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ELEH - CAP. 2

Descobrindo a reserva 

  Acordei descansada o bastante, devo isso ao cochilo nas rochas que aliviou um pouco. Após toda minha higiene matinal arrumei minha cama e desci à cozinha. Esquentei a água para o café, enquanto discava o número de Embry. Uma voz trovejante atendeu.
– Alô? Bom dia, o Embry se encontra? – perguntei sem graça e só então percebi no relógio da cozinha que ainda eram 7 horas em ponto! Já não era tão cedo assim para mim, mas vai saber!
– Ele está dormindo. Quem deseja? – disse a voz trovejante do outro lado.
– Hãm... Desculpe-me por incomodar, mesmo! Eu não percebi o horário. Eu sou Luna, só estou ligando para saber se ele chegou bem ontem à noite. Fiquei preocupada. – pude ouvir uma risadinha sem graça e abafada do outro lado.
– Luna? Ele chegou bem sim, pode ficar tranquila. E tudo bem ligar a essa hora, nós acordamos bem cedo aqui. Embry deve estar exausto da noite de vocês, por isso ainda não acordou. – do outro lado a voz trovejante sussurrava "Shh! Fica quieto, para com isso". 


          Senti-me envergonhada, acho que ele não entendeu muito bem o que eu era para Embry.
– Bem, de qualquer forma desculpe o incômodo. Com quem eu falo?
– Sam Uley.
– Certo Sam. Poderia dizer ao Embry que a amiga dele ligou?
– Claro Luna. Mais algum recado?
– Não, não. Obrigada. – Sam respondeu e eu me despedi em seguida desligando o telefone. 


          Bem educado ele. Seria esse Sam outro irmão? Se bem que a voz dele parecia muito mais velha, talvez o pai dele. Havia outros garotos também. Pude notar!  Após a ligação tomei meu café. Antes de terminar meu celular tocou. Era Erick.
– Bom dia Lu! Como está? – ele dizia animado.
– Bom dia Erick, estou ótima! Como foi a tarde de ontem? 
– Argh! Eu poderia tê-la passado com você, seria muito mais divertido. Só papéis e mais papéis! – ele dizia com timbre contrariado. – Me desculpe por isso, sei que combinamos...
– Não tem que se desculpar, foi um chamado de hora. Como você está?
– Bem. O que você fez ontem?



         Animei-me para contá-lo. 
– Ah Erick, foi ótimo! Você nem pode imaginar. Fui até a casa do Senhor Swan, mas Bella não estava lá. Depois fui à praia de La Push. Conheci Embry Call.
– Hmmm. Legal. Divertiram-se? – a voz de Erick não parecia feliz e nem mesmo interessada. 
         Acho que ele não curtiu muito a ideia de eu ter conhecido alguém da reserva, ou ele tinha algum problema com o Call.
– Foi bem rápido. Até que eu gostaria de ter passado mais tempo com ele. É uma ótima pessoa. – eu realmente acho isso, mas quis instigá-lo a dizer algo contra para ter certeza se ele não aprovava a ideia de Embry sendo meu amigo.
– Olha Luna eu tenho que desligar. Antes... Charlie Swan me convidou a uma pescaria, acho que não te agrada muito, mas não custa perguntar... Quer nos acompanhar? Com vara e tudo? – deu uma risadinha sem graça.
– Hum... Erick, eu vou recusar, me desculpe. Quem sabe outro dia. Tenho outros planos para hoje.  


Ele me chamou de Luna, desde que nos aproximamos ele só me chamava de Lu. Isso não poderia ser tão legal.
– Vai novamente à reserva quileute? – como imaginei, ele parecia não gostar da reserva. 
– Talvez. Mas minha urgência é outra. Bom, tenho que ir. Até mais Erick. Beijo. 



         Ele respondeu e nós desligamos. Mais tarde vou conversar com ele sobre essa impressão que tenho dele desaprovar La Push. Hoje o que eu pretendo fazer é procurar informações sobre Sue. A mulher que me indicou o emprego. Infelizmente não me recordo de seu sobrenome, mas não é um nome muito comum. Espero que não tenham muitas "Sues" em Forks.
          Tomei um banho, coloquei um jeans boyfriend surrado, uma camiseta branca, jaqueta jeans e cachecol. Calcei minha sneaker preta e pegando as chaves do carro fui ao centro da cidade. O sol batia fraco no para-brisa, o reflexo nos meus olhos me atrapalhava um pouco. Puxei minha bolsa no banco do carona e entre uma batida e outra das músicas no rádio eu cantarolava Beatles. Tateei meus óculos escuros na bolsa, então me lembrei de que estavam no porta-luvas. Ao me esticar para pegá-los desviei a atenção da estrada. Pegando-os coloquei no rosto e de repente houve um estrondo antecedido de uma freada brusca e de 200 batidas mais aceleradas no meu coração. Havia batido o carro em uma árvore. Praguejei, ainda sabendo que foi pura irresponsabilidade minha. Desci do carro desesperada, e como em cenas de filme americano eu chutava o meu para-choque e gritava comigo mesma. 
          Vagarosamente um Rabbit vermelho se aproximava na estrada. Parou atrás do meu carro com certa distância. Peguei minha bolsa no carro, puxei as chaves da ignição e meu celular. Para minha surpresa o homem que desceu do Rabbit parecia-me muito familiar e era. Jacob Black se aproximou devagar e parou na minha frente. 



– Tomando umas rasteiras da estrada? – me olhou de lado sem sorrir. 
          Oi? Era para ser uma piada? Primeiro não gostei, eu estava estressada e segundo, se era piada porque ele não riu? "Mestre do humor" , pensei.
– Na verdade não. Desviei a atenção. – eu disse ainda olhando os estragos do carro, em seguida tentei ligá-lo, o estrago era grande, mas ele poderia aguentar chegar à cidade, ou eu devesse levá-lo de volta para casa, já que havia dirigido uns 10 metros. 
– Porque fez isso? – ele abaixou analisando melhor os amassados.
– Ah, sei lá, estava a fim de bater o carro na mata. Sabe como é né? Tédio. – eu disse olhando-o incrédula. Ele me olhou confuso e pensou um pouco.
– Hãm... Vou supor que está sendo irônica. – levantando virou-se para mim sem demonstrar expressão alguma.
– Tanto faz. 


          O carro ligava, mas o motor morria. Eu já ia discando no meu celular para o Erick.
– Posso perguntar para quem está telefonando? – ele disse meio sem graça, eu acho.
– Para um amigo, ele deve conhecer algum reboque ou mecânico. 
– Abre o capô. – Jacob ordenou puxando o aparelho do meu ouvido e desligando-o, em seguida me estendendo-o de volta.
– Você é mecânico? – perguntei mais interessada depois de fazer o que ele pediu. 


          Ele analisava minha máquina por dentro e fazia umas caretas.
– Praticamente. – "Praticamente. Ótimo, um amador" eu pensei. – Olha seu carro não vai mais a lugar nenhum sem alguns pequenos reparos. 
– Tem certeza?
– Tenho. 
– Dá para eu pelo menos empurrá-lo de volta para casa? Fica há... – ele interrompeu-me.
– Vou rebocá-lo até lá para você. Entra aí. – ele disse dando as costas e correndo em direção ao seu Rabbit. 


        Seguiu os procedimentos e quando já ia rebocá-lo eu falei:
– Você vai me deixar explicar onde moro? – parei na frente dele séria e irritada. Ele era irritante, um ótimo antissocial.
– Há uns 10 metros. No casarão abandonado. – ele falou arqueando uma sobrancelha convencido. 



         Dei às costas a ele e olhava-o por sobre o ombro com cara de brava enquanto andava para porta do meu carro. Abri-a bruscamente e entrei emburrada, ele ficou observando-me indiferente e saiu andando até seu carro. Pude ver pelo retrovisor que ele sorria vitorioso. Enquanto ele guiava o meu carro, eu controlava-o. Ao chegar a casa guardei-o na garagem, que na verdade não era uma garagem. E sim um galpão no quintal dos fundos. As casas de Forks eram bem diferentes das casas de Phoenix. Em Phoenix tudo é muito colorido, em Forks monocromático, as casas de lá tem garagens anexadas às laterais já aqui em Forks, poucas tem garagens. Depois que Jacob estacionou meu carro na minha "garagem" descemos e eu tranquei-o.
– Deixe-me adivinhar, táxi aqui só em televisão não é? – eu disse desanimada.
– Você pode esperar um ônibus. – ele disse e eu ia me animando – Claro... Não é muito comum passar algum por aqui. 


          Ele ria da minha cara. E pela primeira vez eu o vi sorrir ou rir. Não posso definir muito bem porque era como se o rosto dele fosse travado, como alguém que desaprendeu como se faz para alargar um sorriso bonito.
– Certo. Como vocês fazem por aqui? – indaguei curiosa.
– A maioria dos moradores de Forks tem seus carros, quando não têm eles pegam carona. Sabe como é, todo mundo se conhece e uma mão lava a outra. – fizemos uma pausa. Ele me encarava e eu olhando o chão pensava. – Eu poderia te dar uma carona, já que estou indo à cidade. Mas... 
– Mas?
– Você não está sendo muito gentil para alguém que está te ajudando, então você poderia reverter a situação.
– Não estou sendo gentil? Olha quem fala. – petulante não? Revirei os olhos, coloquei as mãos à cintura olhei para baixo ergui a cabeça para o céu com os olhos fechados, bufei e disse: – Hum... Está certo. Senhor Jacob Black, poderia, por favor, me dar uma carona até a cidade? Eu ficaria muito grata. – sorri sem graça. 
– Senhor Jacob Black? Muito formal.
– Certo, que tal... Jake? 
– Bem... Então vamos, não posso demorar e acredito que você esteja atrasada. – ele voltou a ser rude e antissocial virou as costas e foi andando.



          Eu o segui surpresa e calada. Ele seria bipolar? Ou apenas não gostou do apelido? Mas pessoas normais apenas responderiam "Não gostei" . Qual o problema dele? Entrei calada e permaneci calada por um bom trajeto, assim como Jacob também. Por hora achei até que ele havia se esquecido da minha presença, encarava a estrada pensativo, porém tranquilo. Quebrei o silêncio.
– Jacob. Por acaso você conhece alguma senhora chamada Sue? 
– Talvez. Por quê? 
– Nada importante. Preciso agradecê-la, porém não consigo me recordar do sobrenome dela.
– Como ela é? 
– Morena de cabelos longos, e muito simpática.
– Muito esclarecedor.
– Ah, qual é? Não devem ter muitas "Sues" por aqui! 
– Sue Clearwater. Seria essa?
– SIM! – gritei e ele se assustou. – Desculpe... É essa senhora mesmo! Onde posso encontrá-la?
– Na reserva. – fizemos silêncio. – Agradecê-la pelo o quê? 
– Não sei se deveria contar. – fiz cara de indiferente, ele ficou sem graça. – Brincadeira Jacob... Graças a ela eu fui admitida no meu novo emprego. 
– Sue é muito generosa. Você vai gostar de conhecê-la melhor. 
– Tenho certeza disso.



         Sorrimos um para o outro. Jacob é realmente lindo. Dúvidas passavam na minha cabeça como um turbilhão. Afinal o que Bella fez com ele para deixá-lo tão amargurado? Era engraçado, ora ele era simpático e descontraído, até lançava suas piadas frias que me agradavam, ora ele emburrava e era como se eu não estivesse ali. De alguma forma Jacob havia colocado uma barreira entre nós. Uma barreira invisível, que não impedia que nos ouvíssemos e falássemos um com outro, mas impedia que nos aproximássemos. Isso me incomodava muito. Até mais do que eu poderia explicar.
         Meu celular tocou e era Erick. Ele me perguntou onde eu estava e eu disse que estava a caminho da cidade com Jacob Black e que depois iria à reserva falar com Sue Clearwater. Erick calou-se e depois de pronunciar"Hum... Tá. Até mais." desligou na minha cara.
– Grosso! – eu falei olhando meu celular.
– Aconteceu algo? 
– Erick Jones. Isso que aconteceu.
– Espera... ELE? Você o namora? – Jacob não pareceu muito satisfeito e frisou bem o "ele".
– Por quê?
– Embry não disse que você namorava. Muito menos com ELE. – fez de novo.
– E não namoro. É só um amigo. Escuta, vocês tem algum problema com ele?
– Digamos que ele tem um problema conosco.
– Hum... Posso saber qual é?
– Pergunte a ele. E se descobrir, me conte. Chegamos à cidade.
– Engraçado, parece que demorou né? 
– Um pouco. – ele riu. Sim, novamente o sorriso de alguém que desaprendeu a sorrir. – Você vai fazer o quê aqui? Sem querer ser intrometido.
– Algumas compras para casa e algo para preparar de almoço.
– Bem, o mercado da família Carter é o mais barato e tem de tudo. Aconselho a ir lá. 
– Bem, obrigada Jacob. Mesmo. Pelo carro, a carona e... Pelas conversas. 


          Nessa parte eu fiz cara de dúvida, pois nós não conversamos assim conversando, tivemos breves diálogos eu diria. E minha expressão deve ter sido engraçada porque ele riu de mim. Riu mesmo, divertido. Corei admirada.
– Você acha que demora aí? – ele me disse apontando para o mercado.
– Não sei... Talvez uns 15 minutos sem fila.
– Se eu estiver por aqui, te dou uma carona. Pode ser? – certo o que fizeram com o Jacob antissocial, emburrado, amargurado e idiota que esteve comigo por momentos e há pouco?
– Eu vou adorar. – sorri simpática e surpresa. – Até mais. 



          Dando as costas, corada, e sorrindo simpática eu olhava para trás por sobre o ombro de vez em quando e acenava para Jacob parado encostado no Rabbit. Entrei no mercado observando as pessoas simpáticas, que sorriam para mim como quem dá boas-vindas. Era um mercado grande para Forks. Enquanto comprava as coisas eu pensava na risada de Jacob com a minha careta. Ali pela primeira vez ele  demonstrou a gargalhada mais sonora e linda que eu já havia escutado. Os olhos dele se apertavam miudinhos e sua boca alargava-se mostrando seus dentes brancos e belos. Ele era como um sol escondido por nuvens. Todo nosso "bate-papo" passou pela minha mente em flashback. Os momentos que ele travava, como se lembrasse da barreira invisível que ele mesmo pusera entre nós, e em outros, tão displicente entregando suas minúcias sutis e encantadoras.
          Ao chegar ao caixa, as pessoas me observavam tanto que me senti obrigada a cumprimentá-las. Muito felizes me responderam de volta e conversavam comigo em como eu iria adorar Forks, como eu era bela e como tinha uma cor de pele linda. Uma senhora falou: "– Você é a namorada do jovem Erick Jones?". Respondi que não, que éramos apenas amigos e que ele me ajudou muito nas primeiras semanas de mudança e ainda ajuda-me. E a senhora respondeu: "– Erick é um excelente rapaz!" . Ri da situação, pois pareceu que ela queria "promover" o rapaz. Então um senhor, aproximou-se se apresentando:
– Seja bem vinda senhorita. Sou Junior Carter. Dono do mercado e patriarca da família. – apresentou-me a esposa, que era a senhora da pergunta sobre Erick, os filhos Scott e Peter. – Pode contar conosco para o que precisar aqui na cidade.
– Muito obrigada Senhor Carter. É muita gentileza de todos vocês, meu nome é Luna. 
– Desculpe-me Luna... Você é por acaso parente de algum quileute?
– Não senhor, mas... Por que perguntas?
– Você é bem bronzeada. – disse Peter, o filho mais novo, me olhando admirado. 



          Acho que Embry estava certo quando disse "É bem diferente das garotas daqui, vai perceber logo isso (...). Os rapazes vão confirmar o que eu digo.". O irmão mais velho, Scott chamou-lhe atenção dizendo que ele estava sendo indelicado. Peter desculpou-se.
– Tudo bem Peter. Eu sou bronzeada mesmo, mas é porque eu venho de Phoenix. Espero não perder essa característica, adoro o tom da minha pele. Acho de um dourado lindo.
–  E é querida. – falou a senhora Eva Carter, mãe dos meninos. 
– Com certeza, você é linda Luna. – Scott disse me fazendo corar. 


          Então o Senhor Carter continuou, já que Peter interrompeu-o.
– Bem Luna, pergunto por que de fato você parece uma quileute. Mas se não é parente de nenhum ainda, logo será. Estou enganado? – ele sorria apontando para a porta e me olhando curioso. 



          Jacob andava de um lado a outro na porta do mercado esperando-me. Então ele olhou para dentro e viu que todos o observavam. Acenou sem graça e se direcionou a entrada do estabelecimento.
– Jacob me deu uma carona apenas. Meu carro quebrou na estrada e nos conhecemos hoje. – sorri sem graça em resposta.
– Algo me diz que tem alguma coisa na reserva quileute esperando você Luna. Pode não ser Jacob, mas há algo ou alguém lá a sua espera. 



          Jacob havia chegado e pegava minhas compras enquanto Sr. Carter falava. Ele ouviu a toda a "premonição", calado e sorrindo torto. Após pegar todas as sacolas pesadas e com uma agilidade incrível, ele sorriu para a família do mercado, cumprimentou-os.
– Bom dia Carters. – todos o responderam, Scott e Peter pareciam amigos de Jacob, pois deram um soco cúmplices em cada ombro dele. – Sr. Carter, tem mesmo alguém esperando Luna na reserva. – ele disse sorrindo e despedindo-se.
– Foi um prazer. Espero revê-los brevemente. – eu disse seguindo Jacob.



          No lado de fora, eu olhava discretamente para o vidro da vitrine do mercado com as mãos no bolso da minha jaqueta e todos ainda nos observavam. Jacob guardava as sacolas no banco traseiro. Virando-se para mim, parou na minha frente.
– Você quer ver Sue ainda hoje?
– Não sei se vai dar... Tenho que ir para casa. Ainda tenho que preparar o almoço e até chegar à reserva...
– Sue te espera para o almoço. – dizia rindo e abrindo a porta para mim. – Vamos? 
– Jacob... Eu não sei. Eu realmente pretendo falar com ela, mas tenho tanta coisa para organizar em casa...
– Seu namorado está te esperando para o almoço? – ele falava olhando para o lado e ainda segurando a porta. 
– Eu já disse que Erick não é meu namorado. E não, ele não está me esperando para nada. – ele me olhou apontando com os olhos para o banco do carro. – Tudo bem! Mas eu não posso demorar! 
– É to sabendo. – ele bateu a porta e me assustou, pelo retrovisor vi que ele dava a volta no carro sacudindo a cabeça e sorrindo para o chão. Acenou para os Carters que ainda nos espiavam.


 – Cidades pequenas! – ele disse entrando no carro e sorrindo para mim.
– Sou a atração. – eu disse sem graça. – Acontece muito por aqui?
– Já tem algum tempo desde a última grande atração. – Jacob pigarreou e ficou sério. A barreira estava erguida novamente. 



          Ele não era de escutar músicas enquanto dirigia, e apesar de todo aquele silêncio me incomodar muito, eu não me atrevi a pedir que ligasse o rádio. O caminho seguiu silencioso. Algumas vezes nós nos olhávamos e sorríamos sem graça. Apreciei a paisagem todo o percurso, ao passar pela minha casa, Jacob perguntou se eu gostaria de parar para guardar as compras. Nós estacionamos na entrada e ele agiu da mesma forma que Embry, na noite em que me trouxe em casa. Quando eu perguntei o que ele estava fazendo, respondeu-me "Apenas verificando" . Tudo estava normal, como eu sabia que estaria. Ele colocou as compras sobre o balcão da cozinha, elogiou minha casa e foi me empurrando de volta para o carro.
– Céus, qual o seu problema? 
– Você não vai querer perder as melhores partes não é? – ele sorriu novamente aquele sorriso solar e tímido.



          Ao chegar à reserva, muitas pessoas, muitas mesmo, estavam conversando alto e sorrindo uma para as outras. Os quileutes me pareceram pessoas muito felizes. Avistei Sue colocando travessas em uma mesa enorme de madeira, esculpida a mão e que se encontrava ali no meio do "pátio" se assim posso dizer, abaixo de um enorme carvalho. Era como um piquenique no meio da floresta. Eu adorava as cenas, lamentei não estar com a minha câmera. Seriam fotografias lindas. Enquanto eu olhava-os de dentro do carro, aos poucos eles nos perceberam. Jacob então tocou meu braço, como se quisesse me acordar de um sonambulismo.
– Você está bem?
– Ótima. É tudo tão perfeito aqui. – ele sorria. Todos do lado de fora ainda nos observavam curiosos, calados e sorridentes. Aquela recepção toda era para mim ou eles eram assim mesmo?
– Eu não trocaria esse lugar por nenhum outro no mundo. – Jacob disse, também admirando todos à nossa frente. – Certo, vamos! Já estamos parecendo dois loucos. – ele disse e nós gargalhamos. 



          Jacob abriu a porta para mim. Ao descer avistei Embry vindo em minha direção como um urso, me abraçando forte. Eu gargalhava.
– Ei, Embry! Não me envergonhe. Tem muitas pessoas aqui!
– Relaxa. Eles estão acostumados.



            Eu sorri para ele, dando um soco fraquinho no seu ombro. As pessoas começaram a se aproximar e a se apresentar. Sue sempre muito simpática e sorridente me abraçou e me parabenizou pelo trabalho. Retribui o gesto carinhoso.
– Eu quem devo agradecê-la, se não fosse por você eu não teria o emprego e nem estaria aqui!
– Nesse caso, viva a Sue! – Embry dizia alegre me fazendo corar.
– Está apavorando-a Embry. – a mesma voz trovejante que falara comigo no telefone se pronunciou.
– Seja bem-vinda Luna. Sou o Sam Uley. Já nos falamos, lembra?
– Sim, foi nessa manhã. É um prazer conhecê-lo. 
– Olá Luna, eu sou Billy Black. Venha, deve estar com fome. 



          Observei Billy por um tempo enquanto o acompanhava. Devia ser o pai de Jacob, suponho pela idade, porém eu não observei nenhuma característica comum entre eles. Talvez tivessem alguma, mas de fato eu não conseguia perceber. Sou bem fraca com essas coisas. Jacob estava sentado em um toco, um pouco afastado da grande mesa, ao lado do carvalho gigantesco. Ele estava de costas para a mesa absurdamente grande e magnificamente esculpida à mão.
– Ei Luna, Jacob comportou-se direitinho com você? – Embry perguntou e todos riam, menos Jacob que o olhou de soslaio.
– Bem, ele se comportou como deveria eu acho. – sorri fraco.
– Tudo bem querida, esses meninos gostam de piadinhas, mas não acreditam quando dizem a eles que eles não têm a menor graça. – disse Sue sendo abraçada em seguida por Jacob que havia se levantado. Ele disse a ela: "É por isso que eu te adoro Sue" . 



          Ele me olhou e eu sorri sem graça. Sue olhou para ele e para mim discretamente. Eu percebi.
– Posso ajudá-la? – me ofereci.
– Tudo bem querida, Emily e as meninas já me ajudaram bastante. Fique a vontade. – ela sorria.
– Ok. – eu sorria meio sem graça. Me senti inútil e paparicada, e odeio me sentir assim.
– Ei Luna! – Embry gritava. – Vem cá! Tem uns bobões querendo conhecê-la! 
– Você está transformando a garota em uma atração Embry. – disse Emily, sendo acompanhada pelas risadas de todos. 


          Eu fiquei sem graça novamente. Mas decidi falar algo para não parecer uma patricinha fresca.
– Embry é muito animado. E tudo bem ser uma atração, não acontecem muitas novidades por aqui não é? E depois, não pode ser pior do que foi no mercado Carter. 
– Você é muito gentil. – dizia Emily. 


          Ela tinha uma cicatriz bem grande no rosto, e evitava falar comigo olhando totalmente de frente. Talvez por receio de alguma atitude minha. Fingi que nem percebi.
– Obrigada Emily, você também é. – dei uma risada divertida e isso a deixou mais à vontade comigo, eu acho. Abraçando Embry de lado, eu resolvi me soltar um pouco mais. – E então, onde estão os bobões Embry Call?



          Todos riam. Embry apresentou-me mais alguns garotos da reserva incluindo Quil Ateara, outro irmão que eu não conhecia. Fomos almoçar assim que Billy nos chamou. Ajudei a organizar tudo depois da comilança. Confesso que os quileutes tem mesmo um apetite e tanto. Embry me convidou para descer à praia. Nessa hora Jacob surgiu ao lado dele e sussurrou: "Pode não ser uma boa ideia" . Então Embry disse em sussurro que não teríamos problemas. Fomos descendo em uma trilha escorregadia e com algumas pedras até a praia. Eu caí algumas vezes e a cada tombo morríamos de rir. Como sou muito estabanada, ao chegarmos à parte mais pedregosa, Embry parou.
– O que houve? – eu perguntei.
– Como você está? – ele perguntou me olhando de cima a baixo.
– Apenas alguns hematomas. Nada grave, por quê? O que houve? 
– Nesse caso, peço-lhe desculpas e licença, mas eu preciso fazer isto. – dizendo isso ele me pegou no colo. 



         Com o susto agarrei-me ao seu pescoço. Ele olhou para mim e novamente minha careta devia estar cômica, pois Embry começara a rir. Eu ri junto. Embry era muito rápido e ágil, conseguia andar sobre as pedras como se os seus pés já tivessem as medidas certas das duras figuras. Entre um pulo e outro conversávamos, porém eu sentia um pouco de constrangimento com aquela situação.
– Está confortável? – ele dizia zombeteiro.
– Bastante. – eu falei sorrindo e encarando seu peitoral. – Obrigada pela carona. Você me livrou de alguns hematomas mais sérios e um longo tempo sem poder me sentar. – Embry gargalhava.
– Ah não. – ele disse após parar de rir. 
– O que foi? – eu perguntei olhando para frente.
– Já chegamos. – olhei-o confusa e ele continuou a falar. – Infelizmente! – olhava-me atrevido e eu ainda não entendia nada. – Estava me sentindo muito bem em carregá-la.



          Eu sorri envergonhada quando ele disse isso.
– Bem, você pode fazer isso mais vezes, se quiser. – eu disse evitando olhar Embry nos olhos.
– Certo, então eu acho que eu deveria continuar, afinal nós vamos subir nas rochas para nos sentar e como você mesma disse, melhor evitar hematomas mais sérios. 



          Eu sorri, mas fiquei apreensiva. Achei que não pudesse ser uma boa ideia já que me carregar enquanto se escala rochas parecia muito arriscado. Será que era disso que Jacob falava? Será que ele sabia que Embry inventaria de escalar o montinho de rochas comigo nos braços? Foi tudo premeditado? Achei melhor afastar esses pensamentos e me concentrar em cair o mais seguramente possível. Embry conseguiu subir comigo nos braços sem o menor esforço. Ele tinha cola nos pés? Ele estava quente. Na verdade Embry é quente. Eu senti um friozinho gostoso com a brisa do mar, novamente pensei em como ele poderia estar sem camisa em um tempinho tão arrogante como aquele. No topo, me colocou sentada sobre as rochas e se sentou ao meu lado. Beijou meu rosto gelado.
– Está com frio. – ele disse.
– Vamos confessar que está de fato, frio. Vou fingir que você se veste de vez em quando.
– Eu me visto. Estou de calças, não é o suficiente? – ele olhava travesso e rindo.
– Sério? Tá legal, diga que todos na reserva não estão vestidos apenas por minha causa!
– É complicado... Basicamente nosso metabolismo deixa a nossa temperatura corporal quente. – ele falava como se fosse a coisa mais comum do mundo. Eu poderia começar a congelar a qualquer momento, tamanho era o frio que eu sentia e ele lá com "Eu sou hot baby" . O problema era comigo? Acho que ele percebeu que não era uma situação muito comum para mim. – Claro que, nós sentimos frio e nos agasalhamos, mas... Enfim, você deve ter algum problema. Nem está tão frio! – ele olhou-me de soslaio com um sorriso de canto zombeteiro. Sorri, olhei para baixo e pensei "Sim, claro, eu e toda a cidade". 
– Está com frio? – ele perguntou amigável.
– Sim, parece que o tempo está virando. – eu brincava com algumas conchinhas na rocha.
– Te liguei mais cedo. – eu disse.
– Eu soube. 
– Seus amigos estão enganados a nosso respeito.
– É eu sei. – ele disse rindo. – Não ligue para eles tá?



          Embry me abraçou aninhando-me em seu peito. Ele pediu desculpas e perguntou se podia, apenas para me esquentar um pouco. Lógico que eu não recusaria. Coloquei minhas mãos nos bolsos de minha jaqueta. Um silêncio absurdo pousou naquela praia sendo desafiado pelo rumor das ondas furiosas.
– Luna? 
– Hum?
– Por que você disse lá em cima que nossas reações não poderiam ser piores do que foram no mercado Carter? – eu ergui minha cabeça à altura de seu queixo para espiá-lo. 


          Embry fitava o horizonte com olhar enrugado, aquele olhar que molda rugas na testa.
– Não foi nada de mais, por quê? Eu ofendi o pessoal?
– Não. Só que... Eu falava sério quando perguntei se o Jacob havia se comportado. Ele é bem instável sabe? Eu não fui o único a ficar apreensivo com o quê ele poderia fazer com você quando soube que ele socorreu seu carro e a traria para cá.
– O que ele poderia fazer comigo? – perguntei curiosa.
– Nada. Eu quis dizer, com o quê ele poderia dizer... Jacob pode ser bem rude quando quer. 
– É eu já percebi. Não que ele tenha sido rude, mas Jacob é um mistério. Ao mesmo tempo em que ele se aproxima ele se afasta, não sei se não gosta de mim, se tem medo das pessoas ou os dois. – eu falava voltando a olhar o mar e ainda abraçada com Embry. Eu não o soltaria por dois motivos: aquela situação era deliciosa e estava aconchegante e quente.
– Impossível não gostar de você. – ele falou acariciando os meus cabelos. – Jacob vai se soltar assim que te conhecer melhor. Não se preocupe. 
– Certo. – lembrando da pergunta, que parecia que eu tentava evitar, o respondi. – Respondendo sua pergunta... É que lá no mercado dos Carters, insinuaram que Jacob e eu tivéssemos algum tipo de relacionamento parentesco. – começara a chuviscar.
– Como assim?
– O Sr. Carter perguntou se eu era uma quileute, pois parecia muito pelo tom da minha pele. Quando eu esclareci tudo ele viu Jacob me esperando na porta do mercado e insinuou que se eu não era parente de alguém da reserva em breve eu me tornaria. Então quando eu esclareci as coisas novamente, ele meio que – parei e comecei a rir lembrando-me – Profetizou que havia alguém me esperando aqui na reserva, ainda que não fosse o Jacob. 
– Você deveria levar um pouco mais a sério as "premonições" do Sr. Carter. É só um conselho. Costumam funcionar. – a chuva tornava-se levemente maior e mais grossa.
– Sério? 
– Bem, de fato esperávamos você aqui não é? – novamente Embry gargalhava divertido. O humor dele era contagiante. 
– Seu bobo! Você entendeu! Sr. Carter falou como se tivesse algum tipo de namorado para mim por aqui. – eu disse voltando a erguer meu rosto para o queixo dele e falei com ele óbvia.
– Talvez tenha. – Embry disse baixando o rosto dele a ponto de me olhar nos olhos.



          Nossos rostos estavam muito perto e a chuva começava a nos encharcar. Embry pousou sua mão quente no meu queixo e nos beijamos. Um beijo calmo, tranquilo e harmonioso. A forma como Embry me prendia em seu corpo era delicada, eu me sentia confortável para tocá-lo e abandonar-me nos braços musculosos e fortes dele. Paramos o beijo e começamos a rir. Ele, novamente me colocou em seu colo. Agarrei-o dando risadas divertidas enquanto ele fazia caretas fingindo não aguentar meu peso.
– Ei mocinha, esse beijo te engordou. – disse piscando saliente.
– Esse beijo te enfraqueceu você quis dizer! – eu sorria cada vez mais largo.
– É... Ou isso. – ele disse fazendo uma cara engraçada. – Agora vamos, já estamos muito molhados. 



          Subíamos na mesma trilha pedregosa. Ao chegar ao topo da trilha, ainda na mata e um pouco afastados do acampamento quileute, Embry  me colocou no chão. Jacob estava ali ofegante e observava-nos. Ao percebermos ele desenrolei meus braços do pescoço de Embry.
– E aí Jake? Aconteceu alguma coisa? – pude perceber que a reação de Jacob ao ouvir Embry pronunciar aquele apelido foi bem diferente da forma como ele reagiu comigo. Era como se ele não ligasse, fosse indiferente ouvir aquele nome sendo dito por Call.
– Não. – rígido e seco. – Eu estava indo atrás de vocês. Parece que vem uma tempestade por aí. 
– Tudo bem, nós estamos bem. – Embry disse. – Vamos, a Luna vai precisar se trocar.



          Eu sorri para Embry como se fossemos duas crianças que haviam feito travessuras. Jacob deu-nos as costas e saiu. Seguimos ele e ao chegarmos Jacob foi direto para a casa de Billy, que estava sentado na varanda. Billy falou algo para ele, mas ele não deve ter ouvido. Apenas entrou molhado e sendo seguido por Billy. Sue e Emily estavam deitadas em umas redes na varanda da casa de Sam, suponho. A maioria das pessoas que estavam na reserva haviam ido embora. Junto com as senhoras, sentados na varanda estavam Quil e Sam.
– Para onde foram todos? – eu perguntei ao Embry enquanto nos aproximávamos dos meus novos amigos. 
– Acredito que, para suas casas. – ele disse apontando para o norte da mata da reserva – Outras cabanas afastadas um pouco mais a frente. 



          Assenti sorrindo. Ao nos avistarem Quil e Sam se olharam e riram discretos. Sue toda preocupada entrou para pegar uma toalha e Emily puxou-me para dentro da casa.
– Emily eu vou molhar todo o assoalho. – evitei entrar.
– O assoalho seca já uma gripe são litros e litros do chá caseiro da Sue, que apesar de ser uma ótima cozinheira e muito boa pessoa... Bem, é melhor você evitar aquele chá. – ela disse sorrindo. – Vamos! Empresto algumas roupas a você.
– Obrigada. Você mora aqui então? – Sue apareceu me entregando a toalha sorrindo, em seguida foi à cozinha.
– Desde que Sam e eu nos casamos.
– Eu não sabia que vocês... Bem, formam um casal lindo, de verdade! – eu disse simpática entrando no quarto, ainda cautelosa.
– Obrigada. – Emily dizia muito confortável com o que eu disse e olhando para trás me viu na porta. – Ora vamos! Entre. Não precisa se preocupar com o chão. – voltou a olhar seu guarda-roupa enquanto eu entrava tímida. Namorou um vestido e erguendo-o perguntou: – Esse está bom para você?
– Está mais do que ótimo! – eu disse pegando-o.
– Não, é sério! Tenho outros, pode escolher se não te agradar. 
– Esse é lindo, Emily. Está muito bom. – afirmei com o vestido em mãos.
– Bom, então o banheiro é ali, pode trocar-se. Caso esse não sirva, deixarei outros aqui na cama para você escolher. Vou descer e volto já. 
– Certo. Obrigada.



          A casa de Emily e Sam era acolhedora e linda. O tipo de casa que me agradava muito: cabaninha rústica, simples, feminina e alegre. Minha casa não estava assim tão perfeita. Precisava de algumas pinturas e reformas, logo eu conseguiria deixá-la totalmente ao meu gosto. Porém, o que fazia a cabana de Emily perfeita era a sua localização. Eu me encantei pela reserva, pela praia de La Push e irrevogavelmente pela vizinhança. Se meu casebre fosse ali, com certeza seria perfeito.
         O vestido caiu como uma luva. Um pouco justo, pelo tipo de tecido dele, mas nada vulgar. Porém eu sabia que sentiria frio. Contudo, como eu iria recusar uma gentileza e ainda fazer exigências? Talvez Emily não percebesse que ao contrário dos quileutes, eu era fria. Comecei a rir lembrando das explicações de Embry sobre o metabolismo hot deles. 
          Dobrei minhas roupas molhadas e peguei meus sapatos. Ao entrar novamente ao dormitório, os vestidos estavam lá como Emily dissera. Pensei em guardá-los para ela, porém era melhor perguntar se poderia. Eu não gostaria que uma estranha mexesse no meu closet. Abri a porta do quarto e topei de cara com Embry. Ele enxugava os cabelos desgrenhados e ainda estava sem camisa, com "a roupa" molhada. Meus cabelos também estavam molhados e desgrenhados.


– Uau! Alguém deveria dizer à Emily que esse vestido cai muito melhor em você do que nela. – senti um rubor apoderar-se de minhas bochechas. 
– Obrigada. – eu disse encarando o chão visivelmente sem graça. 



          Emily apareceu atrás de Embry. Ficamos nos olhando e nem percebemos ela chegar.
– Vai se trocar Embry! Antes que Sue te veja ainda molhado e corra para preparar o chá. – de fato aquele chá tão falado (ou mal falado) deveria ser muito ruim. – Ele saiu esfregando os cabelos em direção a outro quarto.
– Eu já ia te chamar. Pode guardar seus vestidos e muito obrigada. Acho que ficou bom não é? – eu dei uma voltinha tímida para ela.
– Sim ficou ótimo! – ela disse animada puxando-me de volta para o quarto. – E se disserem o contrário é só você olhar para o rosto de Embry e ficará certa disso. – ela sorriu e eu corei, mais uma vez. – Vocês também formam um casal lindo. Fico muito contente por vocês. – ela me abraçou deixando-me confusa.
– Hãm... Eu agradeço Emily, mas somos apenas amigos.
– Mais alguns beijos, e tudo ficará certo. – ela falou. Eu arregalei os olhos e ela gargalhou. – Ele não disse nada, eu só percebi que vocês voltaram diferentes. – ela tocou minhas mãos, muito animada. –Me desculpe Luna! Nem nos conhecemos direito, mas, por favor, me conte! – ela dizia enquanto me puxava para sentar na cama dela.
– Ah tudo bem. Vai ser bom ter uma boa amiga para contar segredos! – eu disse e ela batia as palmas como uma adolescente. – Foi só um beijo, um pouco antes de subirmos. Mas foi ótimo. Embry é... Como dizer... Hãm...
– Delicioso? – Emily falou e eu a olhei surpresa. – Bem, Sam é delicioso. Eu só dei um palpite. – ela gargalhava e eu também.
– Acho que eu poderia dizer isso, mas não é a palavra certa... Só sei que eu me senti muito confortável com ele. 
– Isso é lindo! – Emily disse sorrindo. – Olhe, desça com sua roupa. Sue vai colocá-la na secadora.
– Não é preciso, eu já vou embora. Antes que a tempestade me pegue.
– De forma alguma! Ficará aqui mais um pouco. Embry ou Jacob levam você para casa. Enquanto eu arrumo aqui vai descendo, o café de Sue já está cheirando! Sente? 



          Fiz que sim com a cabeça. Abri a porta do quarto e novamente esbarrei em Call. Ele me cobriu com um enorme casaco, que supus ser dele.
– É claro que ninguém vai se ligar que você é uma friorenta até começar a ficar roxa. 
– Eu pensei a mesma coisa. Tenho sorte de você ser esperto não é?
– É eu sou esperto.
– Tenho sorte também de você estar por perto, certo?
– Você eu não sei, mas eu tenho muita sorte de tê-la aqui. – Embry segurou meu queixo e novamente perdi o ar, me imobilizei. Nos beijamos graciosos. A porta se abriu e era Emily que fez uma careta engraçada por ter atrapalhado. 
– Ah não! – ela disse quando viu que nos afastávamos. – Continuem! Por favor, eu nem estou aqui! – ela disse piscando para mim e descendo.


          Embry e eu descemos atrás dela. Entreguei as roupas à Sue peguei uma bandeja e, depois de muito implorar para parecer útil, consegui convencê-la a deixar que eu servisse todos. Ao chegar à varanda Jacob estava lá. Os rapazes perguntavam de Billy e ao que entendi, ele descansava na sua casa. Todos pegaram suas canecas e quando chegou a vez de Jacob, ele colocou a mão na caneca e sem retirá-la da bandeja começou a encarar meus trajes. Ergueu a sobrancelha em dúvida para o meu casaco. Quil fez uma piada sobre "o defunto ser maior". Nós rimos e então eu expliquei que era de Embry. Sam zombou divertido: "Hummm... Já estão dividindo as roupas? Quanto até chegarem às escovas de dente?" . Eu corei novamente sem perder o senso de humor. Embry não gostou muito da piada e jogou uma almofada nele mandando-o se calar. Jacob continuava sério, perdido em outros mundos. 
          Passamos o fim de tarde sentados ali conversando. Os meninos contando piadas e eu na maioria das vezes rindo. Vez ou outra eu era instigada a contar alguma também e fazia certo sucesso. Até o Jacob estava se divertindo. Começou a chover mais forte e meu frio aumentava. Embry ao perceber me abraçou e aquilo gerou uma confirmação geral de que "algo" estava rolando. Nem ele e nem eu confirmamos nada de fato, porque não tinha nada a confirmar. Ou tinha? Então eu me pronunciei a eles sobre ter que ir embora, pois já era tarde. 
          Antes de obter qualquer resposta, Billy apareceu na porta da casa de Sam e chamou os garotos com certa urgência. Sue e Emily se olharam cúmplices. Acredito que ninguém ali tenha percebido a minha boa percepção para o que me envolta. Então Embry aproximou-se e disse que teria que sair com os rapazes, pois havia uma matilha de lobos solta na mata e eles precisavam afastá-los.


– Mas como vocês vão fazer isso? – eu disse um pouco preocupada.
– Tudo bem, nós estamos acostumados, eles sempre aparecem. Nós não os matamos porque é contra nossas tradições e regras quileutes. Todos ficarão bem. Relaxe. – ele disse sorrindo. – Jake levará você de volta tudo bem? 
– Claro! – eu sorri em resposta. 


          Jacob e os outros conversavam, incluindo as garotas. Sue entrou em seguida.
– Nos vemos depois? – Embry dizia um pouco desconcertado. 
– Se você não ligar, eu ligo. – falei convincente.
– Eu vou ligar. – ele disse e me beijou. Aquilo foi suficiente para que os rapazes soltassem gritinhos de aprovação e zombaria. 
          


          Eles partiram mata adentro e Billy se aproximou de mim. Disse para eu não me preocupar, que todos ficariam bem. Sue trouxe minhas roupas secas em uma sacola. Despedi de Emily e Sue, agradeci imensamente pelo dia maravilhoso. Jacob me acompanhou até seu carro, abriu a porta para mim e seguimos em silêncio durante todo o percurso, a menos por um pequeno diálogo.
– Esses lobos... – ele interrompeu antes que eu terminasse.
– Ficarão todos bem. Principalmente Embry, ele é sagaz. – rude como Embry havia me dito. 


         Encolhi-me no banco tamanho era o medo que senti. A voz de Jacob soava muito mais trovejante e bravia. 
– Não se preocupe Luna. – ele falou tentando amenizar o clima, mas eu nem mesmo o olhei. 
         Continuei observando a mata à minha janela. No caminho deparamo-nos com o carro de Charlie Swan. A viatura parou e Jacob também. Ele desceu do carro e foi falar com Charlie. Conversaram uns pequenos instantes e logo voltaram aos seus cursos. Jacob não me dissera nada e também preferi não perguntar.
          Ao chegar em casa a tempestade estava alta. Muitos relâmpagos e trovões. Eu não parava de pensar nos rapazes no meio da floresta e do risco que corriam com os lobos e o mau tempo. Jacob seguiu aquele mesmo ritual de "verificar se tudo está bem". Eu sentia muito medo, tudo parecia horrendo com o cenário do meu casebre isolado e a tempestade. As luzes fracas dos postes da rua se apagaram. Abri a porta e tentei acender as luzes de casa.
– Ótimo. Faltou energia. – eu disse.
          Jacob me seguiu fechando e trancando a porta. Eu o avisei que tinha algumas lanternas na cozinha. Peguei-as e as acendi. Ouvimos um estrondo no meu telhado. Jacob correu até as janelas e ficou imóvel e cauteloso observando do lado de fora. Enquanto eu procurava a caixa de interruptores ouvi um rosnado alto e próximo. Depois um silêncio. Corri em direção à sala, onde Jacob estava e perguntei o que era aquilo. Ele falou que era um lobo na porta, mas que já havia ido embora. Black se ofereceu para ficar comigo aquela noite, pois sem energia e com lobos à solta, uma casa isolada e aparentemente inabitada poderia ser perigoso que eu ficasse só. Eu de fato estava apavorada e não pensei em recusar por nenhum momento. Levei ele ao quarto de hóspedes, para que soubesse onde ficava e entreguei algumas roupas de cama. 
          Depois descemos e ele se ofereceu para olhar a minha instalação elétrica. Espalhei velas na casa. O interruptor geral ficava na cozinha, Jacob analisava-o com a lanterna. Com um pouco de dificuldade comecei a guardar as compras que ele me impedira de guardar mais cedo. "Deixa isso, eu te impedi de guardar mais cedo então te ajudo assim que acabar por aqui" , ele disse. Deixei tudo de lado e preparei um café rápido. Sentei na banqueta do balcão com a minha xícara de café pousando a xícara dele ao lado da minha. 
– Tudo bem Jacob, acho que o problema foi geral. Senta aqui, seu café vai esfriar. – eu mordiscava uns biscoitos que consegui servir. 
– Você está certa. O problema não é na sua instalação, porém ela precisa de uma revisão. – ele disse fechando a caixa e dirigindo-se para meu lado. Sentou no banco ao meu lado ficando de frente para mim, e eu estava de frente para ele. – Café a luz de velas. – ele disse erguendo a xícara para um brinde comigo. Sorri sem graça e brindei com ele: 


 Ao escuro– eu falei.
– Ao escuro? – ele ria confuso.
– Você consegue pensar em algo melhor para brindarmos? – eu disse bebericando minha bebida e o olhando por cima da xícara, de uma forma travessa.
– À minha companhia, é lógico. – ele disse indiferente.
– Sua companhia? O que o faz pensar que isso é algo do qual eu deva brindar?
– Não gosta de ficar perto de mim?
– Eu? Imagine! Não sou o tipo de mulher que se retrai pelos outros. Pelo contrário, você é que não gosta muito de pessoas.
– Tudo bem, se você diz. – ele sorria e continuava bebendo e comendo. 



         Continuamos conversando aleatoriamente coisas sem nexo. Para mim qualquer coisa que eu conversasse com ele, seria sem nexo. Eu sentia Jacob tão distante, tão perto, tão igual a mim apesar de ver o contrário! Ele me confundia e isso não era nada, absolutamente nada bom tratando-se de um ser meticulosamente curioso como eu. Então observei uma tatuagem no braço dele e fiquei olhando-a silenciosamente.
– É coisa de irmãos e clã. – ele dizia olhando frio para mim. 
– Ah – eu disse envergonhada. – É muito bonita. 


          Falei sincera, Jacob riu entre as narinas abaixou a cabeça a fitar o chão. Levantou-a e olhou para mim diretamente enquanto eu fingia observar qualquer objeto na sala. Algo impossível, apesar da fraca luz das velas minha visão não poderia ser assim tão excelente, como a de um felino.
– Você é muito curiosa. – ele dizia fazendo com que eu voltasse a olhá-lo.
– É? Como sabe?
– Percebo as coisas. Isso eu percebi no dia em que nos conhecemos em La Push.
– Como?
– Só percebi.



          Inteiramente enigmático. Um tipo intrigante de pessoa que toca em um assunto para depois distanciá-lo. Após beber duas xícaras de café conversando em quase silêncio com o galante Black decidi guardar as compras, ou pelo menos aliviar o número de sacolas espalhadas na cozinha.
          Levantei retirando as xícaras e levando-as à pia para lavar, porém Jacob interviu segurando meu braço e dizendo amistoso "Eu faço isso". Respondi com um sorriso e fui às minhas sacolas. Logo ele veio ajudar. Ele estava completamente perdido em minha cozinha e eu não consegui conter uma boa risada ao vê-lo andar atrás de mim com as coisas na mão pronto para me entregá-las, batendo nos armários e esbarrando nas banquetas. Alguns itens ficavam em um armário alto. Abri a porta dele e com a lanterna fui atrás de algo para subir. Jacob se ofereceu para guardá-los dizendo que seria bom eu evitar acidentes, pois ele percebera que eu tinha um declínio para tombos e que eu fazia o tipo de menina desajeitada. Eu virei para pegar algumas coisas sobre o balcão abaixo do armário alto e iria entregá-lo, mas a mão de Jacob foi mais rápida do que a minha. Ele estava atrás de mim, e com sua agilidade surpreendente ele colocou os itens no armário. Fiquei meio presa entre ele e o balcão do armário. Quando ele havia terminado de guardar eu pude olhá-lo novamente, sem graça, estávamos muito perto. Jacob se aproximou mais a ponto de sentir a minha respiração, que começaria a se alterar a qualquer momento. Achei que ele me beijaria, porém ele apenas esticou o corpo para pegar uma última lata de conserva que estava mais distante sobre o balcão. Olhei para baixo quando ele a pegou e guardou. Fechando as portas se distanciou. 



– Acho que acabaram. Não vejo mais nenhuma sacola. – ele olhava em volta. – Se bem que, nessa iluminação...
– Sim, sim. Já guardamos tudo. – ficamos nos olhando em silêncio, as luzes da vela iluminavam nossas faces de um modo terrorista. – Você quer mais alguma coisa Black? – eu perguntei.
– Não obrigada, estou bem. E você quer alguma coisa?
– Não... – eu falei absorta a olhá-lo. – Tá. Eu vou subir... Tomar um banho e descansar, mas fique a vontade!
– Eu também prefiro me recolher se você não se importa.
– Certo, certo. – eu dizia ainda desconcertada, mas não consegui assimilar uma razão disso. 


          Instantes antes, estávamos falando como duas pessoas comuns e à vontade. Era culpa da barreira talvez. Eu não posso me desacostumar com ela tratando-se de Jacob Black. 
– Pegue uma lanterna então. Apagamos as velas e se no meio da noite você quiser descer...
– Tudo bem. – ele disse pegando o objeto e apagando as velas da cozinha nos deixando totalmente no escuro.
– Hã... Jacob eu não enxergo. – ao dizer isso senti uma respiração muito próxima à minha. Ele estava na minha frente e muito, muito perto. 
– Desculpe. – ele disse pegando minha mão e acendendo a lanterna sob nossos rostos. 



          Eu senti medo, ele parecia um psicopata, mas ao mesmo tempo me senti bem. Jacob me guiou pelo caminho. Peguei minha lanterna e fomos apagando as velas espalhadas nos outros cômodos. Subimos as escadas e ao chegar à porta do meu quarto paramos.
– Bem, você conhece o caminho. – eu disse.
– Boa noite Luna. Durma bem. – ele disse parecendo gentil pela primeira vez. 


           Ele já demonstrou gentilezas comigo, porém desta vez foi com palavras. E isso fez uma grande diferença.
– Você também. – eu sorria alegre. Ele deu-me as costas. Chamei-o e ele virou novamente. – Obrigada pela companhia e pelas compras... – eu disse fazendo uma das minhas caretas ridículas. 
          Pela terceira vez ele deu o sorriso travesso de quem não sabe sorrir. Eu começava a me apegar àquele sorriso.
– Não tem que agradecer por nada. – ele falou voltando-se ao quarto.



          Entrei em meu aposento simples e principesco. Peguei uma das minhas camisolas, meu hobbie, lingerie e toalha. Abri a porta e fui para o banheiro. Tomei meu banho tranquilo e frio, muito frio. Sou acostumada a banhos frios, porém não vamos esquecer da tempestade que corria lá fora. Em meu corredor havia uma janela coberta com uma cortininha caipira. Ao sair do banho, distraída dei de cara com uma figura alta e gritei assustada. Os reflexos dos relâmpagos que incidiam pela janelinha, iluminaram o rosto à minha frente. Era Jacob, ele segurava minha mão tentando me acalmar.
– Tudo bem Luna, sou eu. Só vim ao banheiro. – ele falava me olhando assustado ou aflito, não sei bem.
– Isso está parecendo um filme de terror! – eu disse ofegante.
– Você está bem? – ele falava me analisando de cima a baixo. 
– Sim. Agora sim. 
– Certo, então eu posso entrar? 
– Claro. 



          Nos esbarrávamos tentando passar, até que ele parou e me deu passagem. Olhei para trás e ele já tinha entrado. Ele estava sem camisa, novamente indaguei-me da capacidade que os quileutes tinham em não sentir frio.
           Tentei dormir, com certa dificuldade. Pensei no beijo e nos momentos com Embry. Nos rapazes atrás de lobos. Um lobo na porta da minha casa. Em Jacob e eu na cozinha, com as compras, com as velas, e finalmente na porta do banheiro. Desci a fim de beber um copo de água e me acalmar. 
          Chegando à cozinha vi um vulto passar pela minha janela do lado de fora, decidi me aproximar. Com passos leves e tímidos fui andando até a janela. Então um homem apareceu por trás de mim, prendendo-me pela cintura e com outra mão silenciando-me. Era Jacob. 



– Sobe! Eu vou lá ver. – sussurrou. Parecia nervoso e agitado, tinha uma feição enojada.
          Teimei com ele, mas ele venceu. Subi meia escada, então ele olhou na minha direção e apontou para que eu subisse, fiz o que ele pediu. No topo da escada vigiei. Jacob saiu, ouvi um rosnado forte por alguns minutos. Depois silêncio. Quando decidi descer ele apareceu na sala. Trancou a porta, conferiu todos os trincos, foi à cozinha, demorou uns minutos. Quando eu iria atrás dele, ele apareceu com uma jarra de água e um copo. Pediu que eu subisse e obedeci sem saber por quê. Ele me seguiu. Paramos novamente no corredor.



– Jacob! – eu falei como alguém que exige explicações. 
          Ele abriu a porta do meu quarto entrando. Fui atrás dele. Colocou a jarra em meu criado-mudo. Ficamos nos olhando, eu incrédula e curiosa.
– Os lobos estão agitados essa noite. E estão por perto, não sei bem por que. Não se preocupe que ao cair do sol eles somem.
– Lobos? – fiz uma pausa. – Escuta, o que eu vi foi um vulto humano. 
– Bom, realmente era um lobo. Você deve ter se confundido.
– Jura? 
– Você não o ouviu rosnar para mim? – ele falou esnobe.
– É... Eu ouvi. Como se livrou dele? – eu continuei duvidosa.
– Tinha uma vassoura perto da porta. Não será problema se não vier em bando. De qualquer modo aqui dentro estamos seguros, ele não vai assoprar sua casinha como fez com os três porquinhos. – ele falava humorado.
– Tudo bem. 



          Jacob saiu do meu quarto fechando a porta sorrindo. Depois de tudo aquilo, eu fechei os olhos e não consegui mais acordar. Pelo menos, até o sol queimar meu rosto.

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