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ELEH - CAP. 16

Desvendando Seth Clearwater

Após subir para a cabana peguei todas as minhas coisas e continuei com a pesquisa durante o dia todo. Parei apenas para almoçar e auxiliar Sue nas arrumações. Por volta das dezoito horas, havia acabado parte de meu trabalho e estavam prontos os meus primeiros protótipos do emplasto. Eu já estava utilizando aquela pomada caseira há algum tempo, e observando as reações que poderiam ter. Não houve nenhuma reação adversa comigo, e então planejei testar com os meninos. Afinal, eles tinham uma genética totalmente diferente. Sem excluir a hipótese de aplicá-la a um grupo experimental, redigi o Termo de Consentimento, e os documentos necessários a serem encaminhados dentro dos protocolos de saúde. Enviei os documentos aos irmãos Julian, e ambos que apoiavam minha pesquisa iriam proceder com o passo a passo da fase de testes. Logicamente, eu já havia dado um jeito de manter a patente original sobre minha guarda. 
Jacob entrou em seu quarto enrolado em uma toalha. Estava molhado, com os cabelos escorrendo por seu pescoço e eu o amaldiçoava mentalmente. Fingindo não ter reações sobre aquela tentação, eu o olhei rapidamente de lado, voltando minha atenção para a mesa. Ele veio andando calmamente até mim, e secando seus cabelos. De pé à frente da escrivaninha eu organizava os papéis na pasta, e reunia os pequenos potes transparentes com as amostras de pomada dentro. Jacob estranhando aquela situação parou ao meu lado. E embora seu cheio perfumado me fizesse desejar pular em seu colo, eu mantive meu olhar no que estava fazendo.
  — Você passou o dia todo nisso. Tem certeza de que não precisa de alguma ajuda?
  — Eu já acabei Black, mas obrigada. - olhei para ele sorrindo e voltando à mesa. 
Era verdade que não havia mais nenhum papel para organizar, mas em busca de fugir da situação eu estava lá: mais bagunçando a escrivaninha do que arrumando. Black jogou a toalha que tinha em suas mãos, em cima da cama, e bagunçou seus cabelos agora secos. E quando eu menos esperava ele me abraçou por trás cheirando meu pescoço. Era habitual aquilo acontecer antes de nós brigarmos, e naquele momento me indaguei se, sem que eu notasse houvesse me inserido num tipo de jogo do Black.
— E o que você estava fazendo com estes potinhos? - Black perguntou com sua voz rouca ao pé do meu ouvido.
— O que você está fazendo Black? - eu disse séria.
Ele me virou de frente para ele, ainda enlaçado à minha cintura. Olhou para mim com expressão de dúvida e confusão.
— Nós tínhamos combinado de não forçar as situações. - esclareci. 
— E você tinha dito que eu podia te abraçar quando quisesse.
Embora me olhasse com certa ingenuidade nos olhos, eu tinha certeza absoluta, de que tudo havia sido premeditado. E não sabia se Jacob respeitaria nosso acordo. Na verdade, desconfiava de que ele encontraria inúmeras concessões no meio de uma cláusula ou outra que eu impusesse.  Peguei um dos potinhos em cima da mesa atrás de mim, e ele encarava-me. Estendi o remédio a ele, que o pegou, finalmente me soltando.
— É um emplasto caseiro para cicatrizações. Teste. Eu vou entregar os outros aos meninos.
Saí do quarto pegando meus potinhos e indo até a cabana de Sue. Pude ouvir uma risada fraca de Black assim que dei as costas a ele. Certamente, ele sabia muito bem o que estava fazendo. Grandioso idiota.
Assim que expliquei à Sue e Billy sobre o meu remédio, ambos acharam uma boa ideia testar com os garotos da reserva, e iriam distribuí-los entre eles. Eu estava animada com aquilo. Fui até o quarto de Seth e após três batidas na porta, ouvi sua voz:
  — Entre!
Ele estava enrolado em uma toalha também, e observava o guarda-roupa como se escolhesse o que vestir. Qual o problema daqueles garotos naquele dia? 
— Ai desculpe! - eu exclamei ao vê-lo e daria meia volta, mas Seth rindo baixo me chamou:
— Lu! Relaxa, pode entrar. 
Voltei sem graça estendendo a ele o remédio.
— O que é isso?
— Uma pomada que eu fiz, e estou testando com vocês, use-a quando se machucar. Ela é uma espécie de "super" cicatrizante.
— Ok. Obrigada! Eu não vou morrer não é?
— É o que estamos tentando descobrir. 
Nós dois rimos e ele guardou o potinho em seu guarda-roupa. 
— Não consigo escolher uma roupa bonita.
— Hum... Vai sair com alguma garota, bonitão? - eu sorria zombeteira observando Seth enrubescer.
— É, digamos que sim... - ele ria.
Assim que olhei em seu guarda-roupa separei uma camisa e um jeans, ambos escuros. E tênis claros. Ele gostou da sugestão e arrancou sua toalha para vestir-se. Obviamente eu me assustei e ele ria divertido me avisando que poderia abrir os olhos, pois ele estava de cueca. Como se eu fosse a irmã mais velha dele, para ficar o observando de cueca. De fato, os quileutes eram menos pudicos com seus corpos. Seth vestiu suas calças, calçou-se e ao vestir sua camisa me olhou em dúvida, dizendo:
  — E você, não deveria estar se arrumando para seu encontro com Scott? 
  — Céus! Não! Eu já estava me esquecendo de novo! Quantas horas? - eu procurava desesperadamente um relógio pelo quarto de Seth. 
Seth segurou um dos meus braços e me trazendo frente a ele, fez-me encará-lo.
— Calma. Ainda não deu sete horas. O encontro é às oito, certo?
— Certo.
— Eu apenas estranhei, porque vocês garotas demoram demais escolhendo suas roupas... Imaginei que você já deveria estar pensando sobre isso, mas pelo visto...
— Pelo visto o que?
— Você não esteve nem um pouquinho preocupada com este compromisso. - Seth sem querer me acusar, acabou fazendo-o pela forma como me olhava.
— Ei! Primeiro, não tem essa de "meninas demoram a se arrumar e frufru!" - eu falei apontando a ele meu dedo indicador, tão incisiva na atitude quanto ele no olhar —   E depois, não é como se eu não desse a mínima, eu só acabei me ocupando o dia todo com trabalho.
  — E se esqueceu que tinha que sair com Scott. Você mesma disse!
Era estranho admitir, mas Seth estava bravo comigo. E aquilo me causava uma sensação de indignação e culpa, descomunais. Eu não entendia as reações dele,  assim como não entendia os meus sentimentos diante aquilo tudo.
— Vamos lá Seth! Porque você está agindo assim? Até parece que eu tenho dado furo com você, e não com o Scott.
— Eu espero que você não continue com isso Luna. De verdade. - me olhou decepcionado e abaixou a cabeça.
Puxei Seth pela mão até sua cama, e me sentei convidando-o a fazer o mesmo.
— Olha, eu sei que você desaprova  esta situação, mas eu já falei que eu não vou iludir Scott. E eu sei que tem mais coisa nesta história que está te afetando. Então... Se abre comigo? - ao terminar de falar eu puxei o rosto do rapaz para que ele me olhasse.
  — É muito difícil você amar alguém e não poder conviver com a pessoa. Mas imagino o quão pior é amar, e poder estar todos os dias lado a lado da pessoa, mas não tê-la verdadeiramente. E é isso o que você faz com Scott. Pode ser involuntariamente, você diz que não quer e não vai magoá-lo, você diz que não abrirá mão da amizade dele apenas por Scott provavelmente não saber lidar com o não... Mas, ele já tem o seu não desde que você chegou e tem lidado com isso, então Luna, talvez não seja direito seu escolher se é melhor vocês se verem com frequência ou não. Talvez o Scott é quem deva saber o que é melhor. O coração partido afinal, tem sido o dele.
Fiquei perplexa com todas aquelas palavras.
  — Seth... Obrigada, eu prometo que cada palavra sua está sendo levada em consideração e nunca havia visto por este ângulo. Mas estou preocupada. Esta sua reação de defesa pró-Scott... Tem algo a mais acontecendo?
— Tipo o quê?
— Hã... Sei lá... Você... Você reagiu como um lobo em defesa dele.
— O que está querendo insinuar? Pode falar abertamente.
— Você gosta do Scott? - depois que as palavras foram proferidas, não me pareceu óbvio como dentro da minha cabeça.
— Você realmente acha que eu sou gay? - Seth sorriu de canto, ainda um pouco alarmado — Oras, isto é ótimo! Então esta é a impressão que eu causo? 
Seth não estava bravo, mas surpreso. 
— Não, é só que... Você reagiu como se quisesse defender alguém que ama muito.
— E quero. Estou tentando defender você de erros que podem te machucar.
— Eu não entendo.
— Eu que não entendo! - ele gargalhava agora —  Só pra deixar claro, o Scott não faz o meu estilo. Eu prefiro pessoas com um pouco mais de curvas, e não precisa de muitos seios ou pernas grossas. Não sou tão exigente, só tem que ser mulher. 
Nós dois começamos a rir, e eu estava bem envergonhada do que havia pensado.
— Entendi... E será que eu posso saber quem foi esta pessoa que você amou e não pode ter?
Assim que terminei de falar, Seth havia mudado sua expressão. Ele beijou meu rosto e levantando-se em direção à porta do quarto, me disse antes de sair:
— Talvez algum dia você possa me desvendar. Por hora, acho que deve correr para se arrumar. - me mandou um beijo no ar, seguido de um sorriso enquanto segurava a maçaneta da porta.
— Posso pelo menos saber o nome da pessoa de curvas, com quem vai se encontrar hoje?
— Ela não é muito de curvas. Uma garota de curvas não olha para mim.
— Você é tão modesto! Acho que só precisa sair um pouco mais da reserva pra encontrar a pessoa certa.
— E você, pelo visto teve que entrar, não é? - ele ria divertido.
— Desculpe, eu não consegui entender o nome, você falou muito baixo. - desconversei em tom de ironia.
— Lili. Lili Parker.
— Sério? A caçula dos Parker? Acho que você deveria fugir daquela família.
— E acho que você vai se atrasar se continuar na minha cama. Geralmente as meninas que acabam na minha cama, custam sair mesmo. É normal. Mas sabe... Você pode voltar quando quiser.
Fui andando até Seth sorrindo e quando cheguei perto dei um tapa em sua barriga, - e pasme, tão rígida como pedra - e apontando o dedo em sua face falei:
— Me respeite moçoilo. Eu poderia ser sua irmã mais velha. 
— Nem é para tanto. Formaríamos um belo casal. - ele sorria travesso e enquanto fechava a porta, ouvimos Lia gritar do outro lado do corredor:
— Ei! Vocês dois aí! 
A garota nos olhava desconfiada e parou em frente ao irmão de braços cruzados calada, encarou em seus olhos, Seth ainda sustentava o sorriso travesso,  e farejou o ar na altura de seu pescoço.
  — Onde você vai? Por que está tão cheiroso assim? A mamãe sabe? O que vocês dois estavam fazendo lá dentro? 
Assim que terminou de falar, olhou para mim inquisidora e antes que o som saísse de minha boca, Seth se pronunciou:
— Grosseiro da sua parte pensar isto. - Lia já percebendo que os seus pensamentos estavam sendo compartilhados retornou o olhar ao irmão —  E fica feio você se expressar desta forma: "comer". Eu não como mulheres, eu dou carinho a elas. 
— Luna... Desculpe, eu não... - Lia falava para mim e bronqueando o irmão disse: — Seu moleque, não tem que externalizar o que eu penso! 
— Constrangedor não é? 
Aquilo me pareceu uma espécie de vingança entre irmãos. Assim que ele se virou para seguir adiante no corredor, Lia tentando não sair por menos bradou:
— Sai mesmo! Vai lá dar "carinho" a quem quer que esteja te esperando.
Aguardei a loba recuperar a calmaria e me pronunciei.
  — Você precisa parar de agir como se ele fosse um garotinho. Já pensou que talvez por isso, ele não se abra com você?
— É eu sei... De ontem para hoje pude notar que se tem algo que Seth não é mais, é um garoto.
— Pois é... E fala sério! Você realmente pensou que eu e ele estávamos no quarto dele, fazendo...
— Porque não pensaria? Depois de ontem no meu quarto, eu não sei se lembra eu estive na mente dele!
— Eu tenho idade pra ser a irmã mais velha dele. 
— E isso não quer dizer nada.
— Seria como você e ele.
— Que nojo garota. Não chega nem as pés. Ele é meu irmão, não seu.
— Para mim é como se fosse.
— Mas não é para ele.
— Como assim ? Tá dizendo que Seth pensa nestas coisas comigo? Você viu o que na cabeça dele, hein? E  puxa... Que invasão de privacidade Lia!
— Você não tem um encontro ? 
As pessoas começavam a me lembrar demais daquele compromisso. Não sabia distinguir se eu quem estava  errada, ou se era o álibi do dia para que desconversassem comigo. 
  —  Já estou indo.
19:55 da noite.
Billy, Sue, Charlie, Emy, Sam, Lia e Embry estavam na varanda da casa dos Black. E o vozerio ecoava junto às risadas. Eu acabara de calçar meus saltos, quando a porta do quarto entreabriu revelando um rosto preocupado: Jacob Black.
  — Aconteceu alguma coisa?
Ao me levantar, deparei-me com o olhar frenético e firme de Jacob sobre mim. Ele sorriu de lado, como se acordasse de algum devaneio.
— Minha Mani vai sair com um menininho. Nem posso acreditar que este dia chegou. - zombou.
— O que? Estou tão infantil assim? - eu disse correndo ao espelho —  É este penteado! Eu sabia, vou soltar o cabelo. 
  — Não precisa ficar insegura, você está linda. E não tem nada de... - eu sacudi os cabelos me virando para Black e então ele calou-se, continuando após um breve silêncio: —  infantil. 
— Em todo caso, vamos manter as madeixas livres. Cabelo solto não tem erro! - eu sorri.
— Parece animada com o encontro... Você pretende dormir em casa?
— Eu pretendo. - não esclareci porém que as chaves da minha casa estavam na bolsa caso eu realmente fosse "dormir" em casa.
— Droga.
— O quê? Você quer o quarto livre pra você hoje? Porque eu posso...
— Não! Não é isso! Pode ficar com ele todinho... O meu quarto! Eu vou estar na cama te esperando. Esperando você chegar, eu quis dizer.
Sorri fraco encarando um Black atrapalhado, e ouso dizer, transbordando ciúme.
—   Tudo bem Black, não me espere acordado. - depositei um beijo em seu rosto e fui em direção à porta.
Enquanto eu saia pelo corredor Jacob que vinha logo atrás, parou um pouco antes na saída do quarto e murmurou escondido:
— Merda, merda! Idiota!
Em seguida veio atrás de mim. Chegamos ambos à varanda e todos olharam para mim, os meninos com tom provocadores faziam piadinhas e assim que o carro de Scott surgiu à frente da casa de Billy, uma redoma foi formada nos degraus abaixo da cabana. Sam, Embry, Paul, Quil, e Jacob respectivamente nesta ordem desceram os degraus e formaram uma fileira à minha frente. Scott desceu do carro e aproximou-se. Olhava para mim sorrindo radiante como em todas as vezes que nos víamos. Lia sentada na cerca da varanda falou um pouco mais alto, em minha direção:
  — Nossa, ele está mesmo um gato! 
As mulheres na varanda riam e eu não pude deixar de rir também. Afinal, quem mais imprópria que a Lia para externalizar um momento como aqueles? Não pude deixar de me sentir especial quando Charlie parou ao meu lado com os braços cruzados, olhou-me de canto sorrindo e voltou sua expressão séria para Scott. Meu convidado cumprimentou todos os rapazes, que foram corteses embora intimidadores, e pousando os olhos em Jacob apertou sua mão. Eu tinha medo por aquela atitude. Não sabia se Black, estaria tranquilo com aquilo. Então Jacob apenas acenou com a cabeça enquanto com um aperto de mão, devolvia o cumprimento. Parando um degrau à minha frente, Scott deu boa noite a todos. Logo, pousou seu olhar aflito sobre Charlie.
— Delegado Swan...
— Apenas Charlie. - ele assentiu sorrindo —  Onde pretende levar minha filha?
Aquela pergunta espantou a maioria dos meninos, mas não espantou Jacob, Billy, Sue e muito menos eu. Se algo me confortava imensamente era a paternidade adotiva que Charlie correspondia a mim. E se eu não fosse calejada com o assunto "família" provavelmente teria chorado com aquela atitude. Tive vontade de abraçá-lo. Mas por algum motivo, não o fiz. 
— Silverdale.
— Você não pretende beber e dirigir, não é?
— Não mesmo, senhor delegado. - Scott continha um sorriso tranquilo e cúmplice ao meu. 
— Charlie... Acho que eles não são mais adolescentes. - a voz de Sue ecoou doce ao ouvido de Charlie. 
— É Charlie! Daqui a pouco você vai dizer que horas o mocinho deve trazer a sua filhinha para casa! - Lia zombava, arrancando risadas de todo mundo e despertando o delegado Swan daquele transe.
  — Não se preocupe Charlie, vamos ficar bem. - eu disse.
— Em todo caso - ele sorriu para Scott e para mim, e voltando a ficar sério respondeu: — Eu ficaria tranquilo se ela voltasse ainda esta noite.
Nós dois abaixamos a cabeça sorrindo e Sue cutucou o delegado. Os demais, já haviam se entretido após o comentário humorado de Lia, de volta aos seus lugares.  Scott e eu seguimos para o carro, acenando e nos despedindo de todos. Emy gritou um "divirtam-se" para nós, e ao passarmos por Black sorrimos. Ele apenas sorriu de volta para mim. Da janela do carro observei quando Black entrou de volta à cabana sem pronunciar nada a ninguém.
— Parece que a senhorita encontrou uma porção de irmãos para defendê-la. - Scott dizia sorrindo antes mesmo de passarmos o portão da reserva.
— Sim. Enfim encontrei uma família. 
— Meu pai tinha razão afinal.
— As premonições de seu pai, ainda não devem ser concluídas.
— Mas, estão caminhando para isso.
Sorrimos.
— Silverdale, então? - perguntei puxando assunto.
— Espero que goste de dançar...
— Muito! - eu respondi animada observando Scott rir.
— Country!
Olhei para ele que dava risadas animadas enquanto vigiava a minha reação.
— Bem, eu não sou lá uma "expert". Mas eu aprendo rápido.
— Você vai gostar! Temos a noite toda para eu te ensinar... A menos que...
— Não se preocupe com Charlie, ele estava apenas brincando! - eu sorri prevendo o que Scott diria.
— Não é bem com o Charlie que me preocupo.
— Os meninos não irão atrás de nós! - eu disse e Scott me observou desconfiado —  Nenhum deles! 
— Bem, então hoje é o dia que você sairá de Silverdale dançando country!
— Hoje eu sou toda sua. Me ensine. 
Embora animada e ingênua com a resposta, Scott me observou com certa malícia, que logo se desfez em seu cavalheirismo iminente. Seja lá o que tinha se passado em sua mente, ele já havia afastado. E me serviu como um alerta para pensar um pouco mais antes de falar, pois como havia prometido ao Seth, não iria iludir Scott.
— Você está linda. Não que isto seja difícil para você.
— Obrigada, mas você poderia ter dito que eu iria dançar country hoje, teria vindo à caráter!
— Então, agradeçamos por eu não ter dito nada! - ele sorriu ligando o aparelho de som do carro, e uma música qualquer embalava nosso diálogo.
— Acredita que Seth saiu para um encontrinho com a Lili Parker?
— Não!? - ele olhou-me surpreso —  Ele não sabe onde está se metendo! 
Ambos ríamos.
— É eu avisei a ele, mas ele não quis me ouvir. Meninos...
  — "Encontrinho",  "meninos"... Por que se refere ao Seth como se ele fosse um pré-adolescente? Ele não é tão mais novo do que nós.
— Tem razão... Ultimamente eu tenho pego esta mania da irmã dele.
— Lia sempre verá o irmão como um moleque de 15 anos.
— Verdade, mas Seth é mais maduro do que ela pensa.
— Ele passou por muita coisa afinal. - Scott disse como se soubesse de algo que nós , incluindo a própria família de Seth não soubéssemos.
— Claro! Eu falava disto com Lia... - tentei pescar algo com aquela conversa através de Scott — As pessoas agem diferente diante das perdas. 
— E Seth amadureceu muito com as duas perdas na mesma época não é? - Scott ao observar meu cenho desentendido com aquele comentário notou, que talvez eu não estivesse falando da mesma coisa que ele e, portanto desconversou —  Mas Lili Parker? Ele não está em seu juízo! Eu vou perguntar ao Peter que tipo de amigo ele é para não avisar ao Seth do problema que é se meter com aquela família de mulheres loucas!
Sorrimos um para o outro.
— Acho que já que você não quer entrar na família, e o sonho de Peter é conquistar Daniela, ele está tentando arrastar o melhor amigo para a mesma aventura.
— Precisamos salvar estes garotos.
O resto da viagem correu tranquila, e ao chegarmos no restaurante onde Scott havia feito as reservas, não demoramos muito para jantar, embora estivéssemos agradáveis com o clima, a comida e a presença um do outro. Logo nos apressamos para seguir à danceteria que ele havia prometido me levar. Noite do Country. Assim que adentramos, uma banda típica estava no palco do local não tão pequeno. Pessoas gargalhavam, um flashmob country ocorria no centro do salão, os mais tímidos aplaudiam. Os grupos de amigos bebiam, alguns pelos balcões, outros pelas pequenas mesas que circundavam os cantos do estabelecimento. Scott puxou-me pela mão sorrindo animado. 
— Vamos para alguma das mesas, e eu pego algumas bebidas pra nós no balcão. 
Assenti e enquanto rondávamos alguma mesa, assim que encontramos uma vazia. Scott perguntou o que eu queria beber, e antes de sair um homem alto e forte apareceu ao lado dele, chamando por meu nome.
— Luna!
— Seth? Como assim? - rimos da coicidência e ele abraçou Scott cumprimentando-o.
— Cara, porque não disse que viriam para cá?
— Eu não sabia. Scott fez uma surpresa.
— Está tudo bem Seth? - Scott perguntou ao notar que Seth estava extremamente feliz em nos ver. 
— Bem, agora que vocês chegaram vai melhorar. - olhando para mim, completou: — Eu devia ter te escutado e ficado em casa! Aquela Lili é completamente insana.
Scott e eu rimos. 
— Nós vamos te salvar garoto. Senta aí. 
Scott disse e foi buscar as bebidas. Seth disse que não bebia, então não precisava se incomodar. Sentando-se ao meu lado e me abraçando como se eu fosse sua salvação, Seth olhava em direção ao banheiro feminino impaciente. Eu observava as danças pelo salão e assim que Scott chegou, começamos a desvendar qual tipo de furada Seth havia se metido.
— Ela é insana! Ela acha que somos namorados, e é a primeira vez que saio com ela! Ela não para de falar um minuto, e pelo amor de Deus... Ela não fala nada de útil!
Scott e eu só conseguíamos rir enquanto conversamos com Seth.
— Onde ela está?
— Na fila para o banheiro, há uns 10 minutos. Bendita fila! 
— As mulheres da família Parker são ótimas para serem suas amigas, até o ponto em que não cismam com você. Sempre chega um momento em que elas forçam uma situação. E se você não se cuidar, acaba sendo engolido pelos compromissos fantasiosos delas! 
— Scott, eu mato seu irmão!
— Viu só? Eu sabia que o Peter tinha empurrado o Seth pra esta aventura, Scott!
— Ei Seth, pode ficar conosco aqui o tempo que quiser. 
— De forma alguma, eu não vou atrapalhar mais o encontro de vocês! 
— Ei Seth, não tem problema! Scott e eu estamos ainda mais animados por ter encontrado você.
— É, a Luna é ótima com as Parker. Tem algo na comunicação delas, que é muito... Íntimo. - Scott zombou rindo de mim, enquanto eu sorria fazendo uma careta vencedora.
— Olha Seth, tem várias garotas por aqui, e você facilmente encontra alguém. Claro que você não vai ser cafajeste de largar a Parker, que você mesmo inventou de trazer, mas conversa com ela que o interesse não é mútuo. Talvez ela não seja como as irmãs.
Scott olhou-me incrédulo.
— Ok. Talvez ela não seja tão superficial como as irmãs.
— Pode ser, mas eu vou dar uma volta pra aproveitar que já vão completar 20 minutos que ela está na fila do banheiro. - Seth sorriu bem mais animado.
Scott e eu acenamos, brindamos. 
— O que você está bebendo?
— É só um suco. Relaxe... Eu não me atreveria a desobedecer uma ordem do delegado Swan. - ele riu.
— Eu vou te acompanhar, no próximo. Não gosto de beber sozinha.
— Tem certeza? Eu posso cuidar de você se por acaso você não conseguir andar em linha reta até o fim da noite. 
— Você já fez isso uma vez! 
— Não necessariamente! Você apenas pegou no sono!
— É, mas hoje eu prometo que não vou dormir! E aí, quando começa a minha aula de dança?
— Agora! 
Scott depositou os copos na mesa e pegando minhas mãos, me guiou até o centro do salão onde ocorria "a grande dança". De longe observei Seth dançando com outras meninas, e logo Lili Parker o encontrou, ela se aproximou timidamente. Seth é um cavalheiro exímio, e continuou a dançar com sua acompanhante fazendo com que ela sorrisse abertamente. Talvez a caçula dos Parker não fosse uma caça-dotes como as irmãs, mas sim estivesse encantada por Seth. 
Entre danças e danças, risadas e mais risadas, a noite correu muito divertida e alegre. Seth e Lili se juntaram a nós outras vezes na mesa, e a garota era realmente mais tragável que as irmãs. Ainda assim, perdurava a marca registrada dos Parker: "o egocentrismo". Mas nada que, não houvesse salvação para ela. Após nossa chegada Seth ficou mais relaxado, então de certa forma acredito que a noite acabou bem para ele também. 
Na saída, observei que Seth havia pego o carro de Jacob emprestado. Então disse a ele um "até logo", ele deu de ombros ainda em dúvida. Talvez Seth não voltasse para casa aquela noite. Eu não poderia afirmar se mesmo após nossa chegada, suas impressões sobre a jovem continuavam as mesmas. Scott e eu voltamos de Silverdale para Forks muito mais animados do que antes. Conversamos sobre como eu me saí bem dançando country, apesar de estar desengonçada devido ao meu vestido e saltos. Prometemos que repetiríamos a dose, porém da próxima vez, vestidos à caráter. E quando finalmente chegamos à estrada de Forks, Scott pronunciou-se a respeito de nosso encontro.
— Foi uma noite incrível. 
— Foi mesmo. Obrigada pela segunda chance. Sei que eu andei vacilando muito contigo, mas acho que posso afirmar que foi uma das noites mais divertidas que tivemos. 
— Já notou que toda vez que saímos é sempre divertido, Luna? Por isso que eu adoro quando você, finalmente, encontra um tempinho para nós.
— Prometo ser uma amiga mais atenciosa. - olhamos um para o outro amenos, e então não pude evitar ser sincera — Sabe Scott, eu tenho muito medo de te magoar. De te iludir. Eu sei dos seus sentimentos, mas lamento não poder correspondê-los como você merece.
— Eu sei de tudo isso moça. E não fique com medo, eu não vou te pedir em casamento ou algo do tipo. Eu só quero estar com você e ficar o máximo que puder contigo, porque é como eu disse, nós nos divertimos muito.
— Eu queria tanto poder corresponder seus sentimentos, de verdade. - pousei minha mão sobre a coxa direita de Scott, ele me olhou um pouco espantado. — Mas, acho que expectativas não devem ser criadas de nenhum dos lados.
— Concordo. Eu só quero deixar as coisas irem acontecendo. E no momento se a sua amizade é a minha melhor oferta, eu a agarrarei.
— Pra ser sincera, você tem alguns méritos. Aquele beijo... Eu não o esqueci. 
Mas o que eu estava fazendo? Não podia negar que Scott tinha sua parcela de atração. No entanto, que sujeirada eu armaria se o fizesse crer naquilo para depois negá-lo. Estávamos na entrada da reserva, e nem notei que o carro já havia parado. Scott e eu nos olhávamos tímidos sem imaginar qual o passo dar a seguir. Ele se aproximou de mim, e imediatamente recordei do dia em que vi Black e Bruh se beijando. Segurei a nuca de Scott, e mordi seu lábio inferior. Ele segurou meus cabelos os puxando para trás, encostamos nossos lábios novamente e quando eu decidi avançar impetuosa para Scott, ele segurou firme meus braços impedindo-me.
  — Acho melhor, nós esperarmos outras saídas, para ter certeza se devemos...
— Você tem razão... - respondi despertando do transe que aquelas lembranças haviam trazido. 
Scott estava totalmente certo. Eu não sabia se estava agindo por vingança, ou se ao lembrar de Jacob com Bruh eu imaginava que Scott era o próprio Black. De qualquer modo, Scott ou Black, as reações foram as mesmas: ambos haviam negado meu beijo. Não culparia Scott por aquilo, ele estava protegendo seus sentimentos. Eu faria o mesmo se estivesse no lugar dele. Faria? Talvez eu não fizesse. Se Jacob se aproximasse daquele jeito, eu o teria beijado, mesmo sabendo que ele não me amava. Mesmo sabendo que no final da noite, o frio da minha cama continuaria esperando por mim. 
Nos despedimos com um abraço. Eu desci do carro, e não avistei o carro de Black na porta de Sue. Talvez Seth não houvesse voltado. Scott saiu da reserva, e eu adentrei à cabana pé por pé, sem fazer barulho para não acordar os moradores. Tudo estava apagado e não quis acender a luz afinal, Black dormia na sala e eu poderia acordá-lo. Entrei no quarto, fechei a porta, acendi as luzes e ao me virar, lá estava Black. 
Sem camisa e deitado na cama, abraçado à minha camisola. Achei a cena um tanto quanto fofa e sorri sem perceber. E o que eu faria? Peguei minha toalha, minha lingerie e um outra camisola, tomei um banho muito rápido, apenas para tirar o suor. E após feita a higiene noturna, voltei ao quarto. Black ainda dormia, ainda mais afundado em minha camisola.
Eu sabia que as ações seguintes poderiam me gerar uma extrema dor de cabeça, contudo, eu havia sido dispensada por Scott e aquilo me soou como um sinal divino. Algo no universo havia evitado que eu me afundasse ainda mais nos meus devaneios. Então, afastei o edredom e me deitei ao lado de Jacob. Aninhei-me em seu pescoço, e enquanto esperava o sono chegar, me enebriando com seu cheiro, eu repensava em tudo que Seth e Lia, e Billy disseram sobre Black e seus sentimentos sobre mim. Recordei de toda a conversa com Seth, e de fato, era melhor evitar corações feridos. Scott pareceu maduro com a hipótese de continuarmos nos vendo, mesmo sem qualquer relação. No entanto, a minha mágoa sobre Jacob ter me evitado durante tanto tempo continuava. E eu não sabia se era correto me entregar ao desejo, independente do que ocorrera anteriormente. Não seria nada bacana que Black acordasse e me encontrasse em seus braços, pois estaria claro que, eu poderia investir em quem quer que fosse, mas seria nos teus braços que eu desejaria estar. E meu orgulho me impedia de permiti-lo tal descoberta. Ao mesmo tempo, era ali que eu queria estar e não me importava naquele momento o que aconteceria no dia seguinte, desde que eu acordasse antes de Black, tudo poderia ficar bem.
Eu mal pude acreditar quando abri meus olhos e Jacob ainda dormia. Estava tudo resolvido: eu levantaria, tomaria um banho e faria o café antes que ele acordasse e quando perguntassem, diria que o sofá era um pouco desconfortável. Seria o plano perfeito se, por acaso, não tivesse me esquecido que Billy era praticamente a coruja da madrugada. Ao sair pelo quarto, senti ainda no corredor o cheiro do café. 
"Droga Billy! Por que você não dorme?" pensei e irritada retornei ao quarto para pegar meu roupão. Após cobrir-me e sair com todo cuidado para manter os olhos de Jacob bem fechados e seus sentidos adormecidos, bufei pelo corredor em direção ao banheiro. Enquanto escovava os dentes praguejava mentalmente contra Billy Black: "Merda, esse homem precisa de uma namorada!", "Mas que droga, fica de guarda a noite toda?", "Ele já tem idade, era para ser mais sonolento!", "Aposto que Charlie está dormindo, afinal de contas, ele tem a Sue!", "É isto: o senhor Billy precisa de uma mulher pra mantê-lo exausto!". Sequei o rosto, joguei meus cabelos que eram mais bonitos ao acordar do que quando os penteava, e comecei a rir sozinha no banheiro. Afinal de contas, que pensamentos eram aqueles contra Billy? Quando foi que eu me tornei uma adolescente de novo? Parecia até que meu pai havia proibido-me de dormir com meu namorado. Enquanto eu abri a porta e saí sorrindo, me recordei de que em todo modo, Billy teria notado que nem eu, e nem Black dormimos na sala. O que eu deveria fazer então? 
  — Bom dia Billy. - disse assim que adentrei a cozinha. —  Tudo bem se eu fizer um bolo?
— Bom dia Luna. Não está muito cedo para você acordar? - ele disse e eu comecei a pensar no que ele estaria querendo insinuar com aquilo. — Afinal, você deve ter chegado tarde ontem. Como foi sua noite?
—   Ah foi muito divertida Billy, aprendi a dançar country! Acredita que Scott e eu encontramos Seth e Lili em Silverdale? Nossa nos divertimos muito.
— Uow! Alguém ficou realmente empolgada. - ele ria divertido, e até mesmo eu não entendi aquele tagarelar matutino — Eu nem sabia que Seth estava saindo com uma garota.
— Na verdade, ontem foi o primeiro encontro deles, e não tenho certeza se repetirá.
— O que houve?
— A princípio ele não se deu muito bem com a Parker. - eu ri.
— Bem, isso deve ter mudado, afinal Sue está com os nervos exaltados porque ele não voltou para casa e nem avisou que não dormiria. - Billy gargalhava com a travessura de Seth —  Ela não entende que o filho dela já não é mais um menino! Imagine, como se ele fosse ligar...
— Eu fico feliz por ele ter se divertido então. E depois eu conversarei com Sue sobre isso, acha que ela ficará chateada comigo Billy?
— De forma alguma! É apenas ciúme de mãe. Ela é mente aberta, afinal, foi ela quem fez o Charlie se tocar ontem não é? 
Enquanto eu já misturava os ingredientes do bolo, nós dois morríamos de rir lembrando as reações. Na verdade eu estava rindo muito mais por contágio da alegria de Billy aquela manhã. Ele não era muito de brincar, mas estava mais animado que o habitual. No meio dos risos, recordei de algo que talvez Billy pudesse esclarecer.
— Ei Billy... Ontem Scott me disse algo que eu não entendi muito bem. Ao falarmos sobre a maturidade de Seth, ele disse que "Seth havia passado por duas perdas ao mesmo tempo, e que embora difícil, aquilo ajudou ele a amadurecer". Você sabe do que ele estava falando?
— Não Luna. Não faço ideia! A única perda significativa para ele fora o pai. E agora você me deixou realmente curioso.
— Fica entre nós Billy... Lia e eu temos achado Seth um pouco introspectivo, e eu tenho tentado conversar com ele. Achamos que seja lá o que for, ele acabará me contando. Então poderíamos deixar isso entre nós?  
— Claro, saiba que se precisar pode contar comigo com isso. Se nosso Seth precisa de cuidados, faremos o que for preciso.
— Obrigada. 
—  Quer deixar entre nós também, você e Jacob terem dormido juntos de novo?
Na hora em que eu bebia meu café, pois já havia batido a massa de bolo que naquele momento Billy colocava ao forno, engasguei diante àquela pergunta.
  — Você sabe que sou discreto, mas não posso deixar de perguntar: o que aconteceu?
— Ah isso... Droga Billy! - exclamei correndo até a porta da cozinha para me certificar de que Black não estaria ouvindo, o pai dele apenas sorria —  Não aconteceu nada! Estava cansada demais para deitar no sofá. Ele é quem não deveria ter dormido no quarto.
— Como foi com Scott?
— Bem... Eu não posso iludir ele, nós gostamos de sair e somos bons amigos. Vocês todos que criaram expectativas sobre ontem.
— Eu criei mesmo, mas só quando fui ao quarto de Jacob ontem o chamar e o peguei dormindo aninhado à sua camisola, e ao acordar hoje pela manhã e não ver nenhum dos dois no sofá que voltei a sentir esperança.
— Com todo respeito Billy, você precisa de uma namorada. - ele se espantou e me olhou sério — Não quero ser uma abusada, mas se você tivesse uma namorada não ficaria "de guarda" a noite toda e eu teria conseguido acordar antes dos dois.
Billy gargalhou com minhas ideias, e enquanto eu estava emburrada guiou sua cadeira até mim. Eu estava sentada à mesa e ele pegou minha mão sobre a mesa, e acariciando-a parou de rir, transformando o riso em um sorriso paterno:
— Os cães devem ficar de guarda. Desculpe este lobo velho, que quase não tem mais sono. Eu não queria deixar você sem saída. Eu juro!
— Pois é, mas meus planos foram por água abaixo. Planejei acordar antes de todos e fingir que dormi no sofá!
— Jacob a ama, Luna. - me encarou ao mesmo tempo tenro e firme —  Depois que você saiu, ele entrou e foi para o quarto. E não saiu mais de lá. Quando fui vê-lo, havia dormido e tive pena de acordá-lo. Afinal, eu nem sabia se você voltaria para casa. Achei melhor deixá-lo lá. E você? Quer falar sobre o que aconteceu quando chegou?
— Bem... Quando o vi dormindo com minha roupa... Eu não sei explicar, mas me senti culpada. E ao mesmo tempo feliz. Eu queria estar com ele, no entanto senti que não devia. Foi aí que decidi deitar lá e ficar abraçada a ele, e no dia seguinte SE TUDO DESSE CERTO - eu disse com certa ênfase —  Eu acordaria como se nada tivesse acontecido.
— Entendo - ele riu —  Mas não acha cruel fazer isso? Você mata a sua vontade de estar com ele e aí ele acorda, mas com a triste lembrança de uma peça de roupa nos braços?
— Desde quando você é poético? 
— Estou gostando da nossa relação - ele ria —  Mas é sério Luna. Você o ama, não tem motivos para não viverem isto.
— Pode ser um pouco cruel, mas... E o que ele fez comigo? Não estou falando da Ateara, estou falando de todas as outras vezes que ele não soube apenas dizer o que sentia, fazendo eu me sentir uma completa idiota que achava que conseguiria quebrar as barreiras no coração dele.
— Sabe, eu não tenho o direito de te contar sobre o passado dele, e é por isso que vou deixar que ele conte quando achar que deve. Apenas pare de remoer os erros entre vocês dois. Isso não está ajudando nem você e nem ele. Acabaram se afastando quando sentem falta um do outro, e sabem que juntos são muito mais felizes. 
— Você tem razão, mas... Ele teve o tempo dele, e eu tenho o meu.
— Devo ficar quieto sobre tudo então?
— Eu mesma contarei a ele que dividimos a cama esta noite. - sorri e perguntei tímida —  Posso te dar um abraço Senhor Black? 
Billy assentiu e após receber um abraço do lobo velho, fui em direção ao forno, pois o bolo estava pronto. Jacob havia acordado e entrou na cozinha com uma expressão de mau humor, como há muito Billy e eu não víamos, ao colocar os olhos em mim vestida de roupão com o tabuleiro nas mãos ele sorriu abertamente dizendo:
— Como assim?
— É eu também não acredito, Billy podia me dar este forno quando eu me mudar! Eu nunca vi um bolo assar tão rápido. - ambos riram.
— Não, eu tô dizendo que... Achei que você não dormiria em casa! - ele respondeu beijando minha testa, um pouco eufórico e confuso por não ter certeza se eu havia ou não dormido em casa.
— Eu vou ver se o Seth já chegou, e acalmar a Sue para tomar um café conosco. Pela hora Charlie já foi trabalhar. - Billy piscou para mim e saiu balançando a cabeça. Jacob estava ainda mais confuso.
— Vai, senta aí para tomar café - eu disse. 
— Você... Você... Olha, eu não...
— Black - o interrompi — Do que você está falando? Eu dormi com você.
Minha vontade de gargalhar era grande, mas me mantive quieta. Black estava mais confuso ainda.
— Você não percebeu que dormi ao seu lado? - perguntei.
— Eu não tenho certeza...
— Não foi um sonho Jacob. - disse convencida —  Eu cheguei tarde ontem e você dormia na cama abraçado com minha camisola, e eu estava cansada demais para dormir no sofá. Apenas deitei ao seu lado. Só não imaginei que minha presença fosse tão despercebível.
— Não é isso... - não pretendendo se explicar, Jacob apenas sorriu e afagou meus cabelos. 
Tomamos nosso café, contei para ele sobre as partes divertidas da noite, não contei nada sobre Scott e eu. Beijando-o ou não decidi que, não havia por que dar explicações ao Jacob sobre aquilo, não naquele momento. Quando Sue chegou abracei ela, e novamente contei sobre a noite para os presentes, inclusive comentei sobre Seth. Sue ficou visivelmente incomodada enquanto Billy e Black riam do garoto. Fui me arrumar para o trabalho e quando saía pela porta da cabana, encontrei Seth descendo do carro e vindo em direção à casa dos Black. Bati em sua mão quando paramos de frente um para o outro na varanda.
— Então você não dormiu em casa... "A Parker é um chata, a Parker isso, a Parker aquilo" - zombei dele fazendo voz de criancinha.
— Ei! Ela continua não sendo o meu tipo, ok?
— Ah cachorro! Agora você diz isso né?
Seth beijando minhas mãos e olhando-me com cara de súplica falou:
— Eu não dormi com ela, tudo bem?
— O quê? Seth, você tem muito a me contar!
— Mais tarde, agora estou com fome, e com sono! Você tem que trabalhar né?
— Sim, eu tenho! E tô pensando seriamente em te empregar sabia? - eu zombei, mas havia um tom de verdade na minha fala.
— Ok. - ele beijou minha testa —  Bom trabalho, até mais tarde. Tô em fuga pra casa de Jake, porque quero evitar minha mãe. Tem café aqui?
— Olha.. Tem bolo que eu acabei de preparar, café, frutas, queijo, leite... E tem também uma outra coisinha...
— Ok, ok! - Seth disse se virando e me ignorando.
— Bom café da manhã explicando-se para sua mãe.
Imediatamente ele voltou me segurando pelo braço e me guiando até meu carro, como se realmente ele fosse um fugitivo.
— Não brinca!? 
— E aí, vai encarar ela na sua casa ou na casa dos Black?
— Se eu for pra casa, posso tomar café por lá e dizer que estava o tempo todo no meu quarto. 
— Eu acho que ela procurou pelo filho dela no quarto dele né?
— Tem razão. Vou dizer que saí com o Quil, e acabei dormindo lá.
— Seth... Sem mentiras, ok? - revirei os olhos sem entender o que Sue poderia fazê-lo de tão ruim. Tudo bem que ela era muito ciumenta, mas aquilo era exagero. —  Até porque, eu contei pra eles que ontem nos encontramos.
Assim que terminei de falar, Seth suspirou fundo e enfim entrou na cabana dos Black. Entrei em meu carro e segui para meu trabalho na cidade. Na hora do almoço passei no mercado dos Carter para fazer umas compras, almocei, voltei ao trabalho na farmácia e após as 15 horas deixei Stuart, e finalizei minhas tarefas de gerência do dia. Segui para a reserva e antes de prosseguir, parei na minha casa. O bairro Kalil parecia ainda mais assustador, e a minha casa, com todas as minhas coisas ali e sem movimentação deixavam o ambiente pior. Peguei as minhas plantas, coloquei-as no carro, e segui para a reserva. 
Assim que cheguei,  pedi ao Billy e à Sue para deixar os vasos de plantas nas varandas deles, até que eu tivesse enfim uma casa na reserva.  Perguntei onde estavam todos, e Emy muito animada respondeu: 
— Atrás da cabana de Sue, preparando o alicerce para a sua cabana!
— Não brinca! Eu quero ver isso! - corri para atrás das cabanas e sorri de orelha a orelha ao ver todos engajados daquele jeito.
— Café da tarde, matilha! - Sue gritou da janela de sua cozinha. 
Os meninos todos olharam para ela, e largando pouco a pouco suas ferramentas foram se encaminhando para casa. Passaram por mim me cumprimentando com beijos e abraços suados. Embry lambeu minha bochecha e eu apenas fiz cara de nojo, Seth vinha em minha direção aparentemente exausto.
— Obrigada por isto. - eu peguei sua mão andando acompanhada a ele —  Mesmo cansado está ajudando com minha cabaninha.
— Ei, não tem que agradecer... - ele sorriu beijando minha mão.
— Eu assumo daqui, pode ir tomar um banho, comer e descansar!
— Valeu! Vou mesmo aceitar! - ele sorriu aliviado e enquanto estava de costas eu gritei:
— Como foi com sua mãe?
— Tranquilo! Sobre ontem, te conto depois!
Sorri afirmando, e olhei para trás Black e Charlie estavam vindo. Decidi parar para falar com eles também, agradeci aos dois e recebi seus abraços de volta. Continuamos andando em direção à cozinha de Sue.
—  Desde quando ele conta sobre as noitadas dele para você e não para mim? - Black perguntou se referindo ao Seth.
— Eu sou muito mais divertida, e posso ajudar ele com as mulheres. 
— Também posso! Na verdade, era eu quem vinha fazendo isso, e muito bem por sinal!
Charlie ria do ciúmes de Black, e eu também. Abracei Charlie de lado e ignorei a cena de Jacob.
— Obrigada por ser meu pai aquela noite. - eu disse para Charlie — Eu nunca soube como era.
— Eu que agradeço por me deixar fazer parte disso. -  tínhamos os olhos marejados.
— Eu posso me habituar facilmente a chamar você de pai, gostaria de saber se teria algum problema. - eu disse um pouco tímida e Charlie parou de andar.
Deixando algumas lágrimas escorrerem ele me puxou para um abraço e beijou o topo de minha cabeça.
— Eu serei muito feliz com isso. - ele disse e acariciando meu rosto, limpou seus olhos e saiu.
Jacob parado ao meu lado sorria com a cena e me abraçou pelos ombros.
— Ele sente falta. E Lia, mesmo depois de aceitá-lo, nunca pode chamar ele de pai. Nem Seth. Mas Charlie entende. O Sr. Clearwater era muito amado por todos, inclusive Charlie.
Eu apenas sorri de volta para Black que me aninhando cada vez mais em seus braços me acompanhava pela sala de Sue. Charlie saindo do banheiro e nos encontrando disse:
— Black! Solte minha garota e vá lavar suas mãos.
Nós dois rimos com aquilo, mas obedecemos.
Ao restante da tarde, todos voltaram seus trabalhos à minha cabana. Fui à cidade acompanhada de Emy e Lia para comprar alguns materiais de construção e aproveitamos para eu contar os detalhes da noite. Ao contar do quase beijo, tanto Emy quanto Lia concordaram que manter a amizade de Scott era o melhor caminho e assim que eu contei sobre minha conversa com Billy pela manhã, elas assinaram embaixo de tudo o que velho lobo dissera. 
Ao voltar pegamos firme no restante da construção. Os meninos estimaram um tempo de 3 meses para tudo ficar pronto. Jantaríamos na casa de Sue para comemorar o primeiro dia de trabalho na cabana da nova quileute. Eu estava mesmo muito feliz. Depois de nos arrumarmos, jantamos todos, e seguimos de conversa até o alto da lua no céu. Em determinado momento, senti falta de Seth e fui ao seu quarto. Dei duas batidas na porta, e logo Embry estava ao meu lado. Havia saído do quarto de Lia com um cd em mãos.
— Tudo Bem Luna?
— Sim. Que música vamos ouvir?
— Lia e essas bandas esquisitonas que ela escuta... - ele riu me mostrando a capa de uma banda que eu não fazia ideia de quem eram —  Está tudo bem com Seth?
— É isto que eu vim conferir. Estar cansado sobre ontem, ok. Mas ele não está apenas cansado. Você sabe de alguma coisa?
— Vocês estão muito amigos não é? - Embry sorriu nostálgico.
— Eu sou amiga de todos vocês. Só que vocês oscilam em momentos diferentes. E que bom! Não daria conta de ser psicóloga de todos ao mesmo tempo. - Embry sorria me abraçando —  Sabe qual o problema? Essa falta de privacidade mental de vocês! - eu disse apontando pra cabeça de Embry.
— Não, isso é algo que todos estamos habituados. O que está mexendo com ele, é algo que aconteceu há algum tempo. Ele tem remoído isto, mas ficará bem. Mas é como Lia diz... Seth não se sente mais a vontade como antes para se abrir com a gente, mas com você tem sido diferente, e agora acho que pode ser justamente pelo o que você disse: este vínculo que vocês não tem, deve deixá-lo mais confortável pra falar sem medo.
  — Você é sempre tão esperto. 
Abracei Embry e disse que o encontraria logo, lá em baixo. Ele saiu. Estranhando a demora de Seth em atender as batidas à sua porta, resolvi abri-la devagar e deparei-me com ele dormindo em sua cama. Não sabia se devia acordá-lo, mas senti que deveria entrar. Avancei alguns passos, e encostei a porta. Ele estava de costas para mim, então sentei-me na beira da cama e iniciei um cafuné em seus cabelos. Estava realmente preocupada com Seth. Ele remexeu-se um pouco na cama e virou para o meu lado. Em outros momentos, outros dias, eu estaria sem graça pelo que fiz. Acharia estar invadindo o espaço dele, mas a verdade é que eu sentia que pertencia cada vez mais àquela imensa família, e sentia por Seth a mesma preocupação que senti quando Embry precisou do meu ombro amigo. Pensava nisto enquanto afagava os cabelos de Seth, e mal percebi quando ele passou as mãos em minha cintura e me puxou sobre si colocando-me deitada ao seu outro lado da cama. Fiquei tão assustada e inerte com aquilo e já ia gritar com ele, quando ele se aninhando a mim, deitou seu rosto em meu pescoço e sussurrou um nome: "Anna". 
Anna? Quem diabos era Anna? E por que Seth estava me confundindo com essa tal de Anna? Observei melhor o rosto dele e pude notar as lágrimas que escorriam de seus olhos. Lembrança ou apenas sonho, Seth estava sofrendo. Coloquei a mão em seu rosto a fim de acordá-lo e sussurrei seu nome baixinho, Seth em resposta colocou sua mão sobre meu rosto e esboçava um sorriso confuso. Ao abrir os olhos fracamente, eu disse: 
  — Seth... Sou eu, a Luna... 
Ele soltou meu rosto confuso e foi nos afastando devagar. Sentou-se na cama e me encarou envergonhado.
— Tudo bem... Não precisa ficar mal. O que aconteceu só vai ficar entre nós, ok? - eu disse e Seth levantou apavorado.
Ao se olhar apenas de cueca correu para pegar sua bermuda e eu não pude deixar de rir com aquilo.
— O que aconteceu Luna? - disse espantado. 
— Nós transamos. - falei calma e séria.
— O que? - Seth correu até a porta do seu quarto, trancando-a — Como assim? Não é possível... O que eu... 
Era nítido o pavor no rosto dele, e mesmo eu rindo da situação pacificamente Seth não desconfiava de nada, então resolvi parar antes que ele saísse correndo perguntando aos outros o que havia acontecido.
— Senta aqui Seth. Nós não fizemos nada, seu idiota, se acalma. 
Seth sem entender, respirou fundo se acalmando, e colocou a mão sobre os olhos quando a ficha caiu de que tudo não havia passado de uma brincadeira.
— Você enlouqueceu ou o quê?
— Nossa, não precisava ficar apavorado. - eu ri.
— NÃO, IMAGINA! 
— Por que este desespero? - confesso que não entendi, era só uma brincadeira.
— Você é mulher proibida Luna! - disse óbvio voltando a sentar-se ao meu lado da cama.
— Que papo é esse, lobinho?
— Você é a mulher do meu amigo...
— Ei! - interrompi o discurso —  Desconheço este fato! 
— Desconhece por enquanto...
— O que você sabe que eu não sei? - perguntei já imaginando se ele saberia sobre a outra noite que dormi novamente com Jacob.
— O que aconteceu pra você ficar preocupada assim? Agora você vai me contar.
Tratei de desconversar, pois notei que ele havia se reanimado como antes.
— Olha, eu vim até seu quarto saber de ontem, o que aconteceu e tal... Mas aí você estava dormindo, me aproximei, te fiz um carinho e você praticamente me jogou nos seus braços e me chamou de Anna. Quem é Anna ? A mulher de curvas que dormiu com você ontem?
Seth arregalou os olhos e ficou um tempo em silêncio. Tempo aquele que estava me incomodando bastante e eu já pensava em falar algo quando ele disse que iria ao banheiro de seu quarto escovar os dentes, pois não iria me explicar nada com "bafinho de sono". Aguardei ele voltar ainda sentada em sua cama, e logo Seth se juntou a mim. Cruzou as mãos e como quem procurava as palavras iniciou:
  — Vamos lá, podemos falar sobre ontem primeiro?
— Podemos falar sobre tudo o que você quiser.
— Podemos começar por você?
— Podemos, mas não sei se vou falar tudo que aconteceu comigo ontem antes de você falar o que aconteceu com você.
— Você transou?
— Não. O que isso tem a ver?
— Então o que você não iria me contar? - ele disse sorrindo e eu assenti —  Já eu, transei então tecnicamente não posso te contar nada. Vamos lá comece!
— Ei! Você vai me contar sim! Não precisa explicitar sua noite sórdida, mas temos um acordo de manos aqui! Não temos?
— Um acordo de manos? - ele disse zombeteiro —  Se eu tivesse um mano como você, teriamos realmente transado. - ele riu.
— Cala a boca que você quase caiu pra trás com a minha brincadeira. Faltou sair correndo pelo corredor. 
— Ok, desculpe, mas é como eu disse...
— Eu não sou mulher de amigo seu, e nem de ninguém. Vamos ao ontem... Depois que deixamos vocês lá em Silverdale, nós voltamos para casa conversando o caminho inteiro sobre como a noite havia sido divertida e quando chegamos aqui, nós quase nos beijamos. Mas Scott foi mais sensato do que eu, e nos parou antes que o fizéssemos. Decidimos que é cedo para "deixar rolar". É isso, e você?
— 'Tá faltando coisa.
— 'Tá nada! Que história é essa?
— Você morde o lábio inferior quando mente ou está escondendo algo. - olhei para ele sem entender desde quando ele havia notado aquilo —  Jacob e Embry me contaram isso. Na verdade Embry soube primeiro e Jacob apenas concordou depois.  
— Droga... Eu cheguei e vi Jacob dormindo com minha camisola em seus braços, e ele estava na minha cama, então... - comecei a rodear o assunto —  Eu estava cansada, não ia dormir no sofá!
Seth começou a gargalhar e sussurrar um "eu sabia!". 
— Sabia do que garoto? - perguntei óbvia e enfática.
— Que você ama o Jacob.
— Ai cala a boca, Seth.
— Mas e aí, o que aconteceu depois?
— Nada oras! Dormimos e acordamos.
— Espera... - disse Seth óbvio após ouvir meu relato —  Não é a primeira vez que vocês dormem juntos, não é? 
Seth gargalhava ainda mais.
— Quando foi que eu disse isso?
— Não precisa nem dizer! "Dormimos e acordamos" ? É óbvio que se fosse a primeira vez que isto acontecesse, você estaria toda desesperada sobre essa atitude! Eu não sou bobo, tá?
— Ok. Você venceu. Já aconteceu antes, há muito tempo. E não, nós não transamos.
— E porque não transaram ontem? 
— Seth! Você acha que é assim que funcionam as coisas? "Ei Black, vem cá, vamos foder!"
— Acho.
— Ah cala a boca, garoto!
— Se eu tivesse a mulher que amo ao meu lado, não exitaria. 
— Bem, isso me lembra que minha história acabou. Sua vez.
— Ok. - ele suspirou pesadamente — Eu trouxe a Lili para casa ontem. Conversamos e expliquei que ela estava fantasiando muito e criando expectativas e diante disso, eu não queria magoá-la, e achava melhor irmos devagar.  Ela concordou comigo. Falou que se divertiu bastante, e quando eu quisesse era só procurá-la. Então voltei para o carro, e meu telefone tocou. Era a Paige, uma amiga do colegial. Ela chorava muito e perguntou se eu podia ir encontrá-la na casa dela. Eu já estava na rua mesmo, então eu fui. Assim que cheguei lá, os pais dela não estavam em casa porque tinham viajado. Meu alerta soou dizendo "cai fora" imediatamente. - ele parou de contar e vagueou em suas memórias tristonho.
— Então. Por que mesmo você tinha que cair fora?
— Ela disse que havia sonhado e que ninguém mais podia acalmá-la se não eu. Ela começou a desabafar sobre como eram difíceis as lembranças para ela, mesmo depois de tanto tempo. E no meio das lágrimas, o choro que consumiu nós dois, eu acabei não resistindo e quando ela tentou me beijar, eu correspondi. E dali por diante... Bem você já sabe né.
— Tá. - eu pensava sobre o que havia escutado — Não preciso de Jacob e nem do Embry para me dizerem que tá faltando história... O que ela sonhou? Por que vocês dois estavam chorando sobre estas lembranças e que lembranças são estas? E afinal, quem é Anna?
— Droga... - Seth deixou uma lágrima escorrer — Eu vou ter que me abrir com você.
— Não precisa fazer isto se não quiser Seth, eu só quero ajudar.
— Eu sei. Desculpe. Eu só posso fazer isto com você... Não me sinto confortável de falar com mais ninguém sobre isto.
— Tudo bem, eu estou aqui. - me virei para Seth e o abracei apertado sendo correspondida.
— Um pouco antes do meu pai morrer... Eu tive um imprinting com uma garota chamada Anna. Meu pai era o único que sabia. Ele havia dito que era muito cedo para ter acontecido meu imprinting, uma vez que nem o da Lia havia acontecido ainda. E que não era para eu me preocupar com aquilo, apenas aproveitar a companhia da Anna. Éramos amigos desde o dia em que fui para o colégio na cidade. Algumas semanas depois, meu pai faleceu e Anna me apoiou da melhor forma que pode. Sem meu pai eu não sabia como contar para minha mãe sobre aquilo, ou apenas com quem desabafar. Peter Carter não sabia de nós, e na verdade nem eu sabia que ele descendia de outra tribo da região. Então eu pensei em falar com algum dos meninos, mas além as coisas estarem muito conturbadas na época, eu observava como todo o assunto da matilha deixava de ser pessoal. E como a Lia sofria em relação ao Sam, eu não queria nenhum deles controlando. Todos estavam ocupados demais com as... As coisas que iam acontecendo em nossas vidas. E eu tinha ainda minha mãe para ajudar a consolar. Peter acabou sendo o amigo que eu tive para contar certas coisas. Eu não havia dito nada para ele sobre imprinting, mas confessei gostar da Anna. E era correspondido. Estava tudo voltando a ficar bem, mas numa noite Peter me ligou dizendo que Anna havia sido internada. Ela estava doente, e por isso foi levada para Phoenix. Quando eu pude ir vê-la, ela já estava muito mal, e na primeira noite que eu dormi no hospital, Anna não resistiu. Eu perdi meu pai, e meu imprinting na mesma época. Quando voltei, Peter que sabia dos meus sentimentos notou que eu não superava Anna, e foi quando ele me contou sobre a Paige. Paige era a irmã gêmea de Anna, e confidente dela. Eu achei estranho não conhecer ela, ou Anna nunca ter mencionado a irmã. Peter disse que Paige morava em outro país, e Anna não falava muito sobre a irmã pra evitar as saudades e melancolia. E depois que ela havia falecido Paige estava vindo. Então eu tive que me preparar, afinal a irmã gêmea da minha garota estava vindo à Forks. Quando todos souberam acharam que Anna era apenas uma paixonite de colegial, e Embry foi quem mais parou de viver o caos do mundo, para viver meu caos comigo. Mesmo assim eu não tive coragem de dizer a ele que eu havia perdido meu imprinting. Só se tem um imprinting uma vez na vida, e enquanto todos sonham em como será o seu, eu já não teria o meu.
Seth chorava como se tudo aquilo que ele estava me contando tivesse acontecido aquela semana.  E a minha única reação era de abraçá-lo e confortá-lo. Sobre aquilo de imprinting, eu não podia opinar a respeito. Apenas tentar compreender. A medida que Seth foi se acalmando eu perguntei:
  — E o que aconteceu quando Paige chegou?
— Peter se apaixonou por ela, e nós dois nos tornamos muito amigos. Anna era, e é tudo o que temos em comum.  Eu contei a Peter logo depois sobre o imprinting, foi quando descobri que na tribo dele há algo parecido. Ele acreditou e me compreendeu e se compadeceu da minha tristeza. E durante estes anos, eu superei e tudo ficou bem. Mas... Depois de você aqui Luna...
 — Oh-oh... Não gosto quando as pessoas dizem isto.
— Tudo bem, não é como se você fosse culpada de algo, mas você chegou e Jacob mudou, Embry mudou, Lia finalmente encontrou o seu imprinting e você não sabe como fiquei feliz com tudo isso. E aí você e Scott começaram esta história e ao mesmo tempo você e Jacob... Fiquei pensando sobre os sentimentos de Scott, perguntei a Peter e ele me garantiu que não é algo como um imprinting que Scott sente. E eu fiquei aliviado. Sei o quão doloroso é não ter quem você mais sonhou um dia encontrar. E não é o caso entre vocês, mas me peguei pensando de novo nisso tudo. E procurei a Paige, depois de todo este tempo.  Andamos nos vendo e conversando sobre a Anna... Até então ela estava bem, me apoiando e dizendo que eu logo encontraria alguém, até ontem. Quando ela desabou com toda essa história que eu desenterrei e acabou se entregando pra mim, e eu idiota que fui...
  — Entendo... Seth não se culpe. Tem sentimentos demais de ambos os lados. O que houve com Paige e Peter?
— Terminaram há muito tempo. Como você sabe, Peter é apaixonado por Daniella Parker. Mas ainda me sinto sujo de ter dormido com ela. Ela era minha amiga, gêmea da garota que eu amava e ex namorada do meu melhor amigo.
— Não, não pensa assim. Vocês dois estavam fragilizados e acabaram cedendo a algo que já existia dentro de vocês. Este interesse não veio de agora, pode ter sido notado agora, mas não se culpe você não fez nada de errado e nem ela. E quanto a Peter, ele virou a página e não acho que tenha motivos pra dizer isso a ele. A menos que você e Paige decidam...
— Não! - Seth interrompeu minha fala — Não vai acontecer mais nada. Hoje pela manhã me desculpei com ela, e ficamos numa boa. Só é duro lidar com a minha consciência.
— Ei, imagino o quanto tudo isto deva ser difícil, mas você precisa continuar. Sabe disso não é? Olha a sua irmã! Havia desistido de amar, e entendo que com ela aconteceu o inverso do que com você, mas não é porque a pessoa do seu imprinting não está aqui, que não exista mais ninguém possível para você amar. Seth, você está me entendendo?
— Você é mesmo incrível. - ele disse sorrindo para mim, e me olhando com ternura. 
— Obrigada por compartilhar isto comigo.
— Eu que agradeço, Luna...
— Eu só não entendo. Eu não sou como vocês, não posso entender exatamente a força disto tudo... Do imprinting... - ele sorriu franco —  Você tem várias pessoas que entendem e te acolheriam, cuidariam de você... Então por que não compartilhar.
— Por entender, eles me olhariam com pena. Isso se tornaria um fantasma sobre quem eu seria dentro da matilha. E não é este o olhar que quero.
— Por Lia.
— Exatamente, eu vi o que ela passou.
— Bem, todos estão preocupados com você agora. Sua irmã, me pediu pra conversar contigo. Embry, Billy... O que eu faço?
— Apenas diga que, eu me apaixonei pela pessoa errada.  - Seth me encarou firme, e compartilhando seu olhar mais carinhoso completou:   —  Mas já estou me curando. 
Nós dois ficamos ali abraçados um tempo. Nos acomodamos na cama, e com sua cabeça em meu peito fiz cafuné em Seth até que ele adormecesse novamente. Eu não sabia como lidar com aquilo. Os quileutes não me prepararam para "imprintings" perdidos. Este capítulo era desconhecido, e eu sentia o quanto aquela tradição, ou benção, ou seja lá o que fosse, era algo profundo e íntimo para os lobos. Doía ver que Seth, no auge de seus 20 anos teria aquela bagagem toda de perdas. E após saber daquilo, eu pude compreendê-lo melhor. Nós nos tornamos o que são as nossas experiências. E Seth, se tornou um homem íntegro, maduro, amoroso da melhor maneira, mas sobre as mais difíceis circunstâncias. Eu orgulhava-me ainda mais dele, após saber daquilo tudo.
Antes da nossa conversa, quando foi lavar seu rosto, Seth destrancou a porta e alguns segundos após ele adormecer em meu peito, alguém abriu lentamente a porta nos procurando. Era Jacob. Olhou para nós dois curioso, e espantado e eu sorri, fiz sinal com a mão para ele entrar. Iniciamos um diálogo breve em sussurros, para não acordar Seth.
— O que houve? 
— Dor de amor. Mas ele ficará bem.  
— O que eu faço? Embry pediu para eu vir vê-los, e todos esperam uma resposta.
— Eu já desço. Deixa só eu conseguir me soltar sem acordá-lo. 
Jacob saiu um pouco contrariado. Não entendi se pelo o que acontecia ao Seth, ou por não saber o que dizer a todos. Devagar e delicadamente desvencilhei meu corpo ao de Seth, e ajeitando-o - da melhor maneira que pude - beijei seu rosto longamente, acariciei seus cabelos e me retirei devagar do quarto. Parada à porta, antes de fechá-la o observei uma última vez aquela noite e deixei uma lágrima escorrer. Eu segurei o máximo que pude, mas aquela pequena lágrima teimosa insistiu em descer de meus olhos revelando a realidade de alguém que por conhecer o medo da solidão também temia por ela. Enxuguei meu rosto e fui ao encontro de todos.

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