente. Voltar para aquela casa, ainda tocava numa ferida aberta.
E eu tentei esquecer Melissa, me entregando a outras mulheres nas viagens e isso só me atrapalhou ainda mais. Então meti as caras na turnê, e embora todas as músicas cantadas me lembrassem ela, com o tempo eu consegui cantar e viver aquelas canções – a maioria escritas para ela – com indiferença.
A sensação de anestesia aos sentimentos havia se tornado parte da rotina. Pelo menos até aquela manhã.
Eu ainda a amava. E não entendia porque não lutei por ela. Como eu disse, acho que não lutei o suficiente. Estava tão impregnado da minha carreira que cogitar voltar atrás para ficar com ela, significava perder tudo, mas depois de Melissa tudo o que eu tinha era a minha família. A carreira embora importante, não tinha mais graça se não fosse para cantar para ela.
E só depois de vê-la beijando outro, que eu me dei conta de que, estava na hora de agir novamente. Eu não poderia a entregar de mão beijada. Ela com certeza só deu chance a ele, por achar que eu não me importava, já que eu não lutei o suficiente.
Eu encarava o teto do nosso quarto, e pensava no rosto dela. O rosto que eu não via há tanto tempo, mas tinha todos os traços gravados na cabeça.
Peguei o violão e comecei a cantar a minha música, que fazia parte da minha vida desde que Mel havia saído dela. E com esta música, pensando nela, eu começava todos os shows da turnê:
"Trouxe o meu colchão pra sala, hoje eu vou dormir aqui, pois não quero relembrar os momentos que vivi. O lençol que a gente usava tem perfume de jasmim, o que tanto me agradava hoje não faz bem pra mim. Depois que você foi embora entrou outra em seu lugar, e é só quando eu me deito que ela vem me visitar. Passa as mãos em meu cabelo, insiste muito em me beijar, e eu com delicadeza peço pra se afastar. Eu não quero compromissos, nem tampouco me apegar, nem novelas tenho visto, dá vontade de chorar. Tenho medo de acordar de madrugada, e uma luz semiapagada refletir ela pra mim. Sei que está tão curiosa e louca pra me perguntar: quem está no seu lugar, quem roubou meu coração se chama solidão.". (Ouvir – A outra)
Aquela noite seria a última da turnê, a última que eu cantaria "A outra" como se fosse uma verdade. Eu havia voltado e mudaria as coisas. Eu não desisti da minha musa, dona de todas as letras e versos. E se todas as canções me lembrariam ela pelo resto dos meus dias, ela estaria ao meu lado pelo resto dos meus dias sendo a inspiração de tudo o que eu fizesse. Eu ainda a amo. E foi necessário vê-la com outro, para despertar. Perder, nos faz valorizar. E eu recusava acreditar que havia a perdido. 

Comentários