19 junho, 2012

Droga Esplendíssima


Estive lendo e li um livro.
Assim como tantos outros que leio, esse também aguçou-me os sentimentos. Sentimentos que tomaram-me até engrossarem-se pela garganta.
A sensação sentida palavra após palavra, a expectativa do final... Ah, é a sensação mais deliciosa que já experimentei. Se ousadia for, ainda sim, coloco-a por dizer : é a melhor das drogas.
Lendo-me assim, até poderiam supor que eu seja perita nas drogas oferecidas pelo mundo. E de certa forma o sou. Das drogas experimentadas: a droga das músicas, dos sabores, dos romances, dos abraços e relações. A droga da beleza, cujo esta eu me pego a contemplar-me sempre. Nenhuma leva-me ao êxtase que me entrego às absorções dos livros .
Nenhuma das drogas de minha vida, conseguem passar-me reações tão deleitosas, quanto a droga oferecida pelas leituras.
Como pode, alguém prazerar-se com golpes tão profundos e dolorosos e ainda sorrir-se em vivê-los, como os golpes dados pelas palavras?
Indago-me a compreender que mesmo devorando maliciosamente do meu vício,  por que sinto-me tão néscia por vezes ? Por que sinto-me como uma tola por amar as penas antigas, as tintas das páginas, as sintaxes ? 
Talvez porque apresenta-se em mim um resquício de medo. Um medo de não ser compreendida, o medo de quando for a minha vez, acabe por pegar poeira e traças nas estantes e prateleiras.
Ainda assim, descrente do amor literário das gerações seguintes, eu sei que sempre haverá alguém como eu.
Que assim como eu, que converso com Machado, Alencar, Castro, Alighieri, Clarice ( Óh Clarice, amiga tão íntima de minhas sofreguidões), Fernando Pessoa, também conversará comigo, presente em vida ou não. Ainda que veja a minha língua rebuscada ou coloquial demais, ainda não o sei, pois cá não tenho o dom da vidência, estará lá alguém a conversar comigo. A ouvir o que eu digo, sendo eu a pessoa ou tratando-se de outro eu-lírico.
Escorre-me na face algumas lágrimas, pois o ardor dos meus sentimentos são de forma tão calorosos e sútis, que encontro-me a percorrer o relógio, buscando o passado. 
Céus ... como eu ficaria feliz! O que eu não daria para volver-me há séculos atrás e viver. 
Viver toda a esplendidez de outros tempos. 
Mesmo que meus amigos afastem-se de mim, por minhas palavras ou falta delas. 
Mesmo que minha família decepcione-se comigo por minhas escolhas. 
Mesmo que todos virem suas caras e caretas para minha lânguida imagem. 
Ou ainda que eu me feche a esperar a dizimação já profetizada, eu não estarei sozinha. 
O que lhes direi é verídico, podem até ofuscar minhas linhas, mas a presença daqueles que me confortam e me ensinam através de sua arte mestra, estarão comigo até o fim de meus dias. 
Eu passo e passarei a minha vida lendo. E orgulho em dizer aos boçais que discordarem : A melhor droga do mundo é a leitura, pois ela é uma conversa ampla. Embora achem que não obterão respostas, é porque não falavam sobre o mesmo assunto.
Toda escrita fala, pergunta e responde. Toda leitura é uma droga esplendíssima.


Por,