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Nem Milão tem moda igual a Jequié.





"Até mais tarde meu filho, mamãe te busca mais tarde." 
Diz a mãe, para a eufórica criaturinha que adentra aos portões da escola em velocidade.

"Professora, já se passaram cinco meses desde o início das aulas, e onde está o material escolar que a prefeitura tem que dar?"  

A professora, olha para os lados sorrindo falsamente, e recebendo outras criaturinhas recém-chegadas. Ela começa a gaguejar, prevendo o burburinho. Desde a pergunta emitida, já são quatro mães à sua frente. Uma com olhos curiosos, outra com cara de desdém, a terceira nem sabia que o filho tinha este direito, e a quarta, lá estava impaciente por ter perguntado e ainda não ter sido respondida.

"Bem, mães... Chegou um material ontem à tarde e hoje distribuiremos para as crianças ao final das aulas." 

As mães sorriem satisfeitas. A professora respira aliviada: "Por ora, consegui!", ela pensa. 

Meio-dia, bate o sinal da saída e as mães fazem fila no portão. 

"Nossa graças a Deus que o material chegou, Wesleyson Júnior já estava me perturbando pra comprar uma mochila nova! Sabem como eu consegui que ele esquecesse um pouco este assunto?"

As mães negaram silenciosas.

"Disse a verdade pra ele: - meu filho, eu compro a mochila nova do guardião do universo sei-lá-das-quantas, mas você vai ter que comer a mochila tá? Porque a mamãe não vai ter dinheiro para comprar comida."

As mães sorriram cúmplices àquela realidade.

"É, a gente até quer dar para eles as coisinhas, mas as coisas estão tão difíceis! Minha filha também queria um caderno da Peppa e eu falei pra ela que quando fui comprar a Peppa havia ficado doente e pra não passar a gripe suína para ninguém, as pessoas pararam de vender. Não dá gente, o caderno custava 56 reais!"

"Nosso pai, o que tinha neste caderno? Folha de ouro?"

"Adesivos e glitter." 
Respondeu a mãe ainda espantada com a realidade que a cercava.

"É, eles metem a mão nos preços quando se trata de criança. O José Cirilo não vai comigo quando faço as poucas compras escolares dele, porque senão eu deixo as calças lá."

O portão abre, as mães esticam o sorriso de alívio, a professora surge sem olhar nos olhos de ninguém empurrando as crianças sobre as mães.

"O que é isso?" , "Tá de brincadeira!", "Vocês perderam a noção?" e muitas outras reclamações eram berradas. 
A professora de 1 metro e 60 de altura, caiu para 1 metro. Curvava-se tanto atrás do portão que a diretora teve que intervir.

"Mães! Mães! Acalmem-se, por favor. A escola não tem culpa!"

"Vocês não vão refazer o pedido pra prefeitura?" - indagou a mãe do Wesleyson.

"A prefeitura enviou o material ontem, não tivemos tempo de recorrer as reclamações... Olha, eu lamento, mas infelizmente acredito que eles não vão enviar novas mochilas."

"Mulher! Opá isso!" - disse uma das mães que, retirando a mochila das costas do filho e abrindo-a, enfiou a criança lá dentro - "Meu filho pode carregar outra criança aqui dentro! Pra quê isso? É pra facilitar o sequestro dos pedófilos?"

"Senhora, por favor..."

"Não, ela 'tá certa diretora! Sem falar que aos 10 anos eles já vão apresentar hérnias de disco mais graves do que as minhas!"

"Pessoal, eu aconselho que aguardem a escola informar à prefeitura do erro..."

"Uma ova! Vamos agora na prefeitura!"
A mãe de Cirilo revoltada, pegou a mão do filho e dando as costas à diretora indagou às outras mães: 
"Quem concorda em ir até lá agora?!"

Foi unânime.

"Vamos, cada um pega a sua tartaruguinha e vamos s'imbora! Alguém tira foto, porque protesto bom começa na internet!"

Andaram as mães furiosas e as tartaruguinhas em direção à prefeitura de Jequié, enquanto a professora e diretora correram de volta à escola.
Na porta da prefeitura, o prefeito já saía para seu almoço ou encerrar do dia, quando se depara com um exército de mochileiros e mães afoitas.

"O senhor pode nos explicar, que palhaçada de mochila é esta?"

"O senhor não acha que eles são muito novos para pular de para-quedas?"

"Eu esperava uma mochila escolar, e não uma barraca!"

"É pro meu filho usar a mochila e não a mochila usar ele!"

Como numa resposta pronta, o palanque fora montado e acompanhado de seu assessor o homem apenas respondeu: 

"A mochila foi planejada para que eles a usem por mais tempo, assim servindo aos anos posteriores. E cabe tudo o que eles vão necessitar."

"É muita falta de respeito com os direitos do povo!" - disse a mãe da Maria Rosa.

"Mas vocês são exigentes demais, também! A prefeitura tem problemas mais sérios a tratar! Nada está bom para vocês!"

"Exatamente prefeito, a impressão que fica é que nada está bom para nós. E por isso quando vocês não fazem nada, fazem o mínimo possível por nós!"

"Ao se tratar dos nossos direitos é tudo nas coxas! Cinco meses desde que as aulas começarem pra chegar o material, e olha o que vocês oferecem! Mas o IPTU aparece lá em casa com cinco meses de antecedência!"

...

"O trem não prestou não, e depois mineiro é que faz mineirice né? Eu só sei que as mães estavam lá a ponto de voar no prefeito, mas o redemoinho piorou quando o secretário de educação alegou que o tamanho das mochilas eram indiferentes, e que não acreditava que os pais de hoje eram tão imprestáveis a ponto de não poder carregar a mochila de seus filhos. E ainda disse ser impossível confeccionar uma mochila para uma criança de creche."

"Amadeu, como é que você sabe disso tudo?"

"Uai Eugênia, eu sou motorista da prefeitura né!"

"E o que tem a ver?"

"Eu que entreguei o material ontem à tarde na escola, 'cê acha que eu não ia brotar lá cedinho pra ver o maltubedê?"

"E como acabou isso?"

"Acabou como todo mundo achou que ia acabar, as mães jogaram tudo na internet, e agora a creche não é mais creche. É um acampamento mirim!"

"É eu vi foto na internet de criança dentro da mochila. Te contar, tem de tudo nessa cidade... Nem Milão tem moda igual a Jequié!"


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