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O Sapato.




O Sapato de  bico fino estava lustrado e separado. 
Rosa claro, com bolinhas  azul turquesa, meia pata,o salto era alto e branco.
Ela amava-o. Cada vez que o calçava e saía o mundo era dela. A ela pertenciam os olhares mais curiosos e diversos. Cada um dos olhares deles falavam. E ela sorria, divertida como se pudesse ler os pensamentos das pessoas. Sentia-se uma super mulher. 


A noite passava e chegava a hora de tirá-lo. Afinal, a festa durara apenas uma noite. Na manhã seguinte teria aula e precisaria dos tênis. Como ela gostaria de continuar com aqueles sapatos.
Mas eles eram especiais demais, para desperdiçá-los na escola. Era de certo até perigoso. Tênis. 
Conflitante é a palavra que definia a sua relação com os tênis, AllStar Converse brancos, com cadarços beges. Sempre que enfiava os pés naquelas palmilhas, todo o corpo tornava-se invisível. E assim andava pelos corredores do colégio: invisível.
Com eles nada mais existia. Eram apenas tênis mágicos saltitando pelas  salas, refeitório, biblioteca. Alguns seres mais dotados de inteligência, podiam ouvir os tênis falando. E conversavam com eles. Não bastava disso: Nada. 
Não era super em nada, não atraía olhares, não escutava pensamentos, não se divertia com eles. Até a cor era neutra e em nada ajudava. 
Ao chegar os fins de semana começava tudo de novo, pegava os sapatos mágicos, que não eram só aquele. Havia outros, o rosa de bolinhas azuis era seu favorito. 
Naquele fim de semana, ela pegara os vermelhos de bico arredondado com laços verdes. Mas o impacto de seus super-poderes era menor. Até que pensou:
"_Se todos aqui, nessa festa, soubessem que eu sou o tênis branco com cadarço bege da sala 401, o tênis que fala. Ah... como seria bom. Seria ótimo se me vissem durante a semana, como me veem nas festas!" 
Daí teve uma ideia. No dia seguinte foi à aula com um pé de tênis e outro com o sapato rosa claro de bolinhas turquesa, o mais poderoso. Nem mesmo recebeu  advertência por isso.
Para o diretor ela mostrava o perfil da esquerda de seu corpo, e ele enxergara só o tênis.
Para o resto da  escola ela mostrava o lado do sapato.  E assim seguiu o dia, ela brilhava e era notada apenas da direita, à sua esquerda saltitavam os tênis.

Por, Rayanne Nayara.

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