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ELEH - CAP. 5

Um novo Embry, um novo Jacob

Quando acordei Jacob não estava mais dormindo. Espreguicei e após escovar os dentes, retornei ao quarto. Mal entrei e Black surgiu com uma bandeja em mãos.

– Bom dia. – ele disse.
– Bom dia. – eu disse sorridente com a cena.
– Senta aí. 
          Sentei na cama e ele se sentou na minha frente. Colocou a bandeja entre nós. Comecei a analisar a bandeja de madeira delicada, também esculpida à mão. Lindos os detalhes.
– Você gosta mesmo disso não é? – eu o perguntei tocando os detalhes do artesanato.
– Sim. E consigo ganhar dinheiro com isso também.
– É verdade...! O que você faz para trabalhar Black?
– Além de consertos mecânicos faço marcenaria. Os Carters vendem meus artesanatos no mercado e eu também os disponho em alguns outros pontos da cidade. Entretanto, os consertos mecânicos rendem mais, porque faço para as cidades dos arredores também. 
– E você não quer aceitar o meu dinheiro? Está vendo!
– Coma. – ele me serviu rindo, uma torrada com geleia, uma xícara de café e comeu junto comigo. – Você me deve dois favores por causa dos serviços com o carro.
– Tudo bem... Mas, eu quero pagar alguma coisa. Afinal você também ajudou com a reforma da minha casa.
– Vou te contar uma coisa: estou terminando de construir a minha oficina na estrada. Então como pagamento você me ajuda com a pintura e decoração. 
– Sério Jacob? Nossa, isso é incrível. 
– Demorou um pouco, mas consegui com meu dinheiro suado e economizado. 
          Tive uma ideia então decidi não insistir com o dinheiro.
– Tudo bem, eu aceito.
– Ótimo!
– Alguém mais acordou?
– Não. Você madrugou.
– E você não? – nós rimos.
– Como está o café?
– Está ótimo. – Jacob fez uma careta como se não acreditasse. – Está brincando? Olha isso Black! – eu apontei para a bandeja cheia de comidas. – Você caprichou. Está lindo e... Fofo. – medi bem as palavras antes de dizer qualquer outra coisa.
– Fofo? – ele me encarou apelativo.
– Bem, eu não encontrei outra palavra apropriada.
– Eu entendi. Sei qual palavra você pensou. Eu também pensei nela. – ele piscou. 
– Sim, em outra situação eu até a usaria – nós rimos.
– Luna... – ele abaixou a cabeça com um jeito mais sério. – Como você está em relação ao Embry?
– Triste por não entender o que houve com ele. Ele se transformou em alguém que não reconheço... Fico lembrando o sorriso dele Jacob... O brilho do olhar... Ele perdeu tudo isso. No que ele se transformou? – algumas lágrimas fracas escorreram em meu rosto. 

          Jacob afastou a bandeja entre nós, se aproximou de mim e, meio sem jeito me abraçou.
– Desculpe por isso Luna... – ele apertava forte aquele abraço e eu estava quase me fundindo com ele.           E para minha surpresa era tão bom estar ali com aquele Jacob. Daquele modo.
– Você não tem que desculpar-se por nada. 
– Eu sei como é triste e doloroso ver alguém que você tanto gosta se transformando em algo diferente... Em algo que você não gosta.
          As palavras dele eram profundas e dolorosas. Jacob sabia exatamente do que estava falando e eu não tinha a certeza de que falávamos da mesma coisa. 
– Você o ama? – ele disse ainda abraçado a mim. 


          Diante àquela pergunta eu fiquei sem entender algumas coisas. Por que aquela pergunta? Por que logo o Jacob estava me perguntando aquilo? Eu sabia que não amava Embry, mas era tão difícil responder isso ao Black. Eu não entendia porque era difícil fazê-lo. E principalmente, que sensação estranha era aquela em ouví-lo perguntar isso para mim? Que receio era aquele de responder?                          Afastei-me do abraço de Black e fiquei olhando em seus olhos de boca aberta.
– Não precisa responder... Desculpe.

– Não... Tudo bem. Eu quero que você saiba. 
– Tudo bem... – continuamos nos olhando silenciosos.
– Eu não amo Embry como homem. Tenho um profundo carinho por ele como um amigo, companheiro... Nós não tivemos nada concreto a ponto de nos apaixonarmos, eu acho. Mas eu estava curtindo conhecê-lo e ficar com ele, mas Embry está tão distante... Ele se coloca tão além do meu alcance agora que eu não vejo mais nós dois como antes...
          

          Black me abraçou ainda mais forte e beijou a minha cabeça. Após aquele início de manhã tão agradável, Billy bateu na porta do quarto e Jacob e eu nos assustamos. Ele continuou abraçado comigo, porém se preocupou em jogar um lençol nas minhas costas. Não entendi nada.
– Entre. 

– Bom dia... Ah. Desculpe. 
– Tudo bem pai. – Black revirou os olhos.
            Eu sorria da situação e continuava abraçada com Black assim como ele comigo. Acenei para o Billy, um pouco tímida. Afinal, o que ele pensaria?
– Vou preparar o café, se arrumem.
– Pai... – Jacob sorria observando o pai voltar – Eu já fiz tudo. 
– Ah, então desculpe... Não vou mais atrapalhar. Vocês fiquem à vontade.
            

           Foi inevitável rirmos assim que Billy saiu. Nos soltamos e novamente ele bateu à porta.                                Imediatamente Black me abraçou de novo, me deixando ainda mais desentendida àquela situação.
– Ér... Luna... Ainda está de pé a pescaria? –Billy perguntou e Jacob fez uma careta zangada para ele. – Tá, desculpe... Tchau.
           Ele fechou a porta e continuamos rindo. Então finalmente, ou infelizmente, nos soltamos.
– Porque fez isso?
– Meu pai sempre me deixa sem graça, é bom vê-lo sem graça também. Desculpe, mas tive que aproveitar, eu não tenho muitas chances assim.
           Não tem muitas chances assim? Concluí que Jacob não é de muitos namoros, ou de namoros sérios em casa. 
– Entendo, mas você vai desfazer o mal entendido... Imagina o que ele deve estar pensando agora. – dizendo isso arregalei os olhos e tampei o rosto me jogando de costas na cama. 
          Black se levantou, me puxou fazendo eu ficar de pé em frente a ele.
– Ele deve estar pensando que nós nos amamos. Só isso. – me puxou para mais perto e me abraçando beijou meu ombro. – Vamos! Você tem um longo dia, lobinha.


          Após um bom banho, roupas apropriadas e todos os aparatos de pescaria em mãos, Charlie, Billy, Erick e eu seguimos à praia. Pescamos em uma encosta um pouco afastada da reserva. Erick e eu não havíamos conversado, até porque ele teria de me esclarecer o beijo roubado.
          Até que eu pesquei bastante. E isso me rendeu o título de "anzol de ouro". Eu ria divertida com tudo aquilo. Um pouco antes de irmos embora decidi parar a minha pesca. 


– Certo, eu vou dar uma parada e deixar um pouco de peixe para vocês, senão vocês irão passar um vexame quando voltarmos.

– Muito humilde da sua parte, querida. – disse Charlie brincalhão.

          Eu fui andando pela encosta e no meio de algumas pedras onde as ondas arrebentavam avistei um tipo de alga diferente. Algas laranjadas presas às pedras. O lugar não era de muito fácil acesso, mas devagar conseguir chegar lá. Era perigoso, pois as ondas arrebentavam fortes ali, a maré estava baixa e eu não conhecendo o tempo de intervalos de altos e baixos dela, decidi ser rápida para não sofrer nenhum mal. Consegui com um pouco de dificuldade arrancar algumas amostras da alga pela raiz. Saí rapidamente dali e ao voltar para os pescadores eu depositei a planta em um recipiente com água do mar. A raiz da planta se mexia como se estivesse viva, então fazendo um teste joguei uma pedra dentro do recipiente, e quando as raízes a encontraram agarraram-se à ela. Não era uma planta marinha, era uma espécie de Rhodophyta. Uma planta animal. Voltei ao local onde as encontrei, e percebi que elas se nutriam do limo que ficavam nas pedras, raspei aquele limo e joguei no recipiente. 

          

          Ao fim da manhã voltamos à reserva. Erick não iria ficar por lá, segundo Charlie, Erick pensava que seria uma pescaria somente com o delegado. Ou seja, ele martirizou em ficar próximo ao Billy, e o quileute também não gostou nada. Antes mesmo de chegarmos à reserva, Erick se desculpou comigo pelo ocorrido na farmácia alegando, que ainda nutria sentimentos por mim e agiu por impulso. Prometeu que aquilo não iria acontecer novamente e pediu desculpas pela forma como tem agido comigo. Uma trégua finalmente. Contudo, eu sabia que não acabaria ali. Estava fácil demais.
          Charlie decidiu preparar o almoço na casa de Sue. Enquanto eu limpava os peixes e ajudava Sue com o almoço ele admirava nós duas. Sue revelou que Charlie via em mim, uma figura filial. Gostaria de se aproximar de mim como um pai. Deduzi que para ele sentir tanta falta desse tipo de relacionamento, Bella de fato o abandonara ou algo muito grave os afastara.
           O almoço foi ótimo, tranquilo e todos ficaram sabendo do meu posto de "anzol de ouro" cujo Billy e Charlie fizeram questão de espalhar. Era sempre tão magnífico estar com os quileutes. Após o almoço sentei atrás do grande carvalho e fiquei pensando em como minha vida fora tediosa nas semanas em que me afastei deles. Decidi nunca mais fazer algo assim, por mais difícil que fosse. Até porque Jacob agora se tornara um amigo especial, e eu não me afastaria dele. Essa era a chance de conhecer o mesmo Jacob Black que foi relatado nos emails para mim há alguns anos atrás. Aquele ser tão adorável. Estranhamente eu não sentia essa possibilidade de conhecer a mesma pessoa, porém eu estava gostando daquele ser atual. Do meu tipo de Black e ainda que o tipo descrito por Bella soasse mais encantador, o meu Jacob, era da minha maneira muito mais incrível.

          Então esse ser magnífico e misterioso, de pele avermelhada, olhos profundos, sorriso tímido, corpo tentador, toques pecaminosos, costas largas como um papel virgem em que eu desenharia as minhas melhores rasuras se aproximou sentando ao meu lado.

– Pensando em quê?

– Em como eu consegui ficar todo esse tempo longe da energia desse lugar... Entre outras coisas que você não precisa saber...
– Por quê? – ele olhou curioso e sorridente.
– Porque são coisas íntimas. – nessa hora Lia descia para a praia de La Push. 

          Ela nos olhou sorrindo e abaixou a cabeça, depois lançou um olhar cúmplice para mim. Acenei de volta para ela com um sorriso.
– Porque ela te olhou desse jeito? 
– Não sei... Ela está sendo gentil. – Black olhou para mim em dúvida e rimos.
– Olha o que eu tenho para você. – Jacob disse me estendendo uma caixinha.
          Ao abri-la, era uma escultura em miniatura, de um rádio feita em madeira. Tinha até uma anteninha de metal.
– Que coisa mais legal e fofa...
– Argh... Fofa... – ele ria. Sorrindo orgulhoso revelou: – E funciona tá?
– Jura? Mas como? É de madeira.
– Só por fora, eu instalei um pequeno esquema de som dentro, os botões funcionam e você escolhe as estações aqui. – girou um dos botões. – Mas não pega muito bem, porque a frequência é baixa. – nós rimos. 
          Escolhi uma estação que tocava músicas brasileiras, das minhas favoritas. Comecei a cantar, mas Jacob não entendia nada, então eu fui recitando para ele. 


          "Talvez não seja nessa vida ainda, mas você ainda vai ser a minha vida. Então a gente vai fugir para o mar, eu vou pedir pra namorar, você vai me dizer que vai pensar, mas no fim vai deixar. Talvez não seja nessa vida ainda, mas você ainda vai ser a minha vida. Sem ter mais mentiras pra viver, sem amor antigo pra esquecer, sem os teus amigos pra esconder. Pode crer que tudo vai dar certo..."
– É linda. –  ele disse.
– Sim, as canções brasileiras são lindas. 


           Jacob ficou me olhando de uma forma tão diferente... Ele colocou a mão no meu rosto e continuou olhando em meus olhos. Tive a leve impressão de que estávamos muito perto, então Bruh Ateara apareceu chamando por ele. Sue observava de longe e ao ver que ela nos percebia, eu sorri sem graça.
– Fazendo o quê escondido aí Jacob? – disse a Bruh.

– Tentando passar despercebido por você. Não vai cumprimentar a Luna?
          Ela simplesmente foi andando. Eu não conseguiria ficar muito tempo ali com aquela garota sendo chata e má educada. E ainda tinha que me preparar para o jantar à noite. Fui até Sue que balançava na rede em sua varanda me olhando desde o momento que a flagrei nos espiando.
– Sue...
– Luna. – ela sorria doce e amigável e aquilo me deixava ainda mais constrangida. – Venha aqui, quero conversar com você.
– Claro. – "Droga", eu pensei.
– Billy me contou sobre você e Jake. E eu estou muito feliz, eu sabia que... 
– Sue! – interrompi – Jacob fez uma pegadinha com o pai dele...
– Como? 
– Estávamos apenas tomando café e conversando sobre minha situação com Embry. Black tem sido muito amigável. Eu me descontrolei um pouco e ele me abraçou, foi só. Mas quando o Billy bateu na porta ele quis deixar o pai constrangido e decidiu não me soltar. Uma brincadeira dos dois.
– Ah... Desculpe eu estava vendo vocês e pensei que finalmente...
– Não...– dando conta do que eu ouvira, perguntei: – Finalmente o quê Sue? 
– Nada. Bobagem... O que você queria me dizer?
– Eu vou embora. Ainda tenho o jantar de hoje e...Está na hora de ir.
– Não dê importância para a Bruh. Ela ainda é só uma garota com um amor platônico de adolescência. 
– Lia já me falou. 
– Fico tão feliz por Lia ter se dado bem com você... Olha Luna, sei que tudo ainda está muito confuso. Sei que não é esse o Embry que você queria ver, ele tem passado por momentos difíceis e precisará da sua ajuda, mas não agora. Tudo vai se resolver. Nós estamos tentando ser... Sutis.
– Sue, falando assim você só me preocupa mais...
– Não se preocupe, concentre-se em seu jantar.
– Obrigada. – nos abraçamos carinhosas. 

          Sue me recordava muito o modo como eu imaginava a minha mãe... Toda vez que minha tia falava sobre ela, era do jeito de Sue que eu moldava. Doce, sincera, amiga, enérgica, forte, e muito amorosa.
– Embry está lá dentro. Vá se despedir. Garanto que ele está sofrendo tanto quanto você. 
– Está certo. – eu sorri.


          Fui até o quarto onde Embry estava e o encontrei sentado na janela observando a mata. Soava tão triste e não pude deixar de chorar quando o vi. O que fizeram com ele? Assim que me viu, Call veio até mim. Parou em minha frente, acariciou meu rosto e me deu um abraço forte.
– Desculpe! Eu vou te pedir desculpas por toda a eternidade... 
– Pare com isso Embry. Eu só quero entender o por quê... Assim eu vou saber como te ajudar, seja lá o que for.
– Não tem como ajudar Luna... Mas, eu quero que você se recorde sempre de tudo o que eu te disse. Quero que se recorde do Embry que você conheceu. Quero ver você feliz.
– Porque está falando assim? Eu não estou gostando do seu tom de voz... Embry...
– Eu não entendia nada antes, mas agora entendo tudo... Luna, você não veio aqui à toa... Você é muito importante para todos nós. Você é a chave de tudo... E eu te amo tanto... – ele disse e me abraçou novamente.
– Embry... 
– Escuta... Eu quero, preciso e vou te proteger, mas por enquanto eu não posso ficar por perto. Luna prometa para mim que você vai deixar a pessoa certa te amar?
– Porque está dizendo isso?
– Porque você não acredita no amor, Luna.
– Não acredito no amor? O que você está dizendo?
– Se eu dissesse que te amo aqui e agora, assim como o Erick, o que você diria?
– Só acho que amor é uma palavra muito forte para pessoas que não se conhecem direito.
– É exatamente disso que estou falando... O amor, na maioria das vezes se manifesta imediatamente Luna, pelo menos é assim conosco, quileutes... E você tem que deixá-lo se aproximar de você... 
– E como vou saber quem é a pessoa certa? O amor também fere Embry.
– Você saberá...
– Você está querendo dizer que... ? 
– Não te amo dessa forma Luna. Mas a amo como alguém muito importante da qual eu deva cuidar.
– Eu também Embry. Então me deixe cuidar de você?
– No momento certo você poderá... Tenha calma e confie na intuição do seu coração. Você é forte garota, e muito especial.


          Eu ainda não compreendia nada daquela conversa com Embry, mas não tinha mais a necessidade pela urgência das respostas. Ele falara tão sinceramente, ainda que enigmático... Eu confiava nele e sabia que deveria descobrir tudo na hora certa, seja lá o que fosse esse "tudo". As palavras dele sobre eu não acreditar no amor caíram, como um tapa de realidade. Será que eu me precipitei com os sentimentos de Erick e ele realmente me amasse? Será que eu não acredito no amor? Ou fujo dele?
          O que acontecera com Embry afinal? Ele nunca mais seria o mesmo! Tive certeza quando ele pediu para nunca esquecer dele como o conheci. Depois de dar a ele, um abraço dos mais fortes que já dei em alguém, eu saí dali. As lágrimas vinham quase compulsivas e rapidamente entrei na casa de Billy. Graças aos céus passei despercebida por todos. 

          No quarto de Jacob eu deixei todo aquele líquido ocular derramar-se por minha face quente e vermelha. De repente o medo encobriu meu corpo, minha alma e recordei dos noticiários que li sobre aquela cidade. Peguei minhas coisas, mas eu não conseguia sair dali. E nem deveria, não com aquela cara. Black abriu a porta agressivamente e me assustei largando a mala no chão. Ele me abraçou de forma desesperada e rápida. 

– O que aconteceu?
– Nada. Eu só fiquei emocionada. Eu tive uma conversa muito bonita com o Embry e... Jacob é tão complicado me conter apenas com as perguntas. Estou com medo do que irá acontecer, do que está acontecendo que eu desconheço... Estou me sentindo acuada... Sozinha...
– Você não está sozinha.
– Eu sei... Eu sei. É só uma sensação tola.


          Enquanto estávamos abraçados pensei no que Sue quis dizer com "finalmente" ao falar de Jacob e eu. Eu me sentia um brinquedo nos braços dele por causa da diferença de tamanho entre nossos corpos. Eu começava a sentir um passarinhar no meu estômago toda vez que ele me abraçava daquele jeito e pressentia que aquilo não era boa coisa.
– Tenho que ir... Ainda vou a Seattle.
– Eu te levo. 
– Não precisa Black, como você vai voltar?
– Eu faço questão.
– Não. Fique aqui com seus amigos. 
– Agora que Bruh vai começar a frequentar mais nosso lado da reserva, eu quero mesmo é me distanciar.
– Por que ela vem para cá? 
– Coisas do Quil... – ele disse um pouco nervoso pigarreando.
– Ela te admira. Só isso.
– Não, ela imagina coisas. É diferente. – ficamos em silêncio. – Como você vai para Seattle?
– Steve vai me buscar, nós iremos com meu carro.
– Steve? – ele desconhecia o nome.
– Ele pega o turno da tarde na farmácia. – eu ri com a falta de atenção de Black.
– Ah! É... – ele sorriu sem graça. – Vocês estão juntos? 
– Black, que tipo de garota pensa que sou? Eu estava envolvida com Embry!
– Estava? – ele olhou surpreso.
– É... Estava. – ele ficou cabisbaixo. – Está tudo bem Black, tudo esclarecido.
– Então tá... Eu te acompanho até o galpão. 


          Saímos e assim que eu me despedi de todos, inclusive de Bruh, a menina sem educação. Black e eu fomos para o galpão. A caçula Ateara não gostou nada de ver Jacob em minha companhia. Abracei Jacob fortemente uma última vez e agradeci por tudo o que ele fez. Beijei o rosto dele com aquele passarinhar estranho e novo que invadia o meu estômago sempre que nos aproximávamos. Ele segurou-me a nuca e beijou o meu rosto demoradamente. Em seguida cheirou meus cabelos levemente.
– O que está fazendo?

– As melhores lembranças guardam os cheiros.

          Sorri envergonhada e entrei no carro partindo. No caminho eu olhava para meu chaveiro de cãezinhos e lembrava da reserva, de Embry e de Jacob. Não consegui compreender de início, mas recordei da história dos lobos e de como eles eram importantes para os quileutes. Então em um flashback recordei de Jacob dizendo "Não... Eu prefiro... Loba" quando ele escolhia um nome para me chamar. 
          Eu percebi a indireta... Jacob dizia que eu era importante para ele. Dizia? Ou simplesmente assimilou o nome com a minha personalidade? Não sei por que, eu preferia acreditar na primeira opção. 
          Já em casa descansei e preparei-me para o jantar. Quando pronta aguardei Steve chegar. 
          Ele chegou no horário combinado, eu entreguei-lhe as chaves do carro e partimos para o jantar.
          Assim que chegamos à casa de Hernando fomos muito bem recebidos por ele e seu irmão, Julian. Fomos apresentados às suas esposas. Embora achássemos que o jantar reuniria muitas pessoas, apenas estavam lá, as famílias de Julian, Hernando e nós. Os irmãos tinham lindíssimos filhos. Famílias lindas. Estranhamos a elegância do jantar tão particular, mas não poderíamos esperar menos de pessoas tão elegantes. 

         Nós conversamos sobre os negócios, sobre coisas corriqueiras, jantamos e os filhos deles muito bem educados, também interagiram conosco. Crianças muito simpáticas. Conhecemos a casa de Hernando e, Julian logo se apressou a marcar um jantar em sua casa para que também a conhecêssemos. No terraço da casa que era composto por um jardim sustentável lindíssimo, escutamos uivos de lobos. Uivos muito altos e desesperados.

– Há lobos por aqui também?

– Não, nunca. Até hoje. – disse Ashley, esposa de Hernando. As crianças brincavam dentro da casa. 
– Vieram no cheiro da Luna. – brincou Hernando com o fato desses animais sempre me circundarem. 

          Todos riram, mas estávamos assustados com aquilo. Eu principalmente.
          Descemos novamente à casa e então os irmãos contaram uma novidade que mudaria minha vida. Eles se prontificaram a investir no meu laboratório com uma única condição: que eu continuasse fazendo parte da equipe deles nos estudos laboratoriais. Uma parceria. Como eles continuavam mexendo com a cosmetologia, eu iria estudar e desenvolver as fórmulas para eles de produtos cosméticos medicinais para pele. A patente seria minha. Era um bom negócio e eu topei. 
          Estava radiante com toda a agradável noite, com o "presente" dos irmãos que sempre confiaram no meu trabalho, e com a entrega das papeladas da gerência da farmácia. Ficamos combinados de que assim que meu laboratório estivesse pronto, Steve pegaria turno integral. Eu ainda iria ajudá-lo nas manhãs, porém com menor frequência. Julian, disse para preparar o projeto arquitetônico do laboratório e contatar a construtora e assim que possível avisá-los. Eles estavam me apoiando muito! 

Eu não bebi naquela noite nada além de uma taça de vinho, por cortesia, pois teríamos de voltar dirigindo, mas Steve esqueceu disso e tomou mais de duas taças de vinho. Não ficou bêbado, porém não poderia dirigir. No meio da noite, enquanto todos conversávamos agradavelmente na sala de estar, meu celular tocou e era Sue. 

– Sue o que houve?
– Diga aos Vincent que sua casa sofreu um início de incêndio já controlado. Charlie passava em frente e rapidamente evitou maiores estragos e agora precisa de você no flagrante para prestar depoimentos enquanto a perícia investiga.
– O quê? – eu não entendia nada e todos começavam a prestar atenção em mim.
– Seth e Quil estão indo buscá-la. Venha com eles imediatamente. Sem perguntas Luna, é urgente! Encontre-os fora da casa.
– Certo, eu estou indo.
– O que aconteceu Luna? – perguntou Hernando.


          Eu fiz tudo como Sue pediu e após me desculpar inúmeras vezes com os anfitriões consegui convencê-los de que eu poderia ir embora sozinha com meu carro. Também tive de convencer Steve a ficar para aproveitar o jantar. Julian prontificou-se a levá-lo se ele quisesse. Não dei tempo, para que Steve, não decidisse prontamente a vir comigo. Saí rapidamente. Embora tudo tenha sido muito veloz, todos pareciam ter engolido a história. Enquanto eu me direcionava ao meu carro avistei Quil vigilante. Seth parado na porta do motorista. Joguei a chave para ele.
– O que está acontecendo?

– Entre Luna. – disse Quil fechando a porta do carona assim que entrei. – Eu distraio ele. Vai direto Seth!
          Quil desapareceu e eu estava assustada. Seth dirigia rapidamente sem falar nada apenas vigilante ao redor.
– O que está acontecendo Seth? 
– Embry. As coisas se complicaram, ao chegarmos você vai entender tudo. Ou não. 
– Para onde o Quil foi?
– Distrair Embry.
– Embry? Como assim? Que lobos são esses por aqui? O Vincent disse que não é comum! Ficamos todos assustados.
– É um lobo só, Luna. E é o Embry.

          O resto da sanidade que habitava em mim começou a entrar em crise. Propositalmente eu não assimilei as palavras de Seth. Ele me dizia que o lobo no qual eu falei era o próprio Embry? Que tipo de chá eles andaram bebendo aquela noite? Cannabis? Eu certamente estava desesperada internamente, por fora tentei transparecer uma falsa calma. Eu respirei fundo algumas vezes. Pisquei incrédula e extremamente confusa.
          Olhei para Seth nervoso e concentrado. Seu pé afundava no acelerador. Previ uma morte que felizmente não ocorreu. O velocímetro encostava nervoso aos 200 km. Decolaríamos a qualquer instante. Embora fosse arriscado instigar diálogos com Seth diante a forma com a qual ele conduzia o automóvel, eu precisava falar. Precisava tentar entender o mínimo do que acontecia. Avistei uma placa na estrada, mas não consegui lê-la. A estrada também não compunha o caminho de volta à Forks.
– Para onde estamos indo? – perguntei.

– Silverdale. Lembra-se que Embry estava lá? É o lugar mais seguro para você por enquanto. 
– Seth... Estou com medo. 
          Seth segurou minha mão e sorriu.
– Estaria assustado se você não estivesse... Faz parte do show gata. Você vai ver o grande espetáculo em que se meteu.

         Quando Seth disse aquilo, um frio percorreu a minha espinha. Envolver-me com eles seria realmente motivo de preocupação e eu ponderava que Erick poderia estar correto. Ainda assim, eu não sentia medo de estar naquela situação. Eu sentia medo do que eu poderia descobrir e, de acabar não obtendo respostas que me satisfizessem. 
          A estrada ia se tornando cada vez mais escura obrigando os faróis altos do meu Mustang a darem o melhor de si. Também se tornava estreita à medida que aprofundávamos nela. Eu estava absorta em meus pensamentos, que envolviam tudo o que eu havia passado desde que cheguei àquela cidade. Não me arrependi de nada, porque eu pressentia muitas emoções. Emoções maiores do que a frenética batalha de Seth com as curvas da estrada. Eu gosto de emoções, adrenalina e desafios. O problema é quando nos vemos imersos nisso tudo, às cegas. 

          Seth era muito habilidoso com o volante. Apertei meu olhar nele e repuxei da minha recente memória as características de cada quileute. Todos eles são lindos, hábeis, ágeis, inteligentes, quentes, com físicos fortes e extremamente grandes. 
          Eu deveria ter procurado respostas sobre essas coincidências? 
          Os olhos do jovem belíssimo de vinte anos que se encontrava concentrado ao meu lado, fitavam a estrada sem nem mesmo piscar, como uma hipnose. Chamei por ele em sussurros a fim de saber se ele realmente prestava atenção no que fazia, mas ele não me olhou. Seth previa as curvas antes de chegar nelas. Era assustador. Quando eu pensava que cairíamos desfiladeiro abaixo, ele surgia na curva. As pupilas dele estavam dilatadas e eu pensei ter visto suas córneas mudarem de cor.
         Ah! E o desfiladeiro! Desde quando chegamos tão alto? Eu não tinha noção de tempo, espaço, de absolutamente nada. Decidi que o melhor era parar de pensar. Desligar meu cérebro e vigiar tudo o que estava acontecendo, inclusive o caminho onde seguíamos. Seth jogou o carro para dentro de uma estrada no meio da mata e começamos a subir floresta a dentro. Ainda estávamos em uma serra, mas o desfiladeiro desaparecera. Dirigia mais calmo como se estivesse em território seguro e próprio. A urgência de chegar a algum lugar de repente não existia. Engano meu, fora apenas uma impressão. Ele ainda tinha urgência.

– Temos que chegar rápido, mas posso desacelerar um pouco. – olhou nos meus olhos e sorriu.

– Estou preocupada com o Quil...
– Ele está bem! – disse sorrindo como se soubesse daquilo piamente. – Logo se unirá a nós. Não se preocupe.
– Seth, por favor... O que está acontecendo? 
– Já estamos quase chegando Luna, mantenha a calma. Você está bem?
– Assustada... Chegando onde?
– Na reserva Whitonn. 
– Outra tribo?
– Sim. – ele sorria amigável. – Já não deve estar gostando tanto de tantos índios de uma vez só, não é? – ele tentou ser bem humorado, mas senti uma pontada de tristeza na voz dele. 

          Seth imaginava que tudo aquilo me espantaria deles, atitude que demonstrava que, definitivamente ele não me conhecia.
– Eu nunca me cansarei de vocês. Até porque vocês me fazem querer estar cada vez mais inteirada no meio, mesmo com essas fugas, mistérios e prováveis perigos. 
– Minha mãe estava certa. – ele olhou admirado e sorridente para mim – Você é mesmo, uma de nós.
          Sorri para ele contente em ouvir aquilo. Tudo o que eu queria era ser considerada por eles. E aquela fuga demonstrava isso. 
          Vi de relance, uma fumaça escura e azul subindo ao alto das árvores. Seth disse que estávamos chegando. Passamos por algumas árvores grandes de troncos espessos e alguns homens nos aguardavam, Seth abaixou o vidro e mostrou-lhes o braço com o símbolo do clã quileute. Os homens foram andando em frente e nós continuamos devagar com o carro. Adentramos uma tribo parecidíssima com a reserva quileute. A mesma distribuição de cabanas. As pessoas eram parecidas com eles, porém tinham pinturas por todo o corpo seminu. Não avistei nenhuma mulher, apenas homens.
          Seth deixou meu carro escondido, com outro que reconheci como sendo o rabbit de Jacob e duas motocicletas. Uma era de Lia, a outra a que Black havia mostrado guardada no galpão. Ele nunca tocara nessa, e pretendia dá-la ao Seth se conseguisse convencer Sue disso. Ao que me deu entender, ele convenceu. 
          Depois que desceu do carro, Seth abriu a porta para mim, abraçado me acompanhou até o centro de um círculo onde os índios se encontravam sentados proclamando frases em um idioma desconhecido. O mais velho deles, gritava entre frases e outras, algumas palavras ainda mais ininteligíveis e jogava um pó escuro na imensa fogueira do centro fazendo subir aquela fumaça azul escura. Restringi-me a apenas observar. O homem que supus ser o líder daquele povo aproximou de Seth e eu. 


          "Aiwaiko tundara yêshumute." Ele disse algo parecido com isso.
          Seth apenas acenou afirmativo. O homem passou os dedos com tinta negra na testa de Seth formando algo parecido com o Sol. Após isso nós dois saímos do centro do círculo.
– Você deve ficar na cabana junto com as mulheres. Eu não posso entrar lá. Lia já vem.
– Como sabe que ela vem? – Lia surgiu atrás de mim.
– Olá Luna. Venha comigo. – Lia abraçou o irmão e me puxou pela mão até a cabana onde estavam Emy, Sue, Bruh e outras mulheres não quileutes.
– Você não deve estar entendendo nada não é? – perguntou Emily enquanto me dava um abraço vendo meu espanto.
– Vamos prepará-la. – disse Sue sorrindo e me levando para um quarto.


          Dentro dele, ficamos apenas as quileutes e uma única senhora mais velha da outra tribo. Ela pronunciou coisas em outra língua olhando em meus olhos. Depois conversou em tom baixo e separada com Sue falava nossa língua. Pude perceber. A mulher voltou a mim e com a mesma tinta que o homem pintou a testa de Seth, ela pintou meu corpo.
          Pintou meu rosto com uma linha vertical pontilhada que seguia da testa ao queixo. Fez outra linha pontilhada horizontal na minha testa. No meu colo, passou os dedos com tinta de outra cor fazendo rajados que desciam a partir de meus ombros. Ao acabar, sorriu simpática e saiu. 

A pintura do meu corpo era tão bela quanto tantas outras que vi naquele povo diferente, porém a minha consistia um desenho único. Eu diria que próprio para a ocasião. Sue, Emy, Bruh, Lia e eu, ficamos dentro daquele quarto. 

– Vou pegar um chá para você. – Lia levantou-se sorrindo.


          Bruh olhava desprezível para mim, em um canto afastado do quarto. Sentou-se na janela. Emy e Sue seguraram minhas mãos e disseram então que era hora de eu descobrir o inevitável. A história verdadeira das Tradições Quileutes.

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