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Chuva, Poças e Cinza.








Quando saímos da sala de aula, esbarramos pelos corredores e nos repelíamos.
Na porta do refeitório passamos juntos. Nos encaramos e ainda nos repelíamos.
Todos olhavam. Curiosos queriam perguntar. 
Sentei-me a mesa dos amigos, ainda o olhava. E você balançava seu suco.
Fingia que eu não existia, certo eu faria o mesmo.

Mas era notável que as nossas vidas, só faziam sentido quando nos odiávamos.
Mas era notável que as nossas vidas só seriam completas com dias assim, de chuva,
poças e cinza.

Andando no estacionamento entrei no carro e te fechei. 
Olhou-me pelo retrovisor abaixou a cabeça e sorriu sarcástico.
Deixou passar a provocação.
Fomos para nossas casas.

E então tudo ficou sombrio de mais, estávamos longe.
Mas era notável que as nossas vidas, só faziam sentido quando nos odiávamos.
Mas era notável que as nossas vidas só seriam completas com dias assim, de chuva,
poças e cinza.

Contava os minutos passando para chegar o outro dia.
Na máquina de refris brigarmos de novo.
E na aula de biologia dividirmos o microscópio, e na aula de  química causarmos juntos alguma explosão.
Chamando a atenção de todos para o nosso amor repulsivo, o nosso amor inaudível, invisível, cabalístico.

Porque para os outros o que era profunda raiva, para nós era desejo reprimido e ficou cada vez mais claro que precisávamos dauqueles choques espontâneos. 
Porque nos perguntavam, sobre as  desavenças.

Mas era notável que as nossas vidas, só faziam sentido quando nos odiávamos
Mas era notável que as nossas vidas só seriam completas com dias assim, de chuva,
poças e cinza.

Passei por você no pátio da faculdade. 
Você entendeu o recado e assim me seguiu.
Fomos até o bosque mais afastado.
Sentamos no chão lado a lado e vivemos a atmosfera envolta no silêncio.
Ninguém falava, mas assim era ótimo.
Nada de perguntas e nem de respostas.

Olhar um nos olhos do outro.
Encostamos as pontas dos narizes, gelados.
Fazia cócegas.
Eu poderia vomitar borboletas e seu coração poderia fazer um solo de bateria.

Deitei no seu peito e escutei a sua vida.
Então nos beijamos, um beijo reprimido. E longo.
Molhado e doce. Sincero e voraz.

Quando voltamos tudo era igual.
Nos armários discutimos. As pessoas tentavam separar a briga,por dentro ríamos.
Tolos perguntando o que havia acontecido, por que gritávamos. 
Mas era notável que as nossas vidas, só faziam sentido quando nos odiávamos
Mas era notável que as nossas vidas só seriam completas com dias assim, de chuva, poças e cinza.


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