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Conversas de varanda


        Estava abrindo a portinhola de minha varanda com uma bandeja de chá, duas xícaras e algumas bolachas caseiras na mão. A tarde era fria e densa, não muito bonita. Oras, qual é o padrão de uma tarde bonita? Acho que seria justo denominar que todas as tardes são belas. Era uma tarde então, fria, densa e bela. Meus ombros franzinos encobriam-se por uma manta gaúcha antiga, xadrez e com cheiro de essência de jasmim. Eu costumo utilizar esses cheirinhos- de-armário, são excelentes para afastar o odor de roupa velha guardada.
Sentei-me na cadeira de varanda e pousei a bandeja na mesinha do conjunto. Servi-me de deliciosa água-quente com leve adocicado. Não esperava ninguém, mas esperava. Paradoxo não? Isso é o sexto sentido feminino. Eu sabia que me procurariam naquela tarde.

            Aproximando-se a passos cautelosos e molhados avistei em meio à neblina um enorme casaco de caxemira vindo em minha direção.

_ Boa tarde. - eu disse ao casaco que havia perdido o dom de caminhar, ainda sem pernas, parado a alguns poucos metros da varanda.
_ Boa tarde.

Um breve silêncio pousou ali, para assim que eu ameaçasse minhas ondas sonoras garganteadas, voltasse a planar para longe, como um pássaro.

_ Ainda não chove. Contudo, se permite-me senhor casaco de caxemira meio andante e meio falante, não vejo ao seu encalço nenhum guarda-chuva saltitante, e meu olfato não falha! Vêm chuva grossa por aí. Não seria melhor irmos direto ao ponto?

     O casaco estrambólico deu alguns passos mais. Pude vê-lo com clareza então. Tinha pernas sim, braços também e acolá uma mente que eu não julgava brilhante naquele momento.

_ Oras, você sempre muito "Alicemática" não é Coralina?

     O homem dentro da veste falou-me com sorriso tímido, olhar culpado porém climatizado em solturas. Solturas demais para uma tarde mal-humorada e inócua como aquela.

_ E tenho motivos para ser diferente meu caro Augusto?
_ Podemos conversar Cora?
_ E o que estamos fazendo? Crocitando? - Eu disse e comecei a rir, fazendo-o rir comigo. - Sente-se, o chá ainda está quentinho.
_ Espera alguém? - Ele disse olhando as duas xícaras, a minha e a outra vazia, postas à mesinha.
_ Não mais. Já chegou.
_ Esperava-me?
_ Não. Esperava alguém que eu não sabia quem era.

        Olhamo-nos. Eu muito tranquila, soprando meu chá. Ele duvidoso e digamos... Fascinado.

_ Tenho tido sonhos terríveis. - Ele falou ainda de pé.
_ Hummm... Sente-se e pegue umas bolachas. Mastigue-as devagar. Beba seu chá com cuidado para não queimar os lábios e só então conte-me os sonhos.

       Seguindo meu ritual ele pôs-se em seguida a falar:

_ Ainda naquela época. Na época do medo, os sonhos começaram.
_ Há tanto tempo assim?
_ Sim. Sabes os meus tormentos?
_ Como ninguém. Como nem mesmo você.
_ São sonhos frívolos, enigmáticos e altamente doentios.
_ Não precisa falar mais nada.
_ Não?
_ Conte-me! Como vai sua família?
_ Como?
_ Joana, e as crianças. Na verdade, nem são mais crianças não é? - Ele olhava-me pasme pela mudança de assunto, porém é seguindo por aqui que chegarei ali.
_ Sim. Daniel já me deu netos, mas não é nem de longe o tipo de pai que deveria. Ludmila... Há anos não conversamos. Joana casou-se novamente logo após nosso divórcio, não tenho notícias.
_ Hummm... Daniel ainda é o mesmo rapazote mulherengo não é? - Eu dizia e gargalhava, não de zombaria, mas sim de orgulho do meu dom de perceber as coisas. 
   Quando bati os olhos naquele molequinho de dez anos, já dando trabalho aos pais, eu adverti ao meu amigo Augusto "Ele vai dar trabalho, não vai parar em uma só mulher. Puxou o pai!". Infeliz e real afirmativa que me trouxe alguns conflitos a mais com a mãe e o pai do guri.
_ Sim. Ele não criou juízo mesmo em sua plenitude de 45 anos! E pior: recusa os conselhos deste velho, por justificar que eu tenha feito o mesmo. Petulante! Nunca deixei-o à mercê de sua mãe, ambos entregue à própria sorte ! Nunca abandonei a mãe dele.
_ Não. Mas abandonou os sentimentos dela e isso é quase a mesma coisa. - Eu mordisquei uma bolacha e bebi um gole do chá.
         O homem dos casacos pigarreou envergonhado.
_ E Ludmila, por quê não se falam?
_ Aos dezenove anos ela decidiu mesmo namorar aquele moleque!
_ O esqueitista cheio de furos?
_ Esse marginal mesmo!
_ Deixe-me perguntar-lhe Augusto... Alguma vez viu esse rapaz roubando? Matando? Drogando-se? - Silêncio  e então eu continuei - Viu-o na sarjeta? À margem da sociedade?  - Muito em contra-gosto o caro homem grisalho à minha frente respondeu-me um "Não" . - Então, esse rapaz não é marginal. - Falei convincente.
_ Não, mas não fez as coisas da forma certa.
_ Eram jovens Augusto! A caso não se recorda da sua adolescência estúpida?
_ Claro! E por isso mesmo, eu queria que fosse diferente para ela.
_ Hormônios à flor-da-pele meu caro. Ludmila sempre foi tão ajuizada, no entanto a sua rebeldia fez com que ela, não medisse consequências. Tudo se repetiu. Mas prossiga.
_ Diante os meus protestos ela juntou suas coisas e foi morar com o tal rapaz. Nem tudo eram flores, e ela percebeu o quanto a vida pode ser cruel. Ela abandonou o garoto. - Augusto riu desgostoso - De uma coisa ela estava certa, o moleque era perdidamente apaixonado por ela, amava-a com ímpeto e fez o impossível para segurá-la. Portanto eu estava certo, ela não amava-o, queria só uma forma de afrontar-me e de justificar sua infelicidade, abandonou-o com a filha nas primeiras turbulências do casal. Sumiu no mundo. Pelo menos sumiu para mim, Joana tinha contato até um pouco depois de nosso divórcio, não sei mais.
_ Pobre menina, deve culpá-lo por todos os erros dela. De fato você foi equivocado, mas quem deu passos tortos foi ela. Por quê não a procura?
_ Não quero morrer com um fantasma de uma reconciliação que só tenha piorado as coisas.
_ Mas você não sabe...
_ Prefiro não saber, as coisas podem piorar.
_ Esse é seu problema, e seu pior defeito.
        Sorrimos cúmplices. Deixei-o na varanda, a chuva fina e brincalhona soava como uma ópera infantil. Existem óperas infantis? Posso compor uma, mas não me dariam créditos. Que se danem os créditos! Farei uma ópera infantil! Pelo menos meus netos vão gostar. 
        Ao voltar com novo chá, Augusto estremecia um pouco, então entreguei-o uma outra manta que eu tinha. Agradecendo-me continuamos o papo nostálgico. 
_ E sua família Coralina?
_ Ah, estão todos ótimos! As crianças... - eu ria divertida - Ainda tenho essa mania! Já estão tão adultos e eu aqui chamando-os de crianças.  Bem, Luísa é uma grande mulher e uma mãe exemplar.
_ Sem dúvida como você. 
_ Ah não. Fui uma boa mãe, mas a tendência é que sempre melhore não é?  - Rimos.
_ Então estou fora das tendências como pai.
_ Esqueça isso, alguma hora Daniel passará pela mesma situação que você! Vai recorrer a alguém em uma simples varanda para contar seus sonhos terríveis! 
_ Eu espero que sim. Uma conversa de varanda como essa faz muito bem para almas tribuladas. E o Lucas? - perguntou-me com um pouco de receio.
_ Aquele vive para os filhos. É um bom homem, bom marido e ótimo pai.
         Augusto era pura mágoa nos olhos. A cada palavra minha descrevendo meus filhos, minha família, um brilho maravilhado cintilava nos seus orbe tão azuis. Embebia sua bolacha em seu chá, refletindo a medrosa criança que era em nossa infância. Costumava fazer isso, quando por peraltices levava bronca do pai. A mãe costumava dá-lo leite com biscoitos após as broncas, a fim de aliviar o sofrimento dele. Por isso não o culpo por suas idiotices e defeitos, fora mimado a vida toda. Sempre tivera de tudo. 
        Agradeço aos meu pais em memória, por me colocarem de joelho no milho a rezar pedindo ao "Papai do céu" que fosse uma boa menina. Os castigos funcionaram e as preces foram atendidas.
       Quanto a Augusto, pobre homem. O que havia ali de reflexo do jovem que tudo tinha? Nada. Se não as cicatrizes dos erros, os calos nos pés causados pelas corridas efêmeras e a carcaça de uma mente que matutou muito e realizou pouco.

_ Sabe... Virão todos aqui neste fim de semana, com suas famílias. Por quê não vêm? 
_ Não devo.
_ Por...?
_ Pode não ser boa ideia. 
_ Sinceramente Augusto! Esses "pode não ser" que bradou durante toda sua vida não lhe trouxeram nada daquilo que tu imaginavas! Pois tanto pode, quanto será boa ideia!
_ Como sabe?
_ Augusto. Está mais do quê na hora. E eles comentaram comigo que talvez isso devesse ocorrer.
_ E o - novamente engolindo a seco -  Lucas? 
_ Ele entendeu. Sabe que Luísa e eu tivemos certo trabalho, mas ele perdoou você. 
_ Eu não sei.
_ Bom. Você tem duas opções: fugir como sempre fez e faz melhor do que qualquer um, ou colocar um fim nesses seus pesadelos e desculpar-se com seus filhos e conhecer seus netos. 
_ Coralina, você sempre tão maravilhosa comigo. 
_ Não tenho culpa de você ser um covarde. - Eu gargalhava. - E nem você. 
_ Não tente aliviar. Não fui correto, não honrei minhas calças!
_ Não mesmo. Mas estará honrando-as  perante seus filhos e netos vindo conhecê-los. Eles não esperam mais de você. 

          Continuamos conversando bobagens e relembrando a doce infância daquela rua tímida onde morávamos. Augusto abandonou-me grávida depois de eu ter abdicado de minha família para viver com ele. Augusto teve medo. Sempre teve medo. Um medroso! Lagartixas são mais corajosas! Ai ai, quantas e quantas vezes ele correu à mim pedindo para se esconder atrás de um chá e algumas bolachas. Eram muitas as broncas da vida. Quantas  e quantas conversas de varanda nós tivemos. Em algumas, as minhas verdades machucavam-o e ele estupidamente ensurdecia-se ignorando os fatos que eu lhe apresentava. No entanto, eu sempre falei as palavras certas e eis que agora ele estava ali: velho, solitário, sem legado qualquer que tenha dado bons frutos por onde passou.
                Apesar de tudo isso, eu devia agradecimentos eternos a ele. Era um grande amigo. E era o homem que me deu os filhos tão maravilhosos que eu amo incondicionalmente. Não imagino e nunca imaginei-me casada, com outros filhos, ou ainda, com os mesmos filhos vindos de um outro relacionamento se não a paixão adolescente e avassaladora entre Augusto e eu. Não casei-me e acreditem, isso não dói! Dizem que se não casares viverás sempre solitário. Ora bolas! Favas contadas : se não casares e fores solitário, a culpa é sua. Ninguém é medíocre por vontade da vida, mas sim, por ação das próprias mãos que buscam essa realidade.
                  A solidão nunca me foi companheira. Prova disto é o próprio Augusto! Ainda que meus vizinhos não falassem-me, meus amigos afastassem-se, meus filhos não visitassem-me e meus netos desconhecessem-me, Augusto sempre viria ao meu encontro por dois motivos : o primeiro para desabafar e buscar as respostas de suas penas e o segundo, porque amava-me. 
                 Meus queridos, ainda não conheci quem pudesse enganar-me, agora então, com a velhice nos pés de galinha de meu rosto é que não me enganariam mesmo! 
                    Augusto, o medroso, sempre amou-me e eu sempre o amei. 





Por Rayanne Nayara.

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