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ELEH - CAP. 14

Uma nova moradora na reserva

— Certeza de que pegou tudo filha?
— Sim Charlie, por hora é o que preciso.
— Então vamos?
— Charlie, sinceramente, não sei se isto é uma  boa ideia.
— Boa ideia ou não Luna, não deixaremos você sozinha aqui. É direito seu não querer ir para a reserva, mas é dever nosso deixar alguns dos meninos aqui com você.
Pensei um pouco sobre o que Charlie disse.
— Não. Não quero tirar ninguém da reserva, do seu lar para proteger a princesinha aqui. Eu vou com vocês. Mas... De todo modo estou sendo um peso.
— Você nunca é um peso. Gostamos muito de você, e todos ficarão felizes com a notícia. Você sabe disso.
— Nem todos, acredite.
— Jacob? Tenho certeza de que ele será o mais feliz de todos.
— Não, não é ele. O que me lembra que... Não tem mesmo um lugarzinho noutra cabana qualquer? Numa casinha de cachorro?
Parei pra pensar no que havia dito, enquanto Charlie gargalhava divertido. Balancei a cabeça em negação com um sorriso constrangido no rosto. Peguei minhas bagagens, e Charlie repetindo meu gesto e parando de rir, pronunciou: 
— Você vai ficar bem acomodada na casinha do seu cachorro. Afinal, parece que você adestrou ele muito bem, não é mesmo? - me lançou um olhar desafiador.
— Não conte com isso.
Dito, fechamos a porta da casa e entramos no carro em direção à antiga casa do delegado Swan. E assim que chegamos, Sue e Billy apressavam-se para seguir à reserva, então interrompi a todos:
— Esperem. Meu motivo de conversar com vocês, não contava com essa mudança de planos. Eu ainda gostaria de falar algumas coisas.
Enquanto os três me olhavam curiosos, acomodei-me ao sofá e abri meus papéis e anotações sobre a mesa de Charlie até que os presentes à cena se aproximaram.
—Há algum tempo enquanto pescávamos, eu colhi algumas algas marinhas e vinha estudando-as. Por isso precisava de sua ajuda Sue. O que tem a me dizer dessa planta?
Estiquei alguns papéis com anotações e fotos da alga para a índia. Sue pensava um pouco, mostrou os papéis a Billy.
—Querida, é uma alga antiga. Quase não encontrada em abundância nas encostas de Forks, como antigamente. Preparei muitos xaropes com ela, e distribui às famílias da reserva, para darem aos seus filhos ainda pequenos. É um tônico forticante, e estimulante ao apetite.
— Nós utilizávamos Luna, em bastante quantidade, mas foi ficando escassa. Sem ter muita noção de como replantá-las, pois elas são típicas das encostas mais difíceis, nós paramos de colhê-las. Com o tempo voltou a brotar, mas é apenas mais um tipo das muitas ervas medicinais que nossa tribo utiliza.
— Exatamente Billy. Medicinal. Descobri um teor bem alto de regeneração na planta, e aproveitei para fazer alguns experimentos. O insumo é forte contra infecções, inflamações, cicatrizante. Mas o mais curioso não é isso... Recordei de quando estive na tribo Whitton com vocês, e os pajés locais utilizavam uma planta de aspecto parecido, porém seca. Foi o que deram para Embry. Pensando um pouco, eu consegui chegar à conclusão que esta alga apresenta poderes curativos. Ou talvez retardativos. 
— Você acha, querida, que a utilização que fiz desta alga na infância pode ter retardado a transformação dos meninos?
—Sim. Faria muito sentido. Não há nenhuma comprovação científica a respeito. Mas tenho estudado esta alga há bastante tempo, e lendas envolvem os poderes curativos quase mágicos dela. Em relatos mais antigos, encontrei uma assimilação do uso desta alga, como "a regeneração da vida", ou "ressurreição dos frios". O que vocês podem me dizer sobre isso?
— Eu desconheço qualquer fato. Billy? - Sue olhou para Billy, tão curiosa quanto eu e Charlie.
 — Há muitos anos atrás, meu avô contava histórias sobre uma cura. Não era a cura que nós lobos procurávamos para nós. Mas era algo que poderíamos fazer uso para o bem. Mas, ele falava de magia. Nunca mencionou o uso de nenhum insumo ou planta.
—Bem... Fiz uso desta erva por um tempo. E realmente, testando em mim pude notar que a regeneração de feridas é bem rápida. Não sei se provém dela uma cura definitiva para os lobos. Mas pelo que vi na reserva Whitton, ela apenas funciona como um... Controle. Nada definitivo. Embry continua se transformando. Mas retardou um processo mais grave a ele. E quanto aos frios... Bom eu continuarei a estudar, mas é um pouco difícil sem algum deles para que eu possa testar.
— Acredite Luna. Contente-se com suas anotações, você não iria gostar de testar nada em algum frio. São repugnantes.
Neste momento, após esta fala conclusivade Billy, Charlie pigarreou e se levantou para que pudessémos voltar a reserva.
No caminho, não falamos sobre nada do que havíamos conversado anteriormente. Sue tagarelava da felicidade de me ter morando na reserva. E Charlie também. Assim que chegamos à reserva, Sue e Charlie saíram do carro. Charlie auxilou Billy a descer enquanto eu dava a volta em direção a eles. Nos deixando a sós, Charlie seguiu para sua cabana.
—Antes de entrarmos Luna, eu gostaria de conversar com você.
—Tudo bem... Quer ir até a praia?
— Vamos apenas caminhando... 
Seguimos em direção ao imenso toco de carvalho, próximo à entrada da trilha para a praia. No mesmo toco onde Jacob me presenteara com um rádio de madeira.
— Sei que está zangada com meu filho. E não irei me meter na relação de vocês dois. Jacob é cabeça-dura como o pai, então acredito que ele possa tê-la magoado muito com suas atitudes confusas. 
—Você conhece bem seu filho.
—E por conhecê-lo entendo as suas limitações em dar chance a um novo amor. No entanto, desde que você chegara, meu filho é outro homem. Você conseguiu restaurar muitas coisas em Jacob, Luna. E sabe disso. Assim como sabe que restaurou aos quileutes a confiança em alguém que não seja como nós.
— Não pode dizer isso Billy. Bem sabemos que as semelhanças que tenho com vocês, e toda a afinidade é grande.
— Claro. Mas também é a mesma afinidade com os Carter. 
— O que você está querendo dizer?
— Não estou recriminando, ou me intrometendo na sua relação com o filho mais velho dos Carter, mas soube que já conheceu a tribo de sua família. E você realmente é fascinada por culturas indígenas, não é? O que me faz retomar que a sua felicidade, ao contrário do que eu pensava no início, pode não estar junto a nós. Entretanto Luna, quero que saiba  da minha profunda admiração por você. E da nossa alegria em recebê-la aqui. Entre nós, você sempre terá um lar. E apesar da minha esperança infindável de que é com o meu filho que você deva ficar, eu desejo que você encontre alguém que realmente lhe complete. Ainda acredito em você  e em Jacob. E, saiba que pode conversar comigo quando quiser. Jacob pode ser indecifrável, e ninguém melhor que o seu pai, para que você tenha ajuda nisto. Claro, se é que você ainda quer decifrá-lo.
— Billy, tudo isso é... Agradeço as palavras, o acolhimento e a compreensão. Não sei se há um nós entre Jacob e eu, assim como com Scott. Mas fico feliz em saber que posso confiar em você. Principalmente nestes difíceis momentos que virão com a minha estadia em sua cabana.
— Oras, não se preocupe com isso! Você é forte e decidida, tenho certeza que não será tão ruim quanto pensa. Jacob não vai amolar você, se você assim desejar. Ele ficou trancado dentro de si por muito tempo antes de você chegar, e se você o colocar naquele lugar novamente, ele saberá lidar com isso. 
As palavras de Billy me fizeram sentir certo remorso. E creio eu que era exatamente o que o velho índio pretendia. Causar-me arrependimento pela forma como julguei Black. Billy sorriu para mim, e eu sorri de volta a ele. E arrastando sua cadeira, sempre surpreendemente silenciosa, Billy se retirou. Segui atrás dele, e então pude ouví-lo:
— Ah! E estava me esquecendo, como você sabe, não temos muitos cômodos então você vai dormir no quarto de Jacob.
— Billy! Não precisa incomodar Jacob com isso. Eu durmo na sala.
— De forma alguma Luna. Somos cavalheiros.
Conhecendo Billy, como eu conhecia continuar a discussão não adiantaria nada. Tão turrão quanto o filho, tão teimoso quanto eu. E não esquecendo que eu era uma hóspede de favor, não cabiam reclamações. Segui atrás de Billy adentrando a casa e Jacob vinha em nossa direção. Saiu da casa de Sue com uma feição um tanto quanto alegre. 
— Então você vai morar aqui! - ele dizia com um sorriso largo.
—Pois é. Parece que eu vim mesmo para ficar. 
— Vamos filho, temos que acomodar Luna no seu quarto. 
—Eu vou pegar minhas coisas no carro. - eu disse e Black veio logo atrás de mim.
— Eu te ajudo.
Enquanto tirávamos as malas do carro, e íamos levando para o quarto, não falamos um com o outro. Era estranho estar novamente naquele quarto, diante as atuais circunstâncias. Após a última leva de bagagens, olhamos um para o outro com dúvida sobre o que fazer a partir dali.
—Bem, eu vou pegar umas roupas de cama limpas para você. 
— Obrigada Black.
— Sabe que não precisa me agradecer. Eu é quem devo. - ele sorriu - E vou preparar também, o meu acampamento na sala.
—Black, eu ainda estou muito magoada com você. Estar aqui não significa que as coisas mudaram. Contudo, nós teremos um convivência pacífica e tranquila se depender de mim.
— Eu já sabia que não havia mudado nada, mas não me peça para não demonstrar o quanto estou feliz. Entendo seus sentimentos e irei esperar o tempo que for preciso até você me perdoar. Eu já espero por você há muito tempo, não seria diferente agora.
Assim que terminou de falar, Black saiu pela porta de seu quarto deixando uma Luna ainda mais confusa sobre seus sentimentos. Eu já não tinha tanta certeza se não teria chances de uma reaproximação entre nós. Na verdade, começava a me indagar se Jacob não era mesmo apenas uma vítima. Assim como eu. Tentando afastar estes pensamentos voltei minha atenção ao quarto, e às minhas coisas que eu teria que colocar no lugar. 

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