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ELEH - CAP. 8

Será que estou me apaixonando?


             Eu nunca me senti tão feliz por algo como me sinto aqui. Entrei ao quarto de Jacob e ele estava escorado na janela observando a noite. Andei até ele devagar e quando eu iria por a minha mão em seu ombro ele se virou rápido e a pegou. Ficamos nos olhando silenciosos e então eu sorri.
– O que você admira lá fora? – perguntei.

– Na verdade não há nada que eu possa admirar lá fora. 
– Exagero. Há belas coisas por aí.
– Não consigo pensar em nada melhor para se admirar se não esse momento. 

              Eu não reconhecia o Jacob. Ele tinha se transformado em outra pessoa tão rapidamente que penso que eu não estava por perto quando isso aconteceu. Ele era alguém que eu não conheci.
– No que pensa? – ele perguntou acordando os meus devaneios.

– Penso no dia de hoje... Meu avô era um lobo... Você... Eu não sei em que pensar. – enquanto eu falava ele me puxava para nos sentarmos na cama dele. 
– Você é uma loba afinal. Eu sempre desconfiei. Não somente eu, mas todos.
– Acho que até eu desconfiava... Mas Black, talvez eu não seja.
– Pode ser, mas você é uma alma quileute. Sempre foi, mesmo que seu avô nunca tivesse sido você seria. – olhávamos um para o outro indecifravelmente – Luna... Você já pensou que o fato de você vir para cá pode não ter sido a Bella? – era a primeira vez que eu o via falar nela, sem aquela repulsa de sempre.
– Mas se não fosse ela...
– Não Luna! Ela não tem nada a ver com isso. Ela foi só... Um elo que o destino usou. Até a coincidência do seu nome: Luna significa Lua. Você nasceu para nós.
– Eu estive me lembrando da premonição do Sr. Carter no banho.
– Acho que nunca o vi dizer algo tão coerente. – nós rimos. 

             Finalmente o que ele havia dito fazia algum sentido.
– Black... Tem algo que eu também estava pensando.

– É sobre o que aconteceu hoje na sua casa?
– Sim.
– Eu não posso dizer. Espera mais um pouco, é só o que eu te peço. Sei que você deve estar cheia de dúvidas ainda, mas pouco a pouco, nós vamos juntos responder a todas estas perguntas.
– Não precisa dizer o que era. Só diz por que você estar sozinho era tão perigoso?
– A matilha unida é mais forte.
– Alcateia.
– Como? – eu comecei a rir antes de explicar.
– O coletivo de lobos é alcateia... Matilha é coletivo de cães.
– Você... – ele também começou a rir – você é incrível e implicante! 
             Ele passava a mão em meus cabelos colocando para trás e eu comecei a analisar aquele homem à minha frente. Não era o mesmo Jacob. 
– O que está acontecendo? – eu perguntei abaixando a cabeça. 

             Perguntei mais para mim do que para ele, mas Black ergueu meu rosto para que nos olhássemos sinceros e então após nossos olhos entenderem o que pensávamos ele respondeu.
– Não sei. Eu... Nunca passei por isso, mas todos dizem que eu estou melhor.
– Confesso que sinto falta das suas oscilações de humor... Seus mistérios e sua instabilidade – ele olhou para as próprias mãos, desapontado – Mas uma única coisa nisso tudo não mudou: seu olhar intenso, frio e amargurado. 
– Então resumindo... Eu me tornei mais repulsivo do que já fui? – ele começava a se irritar e eu ri.
– Não. Você perdeu um pouco do seu ar sombrio... Mas seu olhar tão repulsivo continua o mesmo. – ele apertou o maxilar e seus olhos diminuíram formando rugas na testa, ele estava contrariado – E o problema é que eu gosto de coisas repulsivas, como o seu olhar. 
– O quê? – ele então sorriu tímido sem me encarar, abaixando a cabeça e foi a minha vez de erguer seu rosto para nos olharmos.
– Tem mais uma coisa que mudou em você que eu gosto muito.
– E o que seria? – a cumplicidade do nosso olhar era intensa.
– Você aprendeu a sorrir de novo. Eu não sei por que você não sabia, mas escondia um sorriso solar, incrível e lindo dentro das suas trevas. Um sorriso que eu quero para mim. 


             Eu não acreditava no que eu acabara de dizer, mas era a verdade mais impulsiva que eu já havia dito. Black se aproximou devagar até as minhas costas e sentando por trás de mim abraçou-me. Recostei-me em seu tórax.
– Você está gelada.
– E você... É irritante esse calor quileute. – nós rimos.
– Está com frio?
– Acho que eu me esqueço de sentir frio de tanto que me sinto uma de vocês. 


             Ele ajeitou-se melhor na cama e aninhou-me confortavelmente em seu corpo. Nossos rostos tão próximos e os olhares tão diretos. Eu já não tinha aquele pudor de antes com Jacob. Encarei seus lábios claramente sinalizando o que eu tanto desejava. E aquela barreira invisível... Ela realmente existiu? Porque ele quebrou qualquer coisa que poderia nos afastar! A cada dia ele quebrava.
– Eu te aqueço. – ele sussurrou me encarando e eu fechei os olhos abraçando mais ele. 


             Dormimos. E durante toda noite, Black era uma caverna enfogueirada onde eu me mantive presa. Por uma noite, eu me dei o direito de pertencer a ele. E ele atendendo ao meu pedido, não me privou de abraçá-lo. Por toda a noite. Eu não sabia o que viria de manhã, o que aconteceria depois, mas não importava. E pensar nos fantasmas que atormentavam minha mente era uma injúria maligna para alguém que recebeu a graça tão grandiosa de ter, o seu próprio lobo selvagem, domesticado.
             Ao amanhecer, aquilo que eu pensei ser um sonho não era. Acordei com calor. Olhei para cima e avistei o rosto de Jacob que, mesmo dormindo, parecia tenso, pesado... Como se ele estivesse sempre alerta. Talvez. Lobos selvagens não têm sono profundo, pois é preciso estar atentos. Com os quileutes também deve ser assim. O fato é que eu me assustei ao me ver tão próxima de Jacob. Quando nós tínhamos nos aproximado daquele jeito? E o que teria acontecido na noite passada? Meu sonho era uma lembrança? Comecei a me apavorar com o teor dos pensamentos que surgiam. 
             Encarei o peitoril atlético e perfeito à minha frente, sem perceber minhas mãos pousadas sobre ele, o acariciei fechando os olhos. Subitamente pensei em algo que para uma dama naquela ocasião não convinha pensar. Mas, eu também não sou lá uma dama como se deve. Abri os olhos, assustada, e olhei rapidamente por baixo dos lençóis. Ele estava como eu esperava: de boxer. Está certo que um homem como ele de cueca agarrado a mim não é algo tão apropriado, mas se tratando de Black, eu surtaria se o encontrasse sem aquela bendita boxer. Eu também estava bem composta. Composta não, vestida.
             Aliviada, furtivamente o olhei de novo e ele ainda mantinha sua expressão séria e desacordada. Devagar me desenrosquei do aperto quente dos braços de Black. Vesti meu hobbie por cima da camisola e sai do quarto a fim de despertar afastando aquele... Ânimo incomum.
              Escovei os dentes lavei o rosto e prendi meus cabelos em um coque bagunçado. Preparei um café da manhã em agradecimento ao Billy e ao Black pela tão simpática hospedagem... E claro, eu também estava agradecida ao Black pela noite incrível com ele, mas ele não precisaria saber disso. 
             Billy acordou e encontrou-me na cozinha.
– Bom dia Luna.
– Bom dia Billy. Como passou a noite?
– Bem. E você? – ao me perguntar isso, Billy sorriu e ergueu uma das sobrancelhas do mesmo jeito travesso que Jacob costuma fazer. Essa foi a primeira semelhança que eu pude notar em ambos. 
– Bem. – respondi tentando não demonstrar nenhuma reação que me constrangesse. 
– Que ótimo. Espero que Jacob não tenha roncado muito em seu ouvido essa noite. – Billy disse sorrindo e complementou: – Vou buscar alguns ovos. 
– Eu posso ir. Eu preparei todos os que tinham mesmo. 
– Não, tudo bem. Não é longe.


             Billy disse e saiu. Fiquei observando-o por cima do basculante da cozinha e descobri onde era o pequeno galinheiro: atrás da cabana, um pouco afastado. Não tinham muitas galinhas, via-se que era uma produção para consumo. Fiquei pensando, enquanto terminava de preparar a mesa do café, o que o senhor Black quis dizer com "espero que Jacob não tenha roncado muito em seu ouvido". Será que ele nos viu dormindo juntos? Ou ele pensava que aconteceu algo? Ou pior... Jacob teria transmitido pensamentos a respeito do assunto, para seu pai? Eu me enfureci levemente com a última probabilidade, mas decidi não acreditar que Jacob fosse capaz de algo assim. Eu estava distraída e me assustei quando Black surgiu atrás de mim acordado. Ele me abraçou por trás e beijou meu pescoço dando-me bom dia. Onde é que nós tínhamos parado, mesmo?
– Bom dia Black.
– Como passou a noite? – perguntou ainda abraçado comigo e virando-me de frente a ele.
– Bem... E você? – eu estava desconcertada.
– Ótimo. – disse com um sorriso sacana e encantador em seu rosto.


             A cena era cômica e constrangedora: Jacob e eu abraçados como um casal, em poucas roupas. Na verdade, eu estava muito mais vestida com aquele hobbie do que ele, que insistia em se aproximar de mim apenas de boxer. Ainda o olhava e ele ainda sustentava o sorriso quando à porta da cozinha surgiu Billy flagrando nós dois naquela aproximação bizarra. Billy olhava a cena curioso. Certamente perguntando a si, em que momento nós deixamos de brigar e decidimos avançar tanto. Pelo menos eu, perguntava-me isso. De repente Billy abaixou a cabeça e riu discretamente. Ao me ver olhando para onde Billy estava Jacob também olhou.
– Já acordou pai? – ele arregalou os olhos e pela primeira vez, presenciei Jacob Black, totalmente envergonhado. Até mais do que eu. 

             Ele soltou-me finalmente deixando eu terminar de pôr a mesa. 
– Não. É só uma miragem sua. Ainda estou dormindo. – Billy dizia sorrindo para mim na cozinha.                         Jacob mantinha-se à porta, rígido e sem ação.

– Não se preocupe, acho que você não é o único tendo miragens, filho. Acho que tenho tido algumas...– Billy disse olhando Jacob nos olhos. – Já volto Luna. Sua mesa de café está realmente chamativa. 
             Ele disse para mim saindo em seguida com sua cadeira de rodas sempre silenciosa demais.
– Obrigada Billy. – respondi.

– Desculpe por isso. – Black desconcertado disse saindo em seguida, atrás do pai, eu suponho.
             

             Fofo ver Jacob daquele jeito, e cada vez mais, eu me encantava por suas peculiaridades. Segui em direção ao quarto de Black e no corredor eu pude escutar pai e filho conversando:
– Não é nada disso o que você está pensando, pai.
– Não? É uma pena. Eu não me incomodo nem um pouco.
– Do que está falando?
– É a Luna, Jacob. 
             No momento em que Billy terminou de falar, Sue surgiu à porta chamando. Corri para o cômodo de Jacob, mas ainda espreitei lá de dentro, atrás da porta.
– E já está na hora filho. – Billy disse para Jacob no corredor saindo em seguida. 
            Black estava sério e assim que o vi se aproximar me afastei da porta. Eu mexia em minha mala quando ele entrou calado.
– Está tudo bem?
– Sim. – ele dizia observando eu mexendo nas coisas sentado em sua cama – O que vai fazer?
– Tomar banho e depois do café ir para casa.
– Você não pode ir para casa.
– Por que não?
– É perigoso.
– Então você decidiu contar sobre ontem. – eu afirmei me aproximando. 
– Ainda não – ele se colocou de pé à minha frente. Mexeu em meus cabelos sorrindo e com olhar distante falou: – Mani.
– Nunca soou melhor. – eu disse.
– Tenho certeza disso... Minha Mani. – ele divertia-se com isso. 
– Eu vou acabar me acostumando – eu afirmei sorridente, suspirando e fechando os olhos. 


             Eu senti um calor aproximando-se do meu rosto, mas não quis abrir meus olhos. O hálito refrescante de Jacob bateu ao meu ouvido em forma das palavras "é para se acostumar" e os lábios quentes de Jacob pousaram em minha face. Tudo executado o mais lentamente possível. Abri os olhos e ele me olhava invasivo. Distanciei-me pegando minhas coisas e indo para o banho.
– Até logo. – eu disse deixando um Jacob indecifrável jogado a própria cama.


             Após o meu banho, Jacob foi ao banho e eu guardei as minhas coisas. Revisei se meus projetos estavam todos na pasta e algumas chamadas perdidas piscavam no visor do meu celular. 
"Cinco chamadas não atendidas de Erick Jones"
             O que o Erick queria comigo? Liguei para ele, mas o número não atendia. Jacob surgiu no quarto inteiramente molhado e enrolado em uma toalha. Sorri para ele e olhando para a janela tentei falar novamente com Erick. Eu não consegui. Fiquei observando meu celular, em busca de alguma mensagem e preocupada com a insistência de Jones. O que teria acontecido?
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou Jacob já vestido e aproximando-se.
– Não.
– Parece aflita com seu celular. Alguém ligou? – insistente ao assunto ele me encarava, mas como eu iria dizer a ele que minha aflição chamava-se Erick? E se ele se irritasse?
– Não, só alguns telefonemas desconhecidos. – disfarcei guardando o celular.
             Black sorriu e me puxou para fora do quarto. Passamos de mãos dadas pela sala, onde estavam Sue e Billy conversando à porta. Paramos. 
– Bom dia Sue. – eu disse sorrindo simpática.
– Bom dia minha querida. – ela acenou sorridente e discretamente olhou para minha mão presa à de Black. – Bom dia Jake.
– Bom dia Sue. – ele soltou nossas mãos indo até ela e depositando um beijo filial e muito carinhoso em seu rosto.


             Sue intercalava os olhares dela para Billy, eu e Jacob, bem rapidamente, mas eu notei o que ela imaginava. Novamente recordei de uma de nossas conversas passadas onde ela pronunciou um "finalmente" a cerca de Jacob e eu, do qual eu não tenho certeza se remete ao que eu penso. Black também não ajudou muito em seguida. Soltando-se do abraço com Sue veio até mim, novamente pegando minha mão e me levando até a cozinha. Então ele voltou novamente à sala, ainda me segurando.
– Tome café conosco Sue! Luna quem preparou tudo. – ele me deu um abraço de urso, todo feliz e orgulhoso. Sorri sem jeito, para Sue.
– Obrigada Jake, mas tem três lobos em minha casa para eu alimentar e logo, eles acordam. Desculpe Luna. 
– Ah, tudo bem. Eu entendo. – eu disse quase sufocada por Jacob.
– Fica para outra vez. Sem dúvidas não faltarão oportunidades. – Sue completou olhando para Jacob e eu. E entendendo o que ela disse, Black pigarreou e soltou-se de mim. Billy e Sue olharam cúmplices e despediram-se. – Até mais garotos! 
– Até mais, Sue. – Jacob e eu dissemos uníssonos.
             Assim que ela saiu Billy, Jacob e eu fomos à cozinha tomar café. Na mesa não tínhamos muito, o que falar. Billy olhava-nos de um modo sorridente que me assustava e Jacob olhava sério para o pai e revirava os olhos. Sem dúvidas, eles conversavam mentalmente. Assim que acabei, quebrei o silêncio.
– Sem querer ser má educada. Muito obrigada Billy e Jacob, mas eu preciso ir. 
             Eles olharam-se em dúvida. Não! Jacob trocou um olhar duvidoso com Billy.
– Tudo bem Luna. Jacob a leva para casa. Mas tem certeza que não quer ficar mais um pouco?
– Eu agradeço, mas eu tenho que ir para a farmácia e terminar alguns estudos... Ah... Isso me lembra de que... Billy...
– Sim?
– Eu pensei em... Quero dizer, eu gostaria de saber se é possível que eu construa meu laboratório pelos arredores de La Push... Entendo perfeitamente se não puder.
– Luna... Lamento, mas... Isso implicaria em... Imagine se eu a deixo construir dentro da reserva e outras pessoas saibam... Eu já impedi muitas pessoas de trazer qualquer tipo de comércio para cá, e embora eu confie em você isso me faria perder a razão diante outros.
– Entendo. Eu imaginei isso também, mas não custava ter certeza. 
– Por que quer construir seu laboratório por aqui? – Billy perguntou.
– Eu me sinto muito bem em La Push. Seria incrível trabalhar por ali, e eu estaria mais próxima a vocês... – eu sorri sem graça – Estou ficando um pouco dependente dos ares da reserva. – eu fiquei ainda mais sem graça e Jacob sorria sem me olhar.
– É compreensível, afinal você é tão solitária onde mora... – Billy sorridente me depositou um olhar compreensivo e tentando ser discreto olhou para Jacob que parecia querer perguntar algo.
– Por que não se muda para cá? – Black falou.
– Seria legal, mas não dá Black. Eu comprei um elefante branco.
             Billy e Jacob olharam-se e então Black levantou.
– Bem, então eu vou pegar as suas coisas. Tem certeza que não quer ficar por aqui mais um pouco?
– Se você me falasse o que eu quero saber, quem sabe. Fora isso, eu não vejo problema de voltar para casa. 
             Jacob bufou contrariado e seguiu ao seu quarto para pegar minhas coisas. Um pouco depois já estávamos a caminho da minha casa. 
– Como chegou tão rápido à minha casa ontem? 
– Por coincidência, eu estava por perto.
– Fazendo o que?
– Então agora eu te devo explicações? – ele disse divertido.
– Você me deve muitas explicações Black. – eu falei óbvia.
– Eu voltava de uma entrega. Fui à Silverdale entregar uma mesa que esculpi.
– Ah... E a oficina?
– Com os últimos acontecimentos eu dei uma parada, mas a obra já está pronta. Falta só a pintura e a decoração.
– E onde ela fica?
– A dez quilômetros da saída de Forks. 
– E quando você vai me levar lá?
– Quando você quiser. – ele disse feliz e encantador. – Quer que eu a deixe em casa ou na cidade?
– Estou atrasada, mas preciso pegar meu carro antes de ir para a cidade.
– Se quiser eu te deixo lá e levo seu carro depois.
– Não tudo bem. Não precisa se incomodar.
– Não é incômodo. Vou fazer isso, tudo bem?
– Sim. Eu agradeço.
             Entreguei a chave da minha casa para Black e ele me deixou na cidade. Abri a farmácia. Eu tirava a poeira da vitrine de vidro quando avistei Erick entrando na lanchonete. Certamente iria tomar café da manhã. Lembrei-me das ligações dele e novamente retornei.
– Alô Erick. Bom dia. É a Luna. Aconteceu alguma coisa?
– Bom dia Luna. Por quê?
– Você me ligou várias vezes...
– Ah é. Eu gostaria de conversar com você. Pode ser? 
– Claro. Estou na farmácia.
– Daqui a pouco passo aí.
             Um pouco depois ele saiu da lanchonete e veio calmo até a farmácia. 
– Olá Luna. Como vai?
– Bem, e você?
– Indo...
– E então, o que houve?
– É que... Ontem houve alguns ataques nas proximidades de Kalil e eu te liguei porque estava preocupado. Fui à sua casa, mas você não estava.
– É eu fui para a reserva. Aconteceu algo estranho ontem e eu liguei para o Jacob que por sorte estava por perto.
– O que aconteceu?
– Acho que iam assaltar ou invadir minha casa. Eu não sei bem, não deu tempo. Eu me desesperei e o Jacob chegou há instantes.
– Sabe que pode me chamar se precisar.
– Obrigada Erick... Eu não te liguei por que... As coisas estão estranhas conosco não é?
– Bem... Sobre isso... Eu peço desculpas. Tenho sido muito idiota com você. Mas eu ainda sou policial, e seu amigo. Pode me telefonar em ocasiões como essa.
– Tudo bem... E o bebê?
– Que bebê?
– Achei que sua namorada estava grávida.
– Jessica? Desde quando?
– Já faz tempo que ela me falou. 
– Ela te procurou? – Erick a essa altura estava visivelmente nervoso.
– Não necessariamente. Ela veio comprar um teste de gravidez.
– O que? Mas... Quando? 
– Ah não lembro. Foi no mesmo dia em que você veio aqui e me beijou. Acho que já se passou um mês. Desculpe Erick... Eu achei que soubesse.
– Tudo bem deve ter sido engano dela. Ela me falaria se estivesse grávida.
– É. Falaria! Com certeza!
– Nós terminamos há algum tempo.
– Sinto muito.
– E você, o que achou das flores?
– Flores? Espera... Foi você quem mandou aqueles arranjos?
– Sim. Gostou?
– Claro. São lindas. Mas... Por quê?
– Luna... – ele se aproximou de mim devagar e segurou minha nuca – Não consigo ficar longe de você. É torturante. – ele iria me beijar.
– Não Erick. Por favor. – eu disse me afastando. 
– Desculpe. Espero que... 
             Antes que Erick terminasse de falar Jacob apareceu na loja. Ele não viu, por sorte, que Erick tentou me beijar. Entrou e os dois ficaram se encarando com desprezo. O lobo e o homem. 
– Suas chaves. – Jacob estendeu as chaves do meu carro e da minha casa – Nos vemos depois? 
– Claro que sim. – eu sorri abertamente para Black. 
             Jacob retribuiu-me com um abraço apertado e um beijo no pescoço. Que mania era aquela agora? Era para me enlouquecer? E eu aderindo àquela louca atitude, mordi o ombro dele. Parecíamos dois selvagens. Ele olhou para mim sorrindo provocante. Acho que ele gostou. 
– Passe bem. – ele disse para Erick e saiu.
             Erick demorou um pouco para voltar a me olhar. Não foi bacana obrigá-lo a presenciar aquela cena, mas eu agi no ímpeto do momento. Eu jamais impediria Jacob de me abraçar ou beijar na frente de quem quer que fosse. Talvez antes, eu até impedisse. Porém depois da noite passada, isso seria um crime. Eu queria muito mais daquela nova relação com ele. 
– Espero que as flores possam tê-las convencido a me perdoar. – Erick falou depois de encarar a rua por um tempo silencioso.
– Tudo bem. Acho que podemos recomeçar do zero. Não gosto de parecer uma ingrata com você. 
– Ingrata não. Apenas ingênua com suas escolhas.
– Erick...
– Tudo bem. Eu fico calado. 
– Sobre o ataque... Pode me dizer o que era?
– Não sabemos. Essa vítima apresentava os mesmos sinais no corpo que a maioria das vítimas de anos atrás. 
– Como assim? 
– Foi assassinada como todas as outras vem sendo, mas dessa vez o corpo estava inteiro. Não parece que um urso ou lobo selvagem possa ter feito algo. É coisa de gente.
– Então, esse ataque, diferente dos outros não foi por um animal? 
– Não tem nenhuma pista que leve a isso. A perícia dirá.
– E quem foi o atacado?
– Marcos Stwehood. Um rapaz de dezessete anos. Poucos conheciam. Dessa vez não era turista, nem alpinista. O pai disse à polícia que ele estava voltando da praia com a moto.
– Bem... Eu ficaria satisfeita de que me mantivesse informada sobre esses assuntos. Por precaução.
– Certo. Bom, tenho que ir. Tenha um bom dia. 
– Até mais Erick. 
            Abraçamo-nos despedindo.
– Bom poder falar com você novamente. – ele disse em meu ouvido e saiu.


              O dia seguiu como tantos outros: pacato. Steve pegou o turno da tarde e eu fui para casa. Concentrei-me no meu laboratório e pela internet encontrei um lugar ótimo para construí-lo. Fui atrás do vendedor, mas o terreno havia sido vendido. Liguei para Julian e disse para não marcar a visita da construtora.
              Depois de muito procurar e nada encontrar eu comi um lanche rápido. Cuidei do meu jardim que não estava indo bem. Eu não tinha tempo para me dedicar a ele, as lagartas acabavam com tudo. Insetos que pareciam monstros. Tudo em Forks lembra a monstros? As plantas morriam. Com exceção das minhas plantas de estudo, as quais eu dedicava-me sempre, sem me descuidar. E dos arranjos de Erick. Um vaso de begônias e um de flores do campo que eu fiz, retirando mudas do buquê que Erick me dera. 
             Depois de regar flores mortas fiquei um tempo analisando a fachada da minha casa. Por mais que a pintura fosse nova, tudo ali era sombrio. Um jardim fraco que não floria um casebre velho que em tudo rangia, ventos solitários e assustadores. Nem o cheiro de lá era bom. Uma mistura de floresta e bolor. Parecia que a vida não gostava de se manter em Kalil. E eu começava a sentir uma repulsa forte por aquele lugar. 
              Onde será que ocorreu o ataque? Seria perto demais da minha casa? Aquele homem na minha porta teria alguma coisa a ver com o assassinato? Era um homem? O que Jacob viu? E qual era o nível de perigo que eu corria agora?
              Entrei, tomei banho e retornei aos estudos da minha alga marinha. Descobri há algum tempo que a planta continha um poder muito alto de antídoto para veneno. Eu fiz alguns testes de reação com os venenos e a maioria deles, o sumo da planta combatia. Eu desenvolveria no laboratório, uma fórmula medicinal com o sumo dela. E a própria alga recém-retirada da água em contato com a pele produzia enzimas capazes de acelerar a cicatrização de queimaduras e cortes na pele humana. Era uma excelente, valiosa e revolucionária descoberta! Se Hernando e Julian sabiam disso eu não tinha conhecimento. Diziam eles que Sue ajudou-os muito em seus estudos, mas Sue não reconheceu a alga quando eu a mostrei no dia que recolhi.

              Cerca das sete da noite Jacob ligou para minha casa. 
– Oi Black.
– Posso dormir aí? Estou preocupado com você.
– Não aconteceu nada até agora, mas pode vir sim. 
              O ataque que Erick disse ter acontecido perto da minha casa me apavorava. Logo Jacob chegou.




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