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ELEH - CAP. 9

Scott Carter? 

– E aí, como você está? – Jacob me perguntou assim que entrou em casa.
– Confesso que a cada dia que passa, eu tenho mais vontade de sair desse casebre.
– Aconteceu algo?
– Ontem teve um ataque. Aqui por perto. Erick veio à noite para saber como eu estava. Ele estava me contando mais cedo.
– Falando nisso... Vocês dois... – Jacob buscava as palavras.
– Nós?
– Voltaram?
              Eu fiquei brava com aquela pergunta. Tudo bem que eu não dissera que o amava. Na verdade, eu não sabia bem o que eu sentia por Jacob, mas estava claro que alguma coisa mexia com nós dois. 


– Como pode me perguntar isso?
– Ele tentou te beijar.


             Arregalei os olhos. Black olhava-me sério. Eu tive um pequeno temor de que a barreira antiga se erguesse novamente, mas isso era algo que eu não deixaria acontecer.
– Você viu...
– É. Por que não deixou ele te beijar?
– Queria que eu tivesse deixado?

              Silêncio. Olhares. Ciúmes. Medo das respostas. Eram coisas que pairavam entre Black e eu naquela hora. E nos mantínhamos intactos. Sem mover um músculo.
– Só quero saber se não o beijou porque me viu, ou se há outro motivo.
– Não o beijei porque eu não quis!

              Eu disse e me levantei indo até a escrivaninha da minha sala, ou "meu escritório". Comecei a guardar as minhas pastas, irritada, e já não falava nada. Ouvi os rumores dos passos pesados de Black, a meu caminho. Não desviei, não fiz absolutamente nada além de organizar minha escrivaninha.
– Luna... – ele sussurrou bem próximo a mim.
             Ainda zangada com ele, eu parei tudo e fiquei imóvel. Não me virei para olhá-lo. Minha respiração era raivosa.
– Mani... – ele disse. 
– O que foi Black? – eu perguntei um pouco grosseira apoiando as mãos na mesinha e respirando fundo.
– Eu... Falei alguma coisa errada? 
– O QUÊ? – eu me virei ainda mais eufórica – Você não pode estar falando sério!
– Luna, se acalma! Você está tendo uma atitude exagerada! Foi só uma pergunta.
– Não Black! Não foi só uma pergunta! Foi a pergunta mais cretina que você poderia ter feito à mim! 
– Luna!? – ele estava assustado e tentou pegar minha mão, mas eu esquivei e fui andando até a cozinha.
– Olha aqui seu lobo peludo e irracional! Se você não sabe o que disse de errado, então esquece! Não quero falar sobre isso!              

              Andei até a cozinha segurando-me para não ter a ridícula atitude de bater em Black. Não adiantaria nada. Ele veio atrás de mim.
– Peludo e irracional? – ele perguntou rindo, mas eu continuei séria e concentrada nas panelas que eu usaria.
             Ao perceber que alguma coisa muito estranha estava acontecendo, Black me puxou pelo braço virando-me de frente a ele.
– Luna? O que houve?
– Nada. Desculpe.
– Luna? 
– Ai, tá certo! Por que você me fez uma pergunta daquelas?
– Eu... Precisava saber.
– E?
– Não sei! Não sei! Eu vi os dois lá... Eu achei que... Não sei, me desculpe!

              Já não estávamos tão próximos, Black andava de um lado para outro evitando o olhar. Nós não tínhamos nada um com o outro, nem mesmo declarações. Mas tínhamos uma noite passada. Um noite onde ficou bem claro que não existia apenas o Jacob e, a Luna. Depois daquela noite, onde apenas compartilhamos a temperatura de nossos corpos e nada mais, eu achei que deu para notar que agora se tratava de Jacob e Luna. Juntos. Dois. Dupla. Não era como antes, duas pessoas separadas e distantes. Alguma coisa nos unia, se não a proximidade, a amizade, alguma outra coisa. E eu tinha certeza que aquilo tudo precisava ser esclarecido.
– Black... O que está acontecendo conosco?
– Do que você está falando precisamente?
– Da noite passada. Nós dormimos juntos e não podemos negar que nossa relação mudou. Por que você agiu comigo daquela forma? Por que essa manhã tudo estava tão... Diferente!?
– Eu não sei, sinceramente. E não quero saber, não por enquanto.

              Eu fiquei estática. Então para ele nada mudou? Que resposta era aquela? Eu esperava no mínimo o silêncio! "Não quero saber" ? Aquilo era algo positivo? Aquele era o mesmo Jacob?  Eu não emiti som algum, não demonstrei feição alguma. Agi, no máximo que pude, naturalmente. Se ele não demonstrara importância ou interesse nas oscilações que havia entre nós, eu também não! Talvez eu estivesse errada e devesse insistir no assunto, mas naquela hora, eu não teria outra atitude se não a indiferença. Doía. Eu nem sabia por quê. Mas doía e eu suportaria a dor. 
              Ao perceber meu silêncio, ele se pronunciou, mas eu relevei. Fingi uma distração com qualquer coisa desimportante.
– Luna?
– Sim?
– Está tudo bem?
– Está! 
– Luna, eu não quis parecer um cafajeste... Ontem foi... Maravilhoso.
– Black, tudo bem. Não temos que falar nisso. 
– Temos sim... É que eu tenho um vínculo com uma pessoa, mas eu não sinto mais nada... Nem sei se senti. É confuso é que... Você é especial, desde você eu já não sei qual a razão desse sentimento antigo, e tantas coisas foram mudando...
– Black! Eu não tenho a menor ideia do que você está falando. Não precisa explicar... Até porque nem mesmo você sabe o que dizer. – ficamos um tempo em silêncio nos olhando – Vou preparar logo algo para comermos. Alguma preferência?
– Não... Eu te ajudo.

              Fomos fazer o jantar. Durante todo aquele período ficamos em silêncio. Até nós comermos. Enquanto estávamos à mesa, o passado momento confuso desaparecera, ainda que por instantes.
– Eu preparei uma coisa para nós amanhã... – ele disse.
– O que? 
– Se lembra que você prometeu me mostrar seus dotes de motoqueira rebelde? Que tal amanhã? 
              Ele sorriu e eu também.
– Seria uma boa, mas... Não tenho uma moto.
– Mas eu tenho. Duas. E amanhã bem cedo nós vamos pilotar. 
– Eu tenho turno na farmácia às oito.
– Prometo ser pontual.

              Sorrimos e depois disso, nada mais foi falado. Passamos o jantar inteiro nos encarando. Depois arrumamos a cozinha juntos. E eu percebi o quanto tudo aquilo era torturante, pois antes, havia uma barreira e nós mal nos falávamos, era suportável. Mas ali, naquele instante onde já sabíamos da importância um do outro... Todo aquele afastamento era dilacerante. No corredor indo aos quartos para dormir, nós paramos em frente à porta do meu quarto. Eu cheguei a pensar que dormiríamos juntos. Mas não. Seria muita loucura e hipocrisia. Estávamos frente a frente. 
– Luna... 
– Boa noite Black. – eu me virei para entrar.
– Luna espera! – ele me segurou – Eu estraguei tudo não é?
– Não. Está tudo bem, boa noite. – eu tentei sair, mas ele ainda segurava meu braço.
– Luna. – eu já conhecia aquele tom de voz dele. Não adiantaria mentir ou fingir. 
– É Black... Você bagunçou bastante sim. – eu disse séria e controlando para não deixar lágrimas revoltadas caírem.
– Deixa, eu me explicar melhor? 
– Não. Não Black. Eu estou cansada, com sono. Amanhã nós conversamos.  

             Eu disse, beijei seu rosto e entrei no meu quarto. Depois de tudo aquilo, eu só queria dormir. Não pensar em dúvida alguma.

              Embora eu tentasse dormir, não obtive sucesso imediato. A pergunta "Por que, Black?" martelava em minha cabeça e assombrava-me como a um fantasma. 
              Ao amanhecer eu levantei junto com os primeiros raios solares. Torci para que Jacob estivesse muito cansado e não acordasse antes de mim, não sei se teria cara para encará-lo. Por sorte, eu acordei primeiro. Desci e antes mesmo de ir à cozinha, abri a porta da sala. 
              A entrada daquele casebre naquele horário proporcionava uma bela visão do nascer solar sobre a copa dos pinheiros. Como se o Sol se ocultasse na densa mata à frente. Enquanto eu inspirava a brisa matutina –  com agradável cheiro de orvalho e uma pequena pontada desagradável de bolor – recordei que raras vezes eu apreciara aquele momento lindo, na minha "mansão dos horrores". Então olhei para o chão da varanda. E era engraçado repetir um gesto que eu sempre fazia, mas que agora já não causava as mesmas sensações. As sensações da misteriosa proximidade dos lobos. Agora, eu já sabia de tudo. E ali, observando meu piso coberto de poeira e nenhum pêlo, eu imaginava qual seria a razão dos quileutes não mais me protegerem, se ainda havia perigos. Perigos do tipo que fazem Erick me procurar de madrugada para me alertar e, eu ter que pedir socorro ao Jacob. 
              Jacob... Por que ele não falava logo o que ocorria? Talvez fosse mais fácil. 
              Saí dali preparada para iniciar a manhã com uma deliciosa xícara de café. Ao chegar à cozinha, preparei o café da manhã de Black. Enquanto eu terminava o sanduíche com pasta de amendoim, que Jacob tanto gostava, ele surgiu à porta da cozinha. Nós não sabíamos como agir. Ficamos nos olhando silenciosos e era como se a noite passada não houvesse passado. Entretanto, eu estava mais tranquila.

– Bom dia.
– Bom dia Luna.
– Dormiu bem?
– Sim. E você?
– Mais ou menos. 
              Terminei de falar e ele se aproximou da bancada sentando na banqueta ao me lado. De frente para mim. Fiquei de pé, meio que entre as pernas dele. E Jacob não parava de me observar. Eu me sentia incomodada. 
– Coma. – eu disse, apontando para a mesa posta.
– Pasta de amendoim? Meu favorito. – ele falou pegando o sanduíche e, eu ainda fugia do olhar dele servindo-me de mais café. 
– É eu sei. – eu concordei e então me sentei.
              Eu não sei dizer o motivo, mas era difícil olhá-lo. Principalmente por sentir os olhos fulgurantes dele sobre a minha silhueta. 
– Luna... Sobre ontem...
– Black. Não sei se quero falar disso. – finalmente o olhei.
– Mas eu quero explicar. Eu preciso.
– Mas eu não quero ouvir! Não agora! 
– Nós temos que falar! – ele também aumentou a voz.
              Olhávamos com olhos arregalados e histéricos um para o outro, e assim que percebemos aquilo abaixamos a cabeça. 
– Já estamos discutindo de novo. – ele disse sem me olhar.
– É isso que estou querendo dizer... Não estamos preparados... Na verdade, nós não temos nem mesmo motivo para isso tudo. Temos? – eu falava ainda encarando o chão.
– Temos. – ele falou erguendo meu rosto. – Mas concordo que podemos esperar para esclarecer qualquer coisa. 
– Ótimo.
             Tomamos café e esquecemos todos os ocorridos. Éramos a Luna e o Jacob tomando café, como se nada houvesse desestruturado a paz entre ambos.
– E então... Perdemos a hora não é? – ele disse sorrindo.
– Nossa! É mesmo! Eu me esqueci do passeio... Desculpe.
– Tudo bem. Acho que nós dois fomos dormir tarde.
– Quando pode ser?
– Quando você quiser.
– Amanhã? É sábado e eu não vou trabalhar.
– Às sete?
– Pode ser.
– Até lá então. – ele disse beijando a minha testa e levantando.
– Espera! Onde você vai?
– Embora. – ele disse calmo.
– Ah... Tá.
              E de novo estávamos como dois paspalhos. Ele começou a rir balançando a cabeça negativamente e veio até mim, eu o olhava confusa. 
– Você me perturba tanto... – ele disse.

              Era para eu considerar uma ofensa? Por que eu considerei e o xingaria se ele não tivesse me puxado pela mão, levantando-me e me apertando em um abraço forte. Beijou meu pescoço. Mordi seu ombro. Havíamos nos despedido. Sempre daquele jeito. Levei Jacob até a porta e fui arrumar tudo para mais um dia de trabalho.
              Na farmácia tudo seguiu na "mesmice" de sempre. Eu ainda procurava um bom terreno para o laboratório. Erick surgiu na farmácia para deixar espalhados alguns cartazes de "procura-se".
– São suspeitos dos ataques? – perguntei.
– Não. Esses são assaltantes que tem importunado os alpinistas. 
              Assim que ele terminou de falar, a senhorita nojenta Parker entrou na farmácia.
– Bom dia Erick. – ela foi abraçá-lo – Sumiu lá de casa por quê? 
– Daniela... Você sabe que não faz muito sentido não é?
– Jessica está desesperada para falar com você. 
– Aconteceu alguma coisa?

             Meu cérebro parou ali. Eu não os olhava, mas encarava a tela do meu computador. Parei o que fazia. "Desesperada para falar com você", "aconteceu alguma coisa". Ela estaria grávida ? Iniciei as contas mentalmente do dia que ela foi à farmácia e... Despertei de meu transe. 
– Aconteceram muitas coisas não é Erick?
– Ela pode me ligar.
– Bem... Porque não passa lá em casa? Essas conversas devem ser feitas pessoalmente, não acha?
              Eu já estava novamente concentrada no meu trabalho, e atenta à conversa.
– Tudo bem Daniela. Diga à Jessica que pela noite ao fim do meu expediente eu passo lá.
– Claro!
              Assim que terminou de falar ela me olhou vitoriosa. Era o que faltava! Ela estava tentando me deixar mal com aquilo tudo? Coitada. 
              Erick ficou parado à porta nos observando enquanto ela vinha em minha direção.
– Bom dia, Daniela. – eu disse.
– Bom dia. Tem esses medicamentos? – ela disse desprezível entregando uma receita.
– Só um minuto. 
              Conferi o CRM do médico que assinou a receita, e as dosagens passadas e entreguei à ela a medicação. Ela pagou e saiu despedindo-se somente de Erick.
– Qual é o problema de vocês duas? – ele me perguntou.
– Eu não sei. Desde que eu cheguei aqui que implicam comigo.
– É porque você é muito bela, diferente e atraente, Luna. 
              Eu sorri sem graça. E agradeci pelo elogio.
– Será que a Jessica está grávida? – ele me perguntou.
– Bem, eu não sei.
– O que ela poderia querer falar comigo?
– Juro que também não sei. Apesar de sermos amigas íntimas. – falei ironicamente com cara de óbvia para ele. Erick riu. 
– Fique tranquilo. Não deve ser nada grave. – falei tentando despreocupá-lo.
– É. Tomara. – ele me beijou no rosto e despediu-se – Fique atenta aos cartazes! 
– Pode deixar! 
              Depois do meu turno acabar, eu fui ao mercado.
– Boa tarde Carters! – eu disse aos rapazes parados ao lado de uma prateleira e fui entrando. 
– E aí Luna! – Peter gritou.
              Acenei e continuei minhas compras. No caixa estava, apenas Scott.
– Olá Scott!
– Tudo bom, Luna? – disse sempre muito simpático.
– Sim, e você?
– Indo. 
– Parece cansado.
– Um pouco.
– Está mesmo tudo bem, Scott?
              Então ele parou de passar as compras e olhou para mim, amargurado.
– Pode confiar em mim, Scott. – eu disse.
– Aceita sair à noite? Para conversamos? 
              O tom dele era sério. Incomum para a figura descontraída e galanteadora de Scott Carter.
– Claro! Que horas? 
– Pode ser às oito?
– Pode.
– Combinado. – ele sorriu forçadamente.
– E seus pais? – perguntei.
– Minha mãe foi acompanhar meu pai em uma consulta lá em Seattle.
– Está tudo bem com ele?
– Só rotina.
– Ah... – terminei de empacotar as compras e me despedi – Até mais tarde então, Scott. 
– Até lá. Se cuide.
– Você também! – olhei para Peter mais afastado arrumando algumas coisas e acenei – Até mais Peter!
– Beijão Luna! – ele gritou.

             Eu saía descontraída do mercado e até pensativa sobre o comportamento de Scott. O que estaria acontecendo com ele? De repente esbarrei em alguém.
– Oh, me desculpe! – eu disse erguendo os olhos à pessoa. 
             Bruh. Bruh Ateara era a pessoa em quem esbarrei. Ela ficou me encarando sempre diretamente e com aqueles olhos de predadora. Entretanto eu também agi da mesma forma. Passamos lado a lado devagar, e nos olhando desafiadoras. 
– O que foi indiazinha? Quer lutar? – ela perguntou zombeteira. – Olha que eu faço um estrago hein!
– Não me subestime, criança! – zombei também – Posso não ter as mesmas táticas que as suas, mas eu também sei ferir. Onde mais dói. 
              Olhei-a ainda mais confiante e ela entendeu o que eu quis dizer com "onde mais dói". 
– Você acha mesmo? – ela falou furiosa – Não deu certo para ele uma vez, e não dará de novo! Ele já sabe que garotas como você não podem curá-lo!
              Ela disse e saiu sorrindo torto. O que ela queria dizer com aquilo? Do que Bruh falava? Curá-lo? Garotas como eu? Não dar certo de novo? 
              Eu saí dali furiosa e dirigi ainda mais rápido para casa.
– Lobinha ridícula! Cachorra de meia- tigela! Quem ela pensa que é? Aquela pirralha!!! 

              Eu xingava Bruh enquanto entrava furiosa em minha casa e de repente um lampejo me veio à mente. Eu não sei como eu poderia estar pensando em outra coisa ao ponto de imaginar outra ideia naquele instante, mas sim... Obtive uma análise que eu torcia para ser engano.  As palavras dela ressoaram como se a cena repetisse.
"Você acha mesmo? Não deu certo para ele uma vez, e não dará de novo! Ele já sabe que garotas como você não podem curá-lo!".
"(...) É que eu tenho um vínculo com uma pessoa, mas eu não sinto mais nada... Nem sei se senti. É confuso é que... Você é especial, desde você eu já não sei qual a razão desse sentimento antigo, e tantas coisas foram mudando..."
              Jacob teve outra pessoa. Ou ainda tinha. Alguém que não deu, ou não estava dando certo.  
              Bruh? Não, ele garantiu-me que não a suportava! E depois... "sentimento antigo" ele disse...
              De repente outro insight de outra conversa, mais antiga, entre eu e Embry:
"Sabe Luna, Jacob sente amargura. Ele era apaixonado por Bella, mas então... As coisas tomaram rumos diferentes. Ela deve ter te comentado algo sobre isso, não?"
              Bella. A minha antiga amiga. Era isso, então! Jacob falava de Bella. A garota como eu de que a Bruh dissera, o sentimento antigo... Era a Bella! Jacob não conseguiria se relacionar por causa dela? E... Seria por ela também, que ele me evitou tanto no início? Algumas coisas pareciam começar a fazer sentido, mas em todo o caso, eu não tinha a menor segurança sobre aquela hipótese. Não senti que fosse Bella, a lembrança que se colocava entre nós. 
              Fiz tudo o que pude para afastar aqueles pensamentos. Eu estava começando a perder o controle sobre o que eu sentia. Jacob começava a ocupar uma parcela grande demais dos meus desesperos e tornava-se cada dia mais, o motivo maior de minha insônia. Talvez, eu começasse a nutrir alguma coisa forte por ele, mas não era amor. Não poderia ser amor. Pois, pelos clichês, não é assim que o amor começa. 
              Entre minhas flores, minhas fotografias amadoras, meus projetos com o laboratório, a construção e a biologia, eu dividia o meu tempo. Impressionante, ainda havia espaço para os lobos uivarem na minha mente. 
              Às seis horas parei com tudo o que fazia e fui separar a roupa que usaria para sair com Scott. 
Preocupava-me vê-lo daquele jeito. Apesar da bela aparência e da excelente personalidade, Scott parecia ser muito solitário. O que é muito controverso para alguém no qual a áurea acarreta simpatias inúmeras, principalmente do público feminino. Daniela Parker que o diga! Scott parecia não ter amigos, sempre ocupado, sempre solícito, como alguém que cuida de tudo para os outros, mas não para ele.

              Tomei banho e me arrumei casualmente. Preparei um chá e fui ler um livro enquanto o aguardava. E não demorou muito.
– Boa noite! – eu disse assim que abri a porta e o vi. 
              Ele estava muito bonito. Simples, mas irremediavelmente bonito. O que me fez pensar se ele realmente tinha planos somente para uma "conversa". 
– Boa noite. Você está linda.
– Ah obrigada, mas estou o mais natural possível.
– Eu sei disso. 
              Ele ainda conseguia me encabular com a serenidade na qual me depositava elogios tão singelos.
– Entre, entre. 
– Como consegue ficar tão só? – ele me disse.
– Como assim?
– Esse bairro... Me dá arrepios, confesso. E a sua casa tão solitária... Você não teme Luna?
– Temo. Muito. – eu ri – Mas eu a comprei não é? Não vejo como me livrar dela, e depois, eu não tenho para onde ir. É o único bairro disponível em Forks. Parece que as pessoas não querem sair daqui, mesmo apesar de tudo o que acontece. 
– É... Tem razão. Mas você precisa de uma companhia. 
– Poderia me dar um exemplo? – eu disse curiosa. 
              Ele estaria sendo malicioso? Não sei. Scott é sempre muito discreto e, educado como um príncipe. 
– Sei lá – ele riu – Alguém para não ficar tão só... Um parente. Ou algo que a protegesse como um cão, ou um marido.
– Eu tinha os lobos, mas parece que eles saíram de temporada.
– Os lobos não deveriam te causar tranquilidade. 
– E... Um marido? Fala sério, Scott! Casar?
– Não quer casar?
– Talvez um dia... Por enquanto, tenho outros planos.
– Entendo... Vamos?
– Claro. – peguei minha bolsa, apaguei as luzes e tranquei a porta – Aonde iremos? 
– Nada público. Não queremos fofocas, não é? No seu caso... Mais fofocas.
– Sim! – eu concordei rindo – Algum lugar secreto?
              Ele ainda estava menos animado do que o normal. 
– Um vilarejo próximo. Meia-hora de viagem. Mas, garanto que não irá se arrepender.
– Tudo bem, eu gosto de vilarejos, lugares simples...
– E aldeias indígenas. – ele disse sem emoção.
– É. Você tem algum problema com isso? – perguntei sem parecer estúpida.
– Não. Também gosto.
              Fiquei observando Scott dirigir. O cenho do rosto pesado, a boca rígida, os olhos sem foco. Transparecendo uma alma assombrosa, perturbada, um fantasma interno. E eu estava tão desconfortável com aquilo! Eu precisava ajudá-lo. Aquele não era o Scott.
– Scott. O que está acontecendo? Você está tão triste, e eu estou realmente preocupada.
– Está preocupada comigo?
– Sim.
– Por quê?
– Porque você é meu amigo. E eu sei que tem algo o incomodando muito... Conta comigo?
– Desculpe Luna, eu não quero te preocupar, ou fazê-la achar que estou sendo um imbecil de propósito... Fazê-la me desprezar ainda mais...
              Desprezá-lo ainda mais? Oh não...
– Desprezá-lo? Eu nunca o desprezei Scott. Nós já saímos tantas vezes não é? Eu, você e o Peter. Menos vezes do que eu gostaria, mas em todas, acho que deixei claro o quanto gosto de você...
– Sim, deixou. Desculpa Luna... Talvez seja melhor esperarmos chegar, para conversamos sobre isso.
– É por mim que você está assim, não é?
              Ele me olhou de soslaio incomodado. E bastou. Será possível que eu sempre estou incomodando? Entre os lobos e entre os homens? Tem algum lugar só meu, feito só para mim?
–Posso ligar o rádio? – perguntei.
– À vontade. – ele sorriu.

              E no meio daquela música entorpecente e frenética, "From Now On" dos The Features, eu observava pela janela os pinheiras de Forks correndo como se tivessem vida própria. Começava a pensar no que dizer ao Scott. Estava claro que o assunto dele era sobre o que sentia por mim. A minha mente traíra e cruel, me importunava em distrair-me com Jacob, ao invés de formular uma desculpa decente para Scott. Jacob, Jacob, Jacob... Quando eu me livraria daquele nome na minha cabeça? Nem percebi quando chegamos, porque como eu dissera, eu travava uma luta interna comigo mesma, segurando lágrimas, ódio e desejo por Jacob. Scott me chamava já há algum tempo.
– Você está bem? Chamei umas três vezes... 
– Desculpa Scott... Estava distraída. 
– Hum... – ele olhou em meus olhos como se soubesse no que, ou em quem eu pensava – Vamos?
– Sim.
              Ele abriu a porta do carro para mim e ao descer eu me deparei com um lugar incrível. Uma cabana com lâmpadas amarradas em cordas que se uniam cabaninha por cabaninha. No meio uma grande rua que levava a uma cabana maior ao fundo. Pessoas sentadas em suas varandas, crianças correndo na rua, casais de namorados sentados nas escadarias das cabanas e ao fundo da cabana à nossa frente muito som alto, barulho de vozes e risos. Era um bar. Típico "Saloon" de faroeste.
– Que lugar é esse Scott? – eu disse maravilhada em presenciar uma cena tão antiga de filme.
– Vilarejo Menitt Howa. 
– Indígena?
– Sim, mas não tão mais indígena há muito tempo... Alguns costumes foram mudados com o tempo.
– É um lugar incrível.
– É... Mas só tem isso. – ele disse me olhando e sorrindo – As cabanas dos moradores e o velho bar. 
              Scott abriu a porta para que eu entrasse no bar enquanto eu olhava ao redor.
– "Tá" brincando?
– Não. É um esconderijo perfeito não acha?
– É sim! – eu disse sorrindo.
              Sentamos em uma mesinha ao fundo. O lugar parecia muito com os velhos salões de bebidas do faroeste. A não ser pela decoração cheia de carrancas, artesanatos de tribos e muitos rostos simpáticos. Scott fez sinal para uma garçonete. Devia ter seus oitenta e alguns anos, um cabelo negríssimo, com poucas mechas grisalhas que media até os joelhos todo trançado. Alguns penachos decorando seu penteado, olhos pequenos e puxados. Lembrava o rosto dos asiáticos, mas a pele era vermelha, como da maioria das tribos americanas antigas. 
– O que vai querer beber Luna?
– Não sei, o que vai beber? – eu dizia admirando a mulher sorridente, que me olhava como se me conhecesse há anos.
– Eu estou dirigindo. Quer cerveja?
– É, pode ser. – eu ainda encarava a mulher de forma encantada. Ela era linda. Transmitia uma paz...
– Silakan melayani kita bir dan kaiak. – ele disse à mulher.
– Ya pak. – ela respondeu sorridente saindo em seguida.
– Mas o que foi isso? – eu perguntei surpresa.
– É a língua que eles adotaram ao virem da Ásia.
– Como sabe dessas coisas?
– Frequento aqui há bastante tempo... Eu trago a mercadoria para que eles vendam.
– São seus fregueses?
– Não. São meus amigos. Ninguém sabe desse lugar.
– Além de mim?
– É. – ele disse rindo.
              O astral de Scott começava a mudar. O que era totalmente compreensível estando naquele lugar.
– Eu vendo para eles por um preço pequeno, só vendo porque a mercadoria é do meu pai, se fosse minha eu os doava. Vivem com tão pouco. Distantes de tudo. Eles também fazem os trabalhos manuais deles que são vendidos na estrada e têm suas receitas próprias aqui na cabana.
– Eu acho que você não poderia ter me trazido a um lugar melhor... 
– É perturbador presenciar a forma como você fica diante situações como essa.
– O que quer dizer?
– Seus olhos... Transmitem uma alegria que não vejo em você quando está na sua rotina. É como se você pertencesse a esse mundo.
– Seu pai estava certo quando me viu e perguntou se eu era quileute.
              Scott espantou-se com o que eu disse.
– Quero dizer... Eu não sou uma quileute, mas eu tenho sangue indígena. 
– Sério? Isso explica algumas coisas.
– Meus pais... Eram filhos de indígenas. 
– Você é realmente a pessoa mais surpreendente que Forks já vira... Nem mesmo os Cullen causaram tanto alvoroço nas pessoas. 
– Cullen?
– Uma família estranha que morou por aqui. Há alguns anos eles se foram. E Bella foi com eles, ela casou-se com um deles.
– Porque nunca me disse isso?
– Não sei, talvez não tivéssemos falado de nada que me levasse a comentar...
              A senhora chegou com a bebida 'kaiak' e a minha 'ber'. Quando ia saindo disse outras coisas para Scott e olhando para mim sorriu. 
– Dia benar-benar indah. Tapi masa depan mereka tidak menyeberang.
– O que ela disse? – eu o perguntei.
– Não entendi... – ele havia compreendido, mas não queria me contar.
– Por que eu causo tanto alvoroço nas pessoas Scott?
– Eu não consegui compreender ainda, mas... Papai disse que, grandes mudanças vieram com você.
– Por que as pessoas se importam tanto com o que o seu pai diz... Quero dizer, é como se elas confiassem na certeza das palavras dele.
– Meu pai nunca diz algo que não acontece. Ou que não tenha coerência. 
– Ele é um tipo de profeta?
– Não. – ele riu – Mas sempre acerta, na grande maioria.
– E que mudanças são essas?
– Ele não diz. Acho que não sabe. Mas toda a cidade sente.
– Como assim?
– As pessoas sentem-se atraídas por você, mas não sabem se isso é bom... Não percebe isso?
– Medo?
– Não... É algo maior...
              Ficamos nos olhando silenciosos. 
– Seu olhar Luna... Ele é fulgurante. Anunciador de alguma coisa além do que podemos compreender.
              Eu ri assustada.
– Sou um mostro? – eu disse fazendo Scott rir.
– Não. Só não é alguém comum. Nem surgiu para pequenas coisas. Conte-me sobre suas relações com as pessoas.
– Ah... Nós começamos a nos relacionar mesmo na adolescência não é, e eu sempre fui rodeada de amigos. Algumas intrigas também, mas normal.
– Sempre foi popular, não é?
– É, acho que posso dizer isso.
– Ninguém consegue imaginar você e Bella como amigas. Principalmente por que Bella era... Apagada. O contrário de você. Eu por exemplo, sentia algo de sombrio nela. Acho que é por isso que algumas pessoas te evitam, por saber que Bella trazia um desconforto para nós e quando se uniu aos Cullen isso ficou maior. Eles não eram más pessoas. Mas, eram muito distantes de todos, um pouco estranhos. E acho que as outras pessoas querem ficar perto de você por achar serem poupadas desse mesmo desconforto de Bella.
– Bella não tem sido o melhor ponto de referência para mim desde que cheguei. Ninguém fala nada que possa explicar isso. Mas acho que ninguém sabe de fato sobre alguma coisa que poderia resolver a situação.
– Só os quileutes. Eles devem saber. – Scott estava diferente de novo.
– Por que diz isso?
– Eles são conhecedores de todos os mistérios da cidade. É o povo mais antigo. Os primogênitos de Forks. É por isso que você é tão apegada a eles?
– Não. Eu realmente gosto deles.
– Outra? – perguntou-me desviando o assunto para a minha bebida. 
– Sim, por favor. 
– Quer experimentar uma comida típica deles? 
– Hum, claro! 
– Rasa Tanah. Rasa significa sabor e Tanah, terra. É meu favorito.
              Scott chamou a velha índia e fez os pedidos.
– Você parece à vontade aqui.
– Sim. É meu refúgio. Surya sempre foi uma grande amiga, uma ótima conselheira.
– Surya... É o nome da senhora que nos serviu?
– Sim. Ela é a Ibu pemimpin keluarga da vila. A matriarca. É a mais velha viva. 
– Qual a idade dela?
– Esse ano completará cento e quinze anos. Mas tem alma e carinha de oitenta.
              Olhei-o assustada e nós rimos da piada dele. 
– Ela é linda.
– Sim. O povo diz que Surya foi a mais bela mulher da aldeia. Desejada por todos. Mas casou-se com o filho do cacique. 
– E ele?
– Morreu em uma batalha. Ela não era apaixonada por ele e quando ele descobriu propôs ao homem que ela amava a disputa por ela. É um dos costumes da vila, que já não existe mais. Aqui o que manda é o sentimento das mulheres. Os homens devem zelar pela felicidade delas.
– Que incrível! 
              Aquele Scott era até mais encantador do que o outro. 
– Por que está me olhando assim? – ele perguntou.
              Outro indígena veio nos servir enquanto Surya apenas nos olhava cautelosa do balcão.
– Como você pode ser outra pessoa tão encantadora quanto a que eu conheci no mercado? Eu jamais... Imaginaria você com tudo isso. – eu apontei para nossa volta.
– Então eu acertei. Eu sabia que quando eu a trouxesse aqui você iria gostar mais desse Scott.
– Não. Não gosto mais. Eu continuo gostando de você da mesma forma Scott. Só a minha admiração que aumentou.
– Que pena. Eu achei que conseguiria.
– Scott... Vamos voltar ao ponto que paramos no carro... O que você está sentindo, além de tristeza por ter sido desprezado, embora não tenha sido? – eu disse sorrindo, tentando mostrá-lo serenidade e conforto.
– Eu te amo. Evitei dizer todo o tempo. Mas acho que sempre deixei claro o meu interesse, não é?
– Amor? Isso é tão inconsistente Scott...
– Por quê?
– Porque para amar a gente tem que conhecer.
– Embry já havia me dito que você não acredita no amor imediato.
– Embry? Quando falaram sobre isso?
– Já tem algum tempo. Nós também somos amigos. Eu contei a ele o quanto eu sentia a necessidade de estar mais perto de você, mas eu sabia que você não se interessava por mim. Então o procurei para perguntar se você estava com alguém da reserva. Tomei um susto quando ele me disse que vocês estavam juntos, mas já haviam terminado. Então ele disse que eu deveria ser sincero com você, mas só falar quando eu realmente estivesse preparado, pois você não acredita na capacidade de amar de repente.
              Eu estava mais do que surpresa. Estava confusa. Guardei cada palavra. Tudo mereceria uma análise quando eu chegasse em casa.
– Estive me preparando essa semana para te dizer o que sinto e receber um não, bem grande. Mas confesso que por mais que eu já saiba o que você vai me dizer, está sendo difícil me conformar.
– Como sabe o que eu vou dizer?
– Que no momento você não está preparada. Que está confusa com algumas coisas, com outra pessoa. E que espera que possamos continuar amigos, e irá dizer também para eu pensar um pouco mais no que eu sinto. Porque não quer me magoar e não quer que eu me confunda.
– Você é bom. – eu disse envergonhada – Isso é... Constrangedor. Eu já sabia que o assunto era mais ou menos isso e que eu teria que dizer alguma coisa, mas não consegui pensar em nada para te dizer. Nem mesmo nisso tudo o que você disse. É que... Eu estou em uma escuridão interna e a única coisa que tenho procurado é uma luz. E não sei de onde ela virá, que forma tem ou quando acontecerá. Só estou armazenando todas as possibilidades dentro de mim para só depois dá-las um rumo.
– Isso significa que?
– Não deve ter esperanças. Não estou dizendo nem sim, nem não. Pode ser que um dia sei lá, as coisas me levem a nós, mas não confie nisso. Eu nunca vou tomar alguma atitude até que eu tenha certeza dos riscos. Na verdade, isso é mentira. Eu tenho me arriscado muito ultimamente e não consigo refrear esses atos impensados, mas sei que quando o risco não virá para mim, e sim para alguém importante a mim, eu analiso com cuidado. Eu não arriscaria nem um fio de cabelo de quem eu amo.
– De quem ama... Como pode dizer isso? Há pouco falou que para amar a gente tem que conhecer... – ele desafiou-me de um jeito calmo e sereno. O jeito de Scott.
– Eu... Scott... A questão não é essa! Eu amo você, amo o Peter, o Erick, os quileutes... Os poucos amigos que tenho aqui como iguais. Mas o amor ao qual você se refere, não é amor. É paixão. Não estou dizendo que você não pode me amar, só estou dizendo que o que você sente ainda não pode ser amor.
              Scott me olhava apoiando a cabeça nas mãos em cima da mesa. Bebia seu kaiak e fitava-me como se tentasse invadir meu interior.
– Que cara é essa? – eu perguntei aflita.
– Estou tentando decifrar você... – ele me fez sorrir sem graça descontraindo-me do meu desconforto – Então quer dizer que... Eu posso não perder a esperança, mas não acreditar em nós?
– Scott... Só vamos deixar que aconteça se tiver que acontecer.
– Tudo bem. Eu sei que não sou eu. Sei que não vai acontecer, mas uma única vez... Você vai ser minha Luna. Porque não existe outra. E nem vai existir. 

              Eu não sabia o que dizer. Olhei para ele de olhos arregalados e ele continuava calmo, com um grande sorriso. Ele me levara lá, para despejar aquilo tudo em mim? A velha senhora aproximou-se de nós e encostando a mão no ombro de Scott disse:
 Gadis itu bingung. Dan kau membodohi diri sendiri. Gadis itu bukan milik tujuan Anda.
 Dia mungkin bukan milik, tapi melalui itu.

              Fiquei confusa os observando a conversa e algo me dizia que Scott não me diria o que era. Então eu peguei meu celular e gravei escondido o que eles falavam.
 Jangan kejam terhadap Anda. Ini tidak akan berlangsung dan hanya apa yang akan menjadi tanda yang.
 Tapi tanda-tanda ini bisa menjadi hal yang baik, dan saya ingin.
 Hal ini bukan untuk Anda. Terimalah.
 Saya telah menerima. Dan itu tidak berarti tidak dapat setiap bagian dari diriku.
 Jika seperti yang Anda katakan, maka mudah-mudahan benar-benar siap.
 Saya siap untuk waktu yang lama.
 Jalur tidak kembali, dan hanya sampai dia untuk memilih.
 Dan aku tahu apa yang dia akan memilih.
 Anak laki-laki riang, tidak tersesat. Dan aku akan selalu berada di sini untuk apa pun yang Anda butuhkan.
 Aku tahu Nenek itu.

              A senhora sorriu para nós e saiu.
– Eu vou arriscar... Vou saber o que ela disse?
– Não. É melhor não.
– Tudo bem.
              Continuamos conversando e nada mais sobre aquele assunto foi tocado. Eu conheci todo o vilarejo. Scott e eu andávamos como bons amigos de braços dados. Ele apresentou-me a muitos moradores da vila, e embora fossem dez horas da noite, não parecia que eles iriam dormir tão cedo. Um povo muito animado. Todos se referiam a Scott como "Anak laki-laki riang". As crianças da tribo gostaram do meu cabelo, talvez pela mistura dos tons negros e castanhos, para elas incomum. 
– O que significa "Anak laki-laki riang"
– Menino alegre, menino despreocupado... Mais ou menos isso.
– Puxa, era mais fácil que eles falassem apenas Scott. Tão menor! – e nós rimos.
              Um pouco depois nos despedimos da vila, e prometi que voltaria. Entramos no carro e enquanto Scott dirigia indo embora, as crianças da vila corriam atrás do nosso carro. Fiquei observando-as sorridente. Scott acenou para elas da janela. 
– Acene senão elas virão atrás de nós até você acenar.
              Eu ri acenando e logo as crianças acenaram de volta e pararam. Uma experiência muito inusitada. Não mais que outras que eu havia vivido em Forks, mas era tão especial quanto.
Eu gargalhava tão feliz, que segurei a minha barriga. Não era risada de graça, era risada de deslumbramento, alegria. E Scott observava-me sereno. Logo ele começou a rir junto comigo. Então parei e olhei-o como quem diz "o que foi aquilo?".
– É minha culpa. – ele começou a explicar – Acostumei a acenar para elas quando corriam atrás do carro e acho que elas pensam ser um ritual... Tornou-se um ritual de despedida. Só param de correr quando aceno. E como você estava comigo, elas esperavam você acenar também...
              Ele sorriu e eu sorri para ele encantada.
– Obrigada. 
– Pelo quê?
– Por dividir isso comigo. Você disse que nunca ninguém mais além de você viera aqui. 
– Eu ainda posso dividir muitas coisas com você Luna. 
              Olhei-o sorrindo sem jeito. 
– Agora... Responde uma coisa?
– O que você quiser.
– Eles não são apenas seus amigos. 
              Scott olhou-me derrotado.
– Você percebeu.
– É. Percebi o quanto você faz parte daquilo tudo... Seu pai não é?
– É. Ele é neto de Surya. Mas meu pai não vem aqui. Por causa da morte dos meus avós. 
– O que houve com eles.
– Quando os índios começaram a serem caçados pela América, os Menitt Howa perderam muitos indígenas. Meus avós estavam lá, os poucos que restaram fugiram para esses lados, como algumas outras tribos. Esse vilarejo é o que restou da tribo.
– Por que nunca ouvi falar dessa tribo?
– Porque não é legitimamente americana. A aldeia mesmo era toda de povo indonésio, ao virem para a América os povos misturaram-se. Apaches e Menitt. 
– Como você pode esconder isso tudo de mim?
– Era a minha última cartada. Tive que esperar o momento certo.
– Mas você é completamente diferente... Seu pai, Peter...
– É... Não tinha como sermos idênticos não é?
– Só na personalidade, Anak laki-laki riang. 
              Ríamos. Eu acabei adormecendo no caminho de volta. Acordei com Scott carregando-me. 
 – Ei... – ele sussurrou. 
              Levantei minha cabeça recostada em seu peito e olhei ao redor. Já estava dentro de casa.
– Acorda. – ele sussurrou de novo – Desculpe Luna, tive que pegar a chave em sua bolsa. Não quis acordá-la, dormia tão tranquila. – ele terminou de falar colocando-me no meu sofá.
– Tudo bem. Obrigada Scott e desculpe por ter dormido todo o caminho.
– Tirando os roncos, está tudo bem. 
– Roncos? – arregalei os olhos.
– Estou brincando. – ele disse rindo e acariciando meu rosto. 
              Fiquei olhando para Scott. Calada. Quantas revelações sobre ele naquela noite. O tempo todo havia alguém como eu à minha frente. Enquanto nos olhávamos estudando um ao outro ele colocava uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha. 
– O que você está estudando em mim? – ele perguntou.
– Como a vida é engraçada. Eu achando que estava cometendo algum crime desviando-me para os quileutes, e sozinha. Porque por mais que eu os adore, eles não conseguem me compreender... Quero dizer, eles me acolhem, me tratam como uma deles, mas não compreendem os lamentos da minha alma tão confusa e aí... Você. Você é igual a mim. – ele riu e abaixou o olhar como quem pensa distante – E você, o que estava analisando?
– Desde que a vi eu já te conhecia. Meu pai já a conhecia, mas falou, não foi? E aí eu guardei cada traço de antes dessa noite, e agora eu pensava... Analisava, ou melhor tentava analisar o quanto mudou a sua direção. Porque, seus olhos sobre mim já não são os mesmos.
– Isso é ruim?
– Não. Só me pergunto se fiz as coisas no tempo certo.
– Não quero tempos marcando as coisas... Isso não faz diferença.
– Mas é assim que as coisas são. O tempo organiza. É necessário até mesmo para desorganizar.
              E a cada palavra de Scott Carter, eu descobria um novo ser. Um novo amigo. Um novo homem.               Um novo alguém que talvez, fosse capaz de compreender-me. 
– Boa noite Luna. Tenho que ir.
– Tudo bem. Eu te acompanho até a porta.
              Fomos andando até a porta e no meio do caminho ele parou de andar. 
– O que foi?
– Agora eu fiquei com medo.
– Medo? Medo de que Scott?
– De acordar amanhã e tudo não ter as mesmas proporções... 
– Como assim?
– Eu vou ter que fazer uma coisa Luna... Só para que eu possa seguir. Porque se eu não fizer, tanto posso retroceder como seguir, mas eu quero arriscar.
– Do que está falando? – eu me aproximei de Scott curiosa. 

               E foi estranho. Eu não senti meus pés se aproximarem dele. Eu só sentia os olhos dele. E faltavam dois corpos, os nossos. Só existiam dois olhares. Coloquei minhas mãos sobre o rosto dele.
– Scott? – eu disse. 
              E assim nos beijamos. Um beijo calmo e curioso. Um beijo bem típico de Scott Carter.  Assim que nos separamos olhamos um para o outro indecifráveis. Ele, satisfeito. Eu, assustada por minha atitude.
– Desculpe por isso. – ele disse.
– Não tem que se desculpar. 
             E não tinha mesmo.  
– Tenho que ir. – ele sorria.

              Abri a porta para ele, e nos abraçamos despedindo. Acenei e assim que ele entrou no carro fechei a porta. Apaguei a luz da sala e fui ao andar de cima. Acendi a luz do meu quarto e espiando pela janela, vi que o carro dele continuava parado na frente de casa. Ele fitava o volante. Estava pensativo. Quando olhou para cima, me viu na janela e acenou. Eu sorri. Ele foi embora e eu fui tomar banho. Depois deitei na cama sem saber o que havia acontecido. Sem ter a menor ideia de qualquer coisa. E muitas, muitas perguntas. Mais um lote de boas indagações junto com tantas outras.

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