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ELEH - CAP. 4

Onde estará Embry?

 Algum tempo, do qual não contei se passou desde que saí revoltada da reserva. Eu não passava por lá e não recebia notícias. Adiantei algum dinheiro da minha poupança e nem deveria mexer nela, pois estava juntando para o projeto do meu laboratório, mas parte dele seria para Black. Eu tinha de pagá-lo e tornou-se uma questão de honra seríssima, após nosso mal entendido. Se é que foi um "mal entendido".
          Eu estava contente com o trabalho na farmácia, embora fosse algo de meio período, pois meu foco era o laboratório dos irmãos Vincent. Eles foram muito solícitos comigo por esses dois empregos e pelo o quê entendi Sue teve alta participação nisso. Ela foi responsável tempo atrás por algumas descobertas de ervas locais aos irmãos Vincent, que trabalharam em um novo projeto de flora medicinal a partir dessas plantas. Esse novo composto medicinal que eles criaram, com a ajuda dos conhecimentos indígenas de Sue, rendeu-lhes muito prestígio no âmbito da ciência e lógico, o início de carreiras de sucesso no ambiente fármaco. Eu seria realmente, eternamente grata à Sue porque sem a ajuda dela, meus primeiros passos nessa cidade não seriam dados. 
          Em um dia que eu conversava com Julian Vincent, ele contou que Sue dissera-lhes que tinha ótimos pressentimentos por mim desde o momento em que eu, visitando a cidade, a abordei para uma conversa sobre o lugar. Sue nunca comentara comigo sobre essas ótimas impressões. Julian havia me dito isso um pouco depois de eu ter saído da reserva com a minha "pá virada". Eu devia desculpas à Emily, Sue e acredito que ao Seth, que sempre me soou tão ingênuo, por aquele incidente. Entretanto quando me enraiveço o melhor mesmo é me afastar. 
          Eu estava no laboratório fazendo a distribuição dos químicos nas cápsulas a pedido de uma nova encomenda de Julian e Hernando quando os mesmos chegaram.
– Bom dia Luna. – disse Julian.
– Bom dia Julian. – eu o olhei e procurei por seu irmão – Eu aguardava-os mais tarde. – continuei o trabalho e então sorri para ele. – Hernando não veio?
– Veio sim, está descarregando uma caixa. O que faz aqui tão cedo?
– Tenho andado tensa e trabalhar me faz bem... Ocupar a mente.
– Não tem receio de sair da sua casa às seis horas sozinha? É um pouco escuro não? – nesse momento Hernando chegou dando-me bom dia. Respondi a ele e continuei a conversa com Julian sem distrair-me das cápsulas.
– Hm... Nos primeiros dias eu estive mesmo receosa com os lobos. Eles têm acampado na entrada da minha casa, eu acho. Pelo cheiro. – então eles se viraram para mim interessados e curiosos – Mas acredito que essa minha movimentação matutina tem afastado eles. 
– Tenha cuidado Luna. Ouvimos relatos bem sérios sobre os ataques. 
– Acredite Hernando, eu tenho escutado muito mais.

          Todos rimos e terminando meu trabalho fui cumprimentá-los com um abraço. Voltei aos armários do laboratório para pegar as caixas de dispensação. Dispensando as cápsulas e bulas eu entreguei os pedidos a eles, enquanto os irmãos trabalhavam no outro lado do laboratório.
– Rapazes? Aqui está o pedido das cápsulas de ácido valérico. 
– Obrigada Luna, pode deixar na recepção? 
– Claro. Vocês querem mais alguma coisa ou posso ir para a farmácia?
– Na verdade, nós gostaríamos de conversar com você. Pode nos esperar um pouco? – Hernando disse.
– Sim. 


          Eu caminhava até a recepção ansiosa para saber o que eles gostariam de falar comigo. Peguei minha bolsa e tirando o jaleco, dobrei-o e guardei na bolsa. Já agitava as chaves do meu carro na mão. Julian e Hernando chegaram e sentamos no sofá da recepção vazia para conversarmos.
– Temos uma proposta a você, Luna. – Hernando sempre muito direto.
– Está difícil e corrido para Hernando e eu sairmos de Seattle para vir à Forks apenas dirigir os pedidos a você e lidar com a administração da farmácia. Nosso laboratório não é aberto ao público, servindo apenas para que você faça as formulações. Então temos pensado em transformá-lo em uma sede de um novo projeto. 
– Temos trabalhado com cosmetologia e perfumaria. Nosso laboratório em Seattle tem crescido e pensamos em focar apenas nesses estudos. Temos muitos planos.
– Portanto a área medicinal é algo que aos poucos iremos nos desligando. Porém, você é ótima com tudo isso e não podemos findar com a farmácia, já que somos os únicos da cidade.
– Então propomos a você que gerencie a farmácia e fique com ela em horário integral, quanto ao laboratório não há necessidade de continuar nele, pois como dissemos estamos estudando se enviamos alguma equipe para cá ou simplesmente o transformamos em uma loja com nossos produtos já concluídos. O que acha?
– Bom, eu desejo muita sorte a vocês. Acredito que terão muito êxito com cosmetologia, pois a última amostra do creme que me apresentaram é realmente muito boa. Agora, eu realmente não esperava por isso.
– Luna, realmente confiamos muito em você. E no seu trabalho claro, não queremos perdê-la.
– E eu fico honrada e sempre muito agradecida. Vocês deram um impulso fora de sério para mim aqui em Forks. Porém, farmacologia não é o meu foco. Eu disse isso no início, não me levem a mal. 
– De forma alguma. O que te incomoda nisso tudo? – Hernando disse simpático como sempre são os dois irmãos.
– Não é questão de incomodar. Longe disso. Acontece que eu tenho estudos de biologia próprios e o fato de ter seguido farmácia é justamente para o desenvolvimento desses estudos. Com isso assumir a farmácia em tempo integral seria um pouco inviável para mim. Há algum problema em Steve continuar comigo?
– Não. – eles disseram olhando-se e sorrindo juntos. 
– Mas você assume a gerência da farmácia para nós?
– Bem, eu não vejo problema com isso Julian.
– Ótimo! Nós mandaremos a documentação toda para você ler e analisar se quiser. Não muda muita coisa, apenas não precisaremos mais vir aqui tratar de alguns assuntos. Você fará por nós.
– Sim. Mas... Quanto ao laboratório... Vocês poderiam me emprestá-lo enquanto não tomam alguma decisão sobre ele? – eu disse um pouco temerosa da reação deles.
– Emprestar? Posso perguntar para o quê? – Hernando pareceu calmo assim como Julian.
– Justamente por esses estudos que citei. Eu ainda não tenho todo o dinheiro para iniciar a construção do meu pequeno laboratório e seria de muito auxílio que eu pudesse continuar tendo acesso a ele.
– Bem, Luna. É um assunto delicado. – Julian pronunciou-se. – Você poderia nos dizer quais são esses estudos?
– Estudos de plantas. Estudos medicinais.
– Nesse caso não vejo problema, desde que nós possamos acompanhar os resultados enquanto estiver utilizando o nosso laboratório. Apenas por formalidades se é que entende. Não queremos nos envolver nos seus estudos. Fique tranquila com isso. – Julian afirmou olhando para Hernando.
– Eu também não. – Hernando disse sorrindo.
– Eu sou imensamente grata. 


          Despedimo-nos e eu fui para meu carro. O laboratório ficava na parte de trás do centro de Forks. Uma parte menos movimentada, não isolada. Os irmãos Vincent entregaram um convite antes que eu saísse. Passariam à tarde na farmácia e eu não estaria mais por lá. Ainda naquele dia partiram para Seattle novamente.
          No caminho até a loja pude ver os Carter cumprimentando-me do mercado. A localização do mercado deles era próxima à loja dos Vincent. Na verdade, o centro de Forks tem seus pequenos estabelecimentos próximos. Com exceção da escola municipal e da delegacia que não se enquadram naquele aglomerado de comércios. Cumprimentei-os de volta com um sorriso largo. 


          Daniela Parker estava na porta do mercado, ao lado de Peter. Creio que conversavam, antes de Scott me vir e acenar. Pude ver o desgosto na face dela. Confesso que eu não sou de me preocupar com repulsas alheias, mas comecei a achar aquilo um tanto quanto precipitado. O que afinal, eu teria feito a ela? Seria pela revelação que Eva me prestou ao dizer que Scott interessava-se por mim? Seria por Erick e eu? 
          Erick... Ele de fato desaparecera. Talvez eu devesse procurá-lo. É também verdade que esses tempos mais próximos à cidade e mais afastados da reserva evidenciaram o quão eu estava mexendo com as pessoas da cidade. E isso simplesmente por respirar. Murmúrios sobre o quê eu teria vindo fazer ali passavam ligeiros aos meus ouvidos com frequência, e pareceu que ser "amiga" de Bella não era um bom presságio.
          Abri as portas da farmácia e pendurei minha bolsa na saleta aos fundos. Algumas caixas tinham chegado. Acredito que os irmãos Vincent teriam deixado-as ali antes de irem ao laboratório. Enquanto eu me preparava para levá-las ao mesmo quarto dos fundos, Scott apareceu na porta da farmácia.
– Bom dia Luna! – ele disse escorado na porta.
– E aí Scott! Bom dia. – disse indo cumprimentá-lo. Ele me abraçou forte.
– Como está?
– Estou bem e você?
– Um pouco mais calmo. Hoje estou mais absolvido do mercado.
– Como assim?
– Ganhei uma folga. – ele riu dando menos importância àquilo.
– Pobre Peter. – eu olhei por sobre os olhos iniciando o sistema do balcão.
– Ah, pois é. Acredita que ele cobrou por me cobrir hoje? – Scott aproximou do balcão e ficou bem próximo olhando. Escorava seu queixo nas mãos. Os cotovelos no balcão.
– Hm... E o que ele pediu em troca? Alguns telefones? – eu sorria fazendo insinuações sobre as garotas que viviam correndo atrás de Scott pela cidade. Ele é um bom partido de Forks. Interesseiras.
– Na verdade... – Scott pôs-se a rir tampando o rosto com as mãos. De um jeito muito fofo, vale citar. – Ele está me fazendo um grande favor. Pediu o telefone da Daniela.
– A Parker? 
– Sim.
– Ela é afim de você? – perguntei mais interessada parando de digitar no teclado.
– É sim. Por quê?
– Acho que agora entendo porque ela não me engole.
– Tá falando precisamente do quê? – ele ficou sério e... Esperançoso, eu diria.
– Acho que... Ela me vê como uma ameaça.
– Qualquer uma dessa cidade deve te ver como uma ameaça. Você tem tudo para isso.
– Hm, por quê?
– Algumas garotas correm atrás daqueles que consideram bons partidos da cidade. E você é uma forasteira que tem tudo para atrapalhar os golpes do baú.
          Eu fiquei sem graça com a atitude do Scott talvez pela primeira vez.
– Mas acha que Daniela aceitaria sair com Peter? – eu disse sorrindo em dúvida.
– Não. Mas acho que ela faria qualquer coisa para chegar em mim de alguma forma.
– Entendi. – nós começamos a rir. – Deve alertar o Peter, não acha?
– Ele é novo, mas não é bobo. Sabe muito bem de tudo isso.


          Depois disso ele se ofereceu para me ajudar com as caixas que eu tinha que guardar. Limpei a farmácia, atualizei o sistema e Scott se despediu, dizendo que aproveitaria o dia em outra cidade. Desejei-lhe diversões e na porta ele me abraçou apertado e beijou o meu rosto demoradamente. Lógico, aquilo foi o suficiente para que Parker&Cia pudessem olhar para mim, de onde estavam com sangue nos olhos.
Liguei para Sue assim que terminei os primeiros preparativos na loja. Desculpei-me com ela, que me perguntava quando eu voltaria para vê-los. Eu respondia dizendo apenas um "Ah Sue, é que estou meio ocupada agora" . Pedi a ela para falar com Seth.


– Você está com raiva de mim? – assim mesmo ele atendeu.
– Não Seth, isso seria impossível. Eu queria ver você inclusive...
– Sério? 
– Pode vir à farmácia? 
– Eu pego a moto do Jake.
– Não! Quero dizer... Não diz a ele que vem me ver, pode ser?
– Segredinho nosso gata. – Seth disse com uma voz propositalmente sexy, que eu nem sabia que ele tinha.
– Não esquece as mudas que Sue preparou para mim, ela disse que vai mandar por você.


          Eu pedi a Sue em um telefonema, depois da minha "briga" com Black que ela fizesse uma muda de manjericão e babosa para mim. Eram objetos do meu estudo. Assim que Seth chegou entreguei o envelope com o dinheiro a ele pedindo para que o entregasse nas mãos de Black. Ele me abraçou convidando-me novamente para voltar à reserva. Então nos despedimos.
          Ao chegar a hora do almoço esperei por Steve, para a troca de turnos. Ele chegou e eu voltei para casa. Quando eu ia dar partida no carro, a viatura da polícia parou na lanchonete badalada da cidade. Avistei Erick sair dela sozinho. Tranquei o carro e fui até ele. 
          A lanchonete tem uma daquelas sinetas que fazem barulho quando abrimos as portas. Não estava vazia e todos olharam para ver quem chegava. Inclusive Erick que me olhou de soslaio da mesa onde estava. Ao ver de quem se tratava percebi a rigidez dele. 

– Erick. Como está?
– Bem. E você?
– Indo. Eu posso me sentar?
– Eu não posso demorar.
– Eu não pretendo alugar você. – eu disse já me sentando. Ele olhou sério e desconfortável. – Até quando vamos ficar sem nos falar?
– O que você quer Luna?
– Conversar com você. Mas aqui não é hora e nem lugar. Quando podemos nos ver?
– Vai estar em sua casa hoje à noite?
– Como todas as noites. – assim que o respondi ele se afeiçoou de uma expressão de sarcasmo.
– Passo lá. – falou seco, frio e voltando-se a garçonete.
– Até mais então.


          Eu despedi e levantei. Abri a porta do carro com raiva de Erick. Precisava ser tão ridículo? O que eu fiz a ele? Então parei um tempo para pensar, com a cabeça presa ao volante. Eu achava exagero dele e culpa do próprio por ter se iludido, mas de um jeito ou outro sendo culpa diretamente minha ou não, eu magoei os sentimentos de alguém. E aquilo devia desculpas. É assim que funciona: você tem que mandar o orgulho pular do barco para a humildade navegar nele.
          Em casa após o almoço fui fazer novas mudas através daquelas que Sue tinha me dado. E a tarde seguiu assim: eu plantei as novas mudinhas no quintal dos fundos e cuidei do meu jardim da frente da casa. E quando o sol se pôs... – ironia, o sol nunca se põe em Forks, ele nem mesmo dá o ar de sua graça – quando o relógio marcava aquilo que deveria ser um fim de tarde eu guardei meus aparatos de jardinagem e tomei um banho. 
          Desci já vestida com um moletom e uma camiseta dos Ramones ansiosa para ler o convite que Vincent havia me dado. O convite consistia em um jantar na casa do Hernando, às 20 horas e no fim de semana próximo. Na casa dele em Seattle. Fiquei honrada e imaginei ser algo sofisticado apenas pela aparência do convite. 
          Bebericando um pouco de suco na cozinha escutei um estrondo de tábuas caindo. Os lobos continuavam rondando a minha casa durante aqueles tempos e eu sabia disso pelo cheiro. Algumas noites os uivos eram bem fortes, como se eles estivessem se comunicando. Um deles dormia na minha porta, pois todas as manhãs havia pêlos na entrada da minha casa. Eu estava acostumada a barulhos como aqueles, mas eu pensava: "Será que os quileutes sabem que lobos ainda estão rondando minha casa?". A considerar as atitudes dos rapazes, ou melhor, de Black quando soube dos lobos eu poderia jurar que seria um fato preocupante para eles. Mas os quileutes não me procuravam e não davam notícias sobre Embry, muito menos sobre esses assuntos. Eles estariam caçando-os como naquela vez? Eles estariam tentando controlá-los? E seria por isso que os lobos estavam acampando em minhas terras? 

          Coloquei o copo na pia após esses pensamentos e fazendo pela primeira vez algo impulsivo em relação a esses barulhos, eu abri a porta da cozinha e fui aos fundos da casa. Aquela deveria ser a hora que os lobos chegavam, mas eu não pensei nisso. Eu pensava em Embry. Na última vez que nos vimos, antes dele sair para caçar. Quando dei por conta do que estava fazendo eu já estava no meio do quintal dos fundos sem nada nas mãos e longe da porta da cozinha. O que quer que pudesse acontecer ali, eu teria que ser ágil. Algo se mexia nos arbustos da floresta que dava para o fundo da minha casa. Eu impulsivamente dei passos a frente. Onde eu estava com a cabeça? Então uma buzina tocou na entrada da minha casa. Corri para dentro dela. Enquanto eu corria pela casa até a porta, eu caí na realidade do que eu fiz e imaginei muitas coisas. Eu pensava aleatoriamente em como eu pude comprar aquela casa abandonada com fundos para uma floresta em um lugar que ninguém habita. Pensei que era hora de ter um cão de guarda. E pensei ser a maior besteira fazer isso. Imagine a loucura em ter um cão de guarda em uma casa cercada de lobos.
No quintal dos fundos da casa de Luna
– Ela é louca! Não, não, ela é corajosa muito corajosa!

– Ela não sabia o que estava fazendo. 
– Sim, mas mesmo assim cara, ela sabe dos lobos! Achei que ela iria para os arbustos.
– Anda, vem. Vamos ver quem chegou aí.



          Na entrada da minha casa, assim que saí pela porta vi Charlie vindo até mim acompanhado por Erick.
– Boa noite Luna! 
– Ei Charlie, que surpresa! – eu disse lhe dando um abraço.
– Vim saber como estava. Afinal, não tenho notícias de você há tempos.
– Ah eu estou bem, tenho trabalhado bastante.
– Sue está preocupada. Você não aparece mais na reserva há quase um mês.
– Ela é adorável. Diga que você me viu inteira. Ela não acredita pelo telefone. 
– Certo, eu digo sim. – ele sorriu e me deu outro abraço – Precisamos marcar um almoço de fim de semana lá em casa hein?
– Ah com certeza, estou devendo-lhe isso e eu não gosto de dívidas. 
– Eu te ligo querida. Até mais. Até amanhã Erick.
– Eu vou aguardar o telefonema. Até mais Charlie. Abraços a todos.


          Charlie entrou na viatura e eu olhei para Erick sorrindo. Convidei para entrar, mas novamente passei um olhar meticuloso pelos arredores, os arrepios que tive nos fundos de minha casa amedrontaram-me como há algum tempo não acontecia. Erick chamou pelo meu nome e eu entrei.
Em algum ponto escondido da varanda de Luna:
– Certo cara, vamos nessa. O policial está aí.

– Sim, vamos. Escuto os outros nos chamarem.



          Entrei e Erick percebeu imediatamente o meu nervosismo.
– Está tudo bem Luna? Está pálida... Parece nervosa.
– Antes de vocês chegarem eu estava lá no fundo e tive impressão de ter algo na mata... – rapidamente ele empunhou sua arma e seguiu para a cozinha até os fundos. – Erick... – fui atrás dele.



          Chegando lá o encontrei já a caminho daquela moita. Fiquei parada sob a porta sem nada dizer. Nada havia ali, ele adentrou um pouco mais a frente da mata e olhando em volta sem nada pressentir, deu meia volta até mim. Acariciou meu rosto já à minha frente na varanda perguntando se eu estava bem. Eu respondi agradecida e entramos à cozinha.
– Sente-se. Vou preparar um jantar.
– Não posso demorar. Tenho compromissos Luna.


          Luna. Ouvir Erick chamar pelo meu nome e de forma tão áspera mutilava minha consciência. Orgulho perverso esse meu, que em todos os momentos impróprios se voltava contra mim. O que há cerca de minutos atrás me pareceu uma trégua, com a preocupação dele, ao ouvir meu nome pronunciado como ele o fez, me puxou de volta à situação real. Eu chamei Erick para eu pisar no meu ego e pedir perdão. Ainda que eu não aceite que estivesse errada.
– Um café então?
– Pode ser. – ele sentou incomodado por estar ali. 

          Olhei para Erick e pela expressão dele, talvez eu tenha clamado trégua pela minha forma de olhar para ele. Eu estaria disposta a mostrá-lo como de repente soávamos dois estranhos. Rapidamente, ele tentou puxar algum assunto. 
– Então você não vai à reserva há quase um mês?
– Sim. Tenho andado ocupada.
– Ou se cansou de brincar de índio.
– Como é? – Erick tem o dom de irritar-me, ou é manha.
– Eles te excluíram não é? – olhava convincente e piedoso. – Eu te avisei Luna! Os quileutes não são boas pessoas! Eles nunca irão te aceitar, por mais linda, interessante e parecida com eles que você seja! São apenas índios egoístas com seus rituais de fogueira extremamente suspeitos!
– Eu não te chamei aqui para pedir a sua opinião. Eu te chamei para pedir desculpas Erick.
– Sei disso. E é por isso que te falo tudo isso. Por que mais você me pediria desculpas a não ser por eu estar certo sobre esses índios estúpidos?
– Índios estúpidos? – eu gritava. – Eu te chamei aqui para conversar sobre a forma como eu te magoei seu idiota! E não por causa de quileute algum, mas sim por ter expressado mal os meus sentimentos por você! Erick! Você é tão estúpido! Eu nem devia pedir desculpas a você! Estou aceitando um erro que não cometi!
– Não cometeu? Como você é hipócrita Luna. Você começa a se envolver com um índio atropelando nós dois e o errado sou eu.
– Cala a boca! Eu não atropelei nada. O que nós tínhamos? Saímos duas vezes e ainda assim você nunca deixou claro que pretendia algo sério. Eu me interessei pelo Embry assim como você poderia ter se interessado por qualquer outra!
– Ah, por favor, você quer que eu peça desculpas? – eu estava assustada por estar diante daquela parte mimada que eu não conhecia, triste por ver que o quê interessava para ele não era o bem estar da nossa relação, mas a briga infundida dele com os quileutes. 
– Não. Não quero suas desculpas Erick. Sabe por quê? Porque você quer que eu me desculpe por gostar de pessoas nas quais você odeia sem motivos, e não por tê-lo magoado. Sua birra não é por mim. É por eles.
– Você não sabe o que fala. – ele começou a rir ironicamente e muito nervoso. – Você defende aqueles marginais!
– Eles não são marginais! – gritei já avançando para cima de Erick jogando coisas nele entre tapas e socos infantis. 
          Ele estava certo sobre ter sido excluída, mas eu ainda defendia os quileutes. Essa maldita sensação de me sentir uma deles! E lógico, não devo julgá-los por seus segredos, afinal eu nada sei sobre eles.
– Eu preciso realmente ir. Minha namorada me espera e não quero perder tempo com você. – ele frisou bem a pronúncia "namorada"  segurando meus braços com olhar desprezível. 
– Melhor você ir mesmo. Antes... Eu peço desculpas a você por tê-lo iludido involuntariamente. Somente por isso.
– Se é do meu perdão que você precisa para viver... Eu te perdoo.
– Não! Eu tenho a minha consciência tranquila, minhas desculpas são apenas um favor que lhe faço, já que sua consciência é surda e cega suficientemente ao ponto de te fazer não aceitar os seus defeitos.
– Não preciso da sua aceitação ou favores. É você quem precisa daqueles índios... Olha para você. Totalmente dependente deles.
          Ele estava certo. Eu precisava das pessoas daquela tribo, daqueles ares, daqueles olhares e urgentemente dos seus mistérios. Eu não seria falsa em retrucar contra isso, mas eu precisava ainda saber de uma coisa...
– Porque você pronuncia o nome "índios" com tanto desprezo?
– Por que este é o único sentimento que tenho por eles.
– Cuidado com isso. Seu chefe logo será um deles.
– Se o senhor Swan não sabe escolher suas esposas eu não tenho nada a ver com isso, mas não tenho a menor obrigação de ser simpático com essa gente.
– Essa gente... – eu repeti da mesma forma com que ele pronunciou, mas para mim mesma, a fim de entender o que eu presenciava. 

          Que Erick era aquele? Fora por culpa minha que aquele ódio todo veio à tona ou eu estava sendo muito prepotente?
– Adeus Luna. Jessica já deve estar preocupada com minha demora.
– Adeus senhor Erick.

          Pude perceber com o susto que ele levara que tratá-lo por "senhor" mostrou claramente nosso distanciamento. Ele sofria com aquilo. Aproximou-se de mim, eu o olhava decepcionada e acariciando meu rosto ele se despediu.
– Se cuida Luna. Eu só quero o seu bem e essa gente... Enfim, você não precisa se misturar com um povo tão desprezível... – beijou minha testa e quando já estava na porta eu chamei por ele. Ele não se virou. 
– Só para você saber... Eu sou filha de índios. – Erick então, olhou para mim inexpressivo e saiu parecendo atordoado.


          Fechei a porta trancando-a. A água para o café estava quase seca, então optei por utilizá-la apenas para uma caneca de chá. Um forte chá de capim limão.
Na reserva
– Ela vai ficar bem Jacob. Não precisa ir!

– Pai, eu vou. Paul, Seth! Vocês vêm comigo?
Eles olhavam-me indecisos. Meu pai insistira naquela ideia de que eu deveria ficar fora daquilo tudo, mesmo sendo aquela uma noite aturdida.
– Eu vou com ele Billy! – disse Seth.
– Lia também pode ir, Paul e Quil ficam comigo Billy. – disse Sam passando confiança ao meu pai que às vezes agia como se eu ainda tivesse 16 anos. Eu estava prestes a liderar e ele ainda agia daquela forma tão irritante.
– Certo, então vamos antes que a princesinha fique em apuros. – disse Lia, esnobe. 

          Saímos sobre os olhares preocupados de todos. Ouvimos os urros altos do perigo, olhamos para trás preocupados.
– Vão! Nós damos conta disso! – disse Sam sendo seguido para a mata junto com o restante da matilha.

– Não sei por quê estamos nisso! Ela não corre perigo! 
– Lia! Você ouviu o que Billy disse. – Seth brigava com a irmã, e realmente a garota estava dando nos nervos agindo daquela forma. Lia fazia com que eu me recordasse de tempos atrás. Tempos infelizes. 
– Jacob... E o policial? – perguntou Seth preocupado.
– Ele não deve estar mais lá.
– Como sabe? Eles podem estar juntos. – Lia continuava sendo irritante diante daquilo tudo e eu controlei-me para não mordê-la. Pelo menos ela notou isso e se calou.
– Ainda que ele esteja lá nenhum deles está fora de perigo. – concluiu inteligentemente, Seth.

          Bebi meu chá e já mais calma liguei o computador para procurar desvendar algumas das minhas dúvidas. Meu telefone tocou.
– Boa noite Luna. É o Steve.
– Boa noite Steve, aconteceu algo?
– Não. Primeiramente, parabéns pela promoção senhora gerente. 
– Ah, obrigada. Não muda muita coisa.
– Certo. – ele riu. 
– E então?
– Então... Você vai ao jantar dos Vincent?
– Claro, já é neste fim de semana, certo? – conferi pegando o convite e lendo o dia e horário. – E você?
– Sim, também irei. Que tal se fôssemos juntos?
– Acho ótimo. Até porque eu não sei andar muito por Seattle.
– Eu passo aí as oito horas então, pode ser?
– Se importa, se nós formos com meu carro?
– Não. Por mim tudo bem.
– Até lá então Steve, e não se esqueça: qualquer problema com a loja, você pode me ligar. 
– Entendido chefinha. – Steve disse brincalhão e desligamos. Ele é um amor de pessoa.

           Voltando ao meu laptop, digitei nas pesquisas do Google "Bairro Kalil, Forks" . Fiquei abismada com a quantidade de manchetes e notícias trágicas envolvendo o nome "Forks". Notícias sobre mortes misteriosas, rituais sobrenaturais, ataques a turistas, campistas e alpinistas que não obtiveram respostas a não ser suspeitas de provirem de animais selvagens desconhecidos. Contudo, sobre o bairro Kalil, eu precisei de uma procura mais detalhada e minha resposta fora que ali, exatamente ali naquele bairro inóspito, muitos destes corpos foram encontrados. 
          Então era isso, eu morava em um cemitério antigo. Então se ali ocorria a maioria dos ataques eu estava mesmo correndo muito perigo! Por isso nenhuma outra casa, nenhuma outra alma habitava os arredores e consequentemente esta era a razão do preço baixíssimo pelo qual paguei naquele casebre. Assustada e evitando esses pensamentos tentei dormir, porém os lobos pareciam cada noite mais agitados e naquela precisamente, eu temia muito por mim. Nunca pensei tanto em Embry e Jacob como naquela noite. Em consequência disso, sonhei com eles.
          Ao amanhecer após toda a preparação matutina rotineira, não havia mais sinais de perigo. Porém minha alma ainda gelava. Decidi que não faria pesquisa alguma no dia, estava muito exausta.

          Assim que segui à porta para sair em direção ao meu turno da farmácia avistei um envelope conhecido, no chão à beira dela. Peguei e abrindo a porta para enfim sair, nem mesmo precisei abri-lo. Havia um bilhete pregado nele dizendo "Nada de pagamentos, esse foi o combinado". Black devolvera meu dinheiro. Entrei no carro desanimada com o fato de ter que insistir naquilo. Ele não facilitaria nunca? Que ótima convivência nós teríamos.
         Já na cidade estacionei na vaga de sempre. Avistei Black sair do mercado e antes mesmo de olhar para a loja, tranquei meu carro e corri até ele. 

– Black! – gritei ao vê-lo subir na motocicleta irrevogavelmente perfeita. – Espera! – ele me olhou retirando o capacete, ainda sentado. 
          Andei até ele parando bem em frente ao corpo que refletia exaustão e nenhuma postura elegante sobre as duas rodas.
– Bom dia. Parece cansado.
– Bom dia. Realmente preciso de um bom descanso. O que aconteceu? – ele respondia desatento a mim. Até que arregalou os olhos ao ver estende-lo o envelope. – Não vou aceitar.
– Ora, Black. Não dificulte as coisas. O combinado foi um pagamento justo.
– Eu não quero. Você precisará para montar seu laboratório.
– Como? – ele abaixou a cabeça como se tivesse falado demais.
– Hm... Sue e eu, estivemos conversamos sobre você. 


          Black tem uma particularidade: quando não gosta do assunto ou não quer falar, quando não quer estar em alguma situação, mas é obrigado a isso, ele conversa sem olhar para a pessoa. Fica analisando em volta com o olhar trancado e as sobrancelhas juntas. É sexy, devo confessar e engraçado.
– Conversando sobre mim. O que? E por quê?
– Nenhum motivo direto. Ela apenas comentou que você planejava isso. Então pegue seu dinheiro de volta. 
– De qualquer forma eu insisto.
– Façamos assim... – ele estava cansado demais para discutir. – Você fica me devendo um favor. – ele concluiu já se preparando para partir.
– Não, espera. – depositou um beijo em minha testa e piscou para mim. – Jacob! 
– Luna, não. Depois nós conversamos. Preciso mesmo ir.
– Está tudo bem? Porque essas olheiras tão fortes? Você não tem dormido. O que está acontecendo? É com o Embry?
– Está tudo bem. – ele disse e saiu veloz.


          Mais uma vez, sem notícias, sem vestígios, sem explicações. Se eu ficasse pensando nessas coisas que vinham ocorrendo eu surtaria, então pensei no jantar dos Vincent, no quê eu usaria para ir precisamente. A farmácia sempre monótona pelas manhãs decidiu surpreender. Primeiramente com a visita insossa de Jessica Parker. Infeliz a coincidência de ser irmã de Daniela? Bom, coincidências como essas são muito comuns por aqui.
– Bom dia. – eu disse.
– Um remédio para dor de cabeça. – educação não era o forte dela.
– Alguma preferência?
– Não.
– O neoflex está custando cincos dólares, caixa com vinte comprimidos. Temos o genérico. 
– Esse mesmo. E os testes de gravidez ficam onde?
– Algum laboratório específico? 
– Não. Pode ser qualquer um. – peguei um dos mais vendidos e entreguei a ela.
– São vinte e cinco dólares no total. 
– Aqui está. – ela pagou toda esnobe. 
– Boa sorte. – eu disse sorridente olhando para o exame. 
– Obrigada. Erick vai ficar muito feliz. Eu tenho certeza da gravidez. 
– Sei que tem. – eu continuava sorrindo falsamente simpática e aquilo a deixou imensamente, nervosa.
          Após a visita nada agradável de uma, veio a visita da outra, porém Daniela nada consumiu. 
– Bom dia, em que posso ajudar?
– Onde está o Scott?
– Oi? Por que eu deveria saber?
– Sei que você está de caso com o meu Scott sua vadia. – "Ah fala sério!" foi o que eu pensei já entediada.
– Não sei onde ele está primeiramente porque não tenho nenhum caso com ele, depois porque ao contrário do que você deseja, ele não me deve satisfações e terceiro... Não perca seu tempo. Ele com certeza deve estar fugindo de você como sempre. Aliás, deveria perguntar à mãe dele em qual setor ele estaria. É no mercado que Scott trabalha e não na farmácia. 
– Sua ridícula! Scott! Scott! 
          A louca saiu invadindo o balcão da farmácia tentando entrar na sala reservada. Eu a impedi e assim que percebi que aquilo só iria piorar a situação, eu fiz questão de acompanhá-la por cada cômodo da loja. Ao ver que estava surtando, ela saiu sem dizer mais nada. Com o nariz bem empinado.
          Para piorar a minha situação, Erick também apareceu por lá um pouco mais tarde naquela manhã. 
– Bom dia Luna. Estou um pouco enjoado, o que você tem aí? – como se eu trabalhasse em uma lanchonete dos comprimidos!
– Você tomou café? 
– Sim.
– Têm sentido esses enjoos com frequência?
– Um pouco. Nada muito contínuo.
– Eu sugiro que você passe no posto ou no hospital. Não posso vender nada sem receita.
– Eu não posso Luna. Aliás, eu sempre tomo uns comprimidos para enjoo, me dê esses mesmo. O nome é... – ele retirou um papel do bolso – Bromoprin.
– Erick, eu não sou médica. Não posso vender esse tipo de medicamento sem receita. Você terá que ir ao médico. 


         E de repente, sem o menor preparo da minha parte, Erick me assustou. Correu dando a volta no balcão e estando à minha frente me puxou pela cintura e enlaçando um de seus braços no meu corpo, com uma das mãos na minha nuca, beijou-me tão desesperadamente como se a melhora dele dependesse daquilo. Eu fiquei tão sem ação que não reagi. Eu torcia mentalmente para que ninguém visse aquilo. Ao partir o beijo e separar nossos corpos, o encarei com medo, dúvida, raiva, surpresa e sabendo que eu lhe pediria respostas ele saiu depressa.
          Fiquei ali estatelada sem qualquer esclarecimento do que havia ocorrido. Erick não voltou naquela manhã e acabado o meu turno, fui novamente para casa. Nada de interessante aconteceu à tarde, senão as minhas pesquisas que dei um pouco de continuidade em casa mesmo. Aproveitei o tempo com mais folga para uma limpeza doméstica. Embora minha casa sempre estivesse organizada e de certo modo limpa, resolvi ajeitá-la com mais afinco e consegui descartar de minhas varandas uma sacola cheia de pelos. Dos lobos, óbvio. 
          Ao tardar da noite tudo continuava normal. É absurdo declarar um bando de lobos, muitos uivos e rosnados como "normal", porém aquela era a minha realidade corriqueira e eu me espantaria se por acaso não encontrasse sinal de meus "amiguinhos" por ali. 
          Entretanto, foi ao acordar que toda a "falsa calmaria" da minha mente obteve algumas de suas respostas. Eu acordei mais cedo do que o de costume e ao passar em frente à janela da minha sala, resolvi dar uma espiada. Afastei minha cortina e avistei pernas estendidas. Alguém estava escorado na minha porta. Antes de abrir, agi com sensatez e olhei novamente pela janela. 
          Black. Jacob Black. Ele dormira na minha porta. Mas por quê? Quando pensei em abrir, avistei Quil Ateara vindo em nossa direção. Fechei rapidamente as cortinas e me escondi silenciosamente. 
Ele acordou Black e os dois saíram correndo em direção à estrada. Black ainda sonolento olhou para trás, talvez se certificando de que estava tudo certo e de que eu não estaria acordada. Após aquilo eu fiquei raivosa e abismada. Por que ele faria aquilo? E há quanto tempo? Mas e os lobos? Erick estaria certo em dizer que os quileutes domavam e treinavam os lobos para atacar as pessoas? E o pior de todos os pensamentos... Os lobos estariam me cercando por causa dos quileutes? Embry. O que aconteceu com ele? Porque eu não tinha respostas sobre ele? Porque ele se afastou tão repentinamente? 
          Enquanto eu tomava um banho buscando frustradamente, me acalmar, minha mente vagueava nas lembranças das vezes que estive com Embry. O almoço na tribo, o passeio na praia, o beijo nas rochas, o corredor da casa de Emily, o casaco dele, finalmente a caça aos lobos. E não o vi mais, nem seu sorriso, nem seu olhar, nem ouvi a sua voz. 
          Embora ele fizesse falta, o que eu sentia por Embry era tão superficial! Não de um jeito pejorativo, mas era como se eu apenas me preocupasse com ele por tê-lo como um bom amigo, um companheiro, um irmão, eu até ousaria dizer. Sempre estive certa de que não o amava, afinal, nunca fui do tipo de garota sonhadora que em um beijo se declara apaixonada pelo homem da sua vida. É insano e estranho. Infantil. Mas eu tinha muita consideração pelo Call, e o curtia. Estávamos iniciando algo muito bacana. Eu queria seguir em frente com ele, mas como? Como, se ele não demonstrava querer o mesmo? Como se estávamos sendo afastados por tudo? Como se Black tomava mais espaço nos meus pensamentos com suas atitudes misteriosas do que o próprio desaparecimento de Embry?              Céus! Black não deveria surtir tanto espaço assim! Que droga! Ele tornava-se um tormento. Saí do banho e me vesti tão rapidamente que se existisse um concurso assim, o ouro era meu.
           Pobre do meu carro, ele iria engasgar com o tanto que eu iria acelerar para chegar naquela reserva. E assim o fiz. Ao chegar à reserva estacionei de qualquer jeito e deixei o motor ligado, inclusive. Eu personificava em meu corpo e semblante, a raiva, o desespero e o medo. Sentimentos mistos dos quais eu não controlava naquele momento.


          Ainda que Billy estivesse em casa, eu não deixaria de agir como agi. Abri de súbito a porta da cabana dele e adentrei-a buscando o quarto de Black. Um dos quartos estava arrumado, e nem sinal de Billy na casa. Encontrei outra porta semicerrada e avistei Black deitado em sua cama. Vestia apenas uma boxer e tinha o corpo perfeito descoberto. Embora a visão fosse tentadora, os sentimentos que havia na minha alma eram bem maiores. Comecei a batê-lo e gritar para ele acordar. Do nada, ele segurou meus punhos e girou-me em sua cama se colocando por cima de mim. Segurava minhas pernas com as suas pernas fortes, com suas mãos largas e grandes prendia meus punhos cruzados sobre o meu abdômen.
– O que é isso Luna? – dizia desesperado. 
          Minha blusa estava toda bagunçada e minha barriga à mostra. Diante toda a pele dele descoberta, minha pele não era nada apenas, do que um pontinho descoberto próximo a toda a nudez daquele quarto.
– CALADO! Explique-me agora, o que você fazia na porta da minha casa! Por que dormiu lá? – eu gritava.
          

          Billy, Sue, Paul e Quil apareceram no quarto de Jacob nos deixando constrangidos com a situação. Paul e Quil deram risadas discretas e espantadas. Eu me contorcia tentando me desvencilhar de Jacob que lutava contra mim, ainda vencendo e me deixando presa por seu corpo. Enquanto gritávamos um com o outro e lutávamos, as pessoas presentes olhavam, sem nada entender.
– Luna! O que faz aqui? – disse Billy finalmente.
– Eu quem quero saber, porque Jacob dormiu na porta da minha casa e o que ele fez, ou faz com os lobos à noite!? – gritei enfurecida e Sue tapou a boca com as mãos. Parecia assustada pela minha dedução e todos então ficaram sérios.
– Jacob! – Billy gritou com ele.
– O que foi? Ela quem invadiu e começou a me agredir! – ele estava nervoso e incrédulo.
– Não é isso! – Billy disse colocando as mãos sobre as têmporas, em sinal de impaciência. – Saia de cima dela e vá se vestir! – Billy olhou para ele como se tratasse da coisa mais óbvia.
– Ah. Claro! – ele me soltou e levantou bastante constrangido. – Desculpe Sue. – falou para ela imensamente envergonhado. 

          Abriu o guarda-roupa de um jeito atrapalhado e puxando uma bermuda vestiu-a. Eu ainda encarava-o séria escorada na cama dele.
– Será que pode olhar para lá? – ele me disse.
– Eu vou acabar com você se não começar a se explicar logo! – eu disse raivosa para ele desconsiderando a presença de outras pessoas. Então Black olhou para minha barriga descoberta e sorriu travesso. 
– Luna se acalme querida. – disse Sue. 

            Fazendo o que ela pedia ajeitei a roupa no meu corpo. Levantei e me desculpei com todos, inclusive com Billy por invadir a casa dele.
– Tudo bem Luna. Melhor, você e Jacob conversarem, nós estaremos lá fora. Acalme-se. – Billy disse para mim e antes de sair olhou sério para Jacob.
– Ei, gatinha feroz poderia me emprestar a chave do carro? Você deixou o motor ligado lá fora. – disse Paul. Sorri sem graça e joguei as chaves para ele.
– Até mais Luna. Tenha paciência com o nosso amigo. – disse Quil abraçando-me e sorrindo travesso para a figura irritada de Jacob.
            Depois que todos saíram, Black sentou-se em sua cama. Esfregando a face e encostando os cotovelos nos próprios joelhos depositou as mãos no queixo a me olhar.
– Estou esperando suas explicações, Black.
– Precisava mesmo disso tudo?
– Limite-se às explicações.
– Estou pensando.
– Está pensando? Ora, faça-me o favor! Diz logo Black! O que fazia lá? – ele ergueu um pouco o corpo me encarando sério, mas ainda sentado. 
– Eu estava vigiando sua casa.
– Como é? – ele me puxou pela mão e me jogou sentada ao seu lado na cama. Virou-se para mim e segurando minhas mãos continuou a falar olhando profundamente o castanho urgente dos meus olhos.
– É tão complicado Luna... Você não faz ideia de como eu gostaria de contar tudo o que sei, mas não posso. Eu estava te protegendo. Passei todas as noites possíveis dormindo à porta da sua casa.
– Black... Não insulte minha inteligência. Lobos rondam minha casa todas as noites e todas as manhãs tem pêlos espalhados pela varanda. Quer me convencer de que dormiu do lado de fora com eles?
– Lembra-se quando os rapazes saíram para espantar os lobos?
– Lógico.
– Nós conseguimos controlá-los...
– Certo, mas eles estiveram nervosos uivando noites e noites, agitados. Ora Black! Eu não sou idiota! Erick é quem esteve certo o tempo todo! 


          Soltei-me de suas mãos e saí do quarto, furiosa. Billy estava sentado na varanda e quase derrubei Sue com uma bandeja de café. Jacob veio correndo até mim pedindo para eu esperar e ouví-lo. Foi aí que eu parei de respirar. Parei de pensar. Todo o meu corpo parou. Embry estava saindo da casa de Sam. Embry estava lá!
– O quê? – sussurrei. 
         Uma mão forte segurou o meu braço. Era o braço forte de Jacob que me virou para ele e segurando meu rosto para encará-lo começou a explicar.
– Acalme-se. Eu tenho muitas coisas para te falar. Vamos até o galpão?
– Há quanto tempo? – eu disse correndo até Embry indagando-o pela resposta. 

          Mentalmente eu torcia para que ele dissesse "Agora há pouco Luna". Todos estavam parados e olhavam para nós assustados.
– Não faz muito tempo. Luna, você precisa se acalmar.
– Me acalmar Embry? ME ACALMAR ? – gritei. – Você não tem ideia de como eu tenho tentado me acalmar desde que você desapareceu! Tem uma cidade inteira me odiando por sei lá... Eu existir! Tem um policial enchendo a minha cabeça de coisas a respeito de todos vocês, nas quais eu os defendo sem nem mesmo conhecer nada de cada um! Lobos circundam minha casa o tempo todo! Descobri que moro em um lugar perigoso, que Forks é um lugar perigoso! Escolhi um lugar terrível para viver! Você desaparece e ninguém me dá notícias! Black dorme na porta da minha casa e fica inventando coisas sem nexo, e de repente como se nada acontecesse você está aqui na minha frente! E está bem! ME ACALMAR É O QUE  EU VENHO TENTANDO FAZER TODO ESSE TEMPO! ESTOU SOZINHA, NESSA CIDADE MONÓTONA TENTANDO ENTENDER O MÍNIMO OU APENAS ME CONFORMAR EM NÃO PROCURAR RESPOSTAS! E DE REPENTE BELLA É A PIOR COISA QUE ME ACONTECEU NA VIDA! NÃO PEÇA PARA EU ME ACALMAR. 


            Nenhum som era ouvido. Os quileutes encaravam-me muito espantados por não saberem de todas as coisas que vinham me acontecendo, por não saberem tudo aquilo o que eu sentia e os únicos olhares confortantes que recebi no meio de todos eles foram de Lia Clearwater e Emily. Saí correndo de volta para o meu carro. Sue veio até mim juntamente com Charlie que eu nem havia visto. Parando ao meu lado e segurando meu braço ele me abraçou como um pai.
– Billy! – Sue gritou para ele com a voz embargada, de um modo suplicante. 
           Não percebi se ele respondeu ou fez algum gesto para Sue. Apenas afundei nos braços paternos de Charlie.
– Luna... O que eu posso fazer por você? – Charlie chorava me olhando preocupado.
– Apenas me desculpar, pela forma como falei de Bella... 
– Não tem que me pedir desculpas por isso. Eu te entendo. – abraçamo-nos novamente.
           Jacob iniciou uma breve discussão com o pai dele e Sue, na varanda. Ela pedia para que eles falassem em tom baixo e eu olhava-os sem entender.
– As coisas vão se esclarecer, eu te prometo. – Charlie disse. – Você terá que ser forte e esperar um pouco mais. Confia em mim?


             Não sei por que, mas eu confiava em Charlie. Não consegui me soltar daquele abraço tão paterno que há muito tempo eu não recebia parecido. Billy se aproximou de mim pedindo para que eu ficasse por lá aquele dia, pois segundo ele, eu tinha muito a conversar e ouvir. Liguei para Steve, pedindo para que me cobrisse na farmácia no meu turno. Felizmente, ele poderia.
              Jacob se aproximou e parou à minha frente, calado, cabisbaixo e triste. Charlie entrou na casa de Sue. Ela e Emily vieram me abraçar sorridentes e envergonhadas. Não sei se elas deviam sentir vergonha de algo. Eu apenas sabia que Embry deveria. Seth também tentou me reconfortar com um sorriso e um "Que bom que está aqui" sussurrado em meu ouvido. Lia apenas sorriu de longe. Pelo menos alguma coisa estava evoluindo para melhor. Embry se aproximou. Estava visivelmente abatido, cansado, mais forte e não era mais o mesmo que conheci.


– Desculpe. Eu não estive bem. – ele disse. 
              Nos encaramos um tempo e deixando as lágrimas escorrerem eu o abracei.
– Seu idiota. – eu apertava-o. – Porque não me mandou notícias? Eu estive tão preocupada. 
            Abri os olhos, ainda abraçada a ele, e Black estava em minha frente com uma expressão muito irritada e não nos olhava. Eu sabia que algo o incomodava.
– Eu não queria que se preocupasse. Só tentamos te proteger... – Embry disse nos separando. 
          Ele não estava bem, não sorria, não tinha o mesmo brilho nos olhos, nem a mesma alegria.
– O que houve com você? – eu acariciava sua face. 
          Bruscamente ele retirou minhas mãos do seu rosto e afastou-se. Eu sofri com aquilo por saber que perdi o velho Embry. Eu sabia que ele estava mudado e não seria mais como antes. Sou sensitiva com essas coisas. Black repugnava cada momento ali.
– Eu já estou bem. Vou descansar. 
– Como? – eu estava novamente furiosa, aquilo era maneira de me tratar?

          Jacob olhou imensamente irritado para Embry quando esse passou por ele. Black já estava me conhecendo um pouco mais, pois quando olhou para a expressão em meu rosto prevendo que eu novamente surtaria veio à minha direção passando seu braço por minha cintura. Foi me empurrando de ré para a direção da praia.
– Black! 
– Ei, se controla certo!? Vem comigo. – continuou me arrastando. 

          Então eu me virei para frente decidida a acompanhá-lo. Olhei para trás e não vi mais Embry. Eu bufava nervosa. Jacob riu e disfarçou o olhar para frente.
– Já pode soltar minha cintura. Estou indo com você, não está vendo? 
            Então sorrindo torto com a minha birra, Black me colocou em seu colo.
– Me coloca no chão Black! – eu me sacudia em seus braços.
– Para com isso garota! Estou só te carregando pra você não escorregar nas pedras! 
– Não precisa!
– Embry não fez isso da última vez? – ele encarou meus olhos, e estava  bravo. 

          Esta afirmação dele denunciou que Jacob andou espionando Embry e eu no dia em que ficamos. Talvez ele estivesse nos espreitado o tempo todo.
– O quê? Mas é diferente! Black!
– Entendi! Ele pode né? – disse ainda mais bravo me colocando no chão.
– Oi? Black, qual o seu problema? – eu não entendia nada e fui andando mais rápido até ele. Contudo, ele estava certo e eu caí. Ao ouvir meu grito, Black correu até mim preocupado.
– Tudo bem? Machucou? 
– Não foi nada. Você também pode Black. – eu disse muito sem graça.
– Agora posso? – ele arqueou as sobrancelhas, irritado. – Chama o Embry.
– Black... Você está irritado com o quê precisamente? – eu perguntei ainda sentada no chão. 

            Ele revirou os olhos e me pegou no colo continuando a andar. Coitado, tentativa frustrada de me calar. 
– E então? Responda!
– Não estou irritado com nada. 
             "PUUUUFFF"! Desceu a barreira antiga. Impenetrável e transparente, mas eu já aprendi e dessa vez eu estava com um martelinho imaginário, pronta a quebrar aquela porcaria.
– Black... – comecei a rir. – Você está com ciúmes?
– Ciúmes do quê? 
– Não sei... De eu ter deixado Embry me carregar?
– Eu estou te carregando, não estou?
– Sim, mas é diferente. – nos olhamos discretamente atordoados e envergonhados. 


            A sensação daquele instante era de fortes palpitações no meu peito. Por motivos distintos: o primeiro, a frieza de Embry; o segundo, o corpo de Jacob tão perto.
– Você, precisava mesmo entrar no quarto daquele jeito Luna?
– Eu estava descontrolada... Desculpe por isso. – ele sorriu. 

            Black começava a esboçar um sorriso de verdade, ele reaprendeu a sorrir. Mas ainda sem mostrar os dentes.
– Nas rochas né? Seu lugar favorito. – ele perguntou ainda me carregando até o amontoado de pedras na areia. 
– Sim... Porque estamos aqui Black? 
– Quero conversar com você. – ele disse se sentando ao meu lado na pedra. 

           Eu namorava o mar... Fechei os olhos e senti a brisa amiga e gélida cortando meu rosto devagar. Ao abrir os olhos, Jacob me encarava admirado.
– E então Black? Pode falar.
– Primeiro... Porque Black?
– Ah... Não sei. Eu nunca senti que pudesse te chamar abertamente de Jacob e... Da primeira vez que o chamei por um apelido parece que você não gostou. – ele abaixou a cabeça como se recordasse exatamente do que eu dizia.
– Eu gosto da sua voz pronunciando "Black"... – ele me olhou cúmplice sorrindo fraco. – Acho que eu também deveria poder chamá-la de algum outro nome.
– Quando eu era menor, minha tia dizia que eu parecia uma ursa quando ficava zangada...
– Não... Eu prefiro... Loba. – olhei admirada para ele que reagiu com um sorriso solar. O primeiro sorriso verdadeiramente tímido e solar que Black dera.
– Gosto de loba...
– Luna loba... Preciso te contar algumas das nossas lendas. – disse sério.
– Estou mais do que preparada.


          Black contou da relação íntima que os quileutes têm com os lobos. O quanto os lobos são importantes para eles. E que eles conseguem se comunicar com esses animais de forma muito amigável. Daí por isso ele estava vigiando minha casa.
– Black... Como... – interrompeu-me antes de eu terminar.
– Eu não estava perto dos lobos. Fiquei observando de longe. Eles estão nervosos ultimamente por causa das mudanças da lua. Isso é verdade, embora todos pensem ser mito. Então eu fico observando se eles não irão tentar invadir sua casa. Naquele dia, que você me viu, eles foram embora antes de amanhecer, como sempre fazem. Quando eu acordei, eles não estavam lá, então me aproximei para olhar direito e peguei no sono na porta da sua casa. Foi só isso.
– Por isso tem dormido tão mal?
– Sim.
– Mas teve um dia, que você me disse que espantou um deles com uma vassoura e não havia vassoura alguma lá na varanda Black.
– É... Eu disse isso para que você entendesse que eu consegui espantá-lo. Você não sabia ainda que nós nos comunicamos com eles.
– Entendi... Você podia me ensinar, assim eu não precisaria ter medo nem incomodar vocês. – ele ria divertido.

           A história toda me soou confusa, mas eu mantive a tese de que procurar entender aquele povo, não traria bons resultados.
– Vem, vamos subir. – estendeu a mão e levantou. Descemos e fomos de volta às cabanas.
– Ei Black, você poderia ter me avisado antes. Pode dormir na minha casa! É melhor do que ficar escondido.
          Jacob me envolveu com seu braço dando um peteleco na minha testa, já estávamos na reserva. Charlie aproximou-se com sanduíches para nós.


– Belo sanduíche Charlie. – eu disse brincalhona, ele sorriu e voltou a ajudar Sue com os copos.


          Estavam todos reunidos na grande mesa do pátio. Embry não me olhava e eu entrei no jogo decidindo fingir que não o conhecia, por mais que aquilo me doesse. Jacob apertou minha mão e disse para mim "Vai ficar tudo bem" . Charlie me convidou para pescar com ele no dia seguinte.
– Como estão as coisas com Erick? – a maioria prestava atenção assim que ele disse.
– Ele é um idiota. – os meninos da reserva riram discretos. – Mas eu sei lidar com os idiotas. 
– Essa é a nossa Luna. – Seth falou beijando meu rosto indo sentar perto da mãe, todos riam de nós.
– Então você topa ir conosco? 
– Claro Charlie! Estou mesmo lhe devendo uma.
– Está me devendo sua presença em um almoço. A propósito almoçaremos na minha casa após a pescaria. 
– Tudo bem. Eu vou adorar, só não poderei demorar. Amanhã à noite eu tenho um jantar em Seattle.
– Hum... Algo importante querida? 
– Sim Sue, será na casa do Hernando.
– Ah, você irá adorar! – ela disse sorrindo.
– Durma por aqui Luna, Charlie e eu saímos cedo para pescar. – disse Billy.
– Ah Billy, eu não trouxe roupas. 
– Isso não é problema. – Emily disse sorrindo para mim.
– Também posso te emprestar algumas roupas... – Lia falou tímida e todos a olharam surpresos. Então ela fechou a cara.
– Obrigada Lia, é muita gentileza sua. – eu disse e ela olhou sorrindo. – Obrigada mesmo. 
          Ao acabarmos de almoçar levantei para recolher os pratos e Jacob chegou atrás de mim brincando, "O que você fez com a Lia?" ele sussurrou. 
– Pare com isso. Fico feliz por ela estar me dando uma chance. – eu sorri pegando alguns pratos. 
          Ele ajudou e quando estávamos na cozinha de Emily ele puxou minhas chaves no bolso da minha calça. Olhei-o assustada prestes a brigar e ele continuou andando porta a fora.
– Black! – gritei.
– Vou dar uma volta. – ele respondeu sorrindo e piscando.


          Passamos a tarde conversando, Lia, Sue, Emily e eu. Fui servir um café recém-passado e Lia me chamou para uma conversa. Pediu desculpas pelo modo como me tratou e declarou que sentiu medo, pois quando Bella se aproximou de todos como eu estava fazendo, foi muito doloroso para todo mundo. Não perguntei mais nada, porque eu estava disposta a não saber mais nada de Bella. Toda vez que o nome dela era tocado, o ar mudava e eu ficava nervosa. Maus presságios me sufocavam quando eu recordava da imagem da minha antiga amiga. Lia também disse que sentiu ciúmes. Achei bobeira da parte dela sentir ciúmes logo de mim, mas depois de um bom diálogo fizemos as pazes.
          Assim que nos reunimos todos na varanda de Emily, eu servi o café e Embry olhava distante para mim, outras vezes apenas encarava a paisagem. Ninguém tocou em nenhum assunto em relação a ele. Entrei para pegar outras xícaras e ao voltar, Jacob levava meu carro para o galpão.
– Luna, como vão os trabalhos na farmácia?
– Muito bem Charlie. Fui promovida à gerência. 
     Entre assuntos e assuntos, piadas e piadas, implicâncias dos garotos uns com os outros, Quil se aproximou com uma garota ao seu lado. Ela era nova. 
– Luna, essa é Bruh Ateara. Minha irmã caçula.
– Não fala assim Quil. – ela resmungou.
– Olá! Muito prazer. – eu disse.
– Prazer. – a garota não parava de olhar para Jacob que conversava com Paul. 


          Acho que ela não gostou muito de mim, ou não deu muita atenção para mim por estar ocupada demais observando Jacob. Bruh tem 16 anos e é tão bonita, quanto qualquer quileute. Jacob estava com uma camisa fina de longas mangas, calça preta, e descalço. Apoiava um dos braços no joelho, nessa mão segurava sua xícara vazia, a sua outra perna estava cruzada. Sentado, apoiando o corpo no outro braço que estava no chão. Virado para Paul conversando distraído. Eu percebi o quanto Bruh analisava cada milímetro de Jacob. Será que eles teriam alguma coisa? Black não me parecia o tipo que se interessa por garotas muito novas... Mas esses quileutes têm tantas curiosidades, vai saber! 
          Paul percebeu a presença da garota e sorriu para ela em seguida fizeram um toque de mãos. Só então Jacob notou-a. Ele sorriu para ela e repetiu o toque de mãos. Ela sorria muito marota para ele. 


– Bruh consegue ser mais insuportável do que eu e só tem 16 anos. – Lia sussurrou para mim sentando-se ao meu lado e analisando o tipo da garota. – Ela é fissurada no Jacob, embora ele não dê a menor confiança. Para ele, ela ainda é uma criança.
          Eu apenas sorri para Lia, afinal o que eu iria dizer?
– Ela não vai gostar nada de você. Se prepare. 
– Sério? Será que eu nunca conseguirei que alguém goste de mim de primeira? – Lia sorria.
– Tudo bem, também não gosto dela. Ela é atrevida. Adoro o Quil, mas às vezes nem ele suporta a irmã. Se ela mexer com você, estou do seu lado. – nós rimos depois de nos encararmos sérias.
– Sério Lia? Ela é só uma garota. – eu ria.
– Uma garota que arruma problemas de gente grande quando quer. Você vai ser uma pedra no sapato dela.
– Por quê? 
          Lia sorriu misteriosa se levantando. Eu a acompanhava com os olhos e durante seu trajeto, ela olhou para mim e Jacob e riu. Sério que Lia estava insinuando que aquela menina  sentiria ciúmes de mim por causa do Black? Isso é ridículo! 
– E aí chata. – Lia disse para a garota ao passar esbarrando nela.
– Já vai embora logo não é? – a garota respondeu no mesmo tom.
– Para minha felicidade sim. – Lia arqueou uma sobrancelha e tanto Quil quanto os garotos riam da rincha das duas. 
          Enquanto eu olhava as duas birrentas, discretamente, Jacob me olhava. 
– O que foi? – eu disse olhando de volta.
– Você vai ter problemas. – ele sorriu estendendo-me a xícara que estava na mão dele. 

        Será que todos ali previam coisas? Ou era muito óbvio?
          Levantei para lavar as xícaras. Bruh olhou curiosa e antipática. Talvez eu tivesse problemas mesmo. Ficamos todos conversando mais algumas horas. Escurecia cedo na reserva, porém acredito que já estava bem tarde quando Charlie e Sue se recolheram. Billy já havia ido se deitar a algum tempo também. Quil e Bruh foram embora primeiro. Na hora que a garota iria se despedir de Jacob, ele e eu conversávamos sobre como eu estava me sentindo com toda a distância e falta de pronúncia de Embry durante toda noite. Embry se recolheu após Lia ter ido dormir. Bruh beijou o rosto de Jacob e ele não gostou nada daquilo. 


– Você precisa ter uma conversa com a sua irmã sobre educação e sobre quando um cara não está afim dela Quil. 

          Black foi um grosso em dizer aquilo, mas eu não posso julgar a situação, pois pela forma como Quil reagiu, e como os presentes entre nós riram, Jacob talvez estivesse certo. A menina não se despediu de mim. Então Emily se levantou. Paul e Sam também. Finalmente eu me levantei e Jacob repetiu meu gesto. Somente naquela hora eu pensei: onde eu dormiria? Qualquer coisa eu iria para o meu carro.
– Luna... – Emily começou a falar.
– Ela vai dormir lá em casa Emy. – Black se pronunciou. 

          E disse de uma forma tão convincente que ninguém contestou. Eu poderia contestar, mas Embry dormia na casa de Emy. E talvez eu estivesse curiosa demais com a reação do Black, para discutir e contestar algo. E como eu pensava: eu ainda tinha meu bom carro para dormir. Todos saíram assim que Black falou, ficando nós dois ali na varanda de Sue silenciosos.
– Vem Luna. – ele pegou minha mão me levando para a casa dele. 


          Eu gelei com aquilo. Para quem havia trincado a barreira com um martelinho, na praia, de repente tudo havia desaparecido. O vidro havia se estilhaçado sem muito esforço. Quando entramos tentei fazer o mínimo de barulho, Billy dormia. Não avistei nenhuma cama feita na sala. Jacob entrou em seu quarto me dando passagem. Fiquei tão sem graça de entrar ali, pois me lembrei da forma como o abordei naquela manhã.
– Deixei suas coisas em cima da minha cama. Fui até sua casa buscar roupas para você. – ele colocou as mãos no bolso um pouco desconcertado.
– Obrigada... Então foi esse o seu passeio? – eu dizia sorrindo mexendo nas minhas coisas.
– Pois é... – ele sorriu e tirou a camiseta. – O banheiro é no fim do corredor. Fique a vontade... Eu vou estar na varanda... – ele disse saindo, encostou a porta e eu comecei a formar um sorriso frenético no meu rosto.


          Não entendia porque, mas eu estava muito feliz como se finalmente eu fosse parte de tudo aquilo. Ali percebi, que a única coisa que impedia de sentir-me totalmente bem vinda era a barreira que Jacob impunha entre nós. Se até Lia estava me aceitando, Jacob também aceitaria. E ele conseguiu. Éramos amigos então e eu não podia estar mais feliz. Até poderia, se Embry estivesse como antes. De repente os papéis se inverteram. Lia aproximou e Embry distanciou-se. Nada é perfeito. Pensando naquilo eu desanimei um pouco. A chuva que caía lá fora tão mansinha, do nada desabou. Porque sempre que Black e eu estávamos próximos em alguma noite, a chuva caía em sua forma mais esplêndida de castigo?
          Fui buscar alguma roupa para dormir e para meu espanto, Black trouxera uma camisola para mim. Seria de propósito? Lógico que seria! Pois se ele conseguiu trazer roupas para o dia da pescaria, poderia trazer algo mais decente com a situação! Eu peguei a minha camisola, roupas íntimas. E que horror, que vergonha! Jacob mexeu nas minhas roupas! Por isso ele foi para a varanda, pois sabia que eu ficaria envergonhada e furiosa. Mantive o controle e peguei a toalha. Ele pensou em tudo... Preparou uma mala com toalha, roupas para pescaria, roupas para o almoço após a pescaria, tênis, chinelo... Até absorvente ele trouxe. Eu não precisava, mas ele não sabia não é? Ele até que era bem preparado.
          Confesso que nunca estivera tão atordoada em um curto espaço de tempo como naquele momento... Jacob... Ele... Bem, por isso, ele demorou. A única coisa na qual ele não pensou, foi nas roupas de cama. Trouxe até meu creme corporal. É eu estava assustada.
          Tomei banho e fui em direção ao quarto. Pouco depois ele bateu na porta. 
– Entre.
– Com licença Luna... – ele não me olhava. – Precisa de alguma coisa? 
– Só irei precisar de roupas de cama. Você pensou em tudo, menos nisso. Pensou até demais eu diria. – eu sorri erguendo o pacote de absorventes. Jacob estava muito constrangido.
– Dê um desconto... Eu fiz um grande esforço. – ele disse sorrindo.
– Está de parabéns, trouxe inclusive meu creme corporal. – sorri.
– Hum... É... Escute, eu vou tomar um banho, você quer comer alguma coisa? Pode ficar a vontade.
– Tudo bem, obrigada. – eu disse e ele saiu. 
          Peguei meu creme e comecei a passá-lo nas pernas. Jacob entrou de repente e quando viu o que eu fazia pediu inúmeras desculpas. 
– Esqueci a roupa. – ele disse.
          Passou rápido pelo quarto sem me olhar. Continuei o que eu fazia rindo do jeito como ele ficou. Ao contrário do que se pensa Jacob envergonhado não se encolhe, mas estufa o corpo tanto quanto quando está bravo ou sério. Saiu de cabeça erguida sem me olhar.

          Fiquei analisando o quarto dele até ele voltar. Eu não sabia onde dormiria. Comecei a sentir muito frio, relâmpagos, trovões e raios castigavam o céu. A chuva era barulhenta ao ponto de minha respiração tornar-se inaudível. Nada de roupas de frio na mala, e eu nem as esperaria visto que ninguém ali era tão friorenta quanto eu. Sendo assim, Black nunca pensaria no frio. Chega ser engraçado. Ele pensou em coisas tão pequenas e no mais provável, ele não pensou... Embry pensaria. Talvez, se Black me conhecesse como Embry ele também percebesse, mas o quê exatamente Embry sabia sobre mim? Cheguei à conclusão de que Embry Call nada sabia a meu respeito. Se não fosse a nossa conversa sobre o corpo dele ser quente, ele não perceberia minha temperatura. Analisando melhor, Jacob sabia muito mais de mim somente pelo dia em que eu contei a minha história para a tribo. Um dos dias em que Embry não estava presente.
          Quando Black entrou no quarto eu não ouvi por causa da chuva. Eu mexia nas pequenas miniaturas de madeira que ele esculpiu. Então senti uma borrifada no meu pescoço e virei assustada.
– Eu me esqueci do seu perfume...
– E quem disse que eu gosto do seu perfume?
– Ninguém disse, mas agora está borrifado. – ele aproximou de mim cheirando-me levemente. – E sinceramente... Está ótimo assim. 
          Black virou-se de volta ao seu guarda-roupa, secando os cabelos. Fiquei de frente para suas costas largas e perfeitas. Minha mente começava a beirar a insanidade e eu travei uma batalha interna comigo mesma. Mordi meus lábios e de olhos fechados, eu mentalizava "Não! Ele Não! Não pense em nada Luna!". Quando abri os olhos, Black me encarava curioso.
– Tudo bem? – ele vinha se aproximando. 
– Sim. – eu tremia por frio e nervosismo. Então ele me tocou, e eu prendi a respiração.
– Está gelada. 
– Convenhamos... Está muito frio.
– Vá se deitar. Quer que eu te prepare um chá? 
– Não obrigada. Onde eu durmo?
– Na minha cama. – olhei-o inerte. E ficamos nos olhando assim por um instante. 
– Eu vou dormir no chão Luna. – ele começou a rir.
– Tem certeza? 
– Quer que eu durma com você? – perguntou de um jeito atrevido.
– Não, mas eu posso dormir no chão.
– Cala a boca. – ele fechou os olhos e abaixou a cabeça.
          Jacob jogou sua toalha em cima de uma cadeira. Foi até o armário, pegou um cobertor forrou um colchonete no chão e jogou uma almofada por cima. Depois trocou as fronhas de sua cama e preparou-a para eu me deitar. 
– Muito cavalheiro da sua parte.
– Vou pegar um cobertor para você. 
– Não precisa! Eu me cubro só com o lençol mesmo.
– Luna, você está gelada.
– Eu estou bem. Obrigada.
– Então tá... Eu não gosto de dormir com muita roupa, você se importa?
– Percebi pelas roupas que você me trouxe. – eu disse apontando minha camisola – Não me importo não, fique a vontade. 
          Ele tirou a calça de moletom ficando apenas de boxer preta. Socorro! Ele continuou falando comigo, que por sinal desviava qualquer olhar para ele. Sem nem mesmo olhar eu me lembrava da cena que nos encontrávamos de manhã naquele quarto, então imagine se eu o olhasse.
– O que há de errado com a camisola que eu te trouxe? É a mesma do dia que eu dormi na sua casa. 
          Então olhei para mim e só então percebi o fato. Realmente era ela. Ele gravou a camisola que usei naquele dia. 
– E olha que havia algumas roupinhas bem provocantes por lá. Fui até educado. – ele disse me olhando e sorrindo sacana.
– Black! – fiquei desconcertada e então me deitei. Ele se aproximou.
– Eu sou um bom rapaz... Boa noite loba. – ele disse em meu ouvido e beijou meu rosto. Virei-me para ele sorrindo encantada, confesso.
– Boa noite Black. 


           Beijei seu rosto e fui dormir. O observei se deitando no chão tão desconfortável. Sem nenhum cobertor. Nem precisaria afinal ele tem a pele mais quente de todos os quileutes. Eu havia notado isso, ou talvez, eu que estivesse quente. Demorei a pegar no sono. Fiquei olhando suas costas largas até que não me lembro de mais nada a não ser do meu despertar na manhã seguinte.

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