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ELEH - CAP. 11

Abstinência

Eu fiquei tão absorta à realidade com o que  eu havia presenciado, que não consegui fazer mais nada. Desde que Embry foi embora, eu estava jogada em meu sofá abraçada à garrafa de Whisky, com uma caixa de lenços e aos prantos. Então finalmente eu poderia confirmar, caso ainda negasse, que eu estava completamente apaixonada por Jacob. A escuridão da casa foi aumentando, e após uma dia quente como aquele, a chuva que caía no fim de entardecer não era uma surpresa.
          Aos poucos eu fui adormecendo pelo efeito de muito choro sim, mas também pelo entorpecente álcool, que aliviava no momento a tristeza, mas que traria muita dor de cabeça ao despertar. Portanto, o melhor era me entregar ao doloroso sono, pois o irremediável viria a seguir.
           Na manhã seguinte, acordei com o despertador estridente tocando. Aquela prevista dor de cabeça estava lá, se fazendo companheira no meio da solidão. Esfreguei os olhos e me sentei na cama.
           Para meu espanto eu estava em minha cama, ainda com as roupas de ontem, mas não me lembrava de ter ido ao meu quarto para dormir. E tudo estava organizado demais. Ao lado, no criado mudo um bilhete dizia:
"Não consegui deixar de vir vê-la, e espero que acorde melhor amanhã... Se bem que após uma garrafa de whisky... Não se maltrate assim Luna. Te amo, boa noite!"
          Quem o teria escrito? Embry? Era melhor acreditar nisso, pois seria muita falta de vergonha própria se, Jacob aparecesse aqui na surdina. No entanto, eu ainda sentia o seu cheiro. Resolvi acreditar ser tudo coisa da minha cabeça.
          Levantei da cama, com aquela miserável ressaca zombando de mim. Apertava a cabeça no intuito de fazer a dor parar, mas o banho gelado confortou um pouco mais. Me vesti e descendo as escadas, lentamente fui preparar um café. Forte. Quente. Amargo. Afinal, a amargura era visitante minha e não sabia por quanto tempo. Sempre dou a volta por cima das perdas, mas curtir aquela fossa poderia encerrar um ciclo. O ciclo Black.
          Assim que iria beber o meu primeiro gole de cura, o telefone tocou irritantemente.
– Alô?
– Bom dia, Luna. Aqui é Julian. Tudo bem?
– Bom dia, Julian. Sim... Aconteceu algo?
– Aconteceu sim. Estamos dando uma folga a você e ao Peter. Uma semana de luto em nossa família, nenhum estabelecimento nosso funcionará. Aproveite para descansar e seguir seus projetos mais tranquila.
– Julian... Meus sentimentos. Se quiser conversar, sabe que pode contar comigo não é? Como você está?
– Obrigada querida, sei disso. Estou ainda triste, mas Hernando está mais magoado. Foi nosso avô. Eles eram bem mais próximos. Já estava idoso e doente. A lei natural da vida... Sabe como é. Hoje quem amamos está ao nosso lado, amanhã de repente, vai embora.
– Sei. Sei muito bem como são essas perdas. E por saber quero que para o que precisarem, seja uma distração, um conselho ou companhia, não hesitem em me chamar.
– Obrigada. Fique bem, e tenha uma boa semana.
–  Obrigada. Beijo.
          Desligado o telefone, não demorou muito a tocar novamente.
– Sim Julian?
– Não. Não é o Julian... É o...
– Sei que é você Black. E eu não quero...
– Luna espere! Por favor, me deixe te explicar!?
– Não há nada a ser explicado, já entendi tudo!
– Não, você não entendeu! Nós ainda não conversamos! Foi tudo um engano.
– Foi sim Jacob. Tudo um engano. E eu te peço que por favor, me deixe em paz. – eu disse e desliguei na cara dele.
          Novamente aos prantos, eu estava afundada em meu sofá. Eu iria aproveitar aquele meu tempo de uma semana para ficar sozinha, pensar em muita coisa e organizar tudo o que eu já deveria ter organizado. Após uma hora jogada no sofá decidi que ficar ali prostrada não resolveria nada.
          Fui ao jardim, e não me lembrava de terem acabado todos meus suplementos de jardinagem. Eu teria que ir à cidade. Subi ao meu quarto a fim de maquiar aquela face anônima. Aquela expressão denunciante.
          Ainda chovia. Engraçado como o tempo parecia compartilhar da minha tristeza. Saí correndo com bolsa e chaves na mão até entrar no meu carro. E embora houvesse algum tempo que Black não entrasse nele, eu ainda sentia seu cheiro ali. Ligar o rádio não iria ajudar, pois eu tinha certeza de que alguma música inimiga tocaria. Lembranças surgiriam. Aliás, tudo e qualquer momento era passível de me trazer alguma recordação.
          Aspirei silêncio, enquanto dirigia devagar – algo que não é costume meu – e olhava à frente atenciosa ao gotejo fracos das nuvens.
          Cheguei na cidade, que como sempre encontrava-se monótona. Algumas pessoas pulando poças, alguns acenos, agradecimentos, sorrisos, cordialidades e meu espírito continuava sombrio.
          "Gardens and Earths". Lia-se a simples frase em um letreiro de madeira esculpido à mão acima da porta da cabana pequena.
– Bom dia.
– Bom dia senhora.
– O que vai querer hoje querida?
– A senhora teria estes utensílios todos? – estiquei a ela uma pequena lista, com caligrafia rápida.
Terra escura – 4 sacos de 10 kg.
Pá de mão – 1 pequena
Garfo de mão – 1 médio.
Lascas de lino – 5 sacos de 20 kg.
Sementes de girassol – 1 pacote de 300 gr.
Sementes de margaridas – 1 pacote de 500 gr.
Composto polivitamínico para plantas: (nitrogênio, zinco, cálcio e glicose) – 1 vidro de 200 ml.
          Enquanto a senhora procurava os meus pedidos, eu passeava entre as gardênias e gerânios de estimação que ali eram cultivados.
– Hoje não está sendo um bom dia? – ela me perguntou tímida.
– Não. Mas logo irá passar. – respondi sorrindo fraco.
– Aqui estão, apenas a terra e o lino que eu pedirei para você pegar nos fundos da loja comigo querida, estou sem meus ajudantes hoje.
– Claro, sem problemas! Pode deixar que eu pego.
          Carreguei os sacos até meu carro de forma rápida pois a chuva estava gelada. Retornei à porta da loja entregando o dinheiro e pegando minha sacola às mãos da vendedora de setenta e poucos anos.
          Corri de volta ao carro, até que ouvi a sineta do Coffee&Bar tocar. Olhei pensativa, e decidi que um pouco de waffles com mel, e um café quente poderiam complementar o meu café da manhã mal feito.
          Encontrei Erick sentado aos fundos do bar, mas decidi fingir não tê-lo visto. Para minha sorte ele não havia me visto. Sentei ao balcão, e coincidentemente ao meu lado estava Scott.
– Bom dia, waffles com mel e um café forte por favor.
– Bom dia Luna! – Scott sorria muito feliz em me ver.
– Olá Scott! Bom dia... Tudo bem? – respondi cumprimentando e abraçando-o.
– Sim... Mas você não me parece muito bem. O que houve?
– Nada que não possamos falar um outro dia.
– Tudo bem. – ele sorriu.
          Erick foi ao caixa pagar sua conta e voltando para o balcão cumprimentou a mim e ao Scott.
– Ele ainda está interessado em você...
– Ah Scott, eu prefiro apenas tê-lo como um bom amigo. Não daria certo entre Erick e eu. Já descobri sermos diferentes demais.
– Que bom que você está decidida quanto a isso, mas ele ainda está interessado. Embora...
– Embora?
– Ele voltou a sair com a irmã da Dani.
– Eu espero realmente que eles sejam felizes.
– Eu também. Só queria que a Daniela saísse do meu encalço.
         Rimos.
– Ela ainda insiste?
          A garçonete entregou o meu café da manhã e Scott aproveitou para pedir outra panqueca e mais uma caneca de chocolate quente.
– Acho que ela não desistirá nunca. E eu nem sei porquê! – ele sorria surpreso.
– Você é um cara encantador Scott. Aceite isso.
– Vindo de você... Como não aceitar?
          Sorri e pensei em uma forma de mudar o assunto.
– O mercado fechado?
– Sim, o avô dos Vincent faleceu. Não soube?
–  Soube, claro. Mas o que tem a ver?
– Meus pais sempre foram muito amigos da família Vincent. Eu não quis ir. Planejei uma trilha hoje, mas choveu, talvez seja tristeza e luto.
– O restante dos comércios fechados tem alguma associação com o falecimento dele?
– Sim! Acho que não te contaram... A família Vincent tem muito prestígio aqui, pois eles descendem dos fundadores de Forks. O avô deles foi um grande médico, que fundou o hospital de Forks. Até então, um posto de saúde pequeno é o que dava conta dos atendimentos.
– Uau. Eu sempre soube que os Vincent eram pessoas amáveis e admiráveis, e lógico, muito discretos, mas ninguém me contou sobre o legado deles.
–  Forks tem muitos segredos Luna.
–  É... Já deu para perceber... E o que você fará hoje?
–  Ainda não sei. Peter quer ir até a tribo... Mas eu não sei. Se a chuva piorar, podemos acabar ilhados por lá.
– Bem, mande abraços meus às crianças, à sua avó...
–  Sinta-se convidada a ir, caso nós formos.
–  Hoje não Scott, mas outro dia quem sabe...
–  Tem certeza que não quer conversar?
– Tenho sim, e na verdade eu preciso ir agora Scott.
           Abraçamo-nos apertado e agradeci ao carinho. Paguei e saí.
          No horário do almoço, eu já havia terminado parte da minha jardinagem. Tomei um banho quente, tomei um antigripal, pois já sentia uma leve coriza.
          Bateram à minha porta assim que desci as escadas.
–  Olá!
–  Lia! Emy! – abracei-as forte.
–  Embry está a caminho, ele foi à cidade.
–  Mas o que estão fazendo aqui?
–  Ei! Quer que vamos embora?
–  Não Lia! Não, por favor não interpretem assim. Fiquem à vontade.
–  Sua casa é aconchegante.
–  Não tanto quanto a sua Emy. Ainda deixarei ela do meu jeito, algum dia, eu acho...
–  Já estou abrindo a geladeira! Eu posso né? Você disse para ficar a vontade.
–  Claro que pode Lia. – eu sorri.
–  Lia! É a primeira vez que viemos aqui!
– Não Emy, tudo bem! Apesar de nunca terem vindo, é como se estivessem sempre por aqui. Obrigada por virem, meninas.
–  Sem mi-mi-mi por favor! – Lia sempre muito seca ao seu modo – Agora, escute mocinha! Faremos um almoço italiano aqui! E nada da senhorita reclamar!
–  Almoço italiano?
–  Lia e Embry pensaram em massas, você adora não é?
–  Sim! – eu sorri – Obrigada pela atenção gente.
          Novamente eu queria chorar.
–  E não viemos só para comer! Viemos para conversar também, e saber como você está.
–  Eu não estou muito bem... Gostaria de estar melhor... Mas é uma fase necessária.
–  Eu também vim para lhe contar algumas coisas! – disse Lia da cozinha.
–  Se for sobre ele, Lia... Não me conte. Eu não quero saber de mais nada.



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