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ELEH - CAP. 10

Naufrágio em um coração de pedra 

Na manhã seguinte, era sábado. E acordei com batidas na porta da minha casa, mas não me levantei da cama. Meu telefone tocou.
– Alô? – eu disse com a voz cansada.
– Luna? Está tudo bem?
          Eu reconhecia aquela voz, mas meu cérebro sonolento ainda não assimilara quem era o dono da voz.
– Luna? Alô? – um trovão. E então despertei. Era o Black.
– Jacob?
– Sim. Está tudo bem?
– Sim. O que houve?
– Eu estou aqui na sua porta... O passeio. – ele disse confuso.
          Levantei correndo e deixei o telefone cair. Desci as escadas às pressas.
– O passeio! Esqueci do passeio com o Jacob! Como pude esquecer?. – eu sussurrava desesperada.
          Peguei várias chaves ao mesmo tempo no porta-chaves. Com vários chaveiros em mãos eu ia jogando longe aqueles que eu via, não serem da porta. Ao abrir a porta dei de cara com um Jacob confuso e assustado, segurando o celular na orelha.
– Oi! Bom dia! – eu disse ofegante e desesperada.
          Ele me olhou dos pés à cabeça. Estava assustado.
          Então eu me olhei. Fechei a porta na cara dele. Como já havia a destrancado, ele girou a maçaneta e entrou. Continuou com a mesma expressão me vendo correndo pelas escadas em direção ao meu quarto.
– Espere na sala! Espere na sala! – eu gritei.
          Eu estava descabelada, sem escovar os dentes, e apenas de calcinha e sutiã. Fiquei tão assustada por me lembrar que havia esquecido o passeio que desci correndo sem pensar. Escancarei a porta do banheiro e escovei os dentes. Ao sair encontrei Jacob já no topo da escada adentrando o corredor, depois corri para meu quarto.
– Eu falei para esperar na sala! – eu gritei.
          Não bati a porta do meu quarto, mas corri para o meu guarda-roupa. Ele não poderia me ver naquele estado! De repente, Jacob abriu a porta violentamente e olhou para minha cama. Fiquei olhando para ele assustada. Olhou pela janela, olhou debaixo da cama... Ele estaria procurando alguém? Olhou atrás da porta e até dentro do meu guarda-roupa.
– Ninguém. Está sozinha? – ele perguntou desconfiado.
          E lá estava eu: envergonhada pela forma como abri a porta da sala e por ainda estar apenas de lingerie na frente dele, assustada com a maior cara de maluca e ao mesmo tempo enraivecida por aquela atitude dele.
– Estou. Claro que estou! Por quê? Ficou louco?
– Suas atitudes foram suspeitas. – ele disse aliviado.
– E?
– E o que?
– E quem te deu o direito de vir vasculhar meu quarto atrás de alguém? – eu já estava brava com ele. De novo.
– Como é?
          Apontei o dedo indicador andando até ele ameaçadoramente.
– E se eu estivesse com alguém? Quem te deu o direito de se meter?
          Ele me olhou assustado. Segurou a minha cintura. A musculatura de seu corpo estava rígida. Parecia uma pedra fervendo, de tão quente.
– Luna... – ele disse me olhando e ainda com as mãos na minha cintura me afastou – Não faz isso comigo, por favor. Se vista, gatinha.
          Disse desconfortável e sorriu fraco. Só então fui perceber o que ele olhava. Eu, de calcinha e sutiã.
– Isso é bom pra você ver o que eu passo! – falei sem pensar. De novo.
– Então é assim que você se sente? Bom saber... – ele falou sacana.
– Pode dar licença do meu quarto Black?
          Ele saiu rindo e eu fui pegar as minhas roupas.
          Fala sério! Como eu pude não vestir a camisola? Como eu pude não me lembrar disso ao acordar? Como eu pude capotar de sono sem mais nem menos?
          Então me recordei da noite anterior, e eu não "capotei sem mais nem menos". Na verdade custei dormir. Por causa de Scott. Não! Por causa da minha atitude impensada com Scott. E ao perceber aquilo, eu já não tinha cara de encarar o Jacob. Tomei banho e desci mais apresentável. De cabelos penteados, shorts jeans, tênis, camiseta e jaqueta pretas.
– Ora, ora. Agora sim mocinha! – Jacob exclamou ao me ver chegar à cozinha. 
           Ele havia preparado o café.
– Podemos nos cumprimentar devidamente agora?
– Devemos. – ele disse vindo até mim.
          Beijou meu pescoço:
– Bom dia Mani.
          E eu mordi seu ombro:
– Bom dia Black.
          Olhei para o relógio e ainda eram seis e meia.
– SEIS E MEIA? VOCÊ ESTÁ MALUCO? NO SÁBADO?
– Nós marcamos às sete.
– Eu sei disso! Que horas você chegou?
– Dez para as seis.
– Você está de brincadeira comigo?
– Não pude esperar para revê-la, e depois que acordei não dormi mais, então vim logo para te acordar.
– ESSE É O PROBLEMA! Você me fez pensar que eu estava atrasada! – olhei incrédula e ele ria ­– Tenho que me lembrar de não marcar mais nada com você às sete da manhã.
          Eu disse mordendo uma torrada.
– O que aconteceu por aqui ontem? – ele perguntou e eu engasguei.
– Como assim?
– Para achar que perdeu a hora e acordar daquele jeito, aconteceu alguma coisa. Combinou algum outro compromisso?
– Compromisso? – aquela palavra dita por ele naquela hora não estava ajudando – Não...
– Não dormiu bem?
– Dormi sim. Só que... Acordei de madrugada e não dormi mais.
          Ele não havia engolido. Estava ficando complicado disfarçar as coisas para o Black, ele estava me conhecendo mais do que deveria.
– Luna, a verdade.
– Estou falando sério Jacob.
– Foi aonde ontem à noite?
– Como assim?
– Foi aonde ontem à noite? Você não estava em casa.
– Por que está dizendo isso?
– Porque eu estive aqui.
– Desde quando te devo explicações?
– Não é explicação, é só uma pergunta. Por que está tão nervosa? – me olhava desconfiado, mas calmo.
– Não estou. Por que não me ligou?
– Justamente porque você não me deve explicações. – arqueou uma sobrancelha vitorioso.
– Hum... Vamos logo. – eu disse me levantando.
          Peguei as chaves que joguei pela casa no desespero em abrir a porta. Jacob estava encostado na parede de braços cruzados, me analisando. Eu procurava meu celular entre as almofadas do sofá. Ainda parecia uma maluca.
– Você ainda não me respondeu. Não é que seja sua obrigação, mas se não quiser falar é só avisar.
– Hã... Eu fui beber.
– Sozinha?
          Olhei para Jacob como quem diz "o que é isso?" .
– Desculpe... – Jacob percebeu que eu não queria mesmo falar do assunto.
          Quando encontrei meu celular no meio das almofadas, o visor denunciava uma mensagem de Scott. Assustei-me ao ver e olhei para Jacob desconfortável.
– Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou.
– Ãh... Não... – eu disse, parecendo uma babaca, e olhei para o visor do celular.
– Eu vou dar licença para você ligar para... Enfim, para alguém. – ele já havia mudado o astral.
– Não Jacob, pode ficar. Não é nada. – sorri para ele, mas não adiantou muito.
          Eu também ficaria de "pá virada" se ele agisse como eu. Apertei o "ok" no visor e li a mensagem:
"Ei Luna, obrigado pela companhia maravilhosa, e pela noite incrível. Espero que nada tenha mudado. Boa noite... Até depois, beijos ."
          Sorri involuntariamente ao terminar de ler. Jacob me olhava sério e desanimado.
– Vamos? - eu disse.
          Ele saiu andando até a porta. Entrou na camionete Ford 1990 preta, as motos estavam na carroceria. Eu entrei logo depois de trancar a casa. E eu já sabia que "alguém" estava irritado.
          Assim que entrei liguei o rádio. Já me sentia íntima para isso. Jacob permanecia mudo.
– De onde saiu essa camionete? – eu perguntei.
– Da oficina.
– Emprestada?
– Não.
– Argh... – resmunguei – Desculpa Black. Eu agi estranhamente não é?
– Você não querer me contar o que faz ou deixa de fazer da sua vida não é o problema. O problema é você agir como se eu não devesse saber bem na minha frente. Como se me escondesse algo.
– Não estou te escondendo nada, mas não sei se eu deveria falar o que fiz ontem, porque eu não sei como nós estamos e o que nós temos de fato.
– Podemos falar disso depois? É melhor esclarecermos tudo.
– Depois? Não pode ser agora?
– Eu prefiro estar parado para poder olhar nos seus olhos.
– Tudo bem.
          Olhei para minha janela e segui admirando, a paisagem.
– Desculpa Jacob, não é minha intenção magoar você. Nunca.
– Não precisa pedir desculpas, eu que estou errado.
           A música continuava tocando como fundo musical calmante. E nós conversávamos coisas desimportantes vez ou outra. Na minha cabeça, aquelas hipóteses após o encontro com a Bruh na cidade, ainda pipocavam para eu falar. Mas é como Scott disse: o tempo organiza as coisas e é necessário até para desorganizar. Então eu aguardaria o tempo certo para as minhas conversas esclarecedoras com Black. Por mais que elas nunca chegassem.
          Descemos aos arredores de La Push, em uma grande estrada vazia. Ao redor, nada além de poeira. Jacob olhou para o lugar como se tivesse alguma memória dali se mostrando em sua mente.
– Tudo bem?
– Sim... – ele respondeu fitando o nada. Olhou para mim e sorriu. – Preparada?
– Sempre e para tudo.
– Que perigo. – disse zombeteiro.
          Subi na caçamba do carro para entregar as motos a ele. E ele tirou a camisa, meio que "do nada", de repente.
– O que é isso agora? – eu perguntei.
– Nada. Estou com calor. – sorriu traidor – Eu até te devo uma, mas assim está muito fácil.
– Cala essa boca. – eu sorri sem graça e desci.
            Pensei "pronto, agora eu me meti numa boa!" e o encarei predadora.
– Qual a minha? – perguntei.
– Eu te indicaria a vermelha, a capacidade é melhor para iniciantes.
– Então ela é sua. – falei.
           Puxei a chave da mão dele e fui até a moto preta. Coloquei o capacete, pisquei para ele e já ia me preparando para sair.
– Luna é sério. Você pode se machucar...
– Nos encontramos onde? No fim da estrada? – eu disse e acelerei partindo.
          Jacob me observava surpreso pelos meus zigue-zagues na pista. De braços cruzados sorria todo bobo. Não demorou muito a me alcançar. Emparelhou ao meu lado, e nos olhamos. Continuamos o percurso batalhando alguns metros a frente um com o outro. Fiz uma manobra de retorno inesperada e os pneus cantaram. Eu gargalhava do quanto aquilo teria o assustado. Quando cheguei de volta ao nosso ponto de partida, desci retirando o capacete e Jacob parava ao meu lado eufórico. Encostei-me na lataria da frente da camionete e coloquei os meus óculos "aviador", como uma garota marrenta e rebelde tirando sarro dele. Jacob veio apressado até mim, e me prendeu com seus braços fortes, entre ele e a camionete.
– Está louca? Quer me matar? – disse tranquilamente, me encarando bem próximo.
– Por quê? – eu ria.
– Que manobra foi aquela?
– Se não sabe brincar, não começa.
– Quer brincar mesmo? Então tá. Eu só não imaginava que você sabia mesmo pilotar.
– Eu avisei. – gargalhei dele.
– Tenta não me matar ok, motoqueira selvagem?
– Matar? – ajeitei minha postura o fazendo endireitar-se reto – Não... Enlouquecer, quem sabe? – eu falei acariciando o abdômen de Jacob e saindo rápida de volta para moto.
          Ele ficou inerte, mas logo veio atrás. Andamos bastante e até saímos da pista levantando um pouco de poeira. Quando paramos de volta à camionete, ríamos muito, sem ter motivos aparentes. Aquilo era felicidade.
– Você é mesmo muito boa. É sempre boa em tudo?
– É um dom. Mas você não sabe nem da metade.
– Estou me preparando inteiramente para conhecer todos os seus dons.
          Já não sorríamos, mas encarávamos um ao outro, ardilosos. Poderíamos nos beijar naquele momento, como em tantos outros que tivemos. Poderíamos? Não o fizemos. No entanto, Black me abraçou protetor, me colocando sentada no capô do carro. Ficamos silenciosos ali. Ele em pé entre as minhas pernas enlaçando a minha cintura. Eu sentada no capô abraçada a ele, com a minha cabeça em seu ombro. Talvez estivéssemos ambos pensando no que dizer, ou melhor, em como começar um para o outro.
– E agora? – eu disse.
          Contudo eu não sabia se me referia a nós, ou ao passeio.
– Conheço uma estrada de cascalhos... É bem radical. Mas você não vai pilotar.
          De tantos "talvez", talvez aquele entendimento dele sobre a minha pergunta, fosse o melhor para o momento.
– Por mim tudo bem. – eu disse.
          Nos separamos e guardamos as motos na carroceria indo em direção à estrada. O dia começou a esquentar. E Jacob permaneceu sem camisa, dirigindo. Tirei minha jaqueta e agradeci por não estar de calças.
– Puxa... Está quente! Acho que depois de vir pra cá, qualquer temperatura mais abafada me incomoda. – eu falei.
          Jacob sorriu e me olhou de soslaio.
– Eu disse que estava quente.
– Você não sabe o que é quente ou frio.
– Claro que sei. – olhei-o descrente – Só não sinto na maioria das vezes.
          Nós rimos.
          De repente, sem ele perceber o abordei dando algumas encaradas nas minhas pernas. Sorri de canto. Chegamos a uma estrada bem sinuosa, com altos, baixos e poeira. Muita poeira. Ainda estávamos em Forks?
          Após descermos novamente e prepararmos a moto dele, Jacob deu o veredicto:
– Vem. – ele disse montando na moto preta e batendo às suas costas.
          Sorri animada e fui. Nunca que eu perderia uma oportunidade daquelas, não pelas motos ou pela aventura, mas sim por Jacob, é óbvio.
– Segura direitinho. – ele disse rindo e piscando.
– Assim? – perguntei me agarrando bem forte a ele.
– Hum... – ele resmungou.
          Partimos. Praticamente aquilo tudo foi um MotoCross "leve". Muita adrenalina, muita sensação de liberdade, muitos ventos nos corpos, mas eu ainda queria abusar um pouco mais. Causar alguns arrepios. Então, dei leves mordiscados nas costas de Black e sorri malévola a cada novo: "Luna, para. É sério!".
          Então decidi que era mesmo hora de parar com as torturas. Para os dois. E à medida que Jacob acelerava e a poeira transitava entre nós, a sensação de liberdade era incontestável. Eu olhei para o rosto dele no retrovisor e apesar dos óculos escuros, não senti que ele estivesse ali. Quero dizer, a mente dele parecia devanear. Então encostei meu queixo em seu ombro e ele virou levemente a cabeça para o retrovisor e sorriu. Foi uma das cenas mais lindas dele que eu já havia visto. E graças ao meu Ray-ban, ele não notaria o quanto aquilo me agradou. Sem olhos nos olhos, sem desvendar de sensações.
          O sol queimava forte e se pendurava no topo do céu, como um lustre do cristal mais cristalino. Aos poucos Jacob desacelerava e a camionete se aproximava ainda mais. Assim que parou a moto, Black virou o rosto para mim rindo. Eu não havia o soltado.
– Só para constar... Já estamos parados. – ele disse pigarreando falso.
– Eu sei.
– Ah... Sabe, sem problemas você ficar assim agarradinha em mim, mas é que... Podemos pelo menos ir para o carro?
– Quer que eu te agarre dentro do carro? – falei manhosa.
– Ah... É... Não, é que... Luna... O sol está queimando. – ele riu fraco pelo nariz.
          Diante a reação da resposta dele cheia de pausas e do corpo rígido, percebi algo encantador:
– Te deixei sem graça Black?
          Eu levantei e desci da moto parando em pé na frente dele. Com braços cruzados eu sorria observando Jacob fugitivo. Eu adoro a forma como ele olha para os lados, encara o chão e me olha abrindo a boca para falar sem emitir nenhum som. E ele fez aquilo de novo. E eu estava milimetricamente pronta a atacá-lo.
– Não acredito que consegui deixar Jacob Black visivelmente sem graça. Sério? A muralha? – eu falei me aproximando dele e me sentando na frente da moto.
– Não é nada disso sua boba. – ele falou sem jeito e ainda fugitivo.
– E então, o que é? – foram as minhas últimas palavras antes de tentar beijá-lo.
          Eu acabei de falar e fui até aqueles chamativos lábios. Para variar ele estava sem camisa, e eu poderia ser insana o quanto eu quisesse. Porém, eu me detestei com todas as forças logo em seguida. Jacob fugiu do meu beijo. Levantou-se da moto me deixando como uma vadia otária e perplexa.
          Olhei-o confusa e séria. Ele, nervoso, encarava o chão com uma das mãos sobre as têmporas e outra na cintura. Acho que nem ele acreditava no que havia feito.
– Ãh... – ele começou a falar, mas eu o interrompi.
– Vamos? – eu disse já a caminho do carro.
          Entrei e, enquanto ele guardava a moto na caçamba eu olhava pela minha janela, para a estrada. Olhei para o retrovisor e ele estava fechando a carroceria me olhando também pelo retrovisor. Desviei novamente meo olhar para frente.
          Ele entrou afivelou os cintos, e ligou o carro, deu a marcha e segurava o volante. Não fez menção de pisar no acelerador. Continuou imóvel encarando o volante. E eu? Eu não o olhava. De repente fingir que do lado de fora da minha janela havia algo mais atrativo, fosse uma boa saída. E como eu iria encará-lo depois daquilo? Seria torturante ver a rejeição nos olhos cortantes dele. Eu não queria encarar Jacob, não podia, não devia e tinha medo.
– Luna? – ele disse finalmente se virando para mim, ainda com o carro ligado – Você está bem?
– Por que não estaria? – falei ainda sem encará-lo e segurando a denúncia de decepção que poderia vir da minha voz – Algum problema com o carro?
– Não... – ele abaixou novamente a cabeça, olhando para o volante, decepcionado, e deu partida.
          Continuamos o percurso, calados. Logo estávamos na estrada de Forks e a poeira trocou de lugar com os pinheirais e a densa mata. Em certo ponto teríamos que nos falar, mas eu evitava, até porque eu não tinha nada mais para dizer. E creio que ele também não necessitaria argumentar. A minha resposta já havia sido dada. Ele não me queria. De algum modo, o passado interno dele, era muito mais vivo do que eu pensava. Subestimei as lembranças de Bella, ou seja lá quem fosse. Eu já não queria nem mesmo ouvir falar sobre aquelas hipóteses.
          Por mais que eu me calasse. Por mais que eu fizesse greve de voz, eu não poderia impedi-lo de falar. A voz trovejante dele ecoaria. E ecoou. Para o meu desprazer, pois aquele timbre conseguia arrancar lágrimas dos meus olhos. Dois sentidos opostos tão conectados!
– Luna. É melhor que nós conversemos logo. Eu sei que só estou piorando as coisas e... – eu segurei as lágrimas e para isso era necessário desligar minha audição. Foi o que eu fiz.
– Black, eu não preciso conversar. Só me deixa em casa. Por favor.
          Ele parou o carro bruscamente na estrada fazendo eu me assustar e encará-lo. Seu olhar era fulgurante e forte. Seu corpo estremecia.
– Você não pode me evitar de tentar explicar!
          Jacob estava mais irritado do que o normal. Como se estivesse lutando com algo internamente.
– Jacob? Você está bem?
– FICA AQUI! – ele gritou.
          Gritou e saiu do carro batendo a porta. Eu me assustei com o estrondo. Assimilei aquela atitude e percebi que algo de errado ocorria. Olhei para trás pela janela da cabine. Black segurava a cabeça com as duas mãos e andava de um lado para o outro descontrolado. Parecia sentir dor.
         Eu sou uma pessoa inteligente. Sou sim. Mas na maioria das vezes, sou mais impulsiva do que inteligente. E há alguns tempos eu estava totalmente inclinada a me entregar às insanidades à minha volta. Saí do carro e fui até ele. Com a Bruh não foi daquele jeito, eu nem mesmo havia piscado, então ele não deveria estar prestes a se transformar. Do contrário eu nem sei se estaria indo até ele. Jacob caiu de joelhos no chão e então eu já não andava lentamente, mas corria até ele.
– Jacob! O que foi?
          A respiração dele era ofegante. Ainda mantinha a cabeça pressionada entre as mãos e os olhos voltados ao chão. Toquei nele e sua pele incendiava, ele suava muito também. Com o susto da queimadura tirei minhas mãos rapidamente de cima dele.
– Jacob! – tentei levantar seu rosto e ele urrava – Jacob olha pra mim!
          Eu gritei e então ele me olhou. Seus olhos estavam diferentes. A íris oscilava reflexos de dourado a vermelho. Era tão assombroso passar por aquilo! No entanto, eu não poderia deixá-lo. Não conseguiria.
– Sai daqui! Vai embora Luna! – a voz grave e trêmula dele, só fazia eu querer ficar – VAI EMBORA! SAI!
          Ele gritou, me empurrou ao chão se levantando e fugindo para a floresta. Eu não entendi nada. Corri para a cabine do carro e me sentei no lugar do motorista. As ideias que vinham em minha mente me fizeram chorar compulsivamente. Aquilo não poderia estar acontecendo com o Jacob! Mas eu também sabia que ele era um dos sete. Dei partida no carro em direção à reserva. Disquei o número de Embry rapidamente. Não sei como a sequência numérica do celular dele surgiu, tão de repente, após algum tempo sem falar com ele.
– Luna? Tudo bem? – Embry parecia um pouco agitado.
– O JACOB! EMBRY! – eu soluçava – ELE... PRECISA DOS LOBOS!
– Vocês estão onde? Se afaste dele, Luna!
– Ele saiu pela mata. Eu estou indo para a reserva. – o meu choro compulsivo e assustador também espantava a Embry.
– Luna! Eu sei... Eu senti! Sam, Paul, Quil e eu estamos atrás dele! Não se preocupe! Ele vai ficar bem, agora só se controla e vem pra cá! Se acalme! A Sue e o Billy, estão te esperando.
– Tá, tá... Embry... Por favor...
– Eu cuido dele. Fica calma.
– Cuidado.
          Eu desliguei e fui desesperada à reserva. Passei pela minha casa com tanta velocidade que me surpreendi ao ver Charlie com a viatura atrás de mim. Parei o carro e aguardei a viatura. Provavelmente, pela camionete "nova" de Black ser desconhecida.
– Onde pensa que vai a essa velocidade senhor...
          Charlie dizia enérgico e parou de falar ao me reconhecer.
– Luna? O que aconteceu? Por que está chorando? E por que corria desse jeito? De quem é esse carro?
– Calma, Charlie... Desculpa... O Jacob.
– O que tem ele? – Charlie perguntou abrindo a porta do carro e percebendo o meu estado, desafivelou meu cinto e me deu a mão para sair do carro.
– Estávamos juntos no carro, a caminho de casa quando ele... Surtou, sei lá, acho que é a transformação... – eu chorava de novo compulsivamente e Charlie me abraçou consolador.
– Se acalma, Luna.
          Assenti que sim com a cabeça e tentei explicar.
– Ele saiu de controle. Foi assustador! Correu pra floresta e eu liguei para o Embry. Os rapazes foram atrás dele e Billy e Sue me esperam na reserva. Pelo visto a coisa é séria. – eu chorava de novo.
– Tudo bem querida. Ele vai ficar bem.
          Olhei para Charlie, agradecida e ele sorriu.
– De quem é o carro?
– É do Black.
– Esse garoto não cansa de trocar de carro? – Charlie falou na tentativa de me fazer rir, eu apenas sorri e respondi:
– Faz bem a ele.
– Vamos. Eu te levo para a reserva. Você não deve dirigir neste estado.
– Mas o carro...
– Eu reboco. Agora, vamos.
          Peguei minha bolsa e entrei na viatura aguardando Charlie.
          Por mais que eu tentasse me controlar era impossível. Charlie se manteve calado por um tempo, dando espaço para eu me acalmar.
          Uma culpa corroía meu interior. Eu não sabia exatamente por que, mas senti que tudo o que acontecia com Jacob tinha ligação a mim. Como se eu despertasse a fera. Um flash rápido me veio à mente:
"– É a Luna, Jacob (...) E já está na hora filho".
– Luna? Tudo bem? – Charlie perguntou.
– Ah... Sim. – eu sorri inconvincente.
– Quer conversar sobre mais alguma coisa?
– Ãn... Sobre?
– O que você e Jake foram fazer hoje?
          Jura? Sério que ele iria falar dele?
– Ele me levou até umas estradas desconhecidas e andamos de moto.
– Ah! E se divertiram?
– É... – eu respondi incomodada.
– Eu não estou ajudando muito não é?
– Desculpe Charlie... Quem sabe se mudarmos o assunto?
– Tudo bem, filha! – ele ria.
        Filha? Fiquei o olhando sem graça e ao se dar conta do que dissera, ele me pediu desculpas.
– Desculpe... Não é que eu esteja te comparando a ela.
– Tudo bem, eu sei que você sente falta.
– Sim. Mas não é por isso que eu gosto de você. Você é muito diferente dela, tem o seu jeito próprio de cativar. Eu me sinto ligado a você de alguma forma.
– O que houve com ela Charlie?
          Ele me olhou com dor nos olhos e sorriu.
– Logo você saberá.
          De novo! Logo, logo, logo! Esse logo nunca chega!
– Tudo bem. – eu sorri e voltei a encarar os pinheirais.
– Posso te fazer uma pergunta um pouco indiscreta?
          Franzi o cenho tentando imaginar o que seria, e concordei.
– Pode.
– O que está acontecendo entre você e o Jake?
– Nossa. Que direto. – e então eu comecei a rir.
– O que foi? – Charlie perguntou desentendido.
– Nada, desculpe, é que... Eu nunca tive alguém próximo de uma figura paterna me perguntando sobre as minhas paqueras ou namoros... Foi estranho.
– Figura paterna?
– Como você acabou de dizer, eu também sinto uma ligação com você Charlie. E embora não seja o meu pai, eu gosto de imaginar como seria.
– Fico honrado. – ele riu e arqueou uma sobrancelha – Então... Pelo que entendi vocês estão de paquera ou de namoro?
          Eu ri sem graça o olhando travessa por ter me "pegado".
– Não... Nem um, nem outro.
– Tem certeza?
– Não. – olhei para ele cúmplice, triste e direta – Até essa manhã eu achei que fosse diferente, mas... Acho que foi só ilusão minha o tempo todo.
– Tenho certeza de que não foi. De alguma forma, Jacob está sempre se apaixonando pelas minhas meninas, acho que é fixação dele querer ser meu genro... Então não foi ilusão sua.
          Nós gargalhamos com aquilo.
– Fala sério! – eu disse rindo.
– Luna... Sei o quanto é complicado para você, porque também foi para mim. Mas uma hora todas as peças vão se encaixar, inclusive Jacob. Você só precisa ter um pouco mais de paciência. Se não for demais para você...
– Não é. Eu suporto. Tenho suportado até mais do que eu imaginei poder suportar.
– E conte comigo para o que precisar.
– Obrigada Charlie.
– E por favor, não dirija mais daquele jeito.
          Rimos.
– Pode deixar.
– Chegamos. – ele disse entrando à reserva.
          Estacionou o carro de Jacob, enquanto eu cumprimentava Sue, na varanda de Billy, com um forte abraço. Billy caminhou com sua cadeira silenciosa até mim. Charlie logo se colocou ao meu lado, e beijou Sue em cumprimento.
– Luna, você está bem?
– Um pouco melhor Billy, obrigada. E os meninos?
– Se acalme. Eles estão bem.
– Já deram notícias?
– Não querida, mas fique calma. Estão bem! Eles sabem o que fazem. – disse Sue para mim.
– Nem todos Sue, nem todos. – eu disse olhando para Charlie que entendeu meu comentário.
          Charlie despediu-se de nós, pois ainda estava em serviço.
– Luna, querida, tem mais alguma coisa que eu possa fazer por você? – Charlie perguntou abraçando-me.
– Tem.
– Pode falar.
– Não me multar por excesso de velocidade seria muito bom. – eu ri.
– Eu não vi nada. – ele piscou e saiu, deu meia volta apontou o dedo para mim e disse: – Ah! Só dessa vez, certo?
– Não teremos outra. – eu disse firme.
          Assim que ele saiu, sentei no banquinho da varanda da casa de Billy. Fiquei de olhos fixos encarando a mata.
– Aceita um chá com bolo? – Sue perguntou, sentando ao meu lado.
– Não precisa se incomodar Sue. Estou sem fome. Obrigada.
– Tudo bem, melhor guardar a fome para o almoço que já, já, sai.
           Apesar de Sue, simpática tentar me confortar, eu não tirava os olhos fixos da mata. Atenta ao menor sinal, no aguardo de boas notícias. Aliás, boas notícias essas que iriam apenas me acalmar para que eu pudesse ir embora para minha casa. Não havia motivos de comemorar nada. Apenas me tranquilizar do susto.
– Conte-me o que houve Luna. – disse Billy ao meu lado.
          Então percebi que Sue não estava mais lá.
– Ele parou o carro e começou a tremer. Mandou que eu ficasse na camionete e saiu descontrolado. Eu fui atrás dele, ele caiu de joelhos no chão e começou a urrar. Sentia dor e a pele dele incendiava.
          Então mostrei a palma a minha mão avermelhada, com pequenas marcas de queimaduras, para Billy que se espantou discretamente. Pegou minhas mãos e as analisou. Continuei a falar.
– Ele segurava a cabeça como se evitasse alguma coisa em sua mente. E os olhos dele... Estavam dourados, mas no reflexo avermelhavam e ... Não sei Billy ele saiu correndo.
         Olhei para o lado e avistei Bruh escorada na cerca da varanda escutando o que eu dizia. Olhei-a com raiva e ela revidou o olhar. Billy pigarreou e então eu voltei minha atenção a ele.
– Entendi... Mas não era sobre isso que eu estava perguntando. – ele olhou para mim, calmo e ergueu a sobrancelha.
– O quê? – eu disse e ouvi passos pesados. Bruh havia saído de perto com raiva.
– Eu me referia ao "o que aconteceu" para deixá-la assim tão desapontada?
– Nada... Foi o susto – desviei meus olhos para a mata novamente.
          Billy era astucioso e manter contato visual com ele, assim como com Black, era perigoso.
– Vocês não conversaram sobre vocês?
          Respirei fundo. E me controlei. Ter a toda hora, perguntas de todos os lados, sobre Jacob e eu, começavam a me irritar demasiadamente.
– Não. – eu disse firme e me levantei – Billy, obrigada, mas... Eu vou pra casa. Preciso descansar disso tudo... Só não deixa de me avisar, tá?
– Não. Você vai ficar. Não pode ir ainda.
– Por que não?
– Porque a primeira coisa que Jacob vai querer ver é você e saber se está bem.
– Ele pode me ver outro dia. – eu disse nervosa.
– Então vocês brigaram.
– Billy...
– ALMOÇO! – Sue apareceu na porta da casa dela gritando para nós.
– Vamos, Luna. Não farei mais perguntas.
– Eu não estou com fome. Obrigada.
– Deixe disso Luna. Não vou falar mais nada. – Billy disse amigável.
– Eu não vou embora Billy. Só não estou com fome...
– Tudo bem. Qualquer coisa, nós estaremos lá dentro.
          Ele disse saindo em direção à casa de Sue e eu voltei a me sentar no banquinho de madeira. Tudo o que eu mais queria naquele momento, era a possibilidade de enxergar em um raio de dez quilômetros à minha frente. Assim, ao menor sinal dos garotos eu sairia correndo até eles. Entretanto, eu só podia aguardar. E aguardei.
          Sue surgiu me convidando novamente para o almoço. Agradeci e neguei. Ela insistiu que iria trazer a mim, um prato, mas eu neguei novamente. E Sue entendeu. Ela sempre entendia.
          Aos poucos, acredito que após terem almoçado, as pessoas surgiam. Emy e Lia, vieram falar comigo. Bruh manteve-se na rede de pano, na varanda da casa de Sue, junto a ela.
– Não se preocupe, eles chegarão bem. – disse Billy parando à minha frente – Vou preparar um chá para você. Tudo bem?
– Obrigada Billy. – eu disse sorrindo e ele entrou em casa.
– Como está Luna? – Emy me abraçou e em seguida Lia fez o mesmo.
– Estou bem. Eu acho. – ri fraco.
– Eu posso garantir que essa sua cara azeda não é por preocupação apenas. Afinal, já vi você em situações piores com a maior tranquilidade.
– Está se referindo ao episódio da tribo Whitonn? – perguntei.
– Exato. – Lia disse sorrindo.
– Se quiser conversar, pode contar conosco Luna. – Emy me olhava com carinho – Somos suas amigas!
– Até a Lia? – eu disse a olhando com uma sobrancelha arqueada.
– Er... Por falar nisso... Eu te devo um pedido de desculpa e algumas explicações.
– Não, Lia! Eu e Embry já conversamos e não há nada para ser explicado ou desculpado. Está tudo certo!
– Não, mas eu gostaria que você soubesse que eu não tive a intenção de magoá-la.
– Fala sério Lia! Magoar? Não me magoou. Eu posso não ter, ou não ser, o imprinting de alguém, mas o Embry exagera quando diz que eu "não acredito no amor".
– É ele sempre diz isso!
Nós rimos.
– Pois é! O que me lembra que preciso ter uma conversa com ele sobre isso...
– Ele não está errado. Vai dizer que você não é do tipo que acredita que o amor se conquista aos poucos? – perguntou Emy.
          Olhei para a caçula Ateara, Bruh. Ela me encarava. Certamente escutava nossa conversa.
          E com aquela pergunta de Emy eu percebi que talvez fosse aquilo: Jacob havia sido conquistado pouco a pouco por Bruh.
          Será? Eu sustentava o olhar dela, e ela compreendeu de alguma forma o que eu pensava. Sorriu de canto, vitoriosa. Ou pela real vitória, ou por tentar me causar uma pressão psicológica. Lia também notou o que eu pensava e foi logo falando, sempre muito direta.
– Ah fala sério! Acha mesmo que a Bruh conquistou o Jake? – Lia me olhou incrédula e eu a encarei – Aquela pirralha?
          Assim que terminou de falar, olhou para a Bruh de uma forma desafiadora. As duas brigavam silenciosas. Talvez até gritassem! Não posso ouvi-las. É mais uma coisa entre lobos...
– Não quero acreditar nisso. Porque seria nojento. Jacob seria nojento. Ela é só uma criança. – eu disse e não tive a intenção de ofendê-la. Mas ela realmente era uma criança para Jacob.
– Se acalma aí! Nem tenta! – gritou Lia para Bruh quando terminei de falar.
          Bruh entrou para a casa de Sue e Lia voltou à sua posição de antes: encostada na madeira da varanda de frente para mim, e continuamos conversando.
– Ela está nervosinha. – Lia disse de um jeito que nos fez rir.
– Isso é bullying. – eu disse arrancando gargalhadas de nós três.
– Luna... Não se preocupe com a Bruh! Eu já te disse isso.
– A encontrei na porta do mercado um dia destes. E nós meio que discutimos.
– E VOCÊ NÃO NOS CONTA? FALA LOGO! – disse Lia animada com o fato .
– Bem, ela me encarou e me desafiou para uma briga. Então eu disse: "Não me subestime, criança! Posso não ter as mesmas táticas que as suas, mas eu também sei ferir. Onde mais dói".
– ISSO! –Lia berrou.
          Emy e eu a olhamos assustadas.
– Qual é? Não gosto dela mesmo! – Lia se explicou e nós rimos.
– Espera... Ela te chamou para brigar? E vocês caíram na pancadaria? Tipo, isso? – Emy falou assustada.
– Não! Não que se fosse necessário, eu evitaria brigar com ela, mesmo ela sendo uma loba estúpida...
– EI! – Lia me repreendeu.
– Foi mal. – eu disse e ri – Enfim, se tivesse que lutar eu lutaria. Cravava dentes e unhas mesmo que não sobrasse nenhum pedaço meu, porém eu não sou de ficar brigando por qualquer coisa.
– Mas também não é de fugir. Por isso que eu simpatizo com você. – Lia disse sorridente.
– Simpatiza é? Quem queria comer o fígado da Luna e mastigá-la entre os dentes como se ela fosse um pedacinho de carne inútil, mesmo? – Emy perguntou debochada.
– Ah, mas... Ela estava com o Embry e sendo amiga da Bella eu achei que a história toda se repetiria!
– Caramba. Escapei de uma boa por pouco... – eu fiz cara de medo para Lia – E sabe... As pessoas precisam "desassimilar" a imagem de Bella, porque isso não tem funcionado! Não mesmo!
Nós rimos.
– Continua a história, Luna. – disse Emy.
– Então... Aí ela me disse: "Você acha mesmo? Não deu certo para ele uma vez, e não dará de novo! Ele já sabe que garotas como você não podem curá-lo!". E ponto para ela.
– Como assim ponto para ela? – Lia perguntou confusa.
– Quando eu disse que sabia fazer doer, onde era mais doloroso para ela, eu falava do Black.
– Acho que a Luna está pensando na Bella. – Emy disse me olhando confiante.
– E não era para pensar nela? Ainda que o Jacob tenha tido outra namorada, o único tipo de "garota como eu" que posso assimilar a tudo o que Bruh disse, é a Bella!
– Bella não era como você. E nunca será. – Lia me disse firme com desprezo aparente.
– Sim, eu sei. Não somos parecidas mesmo. Mas, ela também é uma garota que não se transforma em lobo. – eu disse óbvia.
– É. Ela se transformou em algo muito pior. E isso te faz muito melhor do que ela. – Lia disse e entrou na casa de Billy, pois ele a chamava.
– Não entendi Emy. – eu disse.
– Você vai entender quando te contarem toda uma longa história.
– Tenho tempo. – eu disse sorrindo.
– Ainda não. – ela falou e Lia chegou com meu chá.
– Então, voltando ao raciocínio inicial – dizia Lia, muito alegre – O que aconteceu com você e o Jake?
– Saímos para andar de moto.
– E? - as duas perguntaram juntas.
– E... Que quando voltávamos ele surtou.
– Ah cala a boca! Você entendeu onde nós estamos querendo chegar! – disse Lia.
– Nada de beijos. Eu até tentei, mas ele fugiu.
– ELE O QUÊ? – Emy e Lia, gritaram.
– Ei! Falem baixo!
– Como assim? Não entendo! Ele disse que... – Lia falava e de repente parou.
          Ela olhou para frente e Emy e eu fizemos o mesmo. Os garotos começaram a surgir devagar, pela mata. Jacob estava com eles. Sério.
          Larguei minha caneca em um canto do chão ao lado do meu banquinho e fui até eles. As meninas vieram logo atrás.
– E aí? – perguntei.
– Tudo bem. – Seth disse sorridente.
– E? – perguntei.
          Os rapazes olharam para Jacob que me olhou sério. Andou devagar até mim.
– Você está bem? – Jacob perguntou em tom baixo.
– Estou. E você? – perguntei fria.
– Vou ficar. Machuquei você? – ele perguntou ainda sério.
– Não como você pensa. – eu disse e me virei para os outros garotos – E vocês? Estão todos bem?
– Só alguns arranhõezinhos. Tem certo lobo que gosta de se esconder no meio dos espinhos. – Sam falou abraçando Emy.
– Bem, sendo assim... Eu vou para casa.
– Eu te levo. – Jacob disse.
          Lia nos olhava muito atenta. Todos ali, na verdade, nos olhavam atentos. Fui em direção à varanda de Billy e pegando meu copo entrei. Jacob vinha logo atrás.
– Não precisa Jacob. – eu falei sem olhá-lo.
– E você vai a pé? – ele disse em tom arrogante.
– Vou até voando se eu quiser! – respondi no mesmo tom e dei as costas para ele.
          Jacob me puxou pelo braço e nos encaramos.
– Eu. Te. Levo! – disse enérgico.
          Soltei meu braço de suas mãos de um jeito rude e saí andando. Quando nós havíamos voltado à estaca zero? Por que tanta estupidez entre nós?
          Ao chegar lá fora, Lia entrou correndo na casa. Seth, Quil e Paul se despediram de mim, dizendo que iriam comer e dormir. Estavam todos exaustos. Provavelmente Black teria dado muita canseira neles. Embry ficou do lado de fora sentado, como se me esperasse.
– Ei. – eu disse me aproximando dele.
– Estava com muitas saudades de você. – ele respondeu me abraçando apertado – Por que mesmo não nos vemos há algum tempo?
– Eu não sei. Mas é normal quando um amigo começa a namorar. – eu disse rindo e o olhando cúmplice.
– É... Mas você também não apareceu mais na reserva, bonitinha!
– Estou meio enrolada com algumas coisas no trabalho...
– Lia, disse que você precisa conversar comigo.
– Disse? Sobre o quê?
– Ela não sabe, mas eu acho que faço ideia.
– E então?
– Scott Carter?
– Acertou. Anda lendo pensamentos?
– Não. – ele riu – Encontrei com ele hoje cedo e fiquei sabendo.
– Eu não sabia que vocês eram tão amigos assim.
– Confesso que já fomos mais próximos.
– Hum... Interessante. E o que ele disse para você?
– Tudo.
– Tudo?
– Tudo. – ele disse me olhando desafiador.
          Eu corei. Embry saberia daquele beijo?
– É... Pois é, ele se declarou. Assim posso dizer. E disse que você andou dando umas dicas.
– Não. Eu só o adverti da verdade.
– Você precisa tirar da sua cabeça essa ideia de que eu não acredito no amor.
– Não é isso que eu digo. Você sabe! Responde, Luna: acredita no amor a curto tempo? – ele me olhava desafiadoramente como se já tivesse ganhado.
          Assim que ele terminou de falar Jacob apareceu na porta da frente. Olhou-nos e foi até a casa de Sue.
– Eu não sei. – respondi ao Embry que havia percebido meu olhar para o Black.
          Lia apareceu logo atrás de Black e parecia contrariada. Ela olhou para direção que ele havia tomado e entrou novamente, nervosa.
          Embry e eu nos olhamos curiosos.
– Embry... Eu já volto. – eu disse.
          Ele escancarou um sorriso de confiança e eu fui atrás de Jacob.
          Entrei pela sala de Sue e não havia ninguém. Subi as escadas imaginando que Jacob tivesse no quarto do Seth. Caminhei pelo corredor devagar, o quarto de Seth era o primeiro. Bati e ninguém atendeu. Caminhei um pouco mais a frente e encontrei uma porta entreaberta. Abri. E morri. Pude ver meus pedaços caindo lentamente. Como se uma metralhadora me perfurasse por inteira. Mas não havia sangue, havia sombras. Faltou todo o ar em meus pulmões e lá estava eu sufocada.
         Bruh e Jacob. Jacob e Bruh. Minhas hipóteses confirmadas. A loba e o lobo. Eles se beijavam. Jacob não a segurava, mas a beijava. Ele não parecia entender, mas a beijava. E ela. Ela estava feliz. Ela estava certa.
           Nenhum deles me viu. Ao me virar de volta para o corredor, Lia estava chegando. Olhei para ela como se não a enxergasse. Vago, vazio. Eu saí silenciosamente. Deixando pedaços de mim pelo caminho. Passando surda, muda e cega por Lia na escada. Ela andou mais depressa pelo corredor e eu me tornei um furacão passando pela porta da sala.
          Entrei correndo na casa de Billy e peguei a chave da camionete de Jacob que eu havia deixado pendurada atrás da porta. Embry me encarava duvidoso e de pé, próximo ao tronco que antes estávamos sentados.
          Corri até o carro que Charlie havia rebocado.
– Embry! VEM! – gritei e ele veio, sem entender nada.
         Eu entrei no banco do motorista e bati a porta ao mesmo tempo em que pisava no acelerador dando partida. O carro deu um arranque e Embry se pendurou na porta entrando pela janela assustado.
– Luna! Deixa eu dirigir!
– CALA A BOCA EMBRY! ME DÁ UM TEMPO!
– Tudo bem. – ele disse me olhando assustado já sentado ao meu lado. Olhou para frente, respirou fundo e disse : – Só tente não nos matar!
          Eu não sentia o meu pé.
– Luna...
          Eu não sentia a velocidade.
– Luna...
          E eu não enxergava a estrada. Eu só enxergava a cena de antes.
– Luna! – Embry gritou.
– Ele e Bruh se beijaram! – eu respondi o olhando firme e voltei os olhos para a estrada.
          O carro corria tanto que ao passar pela casa de Charlie eu me lembrei de que uma multa viria logo. Porém nem sinal de viatura. Talvez os pneus não tivessem cantado tanto quanto deveriam. Cheguei em casa e estacionei de qualquer jeito na entrada. Saí do carro batendo a porta e joguei as chaves para Embry. Ele veio atrás de mim.
– Luna espera.
          Entrei tempestiva pela sala e fui até a cozinha beber água.
– Quer conversar? Acho que vai te fazer bem desabafar. – Embry disse calmo e parado na soleira da cozinha.
– Não. Não precisa. Tudo foi esclarecido. Quase tudo, na verdade, mas não quero saber de mais nada. Nada de respostas. Nada de perguntas.
– Luna, você está com raiva... Olha...
– Você queria saber se eu acredito no amor? – eu o interrompi gritando – Não Embry! Eu não acredito em nenhum sentimento que venha do Jacob, mas do Scott... Do Erick... Eu tenho duas opções que poderiam me fazer acreditar! Uma foi descartada!
– Você está nervosa Luna. Não fala besteira!
– O Scott te disse que nós nos beijamos? – eu continuei falando e andando de um lado para o outro descontroladamente.
– Não. Eu joguei verde com você.
– Pois é! Beijamos e eu nunca havia tido um beijo como aquele! – eu peguei um copo do uísque que havia na minha sala, até aquele momento, "de enfeite" – Scott te contou que ele fez um estrago em mim?
– Como assim? Do que você está falando? – Embry disse assustado. Talvez eu tenha me expressado mal.
– Ele é igual a mim! Foi só um beijo, mas foi intenso o suficiente! – virei o uísque quente e sem gelo – ELE SABIA DISSO! SABIA QUE DEPOIS DAQUELA NOITE TUDO MUDARIA!
– Luna se controle, por favor! Você está surtando! – Embry disse vindo me abraçar.
          Retribui o abraço e o empurrei em seguida.
– Vai Embry! Depois nos falamos! Obrigada! Agora leva essa merda de camionete daqui. Eu não quero NADA do Black!
– Eu vou. Mas eu vou voltar!

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