10 abril, 2013

A Garota da Jaqueta


Pode ser que ela fosse apenas uma garota comum. E era. Mas tinha algo mais. Algo que só eu percebia. Resultado de muito tempo observando-a, até digo que foram anos em contemplá-la. Não era por paixão. Não era por amor. Não era por inveja. Não era somente por admiração. 


Eu observava-a sempre, por uma força interna inexplicável. Uma conexão de almas e mentes. Como se fôssemos almas gêmeas. Então pode-se dizer que era por muitas coisas, mas somente bons sentimentos.

Nós somos uma dualidade, só que ela não sabe. Ou saiba, mas assim como eu resolveu manter esse segredo. 


De todas as vezes que eu olhava-a, a sensação era ótima, contudo em certo tempo passou a ser desesperador apenas olhar e não chegar perto. Passou. Depois tornou-se sufocante notar que ela notava-me e mantinha-se distante, assim como eu, seguindo sua vida. Mais algum tempo e a monotonia apoderou-se da situação. 

Tornou-se um paradigma entre nós: cruzar olhares e sorrir. Com ou sem vontade. Ritual, cotidiano, e tudo como se ambos assistissem a um programa de televisão. Éramos duas tevês. 


Felizmente, alguma hora se fosse nossa união um objetivo do destino, as coisas mudariam e mudaram. 



Eu estava sentado ao ponto de ônibus com meus camaradas. Eu? Um garoto bem conhecido, acho que popular é demais. Inteligente, divertido e até extrovertido. Timidez? Não, obrigada. Só me sirvo disso diante dela. 



Ela veio andando em direção ao ponto e ali eu já não escutava nada. Os caras falavam, mas eu estava surdo. Acho que eles riram de mim, inclusive. Eu também não estava com cara de panaca, como os filmes românticos mostram em situações como essas. Eu estava normal. Olhando-a. Sorrindo de canto. Encarando-a. Ela aproximava-se decidida. Vestindo sua jaqueta de uma forma que a deixava deslumbrante. Parecia uma atriz. Cheia de trejeitos, ginga malandreada e confiança. Sentou-se ao meu lado e fez algo que nós nunca havíamos feito durante aqueles tempos, anos. Além do nosso ritual: cruzar os olhares e sorrir, ela começou a conversar. Não com um "oi, muito prazer":


- E aí, será que o ônibus demora? - ela falou tranquila.

- Não sei. Deve chegar logo.
- Não é frustrante estar atrasado?
- Depende do compromisso. 


E rimos. Conversávamos como velhos conhecidos e ninguém entendia nada.



- Vai para onde hoje? - eu perguntei.

- Biblioteca. E você?
- Futebol. Com os caras. - eu disse e apontei os bobões em pé ao meu lado.
- Ah... Qualquer dia eu assisto seu treino.
- Quer sair com a gente hoje? Depois do treino vamos a um barzinho de MPB.
- Pode ser. Passa lá e me pega?
- Às sete. Tudo bem?
- Está ótimo. 


Ela disse e me beijou. O ônibus chegara e lá foi ela para a sua Biblioteca amada.  Com aquela jaqueta. A jaqueta que deu talvez, super-poderes para que se aproximasse de mim daquele jeito. 

Porém, na verdade, nós nos conhecíamos tanto pelos olhares, que ouvir a voz um do outro pela primeira vez, uma primeira conversa, um primeiro contato como aquele... Era indiferente. Nós já nos conhecíamos, costumes por costumes, alma à alma.