16 maio, 2012

A lanchonete .



Todo dia as onze e meia encontravam-se naquela lanchonete. Cumprimentavam-se abraçando-se. Sentavam-se às mesinhas abaixo dos toldos, independente de fazer sol ou estar chovendo. Ela pedia sua saladinha. Era vegetariana e seguia uma alimentação balanceada, mas nem por isso menos deliciosa. Suco de abacaxi com hortelã sempre. Ele pedia intercaladamente pelos dias, carnes magras com batatas ou chuchus com camarão. Não bebia nada, somente após as refeições. E ela acompanhava-o nesse segundo drinque. Em um dia, algum tipo de chá e no outro, café. Conversavam aleatoriamente. As bocas mexiam e remexiam balbuciando coisas nem sempre em sintonia, mas os olhos... Ah os olhos! Ambos debatiam diálogos inteiros, mistos de sentimentos diversos e únicos. Pareciam apenas duas pessoas em horário de almoço cumprindo ali com as refeições diárias da semana. Pareciam e eram. 
Houve o dia que ela atrasou-se. Ele não se sentara nem pedira nada até avistá-la. Chegou calada e sombria em sua felicidade. Não perguntou-a como sentia-se, apenas indagou um simples : "Vamos pedir?" e teve como resposta a imagem dela a sentar-se à mesa. 
Seu rosto trazia um roxo circundo aos olhos azuis e de costume dissimulados . Um sorriso frouxo dava alguns ares de graça. E o nó na garganta era perceptível até a olhos cegos. 
Ele agia naturalmente, gesticulando e falando muito. 
Semanas passaram-se, meses . Novamente o episódio repetiu-se. Tornou-se praxe a melancolia abater os encontros e a alma feminina, mas dessa vez a mulher cansara-se daqueles costumes. Antes de levantar-se e esbofetear o homem, lembrara-se :

"Era horário de almoço e assim o faziam como todos os dias. Ele era perfeito a ela. Ela o amava, e era correspondida. Diferentemente das outras vezes, pediu um doce para ela. Mas, nossa! Ela não comia doces e ele menos. Porque isso hoje? 
Entregou-a o veneno açucarado mandando-a remexê-lo com a mão. Coisa nojenta. Melou os dedos mas saiu da lanchonete amada com a aliança e o inesperado pedido de casamento. Tempos depois casaram-se e eram felizes. Até o trágico acidente com a moto. Ele se foi."

Sim, continha inundações pela face e vazava desesperadamente. Como poderia deixar aquela insanidade e falta de amor próprio continuar? Esse homem à sua frente, que espancava-a sadicamente quase todos os dias, e que ela propusera encontrar ali, naquela lanchonete, com aqueles rituais diários. Era uma infâmia ao amado falecido. Ela tentara repetir a felicidade de antes, no mesmo lugar e do mesmo jeito. Porém as pessoas são diferentes e nem tudo o que parece é. E a felicidade, essa magia contagiante, não aparece no mesmo lugar mais de uma vez,  pelo menos não com pessoas distintas e agora ela sabia disso.


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