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ELEH - CAP. 15

Readaptação

— Bom dia, Mani. 
Acordei com a voz trovejante de Black ao pé do meu ouvido, sua mão forte acariciava meus cabelos.  E um cheiro agradável de café forte com hortelã enebriava meus sentidos olfativos. Abri os olhos lentamente, processando a imagem do extenso sorriso de Jacob à minha frente. Endireitei-me na cama, sorrindo de volta para ele agachado à minha frente. 
  — Bom dia Jacob. Sente-se. - indiquei a cama do próprio para que ele se acomodasse.
—  Preparei um café de boas vindas. - ele pegou a bandeja depositando-a com cuidado em meu colo - Tem torradas, daquelas suas favoritas, morangos, iogurte de pêssego, queijo branco e peito de peru no delicioso pão de batata da Sue, e café forte com hortelã. Está tudo direitinho?
— Uau. Você não esqueceu de nada. Vai ser assim todos os dias? Meu café da manhã favorito na cama? - olhei para ele enquanto bebericava o café - Posso me acostumar muito mal assim.
— Infelizmente não será assim todos os dias. Não nas atuais circunstâncias.
Não quis discutir com Black, o que aquilo significava, mas obviamente aquilo ficaria na minha mente durante um tempo.
—  Não vai comer? 
Perguntei quebrando o clima que havia ficado entre nós. Jacob  apenas pegou sua caneca de café no criado mudo ao meu lado, levantou-a e sorriu. Enquanto eu comia, ele observava-me com aqueles olhos de devoção. E eu não poderia me esquecer de evitar aquele olhar, ao máximo.
  — Sei que não é da minha conta, mas você sumiu ontem a noite. Algum problema na região?
— Apenas fui aos Carter, antes que fechassem, para fazer umas compras de última hora.
—  Não me diga que... Jacob, este café da manhã não tem nada a ver com isso né?
Ele sorriu e abaixou a cabeça.
—  Idiota. Não deveria se incomodar assim. 
— Deveria sim. Você disse que deixaria eu te mimar o quanto quisesse. Ou já esqueceu?
Mantive o silêncio e o encarei séria. Como um sinal de que entendia o que ele estava tentando fazer, e não aceitaria as chantagens a fim de apagar tudo o que acontecera.
  — Meu pai disse que conversaram um pouco sobre o passado... Desculpe, mas tivemos que entender a sua mudança tão repentina para cá.
— Fico feliz que todos já estejam sabendo. Me poupa de contar e encarar as reações.
— Ora Luna! Sabe que as reações foram boas! Todos adoraram. Acredite.
— Pode ser... Mas é diferente ter uma hóspede e uma nova moradora permanente.
—  Fico feliz com o permanente.
— Claro que... Por enquanto é permanente. A gente nunca sabe quando é hora de partir.
— E você pretende partir?
—  Não sei Jacob. Mal sei o que acontecerá daqui a vinte minutos.
—   Vai tomar banho e me ajudar na marcenaria. 
—  O quê?
—  Você não tem trabalho, tem?
— Não, hoje não. Mas... Como você sabe? 
— E então, sobre a história de Bella e os frios... Está com medo?
— Olha só, alguém já consegue pronunciar o nome dela.
— Bella é um passado sem dor desde a sua chegada. 
Novamente evitando aquele assunto, desviei nosso diálogo:
—  Não me respondeu como sabe que não tenho trabalho. Anda espionando minha vida?
— E você não me respondeu se está com medo dos frios.
—  Perguntei primeiro.
— Teimosa. - ele disse rindo fraco - Digamos que Scott Carter e eu temos finalmente um assunto em comum.
— Eu não acredito! O que vocês andam falando sobre mim?
— Sua vez de me responder.
— Não tenho medo de nada. Na verdade o que mais quero é encontrar um deles, pra arrancar algumas repostas. 
— Você não tem ideia do que está dizendo Luna! Eu jamais vou deixar um deles se aproximar de você. 
—  Se vai ser meu cão de guarda é melhor pedir permissão à sua namorada antes. - abaixei a cabeça um pouco envergonhada pela grosseria —  Me desculpe. Não quis te ofender.
— Luna, eu e Bruh não somos namorados. Eu já tentei te explicar, mas você não quer me ouvir.
—  Vamos mudar de assunto?
— Como perguntou, Scott e eu não ficamos falando de você. Mas parece que vocês passam bastante tempo juntos, já que ele conhece o seu paladar tão bem - ele disse com certa raiva, ou ciúme, presumo —  Se é que é só o paladar que ele conhece... 
  — Eu realmente fingirei que não ouvi isso... - olhei incrédula para ele.
— Desculpa, você não deve satisfações a mim. Enfim, ele notou que minhas compras não eram literalmente para mim, e perguntou se eu tinha notícias suas. Contei que você estava passando um tempo na minha casa - Jacob sorriu maleficamente —  Ele ficou surpreso e pediu para avisar que estaria aguardando o seu telefonema.
  — Droga! Eu me esqueci! Ai não, não acredito! 
Levantei da cama andando de um lado ao outro com a mão na cabeça, enquanto Jacob parecia se divertir com a situação. 
— Luna, como foi se esquecer do seu encontro?
— Não me provoque Black! Scott não merecia isso!
— Não mesmo, apesar das diferenças ele é um cara muito legal. Poxa Luna, você deveria ter telefonado. 
— O quê? Seu idiota! - dei um soco no ombro dele, que gargalhava da minha reação —  Porque você não me passou o recado? Foi de propósito não é mesmo? Seu grandiosíssimo babaca! 
Fui pra cima de Black com empurrões e tapas, até que ele me segurou.
  —  Ei, calma aí! O encontro era seu, meu amor. E eu, bem... Me esqueci.
  — Não acredito em você. - disse me soltando e indo até o espaço no armário que Jacob disponibilizou para eu guardar minhas coisas.
— Isso não é novidade. 
Jacob também se direcionou à sua parte do armário pegando uma toalha limpa e me entregando.
—  Não precisa, eu trouxe. - Disse já mais calma.
— Te espero na sala então. 
Assim que terminou de falar, me abraçou apertado dando um beijo em meu rosto. Saiu pelo corredor do quarto, e voltou de repente na soleira da porta dizendo com um sorriso sacana:
— AH! Você deveria ligar para o Scott. Coitado!
Olhei para aquele moleque, que eu ainda não conhecia ou se conheci havia me esquecido, e lancei a minha expressão "caia fora!". Assim que Black saiu, fiquei pensando sobre aquela manhã e sobre aquela reação amigável da parte dele. Talvez não seria tão difícil a convivência, como eu havia pensado. Jacob sabia das minhas mágoas, respeitava-as, mas não havia esquecido a nossa amizade. Amizade que eu sentia falta. E seria imaturidade da minha parte negar a aproximação. Até porque, eu não queria mesmo. Aquela história de orgulho, o tão antigo orgulho que nos impede de ser feliz.
  Coloquei uma camiseta branca, uma bermudinha jeans e calcei uma bota para "trabalhar na marcenaria" com Jacob. Não sabia o que ele estaria aprontando com aquela história. Prendi meus cabelos em rabo de cavalo alto. Organizei o quarto e peguei a bandeja de café, a levando para a cozinha. No caminho passei por Black que estava jogado ao sofá, coisa rara de se ver.
 — Você, deitado no sofá? 
— Ei garota, eu estou te esperando. - ele disse seguindo-me.
Ajudou-me com a louça e ao acabarmos me escorei na pia de braços cruzados.
— E então Black?
— Como você sabe, eu vendo minhas obras pela cidade. Tenho uma encomenda de souvenirs temáticos da cidade e uma mesa grande para entregar. Enquanto eu trabalho na mesa, você trabalhará nos artesanatos. 
— Espera aí bonitão! Eu nunca esculpi nada.
— Você aprende rapidinho. Nós sabemos disso.
Enquanto caminhávamos em direção ao galpão de Black, peguei meu celular discando para Scott.
— Vai ligar para seu namorado? - Jacob espiou o visor e sorriu me provocando.
— Alô? Scott! - andei me afastando aos poucos de Jacob, o que o deixou um pouco irritado, pude perceber — Primeiramente, mil desculpas! Ontem aconteceram muitas coisas, Charlie me trouxe para a reserva de última hora, e eu acabei adormecendo de cansaço ao anoitecer. Jacob não me deu o seu recado, porque quando chegou eu já havia dormido. E hoje ao acordar eu me lembrei de você. Desculpe!
—  Tudo bem Luna, eu entendo.
— Não, não Scott! Eu sei que você deve estar pensando que eu te dei outro fora, mas não é nada disso! Por favor, aceite o meu convite para o almoço de hoje!  Ou um jantar! Eu tenho muito pra contar a você. E não quero que fique uma má impressão.
—  Luna, tudo bem, mesmo. Não se preocupa. Quando você quiser...
—  Eu quero! É exatamente isso Scott, eu quero me encontrar com você, eu quero sair com você, só que ontem, eu tive muitas surpresas e acabei me esquecendo de telefonar pra cancelar. Por favor Scott, - eu sorri fraco pelo telefone - Não desiste de mim vai... Você é o amigo mais próximo da minha vida normal. Quero dizer... Adoro a reserva, mas às vezes é difícil entende... Eu realmente sinto sua falta.
  Scott ficou mudo por um tempo.
— Scott? 
— Oi... Eu não posso almoçar hoje Luna, mas podemos jantar sim. Dessa vez eu não irei te aguardar, eu vou buscar você, para não correr o risco de você esquecer.  - ele riu.
— Ótimo! Eu te aguardo às oito horas. 
— Combinado.
Desliguei o telefone e sorri com a expectativa daquela noite. Eu adorava passar um tempo com o Scott, pois a calmaria dele é o que me faltava. E sempre tão paciente, Scott sabia me reconfortar. No entanto, aquela seria que eu me lembre, a primeira vez que nós iríamos sair sem que eu tivesse algo ruim, triste ou desanimador para despejar nele. E era de fato um encontro. Não uma saída entre amigos. Eu estava animada com aquilo. Jacob seguia a frente, e quando entrei ao galpão ele me perguntou um pouco desanimado:
— Se acertou com seu namorado?
— Sim, ele vem me buscar hoje às oito. - eu disse sorridente.
— Espera... Vocês estão mesmo namorando?
— Não. Pelo menos não ainda. Mas... Eu ainda não estou preparada para me abrir sobre este assunto contigo Black. Você entende?
— Claro. Eu não tenho nada a ver com a tua vida. Fico feliz, que você esteja feliz.
E a culpa me corroeu. Porque apesar de saber que eu não estava fazendo nada de errado, eu me sentia tão mal com aquela situação?
— Nós só estamos saindo. Como amigos. Mas, desta vez eu não estou impondo barreiras a algo mais. Como seu pai mesmo me disse, a gente nunca sabe de onde virá a felicidade.
— Faz bem. Seguir em frente. Lamento que eu não saiba fazer isso tão bem.
Nos olhamos tímidos, e enquanto eu observava ao redor desviando o olhar, Jacob pigarreou se direcionando há um balcão extenso.
  — Venha! Vou te mostrar os souvenirs.
— Eu conheço, esqueceu que coleciono seus artesanatos em casa?
— Sim, eu sei, mas eu quero te mostrar como fazê-los. 
Ele me mostrou alguns pequenos brindes, uns conhecidos, outros novos, mas Black me explicou e demonstrou como esculpir devagar cada um. Enquanto eu me concentrava em meu trabalho, Jacob se concentrava em sua mesa, hora ou outra espiando-me por cima de seus ombros. Eu conseguia reparar, graças ao dom da visão periférica e meus sentidos aguçados. Black então, se levantou após um tempo, veio em minha direção e parado ao meu lado observava meu trabalho. Até que se direcionou às minhas costas, agachando-se me envolveu em seus braços e segurando as minhas mãos junto as suas, guiava o esculpir. 
  — Nesta fase de finalização, mantenha a mão firme, porém delicada. Embora a peça ainda vá passar pela lixa e pintura, é importante que a lapidação da madeira seja delicada, porque auxilia a não ter tanto o que finalizar com lixamento. 
Minhas memórias voltaram aos inúmeros momentos como aquele, que anteriormente tivemos. Suspirei pesado, como se quisesse me livrar daqueles braços, e embora quisesse algo no meu íntimo dizia não querer. Black se afastou após me explicar tudo aquilo, girou o banquinho onde eu estava sentada de frente para ele, e sorrindo me disse:
— E então? O que achou?
— Achei relaxante. Mas me diga você, peguei minhas esculturas para ele. O que achou?
— Que para uma primeira vez, você foi muito bem. - e sorriu.
Sorri de volta, e levantando minha mão em direção ao seu rosto limpei as lascas de serragem. Jacob fez o mesmo por mim. E após tiramos a sujeira do rosto um do outro, sorrimos e nos levantamos voltando à cabana.
No caminho de subida, Jake estava calado e eu também, nos olhávamos vez ou outra sorrindo, mas silenciosos cada um na sua. Até que ele decidiu se pronunciar.
  — Sabe, desde que você chegou... Eu não pude te dar um abraço.
Parei e olhei para ele, em dúvida, e pude notar o desconforto em sua face.
— Eu sei que está chateada comigo. Sei que está seguindo em frente com Scott ou não... Enfim, eu sei que forçar a barra não é a melhor opção e não quero isso. Eu pedi para você ser paciente comigo o tempo todo, até que estraguei tudo, então eu serei paciente com você. Mas, eu gostaria da minha amiga de volta. E sinto falta do seu cheiro, do seu abraço, das suas mordidas em meu ombro. Eu só queria dizer isso, para você saber. Saber que, eu entendo você... Mas torço para que você possa me perdoar nas pequenas coisas pelo menos...
Nos mantivemos em silêncio um tempo, olhei para frente e estávamos próximos à cabana. Quase chegando no toco de carvalho. Então olhei para os meus pés, e Jake começou a caminhar novamente. Então segurei seu braço.
— Espera. Jacob, eu não estou feliz com esta nossa situação. Mas é como você disse... Eu te esperei. Eu aceitei seu desprezo até achar que havia conquistado você. E no fim, não conquistei. 
— Conquistou sim Luna. Eu é que fui idiota demais para impedir que a armação de uma criança de magoasse.
— Armação da Bruh, acidente, ou não, o fato é que eu me magoei. E fiquei muito confusa. Foi tão difícil iniciar alguma relação contigo, enquanto que com o Scott foi tão natural... Eu não amo o Carter, assim como não amei o Erick. E não estou tentando despejar nele a frustração com você. Eu apenas gosto de estar com ele, e me sinto bem. E não sei o que esperar de você, de nós... Enfim... Eu preciso de um tempo para voltar a ter controle dos meus sentimentos sabe Black. Também sinto sua falta. A falta da amizade. Mas eu fui de cabeça até você. E agora eu preciso só desacelerar... 
— É, foi tudo muito intenso. Sua chegada, nossos costumes e segredos. Entendo...
— Mas, você pode sim abraçar sua Mani. Que sente muita falta disso, só vamos manter o controle, para não confundir as coisas de novo.
Ao terminar minha frase, sorri segurando sua mão. Black mais do que rapidamente, me envolveu em seu abraço protetor. Cheirou meu pescoço como sempre fazia, e eu me mantive imóvel. Um passo de cada vez. Não poderia negar meus sentimentos. Ele beijou minha testa sorrindo largo. E continuamos a nossa subida. Ao chegar próximo ao pátio das cabanas, lá estava Bruh Ateara nos espionando. Sua expressão raivosa já era conhecida, e eu me afastei um pouco de Jake. Ele por sua vez, se colocou a minha frente, rígido e calado. Bruh olhou-me de soslaio e saiu a passos fundos e largos em direção ao seu canto da reserva.


 — A lobinha traiçoeira já sabe que eu estou morando aqui, pelo visto.
— É, sabe sim. E sabe de algumas coisas a mais... - Jake disse me olhando de lado. 
  — Como assim? Que coisas?
— Não se preocupe, ela não fará nada contra você. 
— Ah, eu não me preocupo não. Vou até a cabana de Sue. Nos vemos depois. 
Depositei um beijo no rosto de Jacob e acenando fui até a cabana de Sue calmamente. Queria encontrar Lia, para poder contar sobre meu encontro com Scott.  
— Bom dia Sue!
— Bom dia Luna, como foi com o Jacob? - Sue perguntou sentando-se à própria mesa de sua cozinha, logo sendo seguida por Charlie, Seth, e Lia.
— Sente-se! - Seth puxou a cadeira ao seu lado.
Todos olhavam para mim, com olhar de lêmure. Aguardavam ansiosos a resposta do "como foi com o Jacob?". Eu ri fraco daquela situação, e puxando uma cadeira e servindo-me de café encarei a todos, calma e divertidamente.
— Bem, plateia... - os olhares de Charlie e Sue se encontraram em uma expressão pouco constrangida, Lia e Seth por sua vez não piscaram nenhuma pálpebra — O que exatamente vocês querem dizer com "como foi o Jacob"?
— Oras Luna! Não enrola! - Lia já estava impaciente e eufórica como sempre —  Como foi dormir lá? Vocês conversaram? Se acertaram? 
— Nós vimos vocês dois saírem sorridentes em direção ao galpão esta manhã, Lu. - Seth me respondeu envergonhado pela reação da irmã, e compartilhava a mesma expressão de sua mãe, e Charlie.
— AH! Então é isso... - eu ri —  Bom, ontem não trocamos muitas palavras. Ele saiu pela noite e eu adormeci antes mesmo dele chegar.
— Então nada mudou? 
Lia, mal esperava eu beber meu café para interromper a fim de esclarecer aquela história. Sue ao observar a ansiedade da filha pegou em sua mão e, encarou-na tenra. Embry acabara de chegar assim que Lia terminou de falar. Cumprimentou a todos nós, e selando os lábios da namorada se sentou ao lado dela. Embry pareceu ter ideia do que se tratava e não demorou muito para atacar os biscoitos, os bolinhos e outras gostosuras que Sue havia preparado e com a boca cheia olhar-me ansioso também. Aquilo tudo me fez sorrir ainda mais. Eu me recordei de Billy falando sobre a esperança que mantinha sobre Jacob e eu. Obviamente ele não era o único a torcer por nós.
— Mudou sim. Esta manhã Black me acordou com meu café na cama favorito e um oferta de paz. Eu resolvi que em respeito à hospedagem dos Black, e pela minha amizade com ele, nós iríamos nos dar bem. Por mais chateada que eu esteja com tudo o que aconteceu, não faz sentido ignorá-lo agora. 
— Muito bem Luna. - Charlie me sorria orgulhoso.
— Eu sei que você não vai querer escutar isto, mas acredite que nunca aconteceu nada entre Jake e a pirralha sem noção da Bruh.  
Embry pronunciara-se e todos o olharam apreensivos, talvez por acreditarem que ele estivesse sendo muito invasivo ou precoce naquele assunto. Eu estava calma, na verdade, Embry era o meu melhor amigo ali. E ele me amparou naquela história. Natural que tanto ele quanto Lia quisessem que uma pedra fosse colocada sobre aquele assunto de uma vez por todas. Enquanto eu sorria serenamente para Embry abraçado à Lia, Sue e Charlie sorriam para nós três observando-nos de um modo íntimo. Compartilhavam algum pensamento que eu não poderia decifrar, mas que talvez os lobos entendessem. Foi quando Seth, tímido e um pouco deslocado segurou a minha mão fazendo-me percebê-lo.
— E... O que vocês foram fazer no galpão esta manhã?  
Lia riu maliciosamente e Embry também. Sue e Charlie se levantaram da mesa como se quisessem não participar mais da história. Imaginei que todos pensavam que Black e eu havíamos passado a noite juntos, devido ao "meu café na cama". 
— Nós não estamos juntos, se é o que vocês pensaram. Fui ajudar Jacob com umas encomendas de marcenaria Seth. 
O garoto sorriu, eu diria até aliviado. Sue focou em sua cozinha, Charlie saiu para seu trabalho. Então me recordando do motivo de ter ido à casa de Sue, interrompi um diálogo entre Lia e Embry.
— Ei, Lia... Eu precisava falar com você.
— Este é o momento em que nós nos vemos depois, amor. - ela disse sorridente ao namorado e se levantando da cadeira me chamou em direção ao seu quarto.
Beijei a testa de Seth, que mantinha uma expressão preocupada desde o que eu havia dito. E aquilo estava me deixando curiosa. No entanto acompanhei Lia até seu quarto. Ela escorou a porta depois que entrei e antes que eu pudesse sentar-me em sua cama, Lia já estava ansiosa de novo.
— Vamos lá, eu sabia que você estava escondendo algo naquela cozinha!
— Não é nada com o Black, Lia... Eu acho que você vai querer me matar quando eu disser e nem sei se deveria mesmo falar sobre isto contigo. Talvez Emy, fosse a melhor opção... - eu sorria debochada.
— Você me chamou até o meu quarto para me insultar? Sua otária!
— Ok, mantenha a calma! Por favor!
— Você está me deixando muito nervosa Luna... Não me diga que você e aquele imbecil do Erick estão juntos de novo?
— Não! Eu não voltaria com o Erick em hipótese alguma... Mas tem outra pessoa sim.
—  Scott Carter. 
— Como sabia?
— Seth é amigo do irmão caçula dele, e ultimamente tem passado muito tempo com os Carter. Outro dia, o tal Peter esteve aqui. Ouvi os dois conversando no quarto dele sobre Scott e você.
— Eu sabia que eles eram amigos, mas não imaginava que fossem próximos assim... E o que eles disseram sobre mim?
— Algo sobre "meu irmão é totalmente apaixonado por ela", e o Seth disse "e ela totalmente apaixonada por Jake".
— Eu vou matar o Seth!
Lia riu divertida com minha cara de raiva e espanto.
— Bem vinda ao meu mundo. Agora imagina um bando de garotos adolescentes como o Seth se metendo em sua vida. Foi assim que passei maior parte da minha adolescência. 
— Enfim... O fato é que, ontem eu tinha um encontro com Scott. Nós costumamos sair como amigos às vezes. E eu dormi e acabei me esquecendo. Só que Jacob, esta manhã me contou que esteve com Scott ontem à noite no mercado e o boca grande contou a ele, antes de mim, que eu estava morando aqui agora. Scott deve ter ficado um pouco chateado e pediu para Black me dar um recado, que adivinhe você...
— Ele não deu... - Lia ria das coisas que eu havia dito —  O que você esperava? Que Jake fosse entregar você de mãos beijadas para outro?
— Não tem essa de "me entregar". Para dar algo a alguém, primeiro esta coisa tem que pertencê-lo. E eu não pertenço ao Black, ok?
— Pode até ser, mas é como Seth diz: não dá para encarar como se você e Jacob não tivessem algo, seja lá como vocês denominem isso!
— Tá, tá! - eu já estava irritada com aquela colocação. 
Era tão previsível que eu mergulhei de cabeça nos meus sentimentos não correspondidos por Black? Eu estava me sentindo a idiota da reserva. 
— Não é como se ele não te correspondesse Luna... Do jeito dele, Jake sente o mesmo. - Lia o defendeu como se pudesse adivinhar meus pensamentos, ou ouvi-los.
  — O fato é que liguei para Scott hoje, e ele vem me buscar as oito horas. Eu precisava dar uma satisfação e me desculpar com ele.
— E isto é um tipo de encontro?
— Eu não tenho certeza. Scott e eu nos damos muito bem, e é sempre um alívio estar com ele, porque ele me traz sossego. A calmaria dele me contagia sabe? Mas todas as vezes que saímos eu estava cheia dos meus problemas, então despeja tudo neles. Nunca dei uma chance de conhecer Scott de verdade. Quando ele me levou até a tribo da família dele, foi o mais próximo de um encontro que chegamos. Inclusive...
— Inclusive?
— Nos beijamos aquela noite. Eu não lembro se te contei.
— Uow. Eu não lembro também. Mas, vamos lá Luna. Você está pensando em dar uma chance ao Carter?
Neste momento ouvimos um barulho vindo do corredor. E Lia, visivelmente irritada correu até a porta e virando-se para a outra extremidade do corredor, disse:
— Pode voltar, Seth Clearwater!
Seth logo entrou no quarto de Lia, com o rosto tão vermelho de vergonha e a cabeça baixa.
— Eu ouvi tudo, desculpe.
— E aí Luna, o que vamos fazer com ele? - Lia disse encarando o irmão em reprovação.
— Senta aqui Seth. - eu bati ao meu lado no colchão, e ele arrastando-se obedeceu —  O que está acontecendo? Eu sei que você está incomodado com alguma coisa.
— Eu sinto muito por ter invadido sua vida, falando de seus sentimentos com Peter, mas tanto eu quanto ele estamos preocupados. 
— Que história é essa moleque? - Lia sentou-se ao lado do irmão julgando.
— Eu gosto muito de Jake, Scott e de você Luna. E Peter está preocupado com o irmão dele. Não é segredo para ninguém que Scott é louco por você, e você vai me desculpar, mas não é segredo também que você gosta do Jake. E o pior é que, Jake também. Eu não entendo porque vocês não acabam com essa briga idiota. Bruh armou tudo aquilo, e todos sabemos, inclusive você que Jake é completamente outro homem desde a sua chegada. Então, para mim está claro que vocês dois devem ficar juntos, mas tem o Scott no meio disso. E desculpe Luna, mas você está o colocando numa situação constrangedora. O cara é apaixonado por você, mas não é com ele que você quer ficar! E agora, olha você se envolvendo com ele a fim de sanar qualquer coisa, ou se vingar, sei lá...
Seth se manteve calmo e firme em tudo o que disse. Lia estava espantada, mas compreensiva com os sentimentos e palavras do irmão. E eu também.
— Você não está completamente errado Seth, mas não é apenas por Bruh que eu me magoei com Black. - Lia sabia do que eu estava falando e nós olhamos uma para a outra cúmplices —  Já que você tocou neste assunto... Deixe eu te falar dos meus sentimentos ok?
Seth assentiu me dirigindo uma atenção ainda maior.
— É verdade que eu não correspondo aos sentimentos do Carter. Mas eu o adoro. E quero a amizade dele. Não é que eu esteja me envolvendo com ele, eu só quero poder estar com ele sem nenhum compromisso ou preocupação e deixar que o que tiver que acontecer, aconteça. Eu fui muito clara com ele, ao dizer que não iria dá-lo esperanças falsas. Mas, eu não vou me afastar de um amigo, só porque ele se apaixonou. Pode parecer cruel, mas abrir mão de uma amizade por causa disso, nunca fez sentido para mim. Eu sempre impus em situações como esta que, se eu quiser estar com alguém eu estarei, a menos que esta pessoa me peça para ir embora. Se ela tem um amor não correspondido por mim, nós trabalharemos juntos nisto. Seja para me conquistar ou me esquecer.
Lia e Seth não viam muito sentido no que eu dizia. E não era novidade para mim. Quando completei dezessete anos, um dos garotos do High School em Phoenix, havia se declarado para mim. E após eu dizer que queria apenas ser sua amiga, ele perturbava Bella com recados e desesperados pedidos de ajuda à minha melhor amiga. Assim que eu fiz o mesmo discurso que acabara de fazer a Seth e Lia, minha antiga amiga olhou-me assustada e disse: 
— Você não tem coração. É cruel forçar alguém a conviver com você sabendo que a verdade é que você não vai corresponder aos sentimentos dele. É como se você quisesse ter um lacaio fiel e apaixonado.
Aquele dia, me recordo de ter discutido com ela. Bella nunca soubera lidar muito bem com as emoções. E foi através de uma mensagem, pelo celular, que eu e ela fizemos as pazes. Eu havia explicado a ela da melhor maneira:
— É cruel forçar alguém a se afastar de você, mesmo contra sua vontade, apenas por quê você não sabe lidar com sentimentos contrários aos seus. Eu não vou abrir mão de alguém especial para mim, apenas porque ele não sabe lidar com um não. Nunca fizeram isso por mim, eu aprendi a lidar com todos os "não" e "sim" que recebi a vida toda. Nem tudo o que nós ganhamos é perfeito como queremos, mas pode ser perfeito como podemos ter.
E foi recordando desta fala que eu continuei a falar  com Seth e Lia, que pensavam sobre o que eu havia dito.
— É cruel me forçar a afastar dele, mesmo contra minha vontade, apenas pela hipótese dele não conseguir lidar com sentimentos contrários aos seus. Eu não vou abrir mão de alguém especial para mim, apenas porque ele não sabe lidar com um não. Eu aprendi a lidar com todos os "não" e "sim" que recebi a vida toda. Não vou me afastar de Scott, assim como Jacob não se afastou de mim, quando não correspondeu o que eu sentia. Nem tudo o que nós ganhamos é perfeito como queremos, mas pode ser perfeito como podemos ter. 
— Como assim, Jake não correspondeu? Luna, ele está implorando para você perdoá-lo! - Seth disse um pouco incompreensivo e impaciente.
— Você não sabe quantas vezes eu investi no Jacob, e ele desviou-se de mim! Eu mergulhei de cabeça nos sentimentos por ele. Deixei muito claro, e em todas as vezes eu recebi o desprezo dele Seth! Quando eu ia tentar de novo, eu tive que dar de cara com Jake beijando a Bruh! E pode ser que eles não tenham nada, mas eu tive que lidar com o fantasma de Bella, ou seja lá quem for o tempo todo. E eu cansei. Eu estou aqui, mesmo depois de tanto "não" da parte dele, mas não me forcem a fingir que nada aconteceu.
Após um breve silêncio entre nós três, Seth se desculpou e segurando a minha mão beijou-a.
— O problema é que todos os garotos desejam uma garota como você.
— Deixa de ser bobo Seth - eu sorri — Isso é um exagero. Eu não sou a garota perfeita. E não são todos os garotos, olha para você por exemplo.
— Ingênuo da sua parte achar que eu não deseje ou já tenha desejado você. - ele sorriu sedutoramente me deixando boquiaberta. Lia também estava espantada.
— Ei garoto! Que nojento. Se quiser dar em cima das minhas amigas, faça isso longe de mim!
— Cala a boca. - ele olhou odioso para a irmã, e ambos ficaram encarando um ao outro, logo voltando suas atenções para mim. 
—  Eu nem sabia que você pensava nestas coisas! Eu vou contar pra mamãe!
Parece que um diálogo mental estava acontecendo sem que eu pudesse notar.
— Se liga Lia, eu não tenho mais quinze anos.
— Eu não quero falar com você sobre isso! Que horror! - Lia levantou-se da cama eufórica e eu precisei intervir.
— Eu não sei o que vocês estão conversando em suas cabeças aí, e nem quero imaginar o que você pensa a meu respeito agora Seth... Mas, podemos voltar ao assunto Scott?
  — Desculpe Luna... É que você não se enxerga da mesma forma que todos nós. - Seth falava dele, e de "todos os garotos" se desculpando e pondo fim aquilo —  Mas fica tranquila, não estamos competindo por você. Seu único e exclusivo problema são Scott e Jacob. 
— E você já pode responder a minha pergunta: você está pensando em dar uma chance ao Carter, Luna? - Lia me encarava curiosa e confusa.
— Não. É como eu disse, eu não vou dar falsas esperanças a ele. Sei o que ele sente! Mas não vou impedir se por acaso acontecer alguma coisa. Vocês acham que eu estou sendo muito idiota com ele?
— Eu não sei Lu... São os seus sentimentos, e não podemos falar por você. Mas, se aceita meu conselho... Toma cuidado. São três corações envolvidos nesta história, e se dois ficam bem, um vai acabar se machucando. Não acho que tenha como evitar isto, a menos que sacrifique os três.
Assim que Seth terminou de falar, ele beijou minha testa e foi em direção à porta. Lia e eu nos mantivemos caladas até ele sair.
— Puxa... Esse garoto é esperto! No final, não era nem você e nem a Emy que eu deveria ter procurado. - eu sorri.
— Eu vou apenas aceitar o agradecimento que eu não ouvi, ok? - ela rebateu.
— Parece que seu irmãozinho afinal, se tornou um homem.
— Você não tem ideia do quanto. - ela disse como se recordasse de algo —  Eu sabia que um dia Seth iria crescer, sabe? Mas depois da morte do papai, ele continuou tão alegre e ingênuo. Não era a relação que eu esperava. Eu achei que ele fosse se fechar e rebelar-se. E quando Charlie surgiu, eu notei que ele estava tão bem com aquilo que pensava "esse moleque não sabe de nada". Mas no fundo, quem não sabia era eu. Parece que Seth herdou toda a sabedoria do papai e da mamãe. - ela sorriu com orgulho. 
—  Vocês lidam com as perdas e traumas de forma diferentes. Não é que um saiba mais do que o outro... Mas por quê eu acho que não é exatamente da morte de seus pais que você está falando?
— Naquele breve momento em que ele e eu compartilhamos os pensamentos, eu vi que Seth passou por algumas coisas desconhecidas por mim, enquanto estive fora. Mas ele não quer se abrir comigo. Por algum motivo, ele se sente mais à vontade com você para isso. 
Lia manteve uma decepção no rosto, mas uma compreensão na voz. E eu nada entendia.
— Espero que você possa ajudá-lo mais do que eu.
— Do que você está falando? O que aconteceu?
— Seth está lá fora agora, quando você descobrir, se puder me conte.
Lia saiu do quarto e eu a segui. Assim que passei pela porta de entrada dos Clearwater, vi Seth sentado ao tronco grande de carvalho à caminho da trilha de La Push. Me aproximei calmamente, enquanto o garoto segurava uma expressão séria e reflexiva. Ao notar minha presença, ele sorriu de canto sem encarar-me.
— Parece que este é o carvalho das reflexões - disse e me sentei ao seu lado.
— E o que você veio refletir?
— Eu nada... O que você disse me ajudou bastante. Eu vim te dizer que se precisar, pode contar comigo.
Ele se virou para mim sorrindo. 
— Assim como você teve as palavras certas, talvez eu também possa ter. E se não as tiver, meu colo é bastante confortável. - sorri paciente.
— Não há nada que deva se preocupar, Lu. Eu estou bem.
Eu o abracei e voltei a encarar a praia. Seth ainda mantinha seu olhar sobre mim.
— Luna... Desculpe pelo que insinuei lá no quarto. 
Certamente ele se referia à história suposta de ter se interessado por mim.
— Não é como se eu estivesse dando em cima de você, ou algo do tipo. Desculpe se foi o que pareceu, quero que saiba que te respeito e sei que sou um moleque que...
— Seth. - eu o interrompi —  Não tem que pedir desculpas, por nada. Gostei da sua sinceridade, e entendi o que você quis dizer. Não me senti desrespeitada. Surpresa, talvez. E você não é um moleque... Nem de longe se parece com um. Eu vejo um homem, e você realmente o é.
— Obrigada. - ele sorriu beijando minha mão novamente.
— Bem, eu vou subir. Posso não estar no trabalho, mas há trabalho a ser feito. - levantei beijando o topo de sua cabeça —Não esquece, posso conversar sobre qualquer coisa.  E o fato de não ser uma loba ajuda, às vezes. 
Ele sorriu compreensivo. Enquanto eu subia em direção à cabana Seth me gritou, desta vez mais animado:
— Ei Luna! Se algum dia precisar de ajuda com o trabalho, é só me avisar. Eu aprendo rápido.  

Acenei concordando e sorrindo com a mesma animação que a dele, e voltei às pesquisas.  Ainda havia muito a descobrir sobre as propriedades medicinais de minhas algas, e faltava pouco para desenvolver meu emplasto caseiro. Se as minhas expectativas sobre aquilo estivessem corretas, eu poderia ajudar muitas pessoas.

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