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Das pequenas reconciliações

Ele bateu à minha porta. Eu abri. Ficou parado me encarando por um tempo. Coçou a nuca, olhou para a porta do apartamento vizinho. Abriu a boca num gesto de balbuciar algo. Ele não tinha voz. Colocou as mãos nos bolsos da frente da calça. Eu continuei parada o encarando e pensando em fechar a porta, logo. Voltar aos meus afazeres noturnos de sentar e escrever versos. Em choque, inesperada visita aquela. Um fio de esperança de ouvir algo, qualquer coisa, apenas pra eu poder dizer “fica”. Então depois de um tempo ali, sem gestos, sem vozes, sem nexo, eu lancei meu olhar ao chão seguido de profundo suspiro. Quando o encarei de novo, decepcionada, o olhar dele apresentava um misto de súplica e dor. Fracasso. Ele sabia do fracasso. Então, eu fechei a porta. Mas algo me impediu. Ele segurava-a com o pé. Abri novamente. Ele repetiu o balbuciar sem som e me estendeu a mão esquerda como quem diz: “Vamos, me ajude a acabar com isso…”. Ignorei. E já furiosa, no repente que fiz de bater com aquele trinco, ele invadiu a entrada. E quando abri os olhos, saíamos de um apaixonado beijo no amanhecer da minha cama.

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