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ELEH - CAP. 7

Uma indígena muito próxima

Os trabalhos estavam cada vez mais agitados e após a descoberta que eu fizera sobre aquela planta na pescaria, eu dedicava meu tempo cada vez mais ao laboratório e à botânica. 
             Em uma dessas minhas tardes solitárias eu recebi um buquê de flores, lindas. Não tinha cartão. Guardei-as em um vaso muito bonito. Passei a contemplá-las todas as tardes me perguntando quem as teria enviado. Uma semana se passou e eu cada vez mais trancafiada no laboratório e em minha casa estudando plantas e planejando a construção do meu laboratório.
             Desde que Hernando e Julian fizeram a proposta naquele jantar, eu pensava no meu laboratório. Localização e projetos. Uma noite eu estava na sala desenhando um esboço do que eu desejava ser a planta da construção, quando observei uma sombra humana refletida no chão ao meu lado. Assustada olhei para trás, mas não havia ninguém dentro da casa. Respirei fundo e olhei para a porta, e por baixo dela eu pude ver uma sombra. A pessoa estava disposta a entrar na minha casa a qualquer instante. Por sorte, meu celular estava no meu bolso e o puxei ligando para Jacob. Eu estava morrendo de medo. Enquanto o aguardava, eu fui atrás de algum objeto que permitisse que eu me defendesse. Todos os noticiários estranhos e misteriosos que eu havia lido sobre aquele lugar passavam em minha mente e eu tinha cada vez mais raiva por ter comprado aquele casebre.
             Jacob chegou e eu ouvi alguns rosnados altos. Seria o Embry? Mas não parecia que ele estava transformado. Era uma pessoa! E como Jacob chegou tão rápido? Ah, é! Coisas de lobos... Ainda bem que ele veio rápido. Ele bateu na porta minutos depois, cerca de uns vinte minutos eu acho, e tudo já estava silencioso. Eu andei até a porta para espiar quando ele bateu nela me assustando ainda mais.
– Luna! Abra, sou eu Jacob!
             Abri imediatamente reconhecendo a voz e assim que ele entrou lancei meu corpo sobre o dele em um forte abraço. Ele também parecia desesperado e me protegia. 
– Quem era Jacob? 
– Vamos! Suba e faça uma mala, eu te levarei para a reserva!
– Por quê? Quem era Jacob?!
– Era uma... Um... Eu não posso lhe dizer agora. Vamos logo, porque eu estou sozinho.
– Qual o problema de você estar sozinho?
– Luna... Por favor, sem perguntas por enquanto.
             Nós fizemos poucas malas e em uma pasta eu guardei meus escritos para levar comigo. Todos estavam me aguardando na reserva. Embry correu até mim assim que eu desci do carro e me abraçou fortemente.
– Como você está?
– Muito assustada.
             Eu ficaria hospedada na casa de Sue, mas Lia olhou para ela estranhamente e então Billy dispôs me hospedar se Jacob concordasse. E assim foi. Eu passei novamente uma noite com ele. Ao entrar em sua cabana ele levou minhas malas para seu quarto e nos olhamos divertidos.
– Deja vú? – perguntou ele.
– Deja vú. – afirmei.
– Pode tomar um banho se quiser.
– Obrigada. Eu vou sim! – eu saí em direção ao banheiro com tudo em mãos. 
             Ao voltar para o quarto, a cama dele me esperava e ele fazia uma cama no chão.
– Black, de novo não! Eu não posso concordar... – ele pôs a mão em minha boca mandando eu me calar.
– Eu jamais a deixaria dormir no chão. É anticavalheiro!
– Tudo bem. 
– Está com fome? 
– Um pouco.
– Tomarei um banho. Fique à vontade na cozinha. – ele saiu e em seguida voltou advertindo – É sério, Luna fique confortável para fazer o que quiser. Sem frescuras. Você é de casa.
             Eu sorri concordando. Na cozinha eu preparava uma bandeja como aquela que Jacob preparou para mim, porém com menos comida. Fervi um chá e fiz algumas torradas. Billy apareceu.
– Como você está, Luna?
– Assustada Billy. Por que Jacob não quis contar para mim quem era?
– Tudo ao seu tempo. – olhou para a bandeja e a chaleira.
– Chá de cidreira com hortelã e torradas. Aceita?
– Com certeza. 
– Será que meu chá é tão bom quanto os seus?
– Sem dúvidas que é! – nós rimos – Sue e os outros estão lá fora. Estaremos lá te esperando, Jacob e eu. 
– Certo. Eu não demoro.
             Aumentei o chá e a quantidade de torradas e fui para varanda.
– Não sei se o meu chá é tão bom quanto o de Billy, mas sirvam-se. Não é ruim, eu garanto.
             Todos sorriam servindo-se. Lia e Embry estavam muito calados e distantes de mim. Bruh Ateara também estava lá, pois ela agora morava desse lado da reserva junto de Sue e Seth.
– Luna, Jacob falou que você queria nos contar um pouco mais da sua história. – Black sorriu travesso e divertido.
– Ah... É. Pois é Billy...
– E ele me disse que você tem um índio tatuado no ombro. – disse Seth.
             Jacob olhou-o contrariado.
– Ele é péssimo com segredos, lembra-se Jacob? – eu falei fazendo ele rir comigo e somente nós sabíamos do que se tratava. 
– Às vezes me esqueço. – Black respondeu mantendo fixo o nosso olhar. 

             Sue percebeu, eu acho. Na verdade todos perceberam.
– Sim Seth, eu tenho uma tatuagem de um cacique Cheyenne. 
– Podemos ver? – Quil perguntou. 
             Tirei o meu casaco e afastei meus cabelos soltos para meu lado direito depositando-os sobre o ombro. Abaixei a alça de minha blusa e a tatuagem no ombro esquerdo estava completamente visível. Virei de costas para todos e eles analisaram cada milímetro do desenho.
             Sue se levantou e tocou a tatuagem, um tanto quanto surpresa.
– É alguém em especial? – ela perguntou tendo os olhares cúmplices de Billy para ela. 

             Ambos pensavam em algo e era a mesma coisa.
– Meu avô. Lembram que eu contei que ele era um descendente de Cheyenne? Não tenho certeza disso também, porque eu não sei qual a tribo natural dele. Se era mesmo um Cheyenne ou se apenas conviveu com eles. Nunca soube. 
– Sim. – assentiu Sue, ela estava assustada.
– Minha tia tinha este desenho dele... Ela disse uma vez que ele passou muito tempo em outra tribo. Foi nessa outra tribo que ela nasceu, e viveram até os cinco anos de idade dela, depois todos foram para o Brasil. Meu pai nasceu lá. Lembram que eu disse isso também? 
– Sim. – assentiram.
– Ela contava que, como era muito pequena, pediu uma recordação do rosto dele. Meu avô desenhou o próprio rosto refletido no rio e entregou a ela. Muitos anos depois, minha tia levou a caricatura a um artista e pediu que ele a aprimorasse recriando a imagem em um quadro. E aí ela me deu a imagem da folha. Com dezoito anos eu fiz a tatuagem. 

             Todos se mantinham atentos ao que eu dizia e alguma coisa nostálgica surgiu no meu olhar levando-o para muito longe daquele momento
– Bella sempre me mandava emails sobre vocês e apesar de distante, apenas lendo eu sentia que alguma coisa realmente mágica estava aqui. Algo que me deixava ansiosa em conhecê-los. E bem... Nossa! Vocês são lobos e homens!
– Realmente Luna! Todos nos assustamos com a forma como você se encaixa nas nossas tradições. – pronunciou Quil.
– Como assim? 
– Como se você fosse uma de nós, perdida por aí. – concluiu Paul.
– Acho que Bella acreditou que eu me interessaria muito em conhecê-los... E ela não errou.
             Todos nos entreolhávamos curiosos e admirados.
– Você também havia dito sobre seu avô conviver em outra tribo... O que você sabe sobre isso Luna? – Lia perguntou como se escutasse Sue e Billy mentalmente. 

             Eles olharam-se curiosos. Sam observava a tudo, calado.
– Não sei muita coisa... Minha tia... Engraçado, ela tinha um livro que... – olhei-os surpresa.
– Que? – indagou Billy.
– Um livro de histórias, lendas sobre homens que se tornavam cães gigantes. – eu fiquei ofegante e os outros ainda mais curiosos. 
– Luna, sua tia te deu este livro? – Billy perguntou. 
– Não. Ela... Nas poucas vezes que conversamos sobre isso, ela contou que essa tribo onde conviveu com seu pai até cinco anos era mágica. Tinha segredos que ela e o pai adoravam. Ela não entendia nada, mas quando cresceu e releu o livro de lendas que o próprio pai dela fez, compreendeu tudo. Ela dizia que vovô de todos os lobos era o mais sensível. Nossa... Agora eu... Meu avô não era um Cheyenne. Agora eu entendo... Ele era um lobo! Eu achava que era uma forma de apelido de tribo, mas... Céus...
– Luna se acalme. – Jacob veio até mim e abraçando-me tentava me acalmar daquela súbita suspeita.
– Billy há chance de o meu avô ser um quileute? – perguntei.


             Calma era algo impossível de ter naquela hora! De repente eu compreendi tudo sobre a minha vida! Todas as conversas com a minha tia, os curtos momentos com meu pai e suas manias... Papai cheirava o ar, andava sempre descalço como um selvagem e quando fomos ao Brasil, ele parecia um animal tamanho o descuido com a aparência... Ele se tornava um índio como os outros! Eu comecei a me recordar de algumas tradições que os Coxiponés tinham comigo... O selo no meu umbigo, as pinturas na minha cabeça... Aquilo tudo teria a ver com o meu avô ser um lobo? Meu pai era um lobo como meu avô? Eles seriam quileutes?
–Sue o que você acha? – Billy perguntou e eu novamente me atentei à conversa apesar de estar abraçada a Jacob de uma forma capaz de descontrair qualquer coisa.
– É ele. Eu tenho quase certeza. – ela passava as mãos em meu ombro e observava cada detalhe da tatuagem.
– Luna aproxime, por favor.
             Eu fui para perto de Billy e olhando a tatuagem ele concluiu a minha dúvida.
– Satade Ratara. – ele falou.
– É. É o nome do meu avô, mas eu não falei... – arregalei os olhos e comecei a chorar.
– Ele conviveu conosco, Luna. Satade não era um quileute, nem um Cheyenne. Não tenho certeza de qual era a tribo em que nasceu, mas ele era um nômade. Conheci o seu avô quando eu ainda era um menino. A mãe dele era uma Cheyenne e o pai um Quileute. Seu pai e eu fomos amigos, eu acho...
– John Mani Ratara. – eu disse o nome do meu pai.
– É... eu conheci o seu pai. Eu conheci seu avô por um curto tempo. Depois dos Cheyenne do norte terem sido dizimados, ele conviveu conosco por muito tempo. Mas foi embora sem dizer para onde. Anos depois voltou com seu pai e sua tia, infelizmente morreu aqui um tempo depois. Foi quando eu nunca mais vi seu pai e sua tia. Sua avó partiu daqui da mesma forma como Satade, sem dizer nada.
Os meninos riam da feliz coincidência.
– Isso explica muita coisa! Afinal, alguém tem mesmo um pé aqui! – dizia Quil divertido enquanto o rosto de Bruh ficava avermelhado e raivoso. 
– Pois é! Agora sabemos por que nos sentimos tão íntimos de você quando a conhecemos Luna. – Paul abraçou-me como se me desse às boas vindas.
– Eu sempre soube que era uma de nós! – Seth sorria alegre.
– Cala a boca Seth. Quem sempre diz isso é a Sue!
– Sam! Eu sempre concordei! Até já tinha dito à Luna não é, Luna?
– Sim Seth, não briguem, por favor. – eu ainda estava anestesiada com tudo aquilo.
– Estou curioso com uma coisa... Como é o seu nome? – Jacob do nada abordou uma pergunta que no instante, não me soou ter nexo algum.
– Luna Mani Bedingfield. Por quê?
– Porque nunca se apresenta pelo nome do seu pai? 
– Tenho muito orgulho do nome dele, não pense o contrário. Não há um motivo, desde a escola sempre fui apresentada por Luna Bedingfield.
– Lembra que eu procurava um nome para só eu chamá-la? – Jacob falou me encarando profundamente nos olhos com um sorriso admirado, e me deixou constrangida pela atitude e pela proximidade diante os olhares de todos.
– Lembro Black... O que tem a ver?
– Mani. – ele sorria de um jeito diferente de todos os que já tinha me mostrado – Minha Mani.


             Eu sorria de lado, surpresa e envergonhada. Alguma coisa estava acontecendo ali e eu não tinha ideia do que era, mas era bom. Os tremores da minha barriga reapresentavam-se e não me lembro desde quando, mas as mãos dele seguravam as minhas. Se fosse um momento a sós, Deus sabe o que eu teria feito, mas acordei assim que Paul e Seth, os gozadores, soltaram uivos salientes. Black e eu: o show assistido, calorosamente e atenciosamente. Olhei para os meninos, desconcertada e sorri.
– Lobos no cio... – eu brinquei com Seth e Paul e olhando sacana para o Black nos soltamos ao som de gargalhadas gerais.
– Ela sabe ofender! – brincou Paul surpreso.
– Acha que Luna é uma patricinha indefesa? Você não sabe de nada! – retrucou Jacob explorando cada vez mais, olhares maldosos e piadas.


             E então não sei quando aconteceu, mas Sam estava transformado à minha frente defendendo-me e à frente dele outro lobo. Corri os olhos em volta e estavam em guarda para se transformar caso fosse preciso: Seth, Quil, Lia, Paul e ao meu lado Jacob, com o braço à frente do meu corpo. Billy impedia Embry desse esforço. Pensei um pouco encarando a cena e percebi: Sam estava me defendendo de Bruh. A loba negra à frente de Sam, parecida com ele, era Bruh Ateara. A menina tinha problemas em controlar a raiva e depois do que aconteceu entre Jacob e eu, já era de se esperar.
             Embry me levou para a casa de Black. Será que ela era tão incontrolável assim, para terem de formar uma redoma de guarda à minha volta? 
             Fique aqui. Eu vou lá ver como está a situação. 
– Espera Embry!
– O que foi? Você está bem?
– Sim, mas fica aqui. Eu... Quero conversar com você.
– Sobre o quê? – ele pareceu incomodado com minha fala.
– Você e Lia, estão me evitando desde que cheguei. O que houve?
– Impressão...
– E quando cheguei a ideia de eu dormir na casa de Sue não foi confortável não é? Você e Lia, olharam estranhos para Sue. Não adianta mentir Embry.
– Você quer mesmo falar disso agora?
– Eu não pedi para conversar depois, pedi?
– Senta aí. – olhou para mim como se não quisesse que aquele momento chegasse – Eu preferia que Lia estivesse conosco...
– Não Embry. Se for preciso ela fala comigo depois. – eu estava sendo grosseira – Olha desculpe, mas não faça rodeios tudo bem? Você sabe que gosto das coisas bem claras.
– Você se lembra de quando estávamos na reserva Whitonn e conversamos na tenda?
– Sim.
–Lembra quando te contei sobre o imprinting de um lobo?


             Imediatamente surgiu em minha mente a conversa daquele dia:
"– Imprinting?" 

"– Imprinting é algo como... O grande amor da vida de um lobo. Nenhum outro lobo pode fazer mal a pessoa de um imprinting, porque é como atingir o próprio lobo (...). Em algum momento de nossas vidas acontece, nunca é igual e não tem um tempo definido. Acontece de repente. Lembra que eu te disse que o amor acontece de imediato pelo menos para nós quileutes? E você não é meu imprinting Luna, o que significa que eu não sei até onde eu posso me segurar...".

– É eu me lembro, sim. 
– Lia teve um imprinting há algum tempo... Por isso ela voltou para nos visitar... – ele olhava-me óbvio.
– Por isso que ela não gostou de mim no início. 
– Depois daquela noite, eu passei aquele tempo na reserva Whitonn e ela estava comigo. Eu também tive um imprinting há pouco tempo Luna. E aí eu descobri a parte dela.
– Entendi. Você e Lia são o imprinting um do outro. 
– Nós íamos te falar, mas...
– Por que não me contaram? Quer dizer... Nós não temos mais nada um com o outro, não é?
– Sim, mas achamos que você poderia ficar magoada... Pelo menos era o que eu achava até minutos atrás.
– Como assim?
– Lia comentou comigo, mas eu não acreditei que você teria entendido tão cedo o que eu te disse. 
– Do que você está falando?
– Você e Jake lá fora... Alguns minutos atrás.
– Como? Ah! Não! Não, Embry! Black é só um amigo, nós não temos absolutamente nada um com o outro... 
– Eu disse a Lia que ela estava enganada. – ele me analisava para ver se eu mentia. 
– O quê exatamente você quis dizer com "não acreditei que você teria entendido tão cedo o que eu te disse"?
             Embry não pode responder, pois Black surgiu na sala da casa com os olhos arregalados.
– Está bem Luna? – perguntou aflito.
– Sim, sim. E Bruh?
– Já está mais calma. 
– Vou deixá-los conversando. – Embry disse levantando e novamente ignorando minha pergunta. 
             Ele saiu e Black sentou ao meu lado no sofá. 
– Desculpe por aquilo. 
– Relaxe. Não foi sua culpa. 
– E desculpe por isso também – ele apontou para o lugar onde Embry estava e para mim – Por ter atrapalhado alguma coisa.
– Não atrapalhou nada.
– Bem... Todos já foram para suas casas, menos Sue e meu pai que ainda estão lá fora conversando. Eu já volto.
– Tá. 
             

             Black beijou minha testa e entrou. Eu fui até o quarto e separei minhas coisas. Repensei no que havia ocorrido em minha casa. Black teria que me contar, afinal o que estava acontecendo. Peguei minha pasta e terminei as anotações do projeto do meu laboratório e liguei para Julian.
– Luna! Como está?
– Bem Julian, e por aí?
– Também! E então, a que devo a deliciosa ligação? – eu sorri. 

             Julian é o mais extrovertido e simpático. Não que Hernando seja antipático, pelo contrário, é um doce, mas sempre muito sério.
– Eu acabei as minhas anotações. Quero dizer, o projeto do laboratório está pronto. Como você disse-me que entraria em contato com a construtora que vocês contratam eu liguei para dizer que por mim já está tudo pronto.
– Ótimo! Vou agendar a visita deles com você para segunda-feira que vem, pode ser?
– Claro! 
– Já encontrou um terreno?
– É... Eu tenho pensado em... La Push.
– Sério?
– Bom, é só uma ideia, eu teria que conversar com o pessoal da reserva, Charlie, prefeitura... Não sei. Eu gosto daqui, mas até segunda-feira estará resolvido. Prometo.
– Bem, se você não conseguir avise para eu remarcar com a construtora. Eles irão exatamente para conhecer o terreno.
– Certo. Eu avisarei. E Julian...
– Sim?
– Muito, muito obrigada. A você e ao Hernando. Vocês não tem ideia de como tem sido importantes e generosos comigo.
– Nós apenas sabemos quem você é.
– E quem eu sou?
– Alguém com um futuro brilhante que nós queremos muito bem. Você tem grandes coisas à sua frente, Luna.
– Obrigada. De coração, Julian.
– De nada. Não precisa agradecer. Fazemos o certo.
– Mesmo assim... Eu tenho que ir agora. Um grande abraço. Mande um beijo à família. – Black entrava em seu quarto.
– Abraços Luna, até outra hora. 
             Eu desliguei e sorri para Black. 
– Sabe... Forks tem sido tão... Não sei... 
– Especial? Surpreendente?
– Os dois.
– Era o policial? – se referiu ao Erick sem olhar nos meus olhos.
– Não. Julian Vincent. – então ele sorriu ameno e eu fui para o banheiro.


             Não que eu devesse explicações ao Black, mas e se fosse Erick? E se eu dissesse que era ele? E o que Embry dizia com todas aquelas entrelinhas?
              Um banho frio e sombrio me encobria apesar do frio natural de Forks. De olhos fechados, com água gélida escorrendo a face e dando à cada gota impressão de navalhas afiadas, aquele banho congelou meus pensamentos em um tempo atrás. Um tempo não tão distante.
"– Algo me diz que tem alguma coisa na reserva quileute esperando você Luna. Pode não ser Jacob, mas há algo ou alguém lá a sua espera". 
             A premonição do senhor Carter veio em um flash rápido que desencadeou uma corrente de outros flashes seguintes.
"– Você deveria levar um pouco mais a sério as "premonições" do Sr. Carter. É só um conselho. Costumam funcionar.".
"– Jake tem esse hobby e ele andou se empenhando no seu carro dia e noite. Na verdade ele tem se empenhado com seu carro, sua casa... Há tempos não o víamos assim.".
"– Luna. Você vai deixar eu te mimar um pouco ou não?".
"– Não preciso da sua aceitação ou favores. É você quem precisa daqueles índios... Olha para você. Totalmente dependente deles.".
"– Obrigada. Erick vai ficar muito feliz. Eu tenho certeza da gravidez.".
"– É tão complicado Luna... Você não faz ideia de como eu gostaria de contar tudo o que sei, mas não posso. Eu estava te protegendo. Passei todas as noites possíveis dormindo à porta da sua casa.".
"– Eu sei como é triste e doloroso ver alguém que você tanto gosta se transformando em algo diferente... Em algo que você não gosta.".
"– Eu não entendia nada antes, mas agora entendo tudo... Luna, você não veio aqui à toa... Você é muito importante para todos nós. Você é a chave de tudo... E eu te amo tanto...".
"– (...) Luna prometa para mim que você vai deixar a pessoa certa te amar? (...) você não acredita no amor, Luna (...). O amor, na maioria das vezes se manifesta imediatamente Luna, pelo menos é assim conosco, quileutes... E você tem que deixá-lo se aproximar de você (...). Tenha calma e confie na intuição do seu coração. Você é forte, garota, e muito especial.".
"– As melhores lembranças guardam os cheiros.".
"– Minha mãe estava certa... Você é mesmo, uma de nós.".
"– Existem muitos mistérios dos quais, você vai conhecer Luna. Por enquanto, você deve apenas saber o essencial sobre nós.".
"– Ela... Acha que há algo dentro de você que guarda o espírito de um lobo... Mas não acredite nisso, querida.".
"– Agora mesmo é que eu não largo mais vocês... Eu sou uma de vocês agora... Não sou?".
"– Por que... Não sei Black, mas... Faz bem para mim. Eu gosto. Acho que depois de tanto tempo sem um olhar sincero teu... Agora que somos amigos qualquer toque é um troféu.".
"– O que você sente quando ficamos perto assim? (...) Quando Bruh faz isso comigo... Eu sinto raiva. Não sei por que, mas eu não gosto da ideia de tê-la tão perto. Não é como quando ficamos assim, você e eu... Eu sinto-me bem desse jeito e você? (...) Isso tudo não te faz pensar que eu vou beijá-la ou algo mais? Esses tipos de coisas, Luna... São coisas que a Bruh costuma tentar fazer. E ela faz isso imaginando muitas coisas que eu não quero que aconteça... Mas tenho medo Luna. (...) Quando se fecha o coração e a alma para o amor... Enfraquecemos-nos por muito pouco e principalmente diante a carne.".
"– Sim, mas não foi isso que me incomodou. Tem muitas coisas incomodando-me há algum tempo desde a transformação do Embry.".
"– Tenho lido notícias antigas de Forks e não são os lobos os primeiros a serem acusados de assassinatos, principalmente no bairro onde moro.".
"– Porque de repente você surge tão perfeita em nosso caminho?".
"– Isso explica muita coisa! Afinal, alguém tem mesmo um pé aqui!".
"– Pois é! Agora sabemos por que nos sentimos tão íntimos de você quando a conhecemos Luna.".
"– Eu sempre soube que era uma de nós!".
             Recordei-me de tudo atordoada. Oscilações de sentimentos mútuos, variantes do medo ao desejo, da dúvida à certeza, da confiança à curiosidade. Ao vestir minha roupa e sair do banho fiquei alguns minutos parada à porta do quarto de Black afastando todos esses pensamentos e com uma única certeza: esclarecer o episódio ocorrido no início da noite na porta da minha casa. 


– Tudo bem Luna? – perguntou Billy quando se dirigia ao seu quarto e me encontrou no corredor.
– Sim! Eu só estou... Pensando. – eu sorri e ele balançou a cabeça, negativo e rindo. 

             Não perguntei nada sobre o que ele pensava. Se fosse para saber ele falaria.
– Boa noite... – ele virou sua cadeira entrando em seu cômodo e antes de fechar a porta terminou – Índia.


             Recordei-me da grande descoberta até agora. Eu realmente poderia ser uma quileute. Meu avô era um lobo. Eu poderia ser uma loba. Ao fim das contas, a velha índia Whitonn estava certa: há algo dentro de mim que guarda o espírito de um lobo.

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