01 fevereiro, 2012

É só olhar no seu olhar, no seu olhar mergulhar.



(Rayanne Nayara)



“Eu não percebia você.”

“Eu só aprendi a admirar-te.”


Ela.


Lá estava ele, encostado no seu carro e sempre rodeado das mais belas meninas e seus amigos. Eu nunca me canso de olhá-lo. Mas eu sei que é um sonho impossível. As possibilidades de encontro entre universos paralelos esteja talvez há milhões de anos luz, quando os planetas se alinharem. O fato é que se isso acontecesse, eu daria um jeito de estragar tudo. Me chamam de bonita, até que não sou tão mal assim. Porém muito pouco para ele. E nada de justificativas ou chances tolas, é irrefutável.

Eu devo estar como um cão abandonado, com meus olhos tristes o encarando de novo. E o ônibus escolar não chega nunca, parece uma tortura planejada. Ele assim a míseros metros e ao mesmo tempo a épocas de distância. Eu deveria ser sua garota favorita, mas me conformei. Aceito apenas que ele seja o meu garoto favorito.

Ele me olhou. E desviei o meu olhar profundo e impenetrável, como sempre faço.

O ônibus sempre chega na hora certa. Mas sem últimas espiadinhas, ele deve estar olhando.




Ele.



Eu não percebi ela.

Me fitava sorrindo de canto, mas sempre virava o olhar se eu correspondesse.

Mesmo sabendo que ela existia, sempre olhei-a vazio. Sem percebê-la. Todos os dias no ponto de ônibus, lá estava ela. Eu distante, sem me importar. Até o outro dia.

No refeitório rodeado de pessoas desimportantes, percebi então seu olhar tão enigmático e frouxo. E fixei os meus olhos na sua imagem. Ela sentava-se na mesa frontal e sozinha. Até chegar aquele que eu desconhecia, mas que tinha o poder de fazê-la sorrir tranquila. Zumbidos na forma de meu nome, mas eu os ignorava.



Ela.



Eu estava desacompanhada no refeitório, na mesa da frente e um pouco na lateral ele sentava saboreando suas batatas. Com vários sorrisos derretidos e maliciosos. Eu conseguia controlar minha apreciação quando eu queria, e eu queria não olhá-lo naquele dia. Meu amigo chegou e foi um álibi perfeito para eu sorrir e me distrair.



_ Enfim o seu sorriso!

_ Você consegue arrancá-lo. Sua presença faz bem a mim Lui.

_ Eu gostaria de arrancar informações dos seus olhos Cissa. Mas sua alma é extinta do seu corpo. Ela não se pronuncia se você não pronunciá-la.

_ Isso é ótimo.

_ Alguém já te convidou para o baile?

_ Não.

_ Quer ir comigo?

_ Sim. Pode ser divertido.

_ Certo, eu tenho que ir.

_ Até mais.



Eu fingi que não o vi, mas ele passou por nós. Beijei meu amigo Lui que estava de saída.



Ele



Bastou o menino chegar e ela abrir um sorriso solto. Apesar dos aparelhos nos dentes, ela era linda. O sol refletia o sorriso dela nos seus próprios raios. Conversavam animados e aleatórios a tudo em volta. Eles seriam namorados? Instintivamente minhas pernas desobedeceram os comandos do meu corpo e levantei-me em direção a eles.

Disfarcei e fingi que realmente precisaria passar pela mesa deles como se ela estivesse vaga. Não os olhei, mas agucei a audição que funcionou muito bem. Eles iriam ao baile juntos.

Eu queria fazer algo contra, mas isso seria contra a lógica. Eu não teria motivo algum para isso e nem sabia porque tanta agitação no meu estômago. Então ele saiu. Ela ficou sozinha ali de novo, despedidas informais e sem carinhos demasiados. Não eram namorados. O sinal tocou e o lugar se esvaziava. Eu saí antes dela.



Ela .



Eu não o vi depois que Lui foi embora, mas também não procurei. O sinal batera e segui ao ponto de ônibus. De certo o veria por lá. Engano meu. Começou a chover e eu não tinha guarda-chuva ou casaco. Era um clima inesperado. O ônibus se atrasou e eu esperava-o como quem espera alguma coisa que não sabe o que é. Fiquei parada na chuva debaixo de uma árvore. Um carro conhecido seguia em minha direção, mas eu ainda procurava o ônibus. O carro parou e com o vidro abaixado avistei o rosto dele.



_ Posso te oferecer uma carona?

Exitei por um instante e acabei agindo por impulso.

_ Obrigada.

Entrei no carro dele.

_ Eu vou molhar seu carro. Talvez fosse melhor esperar o ônibus.

_ Tudo bem, toma meu casaco. Pode vestir, você está muito molhada. Como é seu nome?

_ Cecília. Porque não foi embora?

_ Eu fui, mas tive que voltar.

_ Entendo.

Eu não conseguia falar nada com ele, e ele não falava também. Eu perdi uma grande oportunidade de fazê-lo me notar. A carona com certeza tinha sido algo gentil. Ele era um gentleman. Seguimos em silêncio, apenas com o fraco som do rádio tocando “My Girl” . Ele arriscava me olhar, mas eu desviava corada. Me portei como uma menina idiota com medo dele.

Cheguei à minha casa. Agradeci novamente e sai do carro. Ele ficou estacionado até eu entrar em casa. Na porta dei um último aceno acompanhado de um sorriso acanhado.





Ele.


Decidi ficar esperando ela sair, dessa vez de longe. Apenas observando-a. A escola estava se esvaziando enquanto ela esperava o ônibus na chuva. Era engraçada. Olhava para a rua, abaixava a cabeça balançando-a tentando espantar a água dos cabelos. Fazia biquinho e olhava para as folhas da árvore acima de sua cabeça. Impaciente dançava sem música, no ritmo em que a chuva caía, como se desviasse dos pingos que a molhavam e terminava com um longo olhar para a rua, esperando algo com cara de quem não sabe o que é.

Permaneci inerte na esquina vendo-a, sem saber se deveria ou não me aproximar e oferecer uma carona. Permaneci ali fomentando a ideia de que eu deveria mostrá-la que eu não era o que a maioria pensava. Ela devia pensar como todos, afinal era a única menina linda do colégio que não se ligava a mim, talvez me achasse um otário. Eu tinha que fazê-la mudar de ideia.

Dirigi até ela e ofereci levá-la para casa. Ela aceitou e eu fracassei no meu objetivo. Não consegui dizer nenhuma palavra a ela, eu parecia tranquilo mas estava extremamente nervoso. Eu olhava-a e ela evitava corresponder, ela realmente deveria me achar ridículo. Consegui entregá-la salva à sua casa. E ali continuei até ela entrar e percebi que eu poderia estar errado, ela sorriu e acenou antes de entrar. Ela não me achava tão ridículo afinal.



Ela.



No dia seguinte andávamos Lui e eu no pátio da escola desatentos ao mundo, quando olhei para frente.

_ Lui, olha ali. É a Melissa sozinha.

Ele ficou paralisado. Ele gostava dela tanto quanto eu gostava do Bernardo.

_ Você não a convidou?

_ Não.

_ Então o que está esperando?

_ Eu convidei você. Vou com você. Não quer ir comigo?

_ Não é isso, mas eu me sentiria péssima de te prender a esse compromisso sem você ter tentado antes. Vai lá, ela vai aceitar.

_ E você?

_ Eu vou me divertir do mesmo jeito, talvez até mais se você estiver feliz.



Ele foi falar com a menina e eu saí na direção contrária. No caminho meu livro caiu e Bernardo pegou-o para mim. Sorrimos, mas logo avistei atrás dele, suas inseparáveis fãs e dei-o as costas. Pude ver por cima de meu ombro que elas o arrastaram para outro lugar.

Lui veio falar comigo com sorriso de orelha a orelha.

_ Ela aceitou. E você?

_ Eu vou ao baile.

_ Com mais alguém?

_ Se ninguém mais me convidar, irei só.

_ Se quiser eu...

_ Você vai com a Mel e vai aproveitar a noite.





Ele.



Eu finalmente tinha algo útil para dizer a ela, quando ela sorriu e se afastou e pelas minhas costas senti várias mãos e braços se prendendo aos meus.

Meninas desinteressantes, como sempre. Eu não as tratava mal, eu nunca trato nenhuma garota mal, mas eu nunca me interessei por nenhuma delas embora dissessem o contrário. Eu tinha poucas amigas. Nenhuma do colégio, elas nunca aceitavam apenas a amizade.

Cecília era tão diferente de tudo aquilo. Enquanto eu era arrastado para outro lugar, eu olhava para atrás, tentando não perdê-la de vista, mas ela ficou ali parada e não olhou para trás, então o companheiro de baile dela voltou para perto dela.

As minhas sequestradoras estavam me guiando até a chefe da gangue delas.

Fui convidado por Luana para ir ao baile, embora eu devesse convidar alguma garota eu sabia que elas tentariam ser rápidas. Delicadamente neguei o pedido. Ainda tinha esperanças no meu coração.



Ela .



Na noite do baile eu estava no meu quarto e acabara de sair do banho. Meu vestido sobre a cama, e os sapatos ao lado. Eu olhava-os.

Havia dito a Lui que iria, mas não teria motivos. Eu não tinha amigos para passar a noite conversando. Eu não ficaria lá olhando as pessoas. Principalmente olhando qual delas conseguiu ir com ele. Decidi que não iria.



Ele.



Na noite do baile eu me arrumei e fui sozinho. Queria vê-la chegando com ele. Ele chegou com outra menina. Esperei um pouco mais e nada dela aparecer. Fui dirigindo até a casa dela e bati na porta. O pai dela atendeu. Perguntei se ela estava e ele disse que sim.



Ela.



Enquanto eu estava sentada ao lado do meu traje, minha mãe abriu a porta do quarto um pouco afobada pegou meu braço e me puxou para a janela do meu quarto. Então lá estava ele .

De smoking preto, cabelos levemente bagunçados em um penteado elegante. Conversava com meu pai e apertava a mão dele. Então ele olhou para mim.



Ele.



O pai dela perguntou-me o que eu queria.

_ Se o senhor permitir-me, gostaria de acompanhar sua filha ao baile do colegial. Eu trago-a no horário que o senhor mandar.

_ Bem, eu achei que ela não fosse.

_ Na verdade eu achei que ela havia sido convidada por outra pessoa. Como ela não chegava no baile, felicitei-me em vir e descobrir se minhas esperanças tinham fundamento.

_ Tudo bem, entre.

Eu havia conseguido passar confiança a ele. Estava feliz, antes de entrar olhei para a janela que apresentava luminárias acesas. Ela estava lá, com os mesmos cabelos molhados que entraram no meu carro, com o mesmo sorriso metálico, cintilante, meigo e sedutor, e com os olhos impenetráveis. Sorri e acompanhei o senhor à porta.



Ela.



Me arrumei feliz, minha mãe ajudou-me. Logo desci.



Ele.



Fiquei sentado na sala em frente ao pai dela, um pouco nervoso, mas não deixei de sorrir. Ficou uma situação até boba. Então ela desceu as escadas. Linda e perfeita. Com o melhor sorriso que eu já havia visto. Sorria no olhar. Vestida com um vestido salmão. Sapatos vermelhos. Cabelos soltos, com uma presilha brilhante de lado. Seus cabelos estavam naturais, um pouco mais cacheados, mas ela era linda de todas as formas. Fui ao pé da escada, dei-lhe meu braço como um cavalheiro do século XVIII . Nós não olhávamos mais nada ao nosso redor, apenas sorríamos um para o outro. Despedimo-nos dos presentes e fomos ao baile.

Ao chegarmos, todos olhavam, mas logo se recompuseram.

Eu sabia que ela era tudo que eu esperei durante toda a minha existência, e já não me imaginava sem os tremores de perna, as turbulências no estômago, o sorriso brilhante dela, ou o cheiro que ela deixa ao passar na brisa.



Ela.



Entrei no salão e sorri para Lui. Tão feliz quanto eu. Não percebi mais nada e ninguém. Dançávamos gingados, e perplexos um ao outro.

Agora posso dizer que passaram-se aqueles milhões de anos e os planetas de alinharam. E por mais que eu tenha tentado estragar tudo como eu sabia que faria, o universo conspirou ao meu favor. Ele não imaginava que eu o conhecia exatamente como ele era. Eu não sabia que ele um dia sentiu tudo o que eu sentia. E jamais imaginei que meu sorriso seria o que mais o agradaria.

Eu ainda insisto em pensar que eu sou muito pouco para ele. Mas me conformei com o fato de que às vezes nosso espelho está muito embaçado para vermos o que realmente somos. Que só quando nos olhamos por outros reflexos que percebemos o quanto somos tudo o que não esperávamos ser. Seja isso bom ou ruim.





FIM.